EntreContos

Detox Literário.

O Sorriso do Elefante (Passarinha)

Isabela brincava animada no jardim de sua casa. Corria pelas lajotas desgastadas entre os arbustos que mais pareciam trilhas perigosas de uma selva brutal e pulava entre as hortas de vegetais carnívoros, mas no fim sempre chegava ao destino. Equilibrava-se no estreito e pequeno muro que separava a floresta da escultural fonte de pedra para, então, balançar e molhar os pés sentada antes de mergulhar sua mente. Não era a primeira vez que percorria os jardins somente para chegar àquela fonte. Os empregados da casa sabiam onde a pequenina estaria quando, frente aos seus sumiços, ela voltava molhada dos pés à cabeça.

“Não vou avisar para sair daqui, Isabela”, ouvia de Cecílio.

A garota encontrava-se à deriva, em um mar causticante e agitado. Estava com Cecílio, seu elefante sorridente de pelúcia, e conseguia forças para nadar os pés entre o líquido gelado auxiliada das vozes alegres das orquídeas recolhidas na floresta. Elas até que serviam como boas amigas, gritando em coro incentivos à cansada pequenina. Eles buscavam a famosa ilha de esguichos d´água há metros de distância, numa tentativa sutil de se banharem. Porém, naquele dia em especial, estava toda arrumada em seu vestido azul turquesa. Iria viajar com seus pais para os típicos eventos da alta classe social, o que Isabela achava uma chatice, e a mãe fora bem específica na ordem de se manter limpa até o horário. Mas era difícil manter a menina quieta em algum momento, sem ao menos uma visitinha ao oceano do jardim de sua casa.

Parecia que ninguém a encontraria, quando Isabela ouviu o farfalhar dos arbustos atrás de si. Em um salto, tirou os pés d’água e encarou o gigante.

“O que está fazendo?”, perguntou Lauro, jardineiro da família. Suas feições irritadas e seu porte absurdamente grande deixavam claro para Isabelle que não gostava de gracinhas. De certa forma, porém, seus olhos eram tristes, quase chorosos e ele conseguia ser delicado com a natureza e com o carrinho de mão aos seus pés, cortando um pouco da imagem de agressivo. Mas Isabela sabia que ele era o gigante a qual precisava temer. “Sua mãe já lhe disse para não vir aqui”.

“Estou com Cecílio”, respondeu, acariciando a pelúcia do elefante no colo.

“Vamos, saia daí. Preciso trabalhar”.

Por um instante, Isabela percebeu Lauro levantando a enorme e estreita pá do carrinho para ameaçá-la. Calçou as sapatilhas, pegou Cecílio e saiu correndo, esbarrando novamente pelos arbustos da floresta e derrubando vários vasos das assassinas plantas carnívoras pelo caminho. Ouviu Lauro reclamar ao fundo, mas quando entrou na cozinha de casa não teve tempo para recuperar o fôlego.

“Onde você estava, Isabela?”, perguntou sua mãe, sentada à beira do balcão com seu pai. Os dois pareciam quase prontos para viajar.  

“Estava lá fora”, a pequena começou. “Cecílio, as Lídias e eu nadávamos no oceano que o papai ensinou ontem… Atlântico, né? Aí só precisávamos de um pouquinho mais de flor para conseguir atravessar a grande ilha do cliclope…”

“Ciclope, filha”, Agildo a corrigiu.

“Então apareceu o gigante, aí…”

“E eu avisei para não se sujar”, a mulher ignorou, aproximando-se da menina e a analisando. “Olha isso, está toda imunda. Terá que tomar banho novamente.”

“Mãe…!”, Isabela reclamou, enquanto era levada até as escadas.

“Célia, pega leve”, disse Agildo. “Ela só estava se divertindo.”

“Uma coisa de cada vez.” Célia encerrou o assunto.

Guiou a filha escada a cima aos tropeços. Ao chegar ao banheiro, Isabela observava enquanto a mãe colocava água na banheira. Cecílio, sorrindo em seu colo, também fazia parte do conjunto da obra.

“Custava ficar dentro de casa até a hora de sairmos?”, perguntou a mãe, irritada, aos quatro ventos. “Vou terminar de arrumar nossas malas. Entre na banheira e se ensaboe. Eu volto já.”

Isabela bufou, mas obedeceu a mãe. Primeiro mergulhou, logo depois molhou Cecílio. Que sorte era a que a água morna do jeito que gostava. Isso a fazia se sentir acolhida, protegida. Se precisasse encarar mais um oceano e um gigante para estar ali quentinha de novo, gostaria de desobedecer a mãe mais umas dez vezes.

Estava entretida demais fazendo Cecílio mergulhar, mas ao notar o borrifador de sabão…

“Bolhas…”, falou consigo mesma, assoprando cada vez mais sabão.

“Você devia assoprar menos. Não vou avisar outra vez”, ouviu uma voz travessa outro lado da banheira. “E por que você me olha?”

“Cecílio!”, disse, assustada. O boneco de pelúcia nadando ao seu redor e esparramando água apenas foi capaz de sorrir. “Você não sabe que a mamãe não gosta que a gente suje o banheiro?”

“Sua mãe est…”

CAABUUUUUUUM! Sem precisar de aviso, Isabela notou a casa inteira começar a ruir sem uma explicação que a fizesse entender. No mesmo instante, pegou Cecílio e saíram da banheira, tentando se proteger daquela chuva de detritos caindo do telhado. Escondidos embaixo da pia, esperaram até a chuva diminuir.

“O que foi isso?!”, perguntou Isabela, tentada a sair do banheiro, quando notou seu estado encharcado.

“Melhor se vestir, minha querida”, disse o elefante, andando com suas pernas gordas e felpudas até a porta. Pulou três vezes tentando alcançar a maçaneta. “Não posso sair daqui sem você”.

“Já avisei que você é muito pequeno”, Isabela começou a rir enquanto terminava de se vestir.

Cecílio bramiu em desgosto, sem perder o sorriso. Quando saíram, Isabela tentou não chorar ao ver sua casa completamente destruída. Os corredores pegavam fogo e a fumaça os cegava. Os olhos da menina ardiam lentamente. A madeira do teto estava frágil, de modo que ela teve que se agachar para proteger Cecílio.

“Eu não consigo enxergar”, disse ela, segurando no único ponto que lhe dava a certeza de que não estava sozinha. Em seus olhos, só uma coisa via: aquele sorriso.

“Eu consigo”.

Isabela foi guiada durante todo o caminho pela pelúcia. Ela não ousava abrir os olhos, mas ouvia seus agudos bramidos e o som de um esguicho lhe davam a sensação de que era ele quem estava afastando o fogo do trajeto. Ele cantarolava uma música suave que ela não entendia.

Saíram da casa completamente em ruínas e entrou no jardim. O céu mudava de cor e assumia um tom âmbar. Porém, nada foi capaz de assustar mais a menina do que a cena do gigante acorrentando seus pais em uma das pilastras da fonte. Estavam desacordados e o sangue escorria lento de seus rostos não dava tanta certeza de que sobreviveriam com muita memória. As cabeças pendiam num sono tranquilo. Sentiu seu vestido ser levemente puxado e abaixou o olhar àquele sorriso. Ela, ao contrário, não exibiu nada além de inexpressão. Era um convite de bom grado a prestigiar a cena.

“Não vou avisar para sair daqui”.

Por alguma razão, Isabela não gritou ao chegar ao centro do jardim.

“Suma daqui, menina”, gritou Lauro. “Por que não foi esmagada junto com sua casa? Seria um grande favor”.

“Solte os meus pais primeiro”. Ela permaneceu imóvel.

“Não”, ele disse, terminando de amarrar as vítimas à pilastra. “Vá embora enquanto ainda pode. Não quero te machucar, princesa”.

“Solta. Os. Meus. Pais”.

A garota sentia a pelúcia do elefante aos seus pés. Ambos assistiam a cena silenciosa esperando algum passo do jardineiro. Não havia mais do que uma testa franzida e um olhar desconfiado em seu rosto suado. Mas Isabela permaneceria ali, não ia sair.

“Agora”.

Não abriu mais que um centímetro a boca quando sangue, clarão e fogo refletiram nas retinas de Lauro ao estridente som do clamor agudo, doloroso. Ácido, incomodou repentinamente a paciência e a fúria do jardineiro e ele se aproximou da menina. Porém, Isabela percebeu o desequilíbrio em seu olhar e manteve-se ao lado de Cecílio, gritando. A pelúcia sorria para o jardineiro, sua trompa balançando de forma casual apenas para acariciar a mão estática da garota. Cantarolava os versos da Hey, Jude enquanto aguardava a cena. Ambos notaram naturalmente as lágrimas de sangue irromperem dos olhos do homem. Mas somente Cecílio observou o olhar de Isabela cada vez mais negro em seu rosto.

Lauro se aproximou o suficiente para que seus joelhos encontrassem com um arbusto, fazendo tropeçar e cair em cima da menina e da pelúcia. Não houve contestação, Isabela apenas caiu e migrou seu olhar à Cecílio, acima deles. Lágrimas pingavam na garota, mas o sorriso mantinha-se.

“Não vou avisar”.

Deitados no chão, o gigante pareceu ter mais de cinco metros.

“Eu já disse que não quero machucá-la”.

Lauro a imobilizou antes de levantarem, quando sentiu suas mãos grudadas. Isabela segurava seu pulso de maneira sutil, não mais forte que ele, mas potencialmente atraente. A pele esbranquiçada ganhava vida em seu corpo de criança, numa transparência e fragilidade singular. O vestido contrastava. Peles fundidas, Lauro sentia não só seus olhos exsudarem, mas a pele. Em cada pelo de si cresciam gotículas negras de sangue. O susto lhe fez empurrar Isabela, fazendo a garota se arrastar pela grama há alguns metros. Cortaram-se as mãos.

“O que… você… fez comigo?!”, caiu de joelhos ao chão.

Notara tarde demais a dor em seus braços, pois Isabela levantou da grama e se aproximava. Seu rosto parecia disforme, pálido, mas não havia mais boca. As fendas de seus olhos completamente negras contrastando com a pele da menina, que também transpirava sangue lentamente. Encarou a pelúcia e no exato instante, encontrou com o sorriso.

“Não soltou meus pais antes, vai ter que soltar agora”, ouviu Isabela comentar.

“Isabela, não vou avisar para sair daqui…”

Menina e elefante encontraram no olhar o entendimento mútuo de parceria. Cecílio consentiu com graciosidade antes de migrar seu olhar e amabilidade ao jardineiro. Novamente, ambos contemplaram imóveis ao corpo que evaporava. Som do berro não era grotesco o suficiente para nenhuma expressão de pena. O elefante, no entanto, ergueu sua doçura à Isabela.

“Saia daqui”.

“Eu quero os meus pais”.

A pelúcia continuou caminhando enquanto observava a face pálida e as fendas negras da menina. Ele sabia que ela insistiria, apesar de manter-se lívido, doce, cada passo de tecido de encontro ao chão ensanguentado de minutos atrás, indo em direção à fonte. A cada segundo, Isabela mantinha-se mais decidida ao seu lado.

Era corpo pálido e degradado em face que não sorria. Nada sorria.

Dificilmente ela conseguiria chegar à fonte se não estivesse movida pela cortesia singular e particular de Cecílio. Até que ele simplesmente lhe sumira. Seus olhos estavam nublados, um fino pano cinza a frustrava. Mal sentia seus pequenos pés dentro da lama do antigo jardim, assim como sabia que o vestido azul turquesa, outrora belo, grudava em seu corpo miúdo e cansado. Respirar doía, como doía. O coro das orquídeas não passava de avisos para que se afastasse, súplicas desesperadas acompanhadas dos lamentos das plantas carnívoras.

Mas ela buscava a famosa ilha naquela fonte. E podia ouvir a voz de seu pai, pendurado na pilastra, antes de simplesmente aquietar-se. Então aproximou-se da fonte.

Nada havia se não um líquido negro e sem cor. Mas o sorriso de Cecílio estava lá, boiando com seu corpo maltrapilho e rasgado numa água serena. Qualquer aspecto de melancolia não mais existia do que aquela emanada do tecido sorridente. A simpatia do sadismo.

Isabela não teve reação. Apenas um abutre, sereno, pousou na mesma pilastra onde estavam os pais da garota. “Eu vou avisar”.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.