EntreContos

Detox Literário.

Mater Malum – A Mensageira do Mal (Chris Crawford)

Tem uma luz surgindo atrás da porta, no fim do corredor. As pessoas do quarto tentam espremer-se nos cantos, mas, os pequenos corpos se chocam em objetos frios, fétidos, secos, machucando-se. Dói com o contato, porém, eles estão sufocando a dor. Não querem chorar, não podem ser encontrados. Os pequenos queixos tremem e os dentes se chocam. Não há esperança.

Há vozes lá fora. Estranhas. Estranhos que acreditam que há alguém atrás das paredes. Eles empurram, puxam móveis, movem objetos na estante. Os pequenos seres escondidos mordem os lábios, seguram a respiração. Os estranhos conversam. Os pequenos prisioneiros não podem distinguir o que dizem, eu, infelizmente, posso: “Alarme falso, guri. Não vê que não há nada aqui?” Outro responde: “Aquelas crianças disseram aos pais que ouviram choro e gemidos”. “Avise ao capitão que não encontramos nada… As crianças,  assustadas, espremem-se em sua agonia, parecem nervosos. Sei que se perguntam se os invasores são realmente ruins? Há mais dor além da que eles sentem, perguntam-se no escuro, as pequenas criaturas.

Que se movem, são apenas dois. Bem, dizer que se movem é até exagero. Seus corpos diminutos não podem se mover, estão presos pelo medo e por enormes correntes que lhes seguram aos cantos mais escuros do ambiente imundo. Não se pode divisar muito do lugar. Pode-se sentir o cheiro. A podridão está por toda a parte. As vozes vão se afastando, até que o som dos carros, se retirando, garante um pouco de sossego para os pequenos prisioneiros, que de medo, nem se falam… Um ouve apenas a urina do outro descer pelo chão. E nada fala. Ele mesmo esteve a ponto de se sujar de tanto medo.

Agora que o medo passou, desce devagar o corpo, procurando encostar-se ao outro. A luz da fresta do teto alto ilumina parcialmente o corpo que se move. É algo semelhante a um menino humano, porém muito mais magro que aquelas fotos da Guerra. Olhos fundos passam devagar sob a pequena luz e o outro corpo encosta-se a ele, sem ser de fato definido. É outra criança. Outro menino, uma menina? – você há de me perguntar. Não lhe digo. Eles continuam silentes. Não se falam ainda. Não quero vê-los, conheço-os, suas dores refletem em mim. Sem querer ver, imagino seus lábios feridos, secos e desnutridos. Então uma luz se faz sobre todo o espaço tão rapidamente, como uma iluminação de um pátio de xadrez. Por mais que eu não queira ver, meus olhos captam algumas coisas. Esqueletos de diversos tamanhos, cabeças espalhadas pelas cantoneiras e muitos excrementos estão misturados pelo chão – cenário que conheço desde sempre. É uma menina a outra figura. O cabelo um emaranhado de fios embaraçados, igual ao do menino, ambos sujos. Soluçam aproximados, seus corpos se tocam em carícia fraterna, imunda. O cheiro nauseabundo para mim é só uma lembrança, a eles nem incomoda.

Eu tento alertá-los do perigo, entretanto, por não estar em seu campo de visão, não podem me ouvir. Continuam ali, parados, ouço os corações batendo descompassados, os braços que a luz rápida iluminou, sangram. O pavor de não ser ouvido me irrita. Um animal se move nervoso no quintal. Sinto o medo das duas criaturas tomarem nova forma, pulsos chocarem-se com os corpos descarnados pendurados atrás deles, os dentes de novo se chocam – eles conhecem a ameaça que o animal assassino representa, já foram testemunhas dela. O medo tem som e eco. E, de novo, passos ecoam pelo extenso corredor. Algo é movido do outro lado da parede e um homem entra, empurra de qualquer jeito um  arremedo de comida na boca das duas crianças e me olha como se me visse. Seu olhar me desespera, mesmo que eu desconfie que ele não consiga me ver. Quando nota o chão molhado, dá um tapa no rosto da menina e a cabeça dela desce. A comida, que ela ainda tentava mastigar, cai aos pés do homem, que se afasta. A mão se levanta com violência e fere o rosto já desacordado da menina.

Ele sai, a luz se apaga, porém a visão do lugar não sai de mim. Ainda vejo no canto a geladeira entreaberta, com algo asqueroso saindo pelos cantos, vísceras de animais – humanos e domésticos. Como essas crianças sobrevivem a isso? Tento esquecer e procurar a saída, mas, é impossível. Estou preso, por correntes invisíveis. Tento falar com o menino. Não me ouve. Seus olhos estão focados em algo que não alcanço.

De repente, a porta se abre de novo. A mulher entra nervosa, gritando. “Quem esteve aqui? Minhas coisas estão mexidas, foram seus amigos.” Afirma, mesmo sabendo que ninguém que está aqui teve oportunidade de conhecer alguém, além deles dois. Sei que seu desespero é parte de sua tática. Gritando ainda, acende a luz e fica procurando uma corrente entre as coisas. Eu conheço esse olhar, sei o que ela vai fazer, grito, ninguém me ouve. Grito mais, tento impedi-la, não consigo. Desabo sem forças no exato momento em que a corrente entra nas carnes flácidas do menino, uma, duas três vezes. E a mulher canta. É um demônio, mas, parece um anjo e canta como tal. Açoita o corpinho agora inerte, que sangra e ela atinge notas graves e agudas com a mesma precisão. Tento me arrastar para fora da masmorra maldita, porém, estou preso.

O homem volta: “Não os viram, Olga. Se tivessem alcançado o esconderijo, teria levado esses teimosos.”.

As duas crianças sangram, acordadas de novo, não possuem forças para reagir. A mulher me nota, puxa-me  pelos braços e me joga para fora. Vejo ou sinto meu corpo cair sobre o sofá e escorregar.

A noite chega, mas, meu desespero em deixá-los  sozinhos ali dentro, não me conformo, mesmo não podendo fazer nada. Tento esquecer meu corpo, porém o frio não deixa. Grito sem ser ouvido uma vez, outra e outra. O mundo gira e gira. Ouço a mulher se aprontar. Vão jantar fora. Está bonita, linda, resplandecente, quase etérea. Sorri, como se pudesse me ver e diz, falando sobre mim: “é o único que eu poderia amar,  mas protegia os outros imundos”. O vestido azul turquesa combina com a pele acetinada e sua voz, como as vestes, diferem tanto de sua alma. Alma sem aura, sem cor, sem sentimentos. Apego-me  aos meus últimos pensamentos, sabendo que mesmo agora, que não pode me notar, ela me manipula com sua falsa doçura.

Lembro ainda de sua mão suave a me tocar, quente, protetora, momentos antes de… A voz dela me assombra agora, tenho receio de seus motivos e descubro que, mais uma vez, estou certo: “amanhã nos livramos dele e dos que guardamos na mala”. O homem responde, surgindo à minha frente, também elegante: “sim. Precisamos desocupar um pouco o espaço. Precisamos de trânsito livre para  educá-los”. Meu medo quase me cega e eu sufoco, como se realmente ainda pudesse.

Tenho que pensar nos pobres prisioneiros. Está acabando o tempo deles, logo outros virão tomar nosso lugar. Alguém tem que parar isso. Imploro ao céus, que agora sei que existe, e ouço vozes a me animar. Faz parte de minha jornada…

A noite se vai de novo, mais um dia sem descanso… A luz do sol me encontra no mesmo lugar em que fui deixado… Os dois anjos do Exício estão de volta. Despem suas roupas civis e colocam suas luvas e capas. Sei que hoje tem Faxina. A primeira que vi foi quando chegamos… É terrível, arrepiante, cruel. E limpeza é tudo o que não representa essa faxina.  Estranho não ouvir choro desconhecido… Os conhecidos já não ouço há meses. Faz tempo que as criaturinhas entenderam que chorar é pior. Muito pior. Mesmo sem vê-los agora, percebo que estão acordados e que já reconheceram que o fim se aproxima. Primeiro a mulher vai liberar a menina das correntes. Quer saber se ainda consegue manter-se  de pé. Se conseguir ficar, voltará para a parede. E se, por acaso, não conseguir… Bem, eu sei que para o bem dos dois, é melhor que consiga dar ao menos um passo. Na minha vez, no último teste, não consegui…

A mesa está preparada. Foice. Martelo. Agulhas. Máscara de ferro. As poltronas de veludo branco – limpas de novo. As duas cadeiras de espinho. Os vidros estranhos. Se pudesse, me arrepiava, mas, hoje, mais que nunca, sei que não posso… Não pude desde que perdi a pele… A mulher dá as ordens, sacerdotisa do Mal. O homem dirige-se ao armário na parede e  a destrava, tudo se move e surge a porta. Do lugar em que fui deixado não vejo as pessoinhas, meus irmãos, com quem nunca brinquei…

O homem traz primeiro o menino, como um fardo leve e amarra no trono branco, rindo. A mulher pergunta se ele vai obedecer. Ouço sua voz trêmula, quase desconhecida, murmurar a resposta desejada. O homem que um dia foi nosso pai, traz a menina como um lixo qualquer e coloca de pé no piso elevado, próximo a mesa. Eu começo rezar para que ela ande, embora nem saiba se realmente meu desespero seja de fato uma prece. Ela dá um passo e cai. Não fui ouvido…

Grito de novo. Ninguém me ouve. A menina chora. O homem a banha, praguejando, a mulher sorri. Ela sempre se diverte mais, bem mais… Ele coloca minha irmã na mesa e a amarra, de braços e pernas abertos, ela soluça, meu irmão e eu choramos. É o fim dos dois. Eles sabem. A mulher coloca as agulhas afiadas nas pontas dos dedos da menina, eu vejo a urina descer pelas pernas da mesa, porém, não choro.. Não olho para a cena da tortura. Não quero ver. Quero gritar tão forte, até que alguém ouça. E grito. Grito enquanto meu irmão tenta soltar-se em defesa da maninha. Nem ele e nem eu a ajudaremos.

É o fim. Vejo o desespero tomar posse definitiva do menino à minha frente, o pavor de reconhecer que a dor é final, mas, longa, muito longa, interminável. A mulher fala, carinhosa, com a menina, acaricia seu rosto e pescoço, devagar, ouço o choro esperançoso e então, grito com tanta força que vejo algo se mover à minha frente. Grito de novo e de novo.  Todos se voltam em minha direção.

Percebo, porém, que não sou eu quem interrompe a cerimônia.

– É a Polícia! Saiam com as mãos para o alto.

A mulher mostra, com a cabeça, o armário das armas, em uma ordem muda, para que ele a defenda… Sua mão, erguida fora da visão da menina, para agora, um sabre imóvel, espera pelo próximo ato.

O menino grita de novo, perdido entre o desespero e a esperança . A mulher tenta uma reação contra ele no momento exato em que a porta se rompe. Um tiro interrompe definitivamente o caminho da arma antiga, afiada e cruel. Uma pele foi preservada. Ao menos as deles, suspiro aliviado. Para mim e para os que vieram antes, não houve defesa. Continuamos mortos. Mortos, porém em paz. Nossos irmãos mais novos sobreviveram…

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C2.