EntreContos

Detox Literário.

Moça Solteira Procura (Apolônio)

Vai, traga-me outra cerveja, Patrício. Ainda sinto o gosto do lodo fétido no canto da boca. O quê? Quer que eu lhe conte, assim, no seco. Cê soube por quem? Como assim não lembra? Quer saber: tanto faz. Bom! Gelada essa. Vou contar! Assim, quem sabe você para de me encher com essa sua curiosidade enfadonha e vê se num me aburrinha mais.

“O Sol entrou em touro!”. Essa era a manchete da revistinha que o Carlão me arranjou. Uma tal de “Astros e afins”. Previsões, simpatias e tal. Você sabe, Patrício, a gente num acredita nessas coisas, mas o anúncio da garota era específico e ela procurava um homem cultuado em astronomia para levá-la às estrelas. Tá rindo de quê? Olha que eu paro de contar hein. Me respeita, rapaz e prest’enção. Certo. Ela demorou a chegar e, te juro, no começo valeu a pena. Era linda a cabrocha, Patrício. Num era dessas solteironas que a normalmente coloca um anúncio desses no jornal, não. Tinha dois olhões verdes claros, a pele morena e era pequenininha. Menor que eu. Quer dizer, pelo menos no começo. Como assim “como assim”? Ele pareceu pequena pra mim, ué. I’daí que eu sou pequeno. Quer que conte ou não, hein? Então. Ela chegou se apresentou e caminhamos um tempinho pela praça, sabe. Parecia texto de novela, cara. Ela era nova na cidade, não conhecia muita gente. Eu tinha encontrado uma gatinha.

A gente foi assim se engraçando pelos cantos e o papo fluia. O caldo só engrossou memso quando ela me perguntou sobre os astros. Que foi patrício? Claro, que eu falei que sabia. Ela começou a falar de constelações, de planetas, galáxias, e eu arrisquei um tal de ascendente e ela riu de mim. Achei melhor só ouvir. As primeiras estrelas começavam a surgir, assim que a tarde começou a cair e eu propus o óbvio: vir aqui pro Arnolfo, pra gente se conhecer entre uma cerveja e outra, né? Falando nisso… Manda outra, Arnolfo. Oi? Quer saber o quê? Não, o Arnolfo não conheceu. Por quê? Porque ela não quis, claro. Ela fez beicinho pra vir no Arnolfo, é mole. “Cerveja não. Sou mais do vinho, sabe?”. Num sabia não, mas falei que sabia e ela disse que tinha um bom na casa dela, um tal de Merlô. Então, ela disse isso e fomos pro meu carro, que ela tava a pé.

Ela com a mão na minha perna, Patrício. Eu tinha acabado de conhecê-la. Perguntei o caminho e ela foi indicando. Passamos pela Alfredo Prestes, pela Vilares de Santanna, atravessamos todo o Brejo Seco, sim, até chegar naquela estrada de terra, que foi onde eu brequei. Claro que eu brequei. Engraçado, ela também perguntou isso. Mas você sabe onde essa estrada vai dar, Patrício? Isso! Naquela porcaria de casario abandonado. E o que é que tem é o caralho, Patrício! Desculpa, Arnolfo. Tem até senzala aquela merda. Todo mundo acha que aquilo lá é assombrado pelos escravos sofridos dali. Eu também pensava assim. Ela falou que podia seguir, que foi o aluguel mais barato que ela encontrou na cidade e o escambau. Que longe do centro era melhor para ver o céu, os astros. Também, pudera, né? Não tinha uma luz o caminho todo. Mais uma? Que mané saideira. Manda outra, por favor!

Aí eu ofereci levá-la até a minha casa. O quê é que tem a minha mãe? Pelo tardar da hora, que foi atravessar toda a cidade, e depois voltar, ela já dormiria, mas de novo ela recusou. Sugeri um motel próximo, e ela chiou. Eu tava perdendo a garota, Patrício. Se você está com medo, ela falou, pode me deixar aqui, já com a mão na tranca da porta, então eu recoloquei a marcha e avancei pela estrada de terra. Ao que ela pareceu se animar do meu lado. As curvas vão se acentuando a medida que se avança por ente as árvores secas do acostamento. No final, afunila e dá pra passar só um por vez, até que se vê só a lua, o alagado e a casa. Desliguei o motor, e ela me olhou. Seus olhos agora, pareciam amarelados, não mais verdes, e ela mexeu os lábios num sorriso que me dizia: Vamos? Espera, eu falei, eu abro pra você. Saltei do carro e dei a volta para agir como prediz a cartilha. Nessa hora, quando abria a porta pra ela, a menina parecia que era da minha altura. Foi o que falei antes. Doideira, né? Calma que piora.

Avançamos pelo pátio de terra e pulamos algumas poças do alagado que avançava pelo alpendre. Eu não conseguia nem admirar a bela mulher que estava a minha frente, tamanho o cagaço que me assolava. Juro! Algo seriamente me dizia, para dar meia-volta e entrar no carro. Talvez por isso eu tenha deixado a chave no contato. A escada estava roída pelo tempo, como se os açoites do vento ainda agissem sobre madeira. Antes de entrarmos ela sorriu para mim, uma boca grande. Não havia reparado como a boca era tão grande até ver todos os dentes de uma vez. Só não repara na bagunça, ela disse. Que bagunça? Patrício, você já fez uma mudança? Então já viu em filme? O que alguém que fala que acabou de mudar tem espalhado pela casa? Isso! Caixas. Aquela garota, Patrício, tinha porta-retratos. Muitos porta-retratos. Fotos em preto e branco, retratos coloridos, pinturas a óleo. Tudo organizado nas paredes. E quer saber o que eu mais achei estranho, cara? Ela estava em todas as imagens. Os móveis eram velhos e ela disse que vieram com a casa.

Eu tô falando sério. Eu também pensei isso. Nossa que menina culta. Entende de astronomia, vinhos e artes. Móveis antigos e retrato em preto e branco é coisa de gente granfina, Patrício. Pensei, foda-se, já to aqui mesmo. Vou é aproveitar meu dia na alta sociedade, mesmo que seja na alta sociedade dos cafundós de Alamares. A gente é cego, Patrício. Não tem bicho mais cego do que macho com tesão. Ela disse pra eu ficar à vontade, enquanto ela pegava o vinho. Eu fiquei admirando os retratos. Legal suas fotos. E as pinturas?, ela gritou da cozinha. Maneiríssimas. Me adiantei pelo corredor sem perceber. A madeira rangia a cada passo que eu dava, assim como o vento espalhava o cheiro do incenso acesso na sala por entre os sulcos das madeiras dos cômodos. Era até enjoativo, sabe, mas vá lá, enganava bem o podre do pântano lá fora. Então cheguei ao último retrato, caro amigo, e este estava pregado em uma moldura simples de madeira pintada de dourado e o vidro já estava ausente. Corri o dedo por sobre a imagem e a gramatura do papel era velha. Trabalho na papelaria a dez anos e de papel eu entendo, Patrício. Fui correndo o dedo sobre ela, ao que a fotografia escapou da moldura e acabou no chão.

A folhinha ficou assim. Virada ao contrário. E no verso dessa havia um escrito a lápis.  De primeira pensei ser um poeminha e uma data: “Durma quiança, diaxo do xibiu!/ Seu pai, sua mãe, nenhum deles taqui!/ Seu pranto, seu Xôru ela já ouviu!/ Pro lodo ela te arrasta, a Coca há de vir! Isabel, 1931”. Eu não pude acreditar. A garota esteve comigo aquela tarde toda, Patrício. Como poderia estar em um retrato tirado há mais de tantos anos? O vento me distraiu novamente, pois a porta ao lado do retrato se abriu e da fresta eu pude ver um degrau. Escancarei e no fundo pude ver uma pequena fresta banhada pela lua cheia do lado de fora. Ouvi os barulhos de taça. Os passos dela rangeram pelo corredor da cozinha para a sala e eu me virei para encará-la, mas a sombra que fazia não condizia com sua posição no cômodo de tamanho avantajado. Foi então que me aconteceu o improvável. Uma rajada forte de ar me puxou escada a baixo pela porta aberta.

Caí, Patrício, num lodo gelado. O cheiro podrido de coisa morta ainda fresca se instalou no meu pulmão. Havia lama por todo meu rosto, cobrindo olhos, nariz e entrava pela boca. Com muita dificuldade consegui me virar a tempo de ver a figura imensa parada na soleira porta. Olhos ofídicos vivos e uma caraça de jacaré que se prolongava pela silhueta. Os cabelos louros desgrenhavam-se entre as escamas que emergiam de sua pele antes tão reluzente. Sim, Patrício, eu não tenho dúvida. Aquela monstruosidade era a “gatinha” do meu encontro da tarde.

A besta gargalhava enquanto os vermes se remexiam entre meus dedos apoiados no lamaçal. Não tive tempo para pensar em outra coisa. Lancei-me de costas para aquela coisa horrenda, porém de frente para as poucas ossadas pequenas espalhadas na lama, ao que pude ouvi-la escorregar com a barriga escamosa escada abaixo, vindo ao meu encontro. Mergulhei no pântano invasor, Patrício, torcendo pela minha vida não ser ceifada pela bocarra do réptil que me seguia. Eu sei que se eu tivesse maior altura ela já me alcançaria. Ou não fosse tão desastrado, não teria caído daquela escada, e não teria chegado a tempo naquela janela enluarada. Havia restos de vidro no batente, onde a roupa prendeu. Esforcei-me para passar e a barriga cortou na superfície.

Patrício, o monstro já se precipitara pela janela, mas não conseguia passar. A focinha arranhou o espaço que antes estivera meu pé. Pude ver aquilo se deliciar com o pouco sangue fresco que escorria pela lâmina. Não esperei muito para apreciar seu deleite. Corri e entrei no carro, como nunca o fizera, sem me preocupar com espelho, cinto ou qualquer outra coisa. Juro, foi por Deus que aquele carro pegou de primeira. Engatei a ré e fiz a volta. Nessa hora a criatura se lançou porta afora arrebentando tudo. Toda a transmutação devia ter acontecido naquele momento. Ela era um lagarto completo e se apoiava nas duas patas traseiras.

Daqueles olhos amarelos não tem como esquecer. Engatei a primeira e acelerei. O bicho parecia transtornado. Grunhia. Grunhia em desepero de ver o carro avançar pela estrada, mas não ousou me perseguir. Parti. Corri o máximo que pude, sempre olhando para trás. Afastando-me da casa e do pântano. Naquela circunstância eu queria fugir até mesmo da lua, Patrício. Segui atentando as curvas, para não bater o único auxílio que me afastava daquilo que deveria ser a minha cova de lodo ao luar.

No mesmo dia! No mesmo dia fui ao hospital, à delegacia, à igreja, tudo. Os policiais, na manhã seguinte, claro, não encontraram nada. Imbecis! Nenhuma pista da tal mulher, registro de locação do imóvel, nada. Como se ela não existisse, aquela bruxa. Riram de mim, assim como você tá fazendo agora. Mas eu pretendo parar de contar essa história. Antes que me tranquem num hospital para maluquinhos, é. Pois a meu favor eu tenho algo que pretendo nunca mostrar a ninguém. Nenhum palpite, Patrício? A fotografia, meu amigo. A fo-to-gra-fia. Mesmo suja de lama,  é minha prova, pra mim mesmo, sabe? De minha sanidade, meu caro amigo. Eu é que num me engraço com mulher de signo, nunca mais. Nunca mais! Arnolfo(!), fecha a conta?

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C2.