EntreContos

Detox Literário.

Magnum Opus (Devorador de Mentes)

 

Se eu imaginasse como aquele projeto terminaria, nem teria começado.

Estávamos numa época de vício em RPG. Daqueles de mesa mesmo, D&D raiz, quando Daniel teve a ideia.

— E se fizéssemos um castelo igual ao do jogo? — ele disse eufórico, como somente crianças daquela idade conseguem ficar. — Meu tio pode nos ajudar.

Parecia, realmente, uma ótima ideia. Estudávamos em salas separadas, mas trabalharíamos num projeto de artes juntos. O tio Sérgio era professor de Educação Artística numa escola particular. Ele estava disponível sempre que precisávamos. Uma vez, ajudou a galera inteira a construir raquetes de ping-pong e até organizou um campeonato. Foi muito divertido. Eu cheguei à final e só perdi para o japonês. Ninguém nunca ganhou dele, então me considerei campeão moral. A gente o chamava de japonês, mas anos depois descobri que era chinês. Não pude me desculpar, pois nunca mais o vi.

No sábado, parei em frente à casa do Daniel e gritei o nome dele. Ele apareceu na janela e disse que eu podia entrar. O portão estava aberto e, na varanda, tio Sérgio organizava umas caixas de papelão e os materiais de arte.

— Oi, Chico — ele disse. — Daniel falou pra gente ir começando. Ele tá terminando o café.

Ele me mostrou a ideia que tinha e iniciamos os recortes das torres do castelo. Tio Sérgio era daqueles que conseguia nos colocar a ilusão de que estávamos fazendo sozinhos, mas sem ele, na realidade, ficaria horrível.

Em determinado momento, percebi que estávamos muito próximos. Afastei-me um pouco e ele, minutos depois, aproximou-se novamente. Quando o entreguei um pedaço recortado, ele segurou minha mão, me olhou de um jeito estranho e sorriu. Fiquei sem graça, puxei a mão e não soube o que fazer nem dizer. Por sorte, Daniel logo apareceu.

Terminamos de montar o castelo e precisávamos esperar secar para então pintar. Daniel disse que ia buscar alguma coisa, então eu me levantei e falei que tinha que ir embora.

— Ué, achei que a gente ia pintar hoje ainda — ele estranhou.

— Você pode pintar — eu disse. — Eu que fiz todo o trabalho até aqui mesmo — brinquei, tentando quebrar a tensão.

Desde então, passei a evitar o tio Sérgio. O problema é que, meio sem querer, comecei a esquivar-me do Daniel também. Eu não podia contar para ele, porque meu amigo havia perdido os pais e era criado pelo tio. Era seu super-herói. Não podia estragar isso.

Vários dias depois, estava jogando videogame quando ouvi Daniel me chamando.

— Chega aí — ele gritou e eu resolvi descer.

— Jogaram RPG ontem? — perguntei mais para puxar assunto.

— Não. Você não apareceu nem o Jonas.

— Estranho. — Jonas não costumava faltar.

— É. Não consegui falar com ele ainda. — Ele me olhou, sem graça. — Você não foi por quê?

— Não tava me sentindo bem — menti. — Uma diarreia braba.

— Quer ir ver o castelo? Ficou maneiro.

— Seu tio tá em casa? — acabei perguntando.

— Tá.

— Entendi. — Tentei pensar em alguma coisa. — Aluguei Battletoads. Bora jogar? Aquela fase das motos é impossível…

O jogo dos sapos radicais serviu para distrair, mas eu sabia que teria que ir buscar o castelo em breve. A apresentação do projeto era naquela semana.

Quando o dia chegou, chamei Daniel e o tio atendeu.

— Ele já vem. Quer entrar?

— Não. Espero aqui fora.

— Você entendeu errado aquele dia — se aproximou e segurou meu ombro.

— Vou contar pra ele! — ameacei.

— Nem pensar! — a expressão dele se fechou.

Apertou meu ombro com força. Tentei tirar, mas não consegui. Percebi que suas mãos estavam manchadas de vermelho. Senti-me impotente e comecei a chorar. Logo em seguida, meu amigo abriu a porta carregando o castelo. Sérgio, me soltou e deu uns tapinhas nas costas.

— Viu como ficou maneiro… — Daniel veio dizendo até perceber meu rosto. — O que foi? Tava chorando?

— Não…

— Ele só estava engasgado, né, Chico? — Sérgio disse.

— É.

Daniel foi contando várias coisas no caminho da escola e eu só fingindo escutar.

— Já conseguiu falar com o Jonas? — perguntei de repente.

— Não… deve estar doente.

— Qual foi a última vez que viu ele?

— Lá em casa.

— Na sua casa?!?

— É, por quê?

— O que ele tava fazendo lá?

— Jogando videogame… tá com ciuminho?

— Que mané, ciúme…

— Foi naquele dia que te chamei e você não podia ir, lembra?

— Que horas ele foi embora?

— Por que essas perguntas?

— Sei lá, quero saber… — um medo enorme caminhou lentamente pela minha espinha.

— Eu não vi ele indo embora.

— Deixou ele sozinho com seu tio?!?

— Deixei. Por quê?

— Por nada…

— Chico, tu sempre foi estranho, mas piorou bastante.

— Estranho é você, seu Zé Ruela!

Tentei trocar de assunto, mas assim que chegamos à escola, bateu o desespero: um cartaz de desaparecido exibia a cara cheia de espinhas do Jonas! Tamanho foi o susto que acabei soltando o castelo. A maquete caiu no chão e amassou toda.

Daniel me xingou de um monte de nome, mas não dei atenção. A data do desaparecimento escrito no cartaz era justamente o dia em que Jonas ficou sozinho com o Sérgio.

— Daniel — iniciei com cautela —, seu tio tem algum lugar que não deixa você entrar?

— O ateliê, por quê? Como vamos levar esse castelo destruído? Pô, deu um trabalhão…

— Esquece esse castelo!

— Como assim, Chico? E a amostra? Como vamos fazer?

— Cara, nosso amigo sumiu, pode estar morto! E você preocupado com o castelo.

— Foi mal… Ei! Espera aí. Você acha que meu tio tem alguma coisa a ver com isso?

— Er… não… por quê?

— Você me perguntou do ateliê dele…

— Cara, foi mal… sei que gosta dele… mas acho, sim, que foi seu tio.

— Ele não faria isso…

— Hoje ele tava com as mãos sujas de sangue.

— Que, sangue, Chico! Era tinta vermelha…

— Ele é estranho…

— Ele é muito legal! Lembra do campeonato de ping-pong?

— Caramba! — eu gelei. — Você viu o japonês depois daquele dia?

— O que isso tem a ver? Acha que meu tio é o quê? Um serial killer?

— Na verdade, eu achava que ele era um vampiro… ou um devorador de mentes. Mas serial killer também serve.

— Você tá maluco. Isso, sim! — Ele saiu bem chateado, carregando o que restou do castelo, que até parecia o estado de nossa amizade.

Eu talvez devesse ter contado a alguém, mas confesso que fiquei com medo de estar errado e queimar o tio do meu melhor amigo à toa. De qualquer forma, não conseguia pensar em outra coisa. Decidi espionar a casa deles logo depois da aula, enquanto ainda estava vazia.

Um pouco antes de o sinal bater, pedi para ir ao banheiro e fiquei circulando pelo pátio. Assim que o barulho ensurdecedor se fez ouvir e o portão abriu, fui o primeiro a sair.

Tinha pouco tempo. Sabia como entrar na casa do Daniel pelo telhado. Ele me ensinou num dia que havia esquecido a chave. Quando cheguei, escondi minha mochila embaixo de um Fusca e comecei a escalar a árvore em frente. Não era muito fácil, mas eu era bom nisso e já tinha feito antes. Lá de cima, era só pular no telhado.

Eu quase escorreguei nesse processo e acabei derrubando um pedaço da calha da chuva. Fez um barulhão. Torci para ninguém ter escutado e me encaminhei ao outro lado, onde ficava o banheiro, pisando com calma nas telhas de amianto. A única forma de entrar era pela báscula, que sempre ficava aberta.

Da última vez que fiz isso, eu era bem menor. Por isso, acabei entalando. Bateu um desespero. Pensei naquelas histórias de ladrões que ficavam presos e não conseguiam roubar. Sempre achei que eram uns imbecis e morria de rir, mas me colocando no lugar deles não parecia tão engraçado assim.

Para piorar a situação, eu comecei a ouvir uns passos pela casa. Eram de um adulto. Só podia ser o Sérgio. Ou ele havia chegado cedo ou faltado ao trabalho. Se me encontrasse ali, estaria morto. A melhor saída seria voltar ao telhado, mas entalado como estava, só consegui forçar para dentro.

Os passos se aproximaram. Eu precisava me esconder, mas não havia muitas opções disponíveis: fiquei atrás da porta. Aquele era o banheiro do Daniel, então achei que o tio não entraria ali.

Não tive essa sorte. Provavelmente atraído pelo barulho, ele resolveu olhar no banheiro. Vestia um avental branco manchado de vermelho. Suas mãos também estavam sujas da mesma cor. Meu coração acelerou, o sangue gelou. Foram os segundos mais longos da minha vida.

Ele, porém, não olhou atrás da porta. Quando saiu, esperei um tempo antes de fazer o mesmo. Eu queria investigar melhor, descobrir se aquele vermelho era tinta. Mas também tinha muito medo. Pouco depois, ouvi a porta da frente abrindo e o jeito espalhafatoso com que Daniel jogava a mochila no sofá. Como eu faria para sair de lá sem ele me ver? Se me visse, o que eu diria?

Essas dúvidas me deram um pouquinho de coragem e eu acabei decidindo dar uma olhadinha de leve no ateliê. Achei que talvez eu conseguisse uma prova e o meu amigo ficaria do meu lado contra o tio que tanto amava.

Caminhei lentamente até o local que um dia foi o quarto dos pais de Daniel, o maior da casa. Pelas minhas lembranças, era o único lugar onde seria possível montar um ateliê de artes ou, talvez, cometer crimes contra crianças.

A porta estava entreaberta. Cheguei perto e avistei algumas telas de pintura, umas esculturas estranhas, muito lixo e um tonel azul bem grande. Daqueles de plástico que são usados para combustíveis, grãos ou sei-lá-o-quê. Estava bem iluminado e era possível ver que, em volta do tonel, acumulavam-se poças de um líquido vermelho bem escuro, quase preto.

Naquela época, a única forma de assistir filmes era alugando na locadora, mas eles não me deixavam pegar os de terror. Também nunca havia visto sangue acumulado. Mas, mesmo assim, eu sabia que tinta vermelha não era daquela cor.

— Chico — uma voz me chamou —, o que tá fazendo aqui?

— E-e-eu — Gelei por completo.

A porta abriu e Sérgio olhava para mim. Ele secava as mãos sujas… de vermelho, no avental.

— Quer conhecer meu ateliê? Vamos, entre.

Eu pensei em correr, gritar, bater nele. Mas acabei entrando. Provavelmente por medo. Fui direto de encontro ao tonel. Estava bem fechado com uma tampa transparente. Algumas coisas boiavam num líquido escuro e viscoso.

— Cuidado para não derrubar. Deu um trabalhão conseguir tudo isso.

Na parede oposta ao tonel, no único canto do quarto que não conseguia ver da fresta da porta, avistei uma imagem que carrego até hoje em meus pesadelos e noites constantes de insônia: um painel fortemente marcado de vermelho ocupava toda a parede. Era em alto relevo. Quando me aproximei, percebi que era feito de ossos humanos. De crianças. Contei três crânios, um em cada canto. Para ficar totalmente simétrico, faltava um. Faltava o meu.

Não sabia o que fazer contra aquele monstro que usava crianças mortas em suas obras de arte. Era pior que qualquer vilão de RPG. Um daqueles crânios era de Jonas, um de meus melhores amigos, com quem jogava toda semana. A mãe era dona de casa e o pai, motorista de ônibus. Deviam estar arrasados com o desaparecimento do filho único. E aquela pessoa que há pouco eu achava o adulto mais legal do mundo estava sorrindo para mim. Eu comecei a chorar.

— Maldito! — gritei bem alto.

— Shhh… — ele me calou, segurando minha boca.

Tentei continuar berrando, mas os sons saíram abafados. Debatia-me, mas ele era mais forte.

— Logo isso vai acabar. Prometo que não vai doer.

Ele me arrastou até um canto, onde descansava uma pequena faca, daquelas finas e muito afiadas. Preparou-se, então, para cortar minha garganta com certo cuidado…

— Tio, tem alguém aí? — Daniel perguntou, do lado de fora do ateliê.

— Não, querido. Tá tudo bem. Já almoçou?

— Estava esperando você… mas ouvi uns barulhos, uns gritos…

— Deve ter sido o vizinho.

— Parecia a voz do Chico…

Aproveitei a deixa e pisei no pé do canalha. Ele não chegou a me soltar, mas afrouxou o suficiente para que eu conseguisse gritar:

— Socorro!

Meu amigo abriu a porta. Sérgio me soltou na mesma hora. Eu, chorando abertamente, engatinhei até bem perto do Daniel, que ali parecia um imponente Paladino dos Deuses.

— Tio, o que você tava fazendo? — ele também tinha lágrimas nos olhos. Não era como nos jogos, mas ainda assim era meu herói.

— Calma, que eu vou te explicar…

Então ele viu o painel. Era como se o seu mundo tivesse desmoronado. Para alguém que ficou sem os pais tão cedo, perder o tio daquela forma era ainda mais doloroso.

Sérgio tentou aproximar-se, mas ele recuou.

— Tira a mão de mim!

— Desculpa… eu não queria ter feito isso com seus amigos…

— E faria com quem?

— Essas obras valem muito dinheiro, acredite em mim! Tem gente que paga caro por isso… Como acha que tiro nosso sustento? Dando aula?

— Não fala mais nada… não quero ouvir — meu amigo chorava e parecia tonto com tanta informação nefasta.

— Vem, Daniel — eu disse —, vamos chamar a polícia.

— Não, vocês não podem fazer isso!

Sérgio tentou nos segurar, mas Daniel o empurrou. Eles caíram, com o tio ainda de posse da arma. Eu tentei chutá-lo, mas ele se defendeu. A faca rasgou minha perna e eu caí. Foi a primeira vez que vi tanto sangue saindo de mim. Era escuro como aquele no chão.

Daniel gritou de raiva e passou a esmurrar o tio. Rolou por cima dele e ficaram se engalfiando. Minha visão começou a se turvar e as coisas a se embaralhar. A dor que sentia era indescritível.

— Nãoooo! — A voz de Sérgio me tirou do torpor. — Não… Daniel, não!

A lâmina estava vermelha e uma poça escura se formava abaixo do sobrinho. Daniel ainda mantinha os olhos abertos, mas já não olhavam para lugar algum. O tio, agachado, chorava como um bebê.

Arrumando forças que achei que não tinha, mancando, peguei a faca, esquecida ao lado. Sem dó ou medo, enfiei várias vezes nas costas daquele monstro.

Ao contrário das partidas de RPG, eu não ganhei XP, pontos de experiência, nem tesouro. Na vida real, eu venci o vilão, mas perdi meu amigo e o bem mais precioso que alguém pode ter: a inocência infantil.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.