EntreContos

Detox Literário.

Incógnita (Engenheiro)

 

Com o copo de uísque na mão, a matemática se sentou na poltrona com um suspiro mortificante.

Tomou o drinque, sentiu a bebida queimar cada centímetro de seu corpo, lhe aproximando cada vez mais do mundo das ideias. Olhou para o lindo copo que segurava. Seria esse o receptáculo cujo vidro serviu para entregar o veneno a seu pai?

Veja, o pai dessa matemática também era um matemático. Genética, talvez. Uma herança, uma maldição.

O fogo da lareira estava fraco, suas sombras se lançavam sobre o tapete de cor vinho. Lá fora, a noite era um cobertor molhado o qual deixava algumas gotas caírem sobre o vidro das janelas. Um chiado expelido por um antigo rádio vibrava o campo eletromagnético ao seu redor. Essa matemática suspirava de luto.

Aquela maldita casa, sozinha, apenas com suas lousas e com seus cômodos vazios, era de se esperar a morte de seu pai com tanta depressão quantitativa.

Do lado da lareira uma lousa branca armazenava algumas equações, umas estranhas expressões que a filha nunca conseguira identificar. Estranhos prazeres que seu pai amava calcular, algumas letras gregas, algumas incógnitas sem solução. Humildes números sem respostas, assim como a vida do matemático, seu próprio criador.

Uma lágrima salgada circundou a bochecha da filha, queria que seu pai estivesse aqui. Nunca pensou que falaria uma coisa dessas, estivera tão dedicada a fugir de casa, a viver sua própria vida, a contar suas próprias histórias. Agora, lá estava ela, a cética matemática vestida com um traje escuro do funeral recém efetuado, suja com a poeira dos mortos e úmida com lágrimas que nem mesma a mais escura nuvem poderia precipitar.

O som do rádio finalmente soltou algumas palavras, a matemática decidiu se levantar e jogar alguns galhos secos na lareira, enquanto alimentava o fogo, se perguntava quem naquele século ainda tinha uma lareira em casa. Só o seu pai mesmo.

Olhou de relance para uma foto dele pendendo em uma das paredes de tijolos antigas, sua barba branca de pensador, sua pose formal como a de um acadêmico, mas seus olhares cansados do final da vida.

Riu sarcasticamente, baixinho, está tudo bem em rir, não tem ninguém em casa para lhe julgar. Tentou forçar uma gargalhada, mas não conseguiu.

Lembrou-se do pai sentado naquela mesma poltrona avermelhada, lendo um de seus livros preferidos. Frankenstein, ou o Prometeu Moderno. Era realmente seu livro favorito, decorava páginas e páginas daquela obra e recitava suas bizarras anedotas para a filha, bem naquele lugar, bem naquela sala, em frente a lareira, e em frente aquelas lousas cheias de números.

A mulher acabou lendo Frankenstein por influência de seu pai, e quando disse que não achara nada demais, o homem irrompeu em fúria, como poderia ser a filha dele? Uma frase ancestral ressoou em sua mente.

Foi um exagero, uma bronca daquelas apenas por causa de um livro? Faria sentido aquilo?

A matemática levou a mão em direção a boca, onde seus dedos roçavam em seus lábios sempre que começava a formular uma hipótese. Logo suas unhas coçariam o seu couro cabeludo, desenvolvendo a tese, e então chegaria a conclusão com um estalo de dedos.

Tinha algo de errado, era como olhar para os dados coletados de um experimento bagunçado, as incertezas eram claras.

Se levantou e procurou o livro, Frankenstein… achou ele em uma das estantes, naquela mesma sala de estar. Seu pai tinha várias versões daquela horripilante obra. Amaldiçoou Mary Shelley por ter roubado o único homem de sua vida. Por que ele gostava tanto disso?

Folheou um dos livros e viu várias anotações, círculos, e até expressões matemáticas nas bordas das páginas.

Ele morreu louco, seu pai morreu louco. A matemática devolveu o livro como se o objeto pudesse sugar a sua sanidade, e tornou a se sentar na poltrona da reflexão. Outra lágrima fugiu da represa de seus olhos. Podia ser sensível agora, estava longe da academia, longe do lugar onde precisava parecer forte o tempo inteiro para que seus parceiros homens não a criticassem pelas costas.

Uma passagem preta e branca passou por seu hipocampo, outra memória perdida agora encontrada. Era seu pai mergulhado em seus estudos, folheava um livro sobre anatomia, analisava músculos e ossos, passando seus dedos enrugados pela superfície lisa da obra.

Por que seu pai estava lendo um livro sobre anatomia? Ensinava sobre a nobre Teoria dos Conjuntos na universidade, o assunto não tinha nada a ver com a biologia humana.

Lembrou-se de sua face recurvada sobre a imagem de um retrato de um corpo sem pele, uma ilustração horripilante. Os dois globos oculares na imagem olhavam diretamente para a pequena matemática quando se aproximara de seu pai. De acordo com sua memória vaga, ele tinha se assustado, olhou a filha como se não a conhecesse, parecia uma gárgula, um golem de carne de origens ancestrais, criado para a razão e para a lógica. Fechou seu livro tão rapidamente quando encontrou os olhos da filha e rastejou para seu porão, o lugar onde costumava passar seu tempo estudando.

Por que lembrou disso agora? Suas memórias conspiravam com seus sentimentos para lhe trazer a ruína.

O matemático foi um homem peculiar, mas havia algo mais…

A matemática se levantou de sua poltrona, começou a andar em frente da lareira, encarando o fogo como se ela fosse o primeiro hominídeo a o descobrir, seus dedos penteavam seu próprio cabelo escuro, estava agitada.

O porão, com sua porta carcomida e sua existência misteriosa. Tinha alguma coisa de estranho naquele lugar. A mulher pensou em explora-lo, nunca tinha descido naquele cômodo o que poderia acontecer? Seu pai já estava morto, seu enterro acabou de acontecer e a única coisa que morava naquela casa eram moléculas arranjadas de formas específicas.

Sem fantasmas, nem vibrações espectrais, apenas probabilidades.

Contudo, um medo antigo a suprimiu, não queria entrar lá. Recordava-se dos lances de escada de madeira, um leve brilho de uma vela no fundo do caminho íngreme, o bobo receio do escuro de uma criança na madrugada. Lembrou-se de uma voz, uma voz cuja origem a garotinha sempre imaginou ser de um programa de TV, afinal, seu pai também era humano e tinha os seus vícios midiáticos.

“…gire duas vezes no sentido horário, e três vezes no anti-horário! Basta dar o tranco e tudo vai dar certo, sim, tem que calibrar de uma forma… certa…”

Era a voz de um homem em meio a um chiado e pausas longas, como se citasse instruções em um livro de receitas.

O que estava pensando? Se deu conta das abomináveis teorias as quais possuíram a sua mente. O corpo de seu pai estava pálido e seco, prestes a apodrecer em um caixão embaixo da terra. Valia a pena refletir sua história naquele momento?

Prestara suas homenagens quando o encarou em seu descanso eterno. A tarde estava nublada e o cemitério estava cheio, mais cheio do que esperava. Lotado de seus companheiros de trabalho, professores e pesquisadores, a maioria homens e caucasianos. Olhou para baixo e viu o corpo morto de seu pai bem arrumado e elegante, sua mente por fim descansando depois de raciocinar por sua vida inteira.

Um funeral comum e esperado por todos.

Subitamente a chama da lareira estalou e a matemática estremeceu quando imaginou os olhos de seu pai abrindo de seu caixão, olhando para o céu e então para ela, agarrando a filha pelo braço enquanto suspirava palavras medonhas em seu ouvido. Tinha um giz na outra mão, riscava as roupas da filha procurando formar equações e engasgava em sua saliva repugnante. Todos os homens estavam sentados observando e discutindo a aula do professor morto, como uma discussão elaborado das leis racionais da morte. A matemática chorava em desespero, tentando se livrar de sua prisão. Finalmente o giz estalou e quebrou ao meio, então o cadáver vivo simplesmente torceu seu dedo e o quebrou com um som agoniante. Sangue escorria debaixo de suas unhas tortas e foi o bastante para que o homem continuasse seu cálculo, finalizando suas contas ao sangue.

Quando terminou seu seminário suspirou para a filha: “basta girar filha, basta girar…”.

A mulher deu por si chorando em frente as chamas da lareira. Devia ter passado alguns minutos em sua visão horrenda pois o fogo estava quase se esvaindo.

Mas logo parou de chorar, se virou, e olhou paras as lousas. Eram quatro na sala. Uma ao lado da lareira, duas perto do retrato de seu pai e a última de costas para a janela, onde as gotas deslizavam sobre o vidro e uma névoa duvidosa podia esconder quaisquer horrores da noite.

Puxou todas as lousas e as colocou lado a lado, pegou o giz, estremecendo, e se dedicou ao que nasceu para fazer. Seu pai a olhava do retrato, julgando cada movimento seu e criticando sua lógica.

Sua mão tremia e mais de uma vez se virou subitamente para encarar o vazio, pensando que algum observador estaria à espreita.

Um relâmpago quebrou o silêncio e iluminou a mente da matemática, outra memória veio à tona, uma visão, confirmando sua proposição.

Foi no verão, as férias em uma campina verdejante, o vento balançando a saia de sua mãe enquanto ela pintava um quadro belíssimo. Um paraíso.

Na época, a garota tinha encontrado um esquilo morto embaixo de uma árvore de galhos retorcidos e raízes emergidas. Ela o tocou com sua mão pequena, procurando ser cuidadosa, como se a suavidade pudesse lhe devolver a vida. Entregou o corpo ao seu pai, procurando respostas, mas ele apenas a olhou com um olhar seco e triste, era hora de ensinar-lhe uma lição importante sobre a morte, toda criança deveria aprender sobre o assunto.

Não foi isso que aconteceu, não houve aprendizado algum sobre a vida e a morte.

No final da tarde, quando as nuvens carregadas se aproximaram como garras no céu, a brisa suave cessou e a grama da campina permaneceu estática como um mar de espinhos, a matemática viu. Sua mãe pintava um quadro que agora parecia horripilante, seu pai se aproximou da mulher e a garotinha lembrava-se de sentir felicidade.

Mas agora, um frio percorreu todo o seu corpo quando a memória foi restaurada. No ombro do seu pai estava o maldito do esquilo. O animal morto cujo cadáver foi encontrado pela garotinha. Ele deveria… estar morto. Seu pai abraçou a sua mãe e a luz solar desapareceu com as nuvens. O quadro cheio de cores se tornou vermelho, símbolos matemáticos surgiram na pintura, insanos, incompreensíveis, impossíveis.

O esquilo olhou para a garotinha com os olhos esverdeados e artificiais, sua cabeça se movendo lentamente, não era mais um animal, era outra coisa. Uma incógnita, uma possibilidade.

Então a memória foi embora, o surto onírico levou a matemática a realidade. As lousas agora estavam completamente arrumadas e ordenadas, a chama na lareira era uma mera lembrança.

A equação foi solucionada. A matemática olhou para a incógnita, procurando entender. Girar duas vezes no sentido horário e três vezes no anti-horário.

Era um conhecimento ancestral, um conhecimento longe de qualquer tecnologia moderna. Não deveria estar ali. A humanidade não estava preparada para aquela ciência. A morte era o infinito e nenhum humano pode entender o infinito.

Se a mulher tinha entendido aquilo completamente, não podia mais parar, o porão estava a sua espera.

Deixou a sala, deixou aquele lugar que para sempre marcaria sua vida, a lareira apagada… a janela enevoada, as lousas com as equações solucionadas e o quadro vigilante do pai.

A porta do porão era de madeira e estava trancada com uma pesada fechadura. Não possuía a chave, aquele umbral nunca mais seria ultrapassado, os segredos foram perdidos junto com a morte de seu pai.

Quase desistiu, entretanto, ouviu.

Um ruído, um súbito som foi detectado pela matemática. Não é possível, quem estaria fazendo sinistras conspirações no porão abandonado de seu pai? Jurou ouvir a voz, a tão familiar voz robótica da TV, exclamando instruções para o fantasma do matemático.

Apesar do medo, apesar da agonia crescente que tentava impedir a mulher de se mexer, houve um impulso da curiosidade, do mistério, e tornou a se mover. Procurou cada centímetro da casa, cada gaveta, cada escrivaninha de madeira, atrás de cada quadro. Correu como se sua vida dependesse disso, e então encontrou.

De alguma forma, sempre soube que poderia encontra a chave do porão, mas inventava desculpas em função de seu medo. Agora não havia volta. As chaves estavam escondidas no fundo falso de uma gaveta, e em menos de cinco minutos a mulher girava os mecanismos da fechadura e ouvia o som do trinco se movendo.

A porta se abriu lentamente, e um lance de escadas íngremes e suspeitas a esperava.

Como um sonho, como uma marcha do mundo ideal, ela desceu os degraus um por vez.

O som aumentando, a voz se tornando distinguível, as equações em sua cabeça.

“Gire…basta girar, você… consegue. ” A voz sinistra continuava seu ritual.

O porão estava cheio de caixas, escondidas na escuridão. A única iluminação provinha da mesma vela cuja existência era constante naquele porão. Uma bagunça, objetos jogados por todos os cantos, a madeira a sua volta rangendo, e os passos e guinchos das ratazanas dentro das paredes.

Em um canto escuro, a TV estava ligada, pequena e antiga. A interferência em sua tela era cinza e luminosa.

Em pé, como uma sombra alta e esguia na escuridão, estava a fonte da voz robótica. A matemática não conseguia distinguir suas formas por completo, e agradeceu por isso. Pois tinha certeza que se observasse por completo, iria ficar insana, assim como seu pai. Presumiu que era a morte. Sua sombra não tinha braços, mas duas magras pernas podiam ser distinguidas no porão. Tinha um rosto, o qual abrigava uma luz vermelha oscilante, o que seria suas costas estava curvada sobre o teto.

Em poucos segundos, a matemática não respirava mais, como podia? Suava, ofegava, e em sua frente, a própria forma da morte. Sentiu lágrimas tocando seus lábios novamente, mas teve medo de expressar seu sentimento.

Sentado ao lado da TV, e da criatura incompreensível, em uma poltrona suja e rasgada, estava seu pai, completamente nu, a gárgula morta-viva. Vivo, enfim, vivo.

Em seu peito, uma luz vermelha oscilante, engrenagens e formas cuja engenharia o ser humano nunca entenderia, uma manivela.

A luz vermelha da criatura apontou para a recém-chegada.

“Gire, criança, gire para ele. ”

A voz saia de todos os lados e tremia a sala.

Com passos curtos, a matemática se aproximou do corpo de seu pai na poltrona, o corpo da mulher se tornando vermelho quanto mais se aproximava devido a única luz incidente.

Girou, duas vezes no horário, e duas vezes no anti-horário, a manivela empurrando o peito do pai, fazendo as engrenagens trabalharem, o fazendo gemer como um animal. Seus dentes batendo e seus músculos se contraindo.

Quando terminou, seus olhos se abriram, o olhar amarelo e escuro do matemático encarou a sua alma, não era vida, não era morte, não era seu pai, era uma incógnita.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C2.