EntreContos

Detox Literário.

KIRAI! (Sakka)

 

Chovia intensamente quando Toninho acordou banhado em suor. O garoto levantou e foi até o banheiro trocar de roupa e secar o suor na toalha de rosto. Ele sabia que sua mãe ficaria brava, mas o que ele podia fazer? Ficar molhado a noite toda? Fez xixi e voltou correndo para a cama, os raios iluminavam o quarto de tempos em tempos e ele sempre teve medo destes flashes no meio da escuridão. E se aparecessem ‘coisas’que não podiam ser vistas pelas pessoas nestes momentos? Toninho queria correr de olhos fechados, mas isto não era possível, tropeçaria em alguma coisa. Enfim, o menino conseguiu voltar para baixo de seus cobertores e ali, seguro e aquecido e seco, tentar não pensar no sonho que tivera, aquele sonho repetitivo e assustador e do qual ele jamais falara com alguém.

Naquela semana, como em várias outras daquele ano, a família de Toninho se via envolvida num assunto sinistro. Quantas famílias no mundo presenciavam mortes de crianças, sem serem da área médica, nem trabalharem com orfanatos ou qualquer atividade ligada a crianças? Pois é, mas eles estavam repetindo um padrão e isto os assustava. A família Gairaldi era numerosa, morava num casarão antigo comprado pelo chefe da família, Sr. Antonio, num leilão muito proveitoso. Era constituída pelo casal e cinco filhos e com eles moravam duas sobrinhas que vieram do interior e um primo solteiro que se oferecera como um zelador para ter a manutenção do casarão sempre em dia. Na verdade, Lúcio era um babá para as crianças Gairaldi.

 

— Querido, você verá os advogados hoje? — D. Ernestina indagou enquanto servia a xícara de café com leite ao marido.

— Sim, meu bem. São os últimos trâmites para darmos fim a mais este caso escabroso.

— Vontade de não falar mais disso, sabe, Antonio. Fico muito nervosa! E as crianças percebem, andam tão agitadas que é difícil fazê-las dormir.

— Agora já passou. Vamos esquecer.

— Desde que não aconteça de novo, né tio? — Manuela entrou na sala, silenciosamente, como sempre fazia para poder escutar o que se conversava e se intrometer. Era sua marca pessoal.

— Manuela! Não fale isso, veja o que você faz com sua tia! — Exclamou Sr. Antonio, correndo para salvar a geleia que quase escapara das mãos de sua esposa.

— Se acontecer novamente, juro que morro! — a pobre senhora, saiu esbaforida para chorar em seu quarto.

O marido soltava olhares repreensores para a sobrinha enquanto ocupava-se, ele mesmo, de rechear seu pãozinho com a geleia de laranja, suspirando de alegria por tê-la salvado de um desastre. Desperdiçar aquela guloseima seria realmente uma tristeza.

 

Lúcio fôra liberado para limpar o terreno onde o pequeno corpo foi encontrado,  ele fez um belo serviço de jardinagem logo de manhã bem cedo para que as crianças quando viessem brincar não lembrassem do que houvera ali. Embora ele as despistasse para correr e atazanar noutros lados da propriedade, mas, crianças, parece que são onipresentes em todos os recantos.

E lá vieram elas, na correria, acompanhadas de perto por Susana, a prima companheira das brincadeiras e travessuras. A especialidade dela era acobertar as traquinagens com o intuito de não amofinar D. Ernestina, a pobre tia era tão nervosa! Lúcio julgava nunca ter visto criatura mais pacienciosa do que Susana, ela havia nascido para ser mãe…

— Tudo certo por aqui? — A moça vinha ofegante depois de afugentar alguns dos infantes fingindo-se de monstro que persegue criancinhas.

— Sim, Lúcia. Parece que nada aconteceu, o jardim está até mais vistoso nessa manhã, a chuva fez tudo rejuvenescer!

— Que bom! Agora vamos tratar de entreter estes anjos até a hora do almoço.

 

Naquela manhã, como sempre, Toninho brincava com os irmãos, mas notava-se um esforço da parte dele em participar da algazarra. Volta e meia ele sentava-se no chão e ficava olhando ao longe, até ser empurrado pelos outros a brincar. Isto não passava despercebido por Lúcio e Susana, nestes dias, eles sempre procuravam conversar com o garoto, mas este não dava margem para nenhum assunto. Lúcio pensava que poderia ser devido aos casos das crianças encontradas por ali, o menino estava crescendo a percebendo muito mais os acontecimentos.

À noite, o sonho tinha se repetido e o menino não conseguia pensar noutra coisa. O rosto desfigurado coladinho no dele, o hálito quente e mal-cheiroso tão perto, quase tocando a pele de Toninho e o grito tão agudo e tão nítido: ‘Kirai!’ e aquele ser que parecia ser uma menina com cabelos compridos e negros, voava de costas em direção à janela e esta se quebrava num estrondo espalhando estilhaços por todo o corpo de Toninho. Ele olhava pra si mesmo, ensanguentado e coberto de cacos de vidro cravados em seu peito e braços e pernas mas não sentia a dor dos cortes. Só o pavor. O garoto acordava certo de que todos viriam socorrê-lo, mas ninguém vinha e ele também não gritava, tinha medo de que acabaria chamando a assombração de volta.

 

— Sr. Antonio, minha sincera recomendação é a de que o senhor pense em se mudar desta moradia. Não pode fazer bem para sua família conviver com esta situação.

— Caro, doutor advogado, apesar disto ser extremamente desagradável seria muito difícil eu conseguir outra propriedade num curto espaço de tempo.

— Ademais, o senhor precisaria encontrar algo aqui na cidade mesmo. As investigações precisam que toda a família esteja sempre acessível a prestar depoimento. Quem sabe uma saída temporária, uma casa alugada?

— Vou conversar com minha esposa, mas, sinceramente, não vejo muita possibilidade de fazer isto. Essas coisas demoram e os traumas permaneceriam tanto numa casa quanto em outra. O doutor acha que estes corpos não cessarão de aparecer no meu quintal?

— Não há como saber! É um mistério total e além de tudo as suspeitas recaem sobre os moradores do casarão, especialmente os homens.

— Eu e Lúcio. Eu sei. Se saíssemos e os crimes continuassem a acontecer, tirariam as suspeitas de cima de nós…

— A priori, diminuiria as chances de serem vocês os causadores das mortes.

— Mas estas crianças mortas nem são daqui da região!

— É um fator bastante atenuante para vocês, uma vez que nenhum de vocês tem viajado nos últimos tempos.

— Que mistério, meu Deus! — Seu Antonio, descansou a cabeça entre as mãos num gesto derrotado.

 

Dos tempos e dimensões o que pode o homem saber? Tocaias e isolamento do local, não evitaram com que os corpos aparecessem no jardim do Sr. Antonio. Um por vez. Vigiaram as entradas e saídas da cidade, investigaram a colônia japonesa em São Paulo mas não possuíam muitos recursos, sequer recursos humanos para uma operação pente fino mais apurada. O foco principal seria flagrar o crime, então o revezamento de policiais nos arredores e dentro dos jardins do casarão era constante. Porém até mesmo as autoridades já cogitavam algo sobrenatural.

O que ninguém podia ver era o momento exato em que um corpo de uma criança de descendência japonesa, a julgar pelas características, aparecia jogado ao chão, entre os arbustos, onde havia pouca iluminação. Os peritos concluíram que as crianças eram, literalmente, atiradas pois a queda causava uma  depressão no solo e seus rostos desfiguravam-se parcialmente com o impacto. Na verdade, eles chegavam ali já mortos, chegou-se a um consenso de que morriam em torno de duas horas antes de serem desovadas no pátio da família Gairaldi, por asfixia.

 

No começo da semana Lúcio costumava fazer compras para a família no empório do centro da cidade. Sempre eram necessários novos utensílios, apetrechos para consertos, brinquedos e guloseimas para encher a despensa. Ele nunca prestara atenção, mas havia estatuetas de tamanho médio para jardins naquela loja, enquanto andava pelo corredor onde elas estavam dispostas ao chão foi pensando que aquilo poderia divertir as crianças e de repente, Lúcio percebeu que havia algumas de deuses japoneses.

Havia um folheto explicativo em cada estátua de um Deus japonês: ‘EBISU — Patrono do trabalho, é também guardião dos agricultores, assim como das crianças pequenas no Japão.’, ao ler isto, o rapaz teve uma ideia. Ao chegar a casa, ele foi logo conversar com D. Ernestina.

— Prima, você sabe que eu vi no empório hoje? Uma estátua japonesa…

— Nossa, Lúcio! Não quero saber de nada dessa gente, pra que tocar na ferida? Eu mereço isso? — Ela já começava a tremer ao lembrar da procedência das crianças misteriosas.

— Calma, Ernestina… É um Deus deles… diz que protege as crianças. Entendeu? Quem sabe ele traz paz para esta casa, prima?

— Uma estátua. Vai trazer paz? Deixa Antonio saber disto…

— A estátua pode nada fazer, mas o que ela representa, quem sabe afugenta o criminoso?

— Hum.. ele pode ver e perceber que há proteção nessa casa. É isso que pensas, primo?

— Mais ou menos isso. — Lucio respondeu com um sorriso condescendente.

— Pois, compre! Coloque lá naquela área onde tem os arbustos malditos, antes que eu os mande cortar todos fora!

 

Uma semana se passou, a vigilância continuava ativa nas imediações do casarão mas a família tentava seguir seu ritmo normal, até mesmo seu Antonio, evitou falar com o advogado e sequer cogitou novamente a ideia de mudar-se. Ele não admitiria, mas estava um pouco confiante de que a estatueta comprada por Lúcio poria fim ao pesadelo. Em seu desespero acreditava em tudo, ele mesmo se consolava assim. Porém, o destino seguia seu plano tétrico e numa manhã nebulosa de quarta-feira, ouviu-se o baque já conhecido. Era outro corpo infantil que caía no jardim…

Todo alvoroço e correria novamente,  policiais e peritos por todo lado e alvoroço na cozinha preparando chás e infusões para acalmar D. Ernestina à beira de um colapso.

Quando Lúcio foi vê-la no quarto onde estava refugiada e assistida por uma empregada que lhe fazia compressas na cabeça, ela apenas disse, num resmungo:

— Essa sua estátua, hein, Lúcio… — E fechou os olhos desejando só abri-los novamente quando tudo tivesse passado.

 

“O oceano estava calmo, suaves ondas chegavam à praia num marulho gostoso de se ouvir. Uma brisa beijava o rosto de Toninho que sorria. Chamou sua atenção uma figura saindo de dentro d’água,  era um homem e ao menino lhe pareceu familiar a medida que se aproximava. A criança estava fascinada com aquela figura, ele trazia um grande peixe aos ombros e um enorme sorriso no rosto.

Ele disse: Aishiteru! E abriu os braços para abraçar Toninho.”

Neste preciso momento o menino acordou. Demorou dois minutos para lembrar-se de onde conhecia aquele homem e de um salto vestiu as chinelas e correu para o jardim. Parou em frente à estatueta, instintivamente lhe fez uma reverência e disse:

— Bom dia, Ebisu! — Abrindo os braços e completando o gesto que não pode ser realizado no sonho.

Ficou um bom tempo olhando com carinho para a divindade a sua frente o sentimento era de amizade. Depois sentou, nunca tirando os olhos do novo amigo e de repente, ele viu o mesmo homem que vira saindo do mar. Não era uma estátua, ele sorria e sentou também e começou a falar…

— Minha criança, você tem sofrido bastante com uma visita bem feia que vem lhe ver durante a noite, não é? Ela é uma Onryo, ela está muito triste e por isto vem incomodar você. Mas eu quero que você saiba que ela vai parar de assustá-lo, minha criança. Agora eu vou cuidar de você e de seus irmãozinhos.

— Por que ela está triste? Por que ela é tão feia? Eu tenho muito medo!

— Ela foi muito machucada, por isto parece ser feia. Por isto que ela é triste, muito triste. E esta tristeza deixa a Onryo brava, muito brava.

— Mas não fui eu quem a machuquei!

— Não, minha criança. Isto aconteceu há muito, muito tempo atrás e foi num lugar muito, muito longe daqui. Mas você já esteve lá e ela pensa que você é uma das pessoas que a machucou. Mas, ela não pensará mais isto. Eu vou mandá-la embora.

— Obrigada, Ebisu. Isto é tudo o que eu mais quero. Que ela vá embora! E, agora, você é meu amigo?

— Sempre, minha criança, sempre amigos…

O menino pensou um pouquinho, olhando para o chão.

— Eu nunca fui a um lugar bem longe daqui. — E olhou de um jeitinho indagador a Ebisu.

— Foi há muito tempo atrás, menino. Você não consegue se lembrar.

— Ah…

 

A família havia despertado e deu pela falta do menino, Manuela foi quem o encontrou conversando com a estátua. Sem fazer ruído, ela ficou ouvindo as palavras de Toninho e se aproximou…

— Garoto, você está conversando com quem? – Ela perguntou num tom calmo, quase sussurrando.

— Com meu amigo Ebisu.

— Posso conversar com ele também?

Toninho que olhava sempre para o homem sentado a sua frente, perguntou a ele:

— Manuela pode ser sua amiga também?

— Claro, minha criança.

Toninho disse a Manuela que fizesse a reverência. A moça não entendeu, então o menino fez o gesto e ela estranhou, mas repetiu.

Ela olhou para a estátua, pois não via o homem sentado e perguntou:

— O senhor sabe quem são as crianças que são encontradas neste jardim?

Ela esperou, mas não ouviu nada.

— Toninho, ele me respondeu?

— Claro. Você não ouviu?

— Não.

— Ele disse que a Onryo os joga aqui, eles vem de muito, muito longe. Ela está muito brava. E triste, muito triste. E quer ver todo mundo triste também e assustado.

— Quem é Onryo?

Toninho lhe explicou tudo o que a divindade lhe dissera. E que seu amigo Ebisu iria mandar a Onryo embora.

— Então, as crianças vão parar de aparecer aqui?

Ele balançou a cabeça dizendo que sim.

— Ah, que bom, priminho querido! Você é especial, sabia? — E Manuela o abraçou com muito carinho.

— Então, você tinha estes sonhos horríveis e não contou nada para ninguém?

— Não.

Lúcio apareceu procurando por Toninho, a moça pediu para que o menino entrasse para tomar café porque ela precisava conversar com o rapaz.

 

Semanas depois, com a vida tendo voltado à rotina e as suas preocupações normais, D. Ernestina lembrou-se se indagar:

— Antonio, você vai providenciar o ginásio das meninas? Elas estão na idade de ingressar.

O marido, levantando os olhos do jornal matutino, observou Susana servindo seu suco, seus olhos se cruzaram.

— Estamos ansiosas para voltar aos estudos! — Disse Manuela, voltando da cozinha.

— Sim, queridas. Mês que vem abrirão as matrículas. Não me descuidarei de vocês, fiquem tranquilas.

 

Chovia intensamente quando Susana acordou, aos gritos. Os adultos correram a acudi-la. A moça olhava para si mesma, com os olhos arregalados e chorando copiosamente.

— Eu estou ferida, ferida!

Lúcio dizia, repetidamente, que não, que fora apenas um sonho. Mas ela chorava sem parar. D. Ernestina saiu e voltou com um copo de água com açúcar. Só depois de bebê-la foi que a moça conseguiu falar mesmo tremendo muito:

— Havia uma menina aqui! Era horrível, o rosto todo machucado, mas ela gritou alguma coisa e voou até a janela e os vidros quebraram… Os cacos me cortaram toda, havia muito sangue!

Susana voltou a chorar, recebendo o abraço de Seu Antonio.

— Foi um pesadelo, já passou.

Manuela e Lúcio trocaram olhares, afastaram-se e chegando à porta, sussurraram ao mesmo tempo:

– Onryo!

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C2.