EntreContos

Detox Literário.

Faca de Prata (Freddy)

— Esse hambúrguer está delicioso! O melhor que já comi na minha vida!

— Cris, você falou a mesma coisa outro dia do hambúrguer caseiro que a sua amiga fez.

— É mesmo… estava muito bom! Mas esse aqui está melhor. Só não sei se é o tempero ou o sabor da carne…

— O meu também está muito bom, mãe.

— Deixa eu provar?

Christiane não aguardou resposta, puxou o sanduíche da mão da filha e cravou-lhe uma dentada.  Mastigou lentamente, os olhos apertados, uma expressão afetada, como se fosse capaz de distinguir nuances de sabor entre ingredientes ou cortes de carne.

— Excelente!

Dessa vez sem introdução, invadiu o prato do marido armada com seus garfo e faca. Ele havia pedido o dele no prato. Cortou um naco só da carne deixando o pão de lado e lambuzou-a no molho amarelado. Sem ação, ele a olhou com uma expressão de espanto e desgosto misturados.  

— Que absurdo, Christiane! Falta de educação!

— Paro o meu gosto, exagerou um pouquinho no alho, mas talvez seja o molho — a mesma cara afetada enquanto mastigava — A textura está perfeita! Gordura na medida exata!

Era a primeira vez que iam àquela hamburgueria, indicação de um podcast de gastronomia que Christiane acompanhava. Havia sido inaugurada há alguns meses e ficava em uma ruazinha escondida na zona oeste da cidade.

 

Oito meses antes, no Faca de Prata

— E aí? Que tal?

— É muito bom mesmo!

— Eu conheço esse lugar aqui há tempos. Antes era um rodízio normal. Carne boa, mas nada demais. De repente começaram a servir esses hambúrgueres que são simplesmente fantásticos. Já perguntei o segredo ao cozinheiro. Ele ficou rindo, disse que eles chegam embalados, o trabalho dele é só colocar na grelha e assar até o ponto certo.

— É, o ponto está perfeito! Bem rosadinho, suculento… muito bom! Mas o diferencial mesmo é o sabor da carne.

Ângelo havia convidado o amigo, dono de uma rede de restaurantes em São Paulo, para conhecer os hambúrgueres do Faca de Prata, restaurante de beira de estrada por onde ele passava — e ultimamente parava quase sempre para comer —  no caminho entre a fazenda pacata onde trabalhava e o fim de semana de excessos na capital.

— Então? O que você acha de fazer uma experiência em um dos seus restaurantes?

— Pode ser. É uma ideia. Todo mundo deu para gostar de hambúrguer agora, não é mesmo?  

Cristiano queria mudar de vida, uma sociedade com o amigo bem-sucedido era uma hipótese. Seu plano ganhava forma.

— Ótimo! Muito bom! Vou atrás dos contatos. Mas antes vou trazer você aqui de volta para experimentar as outras opções do menu. O Três Porquinhos é um espetáculo!   

Havia quatro opções de hambúrguer no menu:  Papa Figo, Peter Pan, Três Porquinhos e Rapunzel.  O Três Porquinhos era um combinado de três mini hambúrgueres de 70 gramas servidos com batata frita e salada. Cada um com um sabor especial, era a o que prometia o texto do cardápio.

 

Tudo começou por acaso

Na terceira vez que estupraram a funcionária — os três, um em seguida ao outro, do mais velho para o mais jovem —  a mulher parou de respirar.

Precisavam sumir com o corpo, não sabiam qual seria a reação do pai.

Talvez por influência do ambiente —o sangue mal lavado do chão, o cheiro, alguns ossos espalhados — decidiram esquartejá-la, desossá-la, fatiá-la e misturá-la à carne que levariam para o restaurante no dia seguinte.  

Mas não deram conta de fazê-lo. Entendiam de bois e de vacas, desossar uma pessoa e depois transformá-la em peças assáveis em um forno de churrascaria era outra história. Foi o mais novo que deu a ideia de transformá-la em hambúrguer. Misturar a carne da mulher com alguma peça de segunda do último novilho abatido e processá-las juntas no moedor industrial que haviam acabado de comprar.

Preparadas duas dezenas de hambúrgueres, guardaram o resto da carne no frigorífico. Trituraram os ossos para mais tarde misturá-los à ração dos cavalos. Os cabelos longos, enterraram. Diriam ao pai que a mulher havia fugido caso ele desse por sua falta.  Aos demais empregados diriam qualquer coisa, se eles tivessem a curiosidade de saber e a ousadia de perguntar por ela.

 

Rapunzel  

Assim a chamavam por causa dos cabelos exageradamente longos. Era falsa magra e de idade incerta. O patrão a havia acolhido quando ela batera à porta, um filho pequeno no colo, fugida do marido bêbado que a espancava.

Braço bom para o trabalho, primeiro colheu cana, depois ordenhou vaca, por último limpava a sujeira do abatedouro depois que os rapazes terminavam. Não recebia salário, seu pagamento era a morada, a comida e mais trabalho. Nunca descansava.

O menino, seu filho, morreu rápido de um resfriado repetido mal curado. O barraco úmido onde dormiam, a comida pouca e o remédio que não havia não permitiram que se curasse.

Quando os filhos do patrão abriram a garrafa de pinga naquele dia, ela já sabia o que viria em seguida. Só não sabia que não seria forte o suficiente para aguentar.

 

Não deu para quem quis

A novidade do hambúrguer agradou em cheio o paladar dos caminhoneiros frequentadores do Faca de Prata. Assado na brasa, foi acrescentado como item do rodízio. Já no primeiro dia, não deu para quem quis, quem provava pedia mais. Nos dias seguintes, o desempenho foi igual.

Porque a carne de Rapunzel minguava e tendo notado que o tom amarelado da gordura entremeada em suas partes mais nobres se assemelhava ao das carnes das vacas mais velhas, os irmãos resolveram abater uma velha vaca, cujo leite do último bezerro já havia secado. Os novos hambúrgueres feitos da vaca senhora, entretanto, não tiveram a mesma performance. Sobravam nos pratos, desperdiçados ao lixo no final.

Experimentaram então outras combinações de carnes e gorduras, misturando inclusive partes nobres de novilhos, machos e jovens. Mas os clientes persistiam mal provando os hambúrgueres, preferindo ao invés deles comer carne de verdade ainda que de segunda classe.

O certo teria sido desistir dos hambúrgueres, mas eram muito mais econômicos, rendiam um aproveitamento bem melhor da carne. Além disso, tinham trazido novos clientes para o Faca, fora o que o pai notara na sua função de supervisionar o caixa. De modo que ele, o pai, que não era homem de dar passo para trás, disse aos filhos que tratassem de dar um jeito de reproduzir o sucesso das primeiras carnes processadas.

Foi o irmão do meio quem teve a ideia de procurar entre moradoras de rua da metrópole mais próxima mulheres nem gordas, nem magras, tampouco muito passadas na idade, cujos rigores da vida dura de rua não tivessem maltratado por demais a maciez da carne. Oferecia trabalho, comida, morada e a mulher entrava no carro. A princípio, recrutava uma por dia, mas com o crescimento da clientela do restaurante, passou a duas ou três, a depender do estoque e da disponibilidade nos becos por onde passava.

 

O Papa-figo

Estava na fazenda desde que os meninos eram pequenos. Um molecote nessa época, mas já forte para a idade, muito servil, vesgo e feio como a desgraça. A mãe costumava pôr medo aos meninos dizendo que ele era o Papa-figo, os roubaria se eles não se comportassem. Fora da mãe também a arte de chamar Rapunzel à moça dos longos cabelos despropositados, maltrapilha, com o filho no colo, que chegou à fazenda anos mais tarde.

Papa-figo chorou a morte do menino de Rapunzel mais do que ela própria. Para ela, um alívio ver findado o martírio do filho.  Para ele, a tristeza de ver mais uma criança não vingar.

Não se conformou quando lhe disseram que Rapunzel tinha ido embora. Sem se despedir dele? Foi difícil acreditar, mas não convinha insistir, perguntar mais. Os rapazes que um dia o haviam temido, crescidos, o tratavam como nada.

Desconfiado com o fluxo de mulheres andrajosas pela fazenda, acabou tendo a falta de sorte de espiar por uma fresta o abate de uma delas. Descoberto em sua curiosidade nefasta, acabou também ele — pela primeira vez um homem — fatiado e picado. Sua carne máscula foi misturada à de uma vaca bem jovem, abatida porque estéril e portanto imprestável, ao invés de à alcatra de um novilho macho. A ideia da combinação, digamos, cruzada, foi do irmão mais velho, intuindo que a harmonia do hambúrguer resultante residia em certo contraste entre as texturas das carnes mescladas.

Daí a entender que a maciez da carne variava ao sabor dos hormônios e que esses dependiam de idade e sexo, foi o próximo passo. Desse entendimento surgiram novas experiências com crianças e adolescentes resultando no delicioso “Três Porquinhos” e no “Peter Pan” com seu sabor exótico.

 

Um nicho no canto da sala

Embora achando que algo estranho se passasse no pequeno abatedouro da fazenda, o pai só soube em detalhes de que eram feitos os hambúrgueres quando a fama do Faca de Prata já havia se espalhado e o movimento havia praticamente dobrado.

Coube ao filho do meio, dentre os três o que tinha mais tato, contar ao pai em detalhes o que se passava. Da janela dos fundos da sede da fazenda, a mãe observou-os conversando, sentados à sombra da mangueira mais frondosa da propriedade, e viu quando o marido se levantou agitado, começou a andar de um lado para o outro gesticulando desordenadamente e levando as mãos à cabeça parecendo bem perturbado.  

Quando contaram a ela a história, sua reação foi bem mais calma e sensata. Lembrou-se prontamente das pequenas melhorias feitas recentemente na casa graças ao aumento da receita do restaurante e também de outra, futuras, algumas já orçadas, como a impermeabilização da parede mofada do seu quarto, causa de sua rinite incurável. Para surpresa de todos disse contrita, olhos voltados para a Nossa Senhora e o Cristo crucificado aprisionados em um nicho no canto da sala, que servir como alimento era um fim nobre para aquelas pessoas sem perspectiva, melhor do que consumir a vida inutilmente vagando pelas sarjetas, sem teto e sem trabalho.

 

Angel Burguer  

— Então? O que o senhor acha da proposta?

O dono do Faca de Prata havia relutado um pouco antes de revelar para Ângelo que os hambúrgueres eram feitos em sua propriedade, um produto familiar concebido e executado pelos filhos. Feita a proposta de fornecer o produto para a hamburgueria prestes a ser inaugurada em São Paulo, ficou de pensar, consultar a família e mais tarde dar uma resposta.

A expectativa de demanda alta não assustou os filhos, nessa altura já tinham vários pontos de coleta de matéria prima em diferentes cidades próximas e haviam acabado de construir um pequeno galpão para acomodá-la enquanto aguardava o abate. A mãe deslumbrou-se com a perspectiva de lucros, atrevendo-se a sonhar em um dia, quem sabe, ir morar na capital.

Ao invés de servir o hambúrguer em um de seus restaurantes, o amigo de Ângelo havia decidido abrir uma hamburgueria, aproveitar a moda afinal, e convidou Ângelo como sócio. O empreendimento prosperou rápido. Casa lotada a semana inteira e filas às sextas e sábados.

No cardápio, os mesmos quatro tipos de hambúrgueres que eram servidos no Faca de Prata. Os nomes vinham identificados nas embalagens entregues pelo fornecedor todos os dias, no começo da tarde.

 

Náusea

Alguma coisa obstruía sua garganta. O ar não chegava aos pulmões, também não conseguia gritar. Alcançou com a ponta dos dedos aquilo que a sufocava. Era macio, com o indicador e o médio em pinça conseguiu puxar uma parte. A massa úmida e lúbrica escorregou pela língua até os lábios, um sabor metálico, mas a sensação de asfixia continuava. Puxou a coisa na direção dos olhos. A aparência era de cabelo emaranhado grudado. O cheiro, de sangue passado.

Acordou tossindo para afastar a falta de ar, o coração acelerado. A impressão da coisa nojenta na boca persistia quando sentou na cama, mas entre os dedos não havia nada. Olhou o celular, ainda faltava meia hora para o despertador tocar.

“Será que foi o hambúrguer? ”, pensou. Uma náusea fez sua boca encher de água. Resolveu levantar.

Christiane era agente da polícia federal e aquele era seu dia de plantão na delegacia que distava cerca de cento e cinquenta quilômetros de sua casa. No caminho, teve que parar o carro duas vezes para vomitar. Fez algumas contas e concluiu que havia, sim, a possibilidade de estar grávida.

Acabou chegando bem atrasada ao posto de trabalho. Por conta disso, não participou da ação em uma fazenda próxima, resultado da investigação sigilosa de denúncias de trabalho escravo e irregularidades graves no abate de animais.

A operação durou o dia inteiro, mas nenhuma informação lhe chegou pelo celular ou pelo rádio. Só teve notícia do acontecido quando, muito abatido, o colega de plantão voltou. Tinha participado da operação e havia sido dispensado de passar a noite na delegacia, mas não se considerava em condições de dirigir de volta para casa.

Ouviu aterrada sobre o horror na fazenda. Homens, mulheres, adolescentes e crianças de todas as idades, inclusive bebês de colo, andrajosos e famintos, amontoados em um barracão de paredes úmidas, mais precário do que o curral onde ficavam as vacas e os bois recolhidos do pasto.

O colega descreveu em detalhes — olhos fixos, tristeza e asco em sua expressão conturbada— o estado do galpão onde funcionava o abate: os dois corpos humanos esquartejados, sangue, vísceras e ossos por todo lado. Uma bestialidade, sorte dela ter se atrasado.

Antes de mostrar as fotos do frigorífico, contou sobre os hambúrgueres que eram produzidos com a carne humana misturada à do gado. Inicialmente servidos apenas no restaurante da família, o Faca de Prata — um muquifo de beira de estrada que ela certamente já havia notado —  há poucos meses haviam começado a fornecer para uma hamburgueria chique na zona oeste de São Paulo. Nas fotos, as peças de carne pendiam em ganchos, presas a etiquetas grosseiras. Numa delas, o nome bem nítido do hambúrguer -– Papa-figo — que ela havia escolhido no exótico cardápio do Angel Burguer, o restaurante descolado onde na véspera havia jantado.

Christiane tombou da cadeira sem sentidos, só iria acordar dois dias depois, em choque, em um hospital próximo à sua casa. Jamais explicou o motivo de seu desmaio, nem para o marido nem para os terapeutas que a acompanharam até que conseguisse voltar a comer, o que talvez só tenha acontecido porque no hospital confirmou-se a suspeita de que estava grávida.

 

Epílogo

O bebê de Christiane nasceu sem antecipação ou atraso. Estrábico e feio como a desgraça, arrancava sangue do peito da mãe toda vez que mamava. O que Christiane não sabia era que a mesma feiura e estrabismo, além da atitude faminta e agressiva ao mamar, era comum a outros bebês espalhados pela cidade e que um dia eles se encontrariam e formariam, para o bem e para o mal, uma espécie de irmandade.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.