EntreContos

Detox Literário.

Uma Floresta Alucinante (Samuel Ramos)

 

Enquanto assistia a criatura comer o cadáver de um desconhecido, seu rosto assumiu uma expressão cartunesca. Os olhos aumentaram, as pálpebras encolheram e o cérebro perguntou: “que merda é essa?”.

“Não vê que é um javali?”, seu lado lógico respondeu. “Uma criaturinha desgraçada, feroz em uma luta, deliciosa em um banquete”.

Só que aquele não era um javali comum. Tinha quatro ou cinco vezes o tamanho de um homem, fazia um som que mais parecia uma trova tocada pelo demônio e tinha um certo prazer por carne humana.

O javali arrancou a cabeça e mastigou. O barulho do crânio partindo fez Broman tremer.

“Pelo topete de Barth”, sussurrou entre dentes.

Lentamente tentou voltar. Nem em um baralhal de anos conseguiria vencer aquela coisa. O terreno não lhe favorecia, era estreito demais, acabaria esmagado em uma árvore, seria um fim deveras melancólico para Broman, o bárbaro.

Só lhe restava a fuga. Não gostava daquilo, não era um covarde. Broman era conhecido por esmagar crânios, decepar membros e derramar o sangue de seus inimigos como se fosse uma tarde de bebedeira. Lembrou o que ouviu certa vez numa taberna: “É melhor viver como um covarde do que morrer como herói”.

Besteira! Que tipo de imbecil não ia querer uma morte heroica? O
sonho sempre fora morrer em uma batalha gloriosa e ganhar o favor dos deuses.
E onde tinha glória em ser esmagado por um javali gigante no meio da floresta?

Por sorte estava numa posição favorável, o vento soprava na
direção oposta ao javali, se fosse rápido, a criatura não captaria seu cheiro. Deu dois passos para trás quando escutou um risinho.

Broman viu os olhos vermelhos do javali faiscarem com a luz da lua. O porcão começou a ter espasmos, como se tivesse um ataque epilético, debilmente, o focinho formou um sorriso macabro.

“É claro”, pensou o bárbaro. “Uma criatura do inferno.

A floresta foi tomada por uma onda de destruição, o javali parecia mais uma catástrofe, ele lançava árvores para o alto como se fossem simples gravetos. Broman forçou 100% da sua capacidade, mas não era o suficiente, o javali se aproximava.

“Rameira que me partejou!”, gritou saltando no tronco de uma árvore, com um rápido impulso, mudou de trajetória. Em menos de um segundo a árvore explodiu, o javali não conseguiu parar a tempo e avançou por mais alguns metros.

Broman gargalhou, agora forçava 120%. Uma veia no pescoço ameaçou lhe matar.

“Ainda não”, gritou tentando motivar seu corpo. “Só mais um pouco”, já podia ver as luzes da cidade.

Ouviu um estrondo e foi atirado longe, batendo de cara no chão.

Broman se levantou com dificuldade, suas pernas ignoraram as ordens de voltar a correr.

“Excremento de porco”, falou indignado. “Sem ofensas”, acrescentou quando o javali se aproximou.

Broman sacou a espada das costas e sacudiu na direção do javali. Aí estava a batalha gloriosa que tanto sonhava, só que ainda não queria morrer. Se conseguisse se desviar do ataque da besta e lhe cravar a espada, talvez tivesse uma chance.

Respirou fundo e se lançou em um estado de pura concentração. Uniu corpo e mente assumindo a lendária postura do guerreiro indômito. O javali sentiu medo, a aura que emanava daquele homem era assustador, talvez fosse melhor recuar.

A concentração se quebrou quando Broman avistou uma mulher com duas crianças, passando tranquilamente por ali.

“Ei mulher!”, gritou. “Onde pensa que está indo?”.

A mãe o encarou com ódio.

“Cale a boca, seu fanfarrão. Isso são modos de falar com a filha do coletor de impostos?”.

Que se dane, pensou. Coma todos eles! A culpa é dela por ser imbecil.

O javali observou com curiosidade aquela situação, a mãe e a filha eram bem magrinhas, mas o garotinho, rechonchudinho, dava um caldo.

Foi nele que o javali avançou. A contragosto, Broman tirou forças não se sabe de onde e se lançou sobre o javali, conseguiu enfiar sua espada na besta antes que chegasse no garotinho.

O javali gritou, saltitando de dor. Broman segurava a espada com força, a cada pulo do javali cravava a espada mais fundo. Sem saída, o javali se lançou atingindo uma altura incrível. Broman gelou, podia ver toda a cidade lá de cima. Aquilo já era demais.

O impacto abriu um buraco gigantesco no chão. Broman foi atirado para longe, seu corpo batendo incessantemente contra o chão, por sorte não sentiu muita coisa, tinha desmaiado.

Acordou com um banhaço de água fria. Sonhava que se afogava.

“Malditos artistas”, ouviu uma voz que tendia para o fanho. “Nem começou a festa e já está bêbado”.

Broman se levantou esfregando o rosto, cuspiu um pouco de água que tinha engolido. Na sua frente estava um rapaz bem arrumado que vestia roupas estranhas. Era exageradamente limpo, o cabelo não estava embaraçado nem poeirento como o da maioria das pessoas.

Broman fez uma careta, sentiu-se tão destruído que esqueceu de dar um soco no rapaz. Percebeu que estava nos fundos de um casarão, viu pequenos objetos que brilhavam como fogo.

“Onde eu to?”, perguntou.

“Por aqui”, o homem respondeu com desprezo. Broman o seguiu para dentro da casa, passando por uma área espaçosa, onde viu homens e mulheres atarefados. O homem continuou por um corredor, andando rapidamente.

“Você pode se arrumar aí”, disse o homem ao destrancar uma porta. “Ainda tem um bom tempo até a sua vez, dá pra tomar um banho”. Desconfiado Broman entrou, ouviu a porta bater logo em seguida.

Então era uma prisão. Tinha sido capturado por aqueles homens de roupas estranhas, provavelmente cultistas.

Analisou a cela. Era o lugar mais estranho que já tinha visto. Viu uma grande caixa ornamentada, provavelmente onde aquelas pessoas guardavam os objetos satânicos. Na parede, avistou o desenho de uma paisagem em cores borradas, rapidamente desviou o olhar, devia ser alguma maldição, pensou.

Precisava sair dali urgente. Colocou as mãos sob a porta testando sua resistência. Sem muito esforço ela foi ao chão.

Desconfiado seguiu pelo corredor vazio passando por diversas portas trancadas. Encontrou diversos salões gigantescos, imponentes e vazio, todos brilhantes ornados com objetos estranhos. Ouvia vozes por todos os lugares, sussurros que vinham das profundezas e invadiam sua alma.

Andou por um bom tempo, já começava a achar que nunca conseguiria fugir quando, sem perceber, se viu em um salão cheio de gente. Algumas delas seguravam um objeto transparente, um estranho punhal de vidro. Mais à frente, viu um palanque, onde um homem baixinho, careca, com um bigode engraçado apareceu.

Todos aplaudiram.

“Boa noite, meus amigos. O que estão achando da festa? Ótimo, ótimo. Se vocês estão aqui é porque acompanharam os insanos acontecimentos dos últimos seis meses”, mais aplausos. “Ninguém imaginava que era possível. Apenas meu amigo Aleister que…”

Broman ignorou o homem, procurava desesperadamente uma fuga. A porta por onde tinha entrado agora estava bloqueada. Se escondeu atrás de uma pilastra, sua cabeça trabalhava intensamente tentando criar um plano. As pessoas ao seu redor começaram a gritar. Broman olhou para o palanque, mas o homem não estava mais lá. Nervoso, virou-se para os lados em posição de combate.

O homem estava acima de todos eles, voando.

“Vocês também podem, meus queridos amigos”, ele disse. “Limpem suas mentes, esqueçam de tudo e sintam a leveza os levar”.

Ninguém conseguiu, deixar a mente livre de qualquer pensamento era mais difícil do que parecia. Algumas pessoas conseguiam levitar por poucos segundos, antes de bater, violentamente, os pés no chão.

“Pelo machado de Uther”, Broman deixou escapar alto. O poder do demônio fluía por todo aquele lugar, inclusive por dentro dele. Se entregou ao desespero. Seu cérebro se calou de assombro e o instinto tomou conta. Aproveitaria que todos estavam olhando para cima e fugiria.  

No segundo seguinte estava fora do salão. Ficou paralisado por alguns segundos, tentando entender o que aconteceu. Provavelmente tinha sido o poder do diabo. Começou a correr, precisava escapar dali de qualquer jeito, antes que sua alma fosse capturada. Teria que entregar seu destino aos deuses, acreditar que eles o guiariam por um caminho seguro.

Alguém se meteu na sua frente. Os corpos se chocaram e se degladiaram pelo espaço.

“Bem, você deveria prestar mais atenção por onde anda”, disse o homem que tinha se chocado a Broman, ele tinha um rosto largo, com os olhos de um louco. Sua testa era gigante e o cabelo, esdruxulamente partido ao meio, lembrava um grimório.

Broman foi tomado de fúria. Estava cansado daquele lugar. Malditos cultistas, pensou, devia parar de fugir e esmagar cada um deles.

“Bem”, o homem prosseguiu desprovido de emoção, “suponho que deva lhe agradecer. Depois de três dias vagando por aquela mansão, finalmente cheguei ao lugar certo”.

Os dois estavam no meio de uma caverna. Broman apertou os dentes e cerrou os punhos. “Que droga tá acontecendo aqui?”, falou.

“Aquele cretino do Cirnoc, sabia que estava aprontando alguma”, o homem disse apontando para um ponto de luz no meio da caverna. Broman o seguiu até um objeto estranho, envolto em uma luz suave, que flutuava.

“Ele enfiou alguma coisa dentro dessa panela de pressão. É assim que ele faz esses truques baratos”.

“São melhores que os seus”, alguém gritou. Broman virou-se e viu aquele homem que há pouco voava no salão. De perto ele parecia bem menor. “Muito me surpreende que você tenha escapado, impressionante, Harry”.

“É minha especialidade. Não existe nada de que não possa escapar”.

“Veremos”, disse o homenzinho. “Demorei muito pra conseguir esse poder, você não vai me…”, se interrompeu ao notar Broman. “Que animal ridículo é esse?”.

Broman irritado, partiu em direção a Cirnoc que com um sinal das mãos atirou-o para longe.

O homem careca riu de deboche. “Agora se juntou com essas criaturas medievais?”.

“É melhor desistir”, falou Harry.

Cirnoc levantou as mãos lançando um feixe de luz em direção a Harry, que desapareceu, reaparecendo intacto do outro lado. Cirnoc repetiu o ataque e mais uma vez Harry transportou-se em segurança.

“Você só sabe fugir?”, gritou Cirnoc com escarnio.

“Já falei que é a minha especialidade”, Harry desapareceu outra vez. “Mas também sou bom em boxe”, reapareceu ao lado de Cirnoc com um gancho certeiro no queixo, derrubando o homem.

Boa técnica, pensou Broman observando ao longe. Lutar contra magos podia ser traiçoeiro, não devia ter se entregado a fúria.

Cirnoc se levantou gritando. Um braço luminoso agarrou Harry com força,

“Tenta fugir agora”, gargalhou o homenzinho. O braço de luz sugava a força de Harry impedindo que ele se teleportasse.

“Volta pro inferno, seu desgraçado”, Broman falou baixinho. Se a fonte do poder do homem era aquela luz, precisava fazer algo a respeito.

“O que esse imbecil está fazendo?”, disse Cirnoc enquanto Broman golpeava a panela de pressão. Seus punhos se chocavam contra um escudo invisível que protegia o objeto.

“A força jamais vai vencer a mágica”, gargalhou Cirnoc.

“Nunca subestime um niborniano”. Broman colocou toda sua energia no punho direito e golpeou. O escudo não resistiu e se espatifou em centenas de cacos invisíveis.

“Impossível”, gritou Cirnoc.

Broman pegou a panela de pressão e encarou, com fúria, Cirnoc. Procurou a espada nas costas e sentiu tristeza ao lembrar que a tinha perdido. Um feixe de luz veio em sua direção, mas foi facilmente refletido pela panela. Isso vai servir, pensou Broman.

Cirnoc estava pálido de medo, atirou mais dois raios sem sucesso.

“Que droga é essa?”, gritou em pânico. Broman se lançou ao ataque, girou para a esquerda golpeando o mago, a panela foi destruída junto com os ossos da cara de Cirnoc.

Broman largou o cabo da panela. Não chegava nem aos pés da sua amada espada.

“Amigo, isso foi incrível…”, disse Harry antes de ser engolido pela luz.

 

Broman tinha voltado para a floresta. Soltou uma risada de descaso.

Viu alguém ajoelhado. Era um homem de uma brancura não natural. Possuía longos cabelos amarelos que se agitavam no ar como se tivessem vida. Ele se levantou e Broman viu um par de asas.

“Obrigado por ter me…”, disse o homem e Broman o agarrou pelo pescoço.

“Então você é o demônio por trás de todo o meu infortúnio”, gritou.

“Não precisa ser tão violento”, disse a criatura que com um dedo se livrou de Broman.

“Não irei destruí-lo, pois não cabe a mim o julgamento de um homem. Fique em paz meu irmão”.

O sol surgiu no horizonte com uma força intensa, os olhos de Broman demoraram para se acostumarem com a claridade. O homem branco não estava mais ali.

Irritado, se jogou no chão. Percebeu que estava próximo de uma estrada quando alguém parou em um cavalo.

“Minha nossa, amigo. Você está bem?”

“Perfeitamente”, Broman respondeu de forma seca. Levantou-se em um pulo, só para mostrar ao homem as suas habilidades. “Escuta, por acaso não teria com você alguma cerveja?”, disse se aproximando do cavalo.

“E javali. Estou morrendo por um suculento assado de javali”.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.