EntreContos

Detox Literário.

Sensitu (Um passarinho)

 

As vozes na minha cabeça

me pediam uma criança,

espécie de sacrifício,

remédio para dar sentido

à minha vida pequena.

I

Passado o susto, Lúcia ignorou o sonho, não o tomou como presságio. As havaianas azuis de Artur, os brinquedos de plástico barato, um pássaro pousado, um piado triste, os olhos arrancados.

O menino ressonava baixinho no colchão ao lado, também suava, mas mesmo assim – instinto de mãe – Lúcia ajeitou o lençol fino que o cobria. Artur abriu os olhos acinzentados – “mamãe”, arrulhou – fechou-os de volta.

O marido dormia pesado às suas costas.  Dali a pouco, em menos de uma hora, partiria a caminhonete que os levaria para a praia junto com mais duas famílias da aldeia e os sacos de artesanato.  Tentou voltar a dormir entoando mentalmente uma prece na língua dos antepassados, mas o sono já havia escapado.

II

Era o terceiro ano seguido em que faziam uso desse expediente. A chegada de Artur os impulsionara. Dinheiro extra, não muito, mas qualquer coisa ajudava. Chegavam um pouco antes do Natal, depois do Carnaval regressavam. Da primeira vez, Lúcia estava grávida. No ano seguinte, deixara Artur aos cuidados da vizinha, comadre, mãe de uma menina da mesma idade. A contragosto havia trazido Artur dessa vez. Aquela rotina não combinava com a presença de uma criança pequena, mas não encontrou ninguém com quem pudesse deixá-lo.  

III

Os homens iam para a praia vender sorvete ou água mineral levando junto miudezas: brincos, braçadeiras, miniaturas de animais esculpidas em madeira. As mulheres ofereciam as mercadorias do lado de fora da rodoviária. Pela manhã, espalhavam as peças no chão, uma lona por baixo, à sombra das árvores. À noite, desarrumavam e carregavam tudo para um barraco próximo, moradia improvisada onde dormiam os três casais, os dois meninos filhos de um deles, o pequeno Artur e Maia, a adolescente que se juntara ao grupo no segundo dia de rodoviária.  

IV

Maia apareceu quando as mulheres espalhavam sobre a lona o artesanato. Provavelmente as estivera observando na véspera. Ofereceu-se para distrair as crianças, levar algumas peças para vender dentro da rodoviária, o que elas quisessem, em troca de comida.

A dormida junto com o grupo aconteceu naturalmente. Ao fim do dia, Maia ajudou as mulheres a recolher e levar a mercadoria para o barraco. Lavou as crianças, contou uma história enquanto comiam e embalou Artur, que choramingava de sono ou fome, talvez cansaço, até ele adormecer em seus braços. “Dorme, meu passarinho, deixa o sono te levar”, entoava, balançando-o no colo.

Quando Lúcia se aproximou para alimentar o filho, ele sorria no sonho, parecia saciado, como se o acalanto de Maia o houvesse nutrido ou hipnotizado. Lúcia disse à garota que se servisse da papa de milho com frango que haviam preparado. Disse também que ficasse, dormisse entre as crianças se desejasse.  Maia sorriu de volta. Banhou-se depois de comer e deitou-se de costas para os meninos maiores, o corpo em concha protegendo Artur, a mão de leve acariciando suas costas.

V

Maia era como preferia ser chamada, o nome mesmo era Maiara. Era indígena também, não tinha pai nem mãe, vivia com a tia numa aldeia próxima àquela onde o grupo morava. Assim como eles, havia descido para o litoral para fazer algum dinheiro, mas não tinha conseguido trabalho, foi essa a breve história narrada.

As crianças gostaram dela desde o primeiro contato. A cada ônibus que chegava ela se apressava em oferecer os brincos arrumados em um mostruário improvisado. Às mulheres, não lhes custava dividir o alimento com a jovem. Maia comia pouco, roía só uma parte do que lhe davam, o resto dividia com as crianças distraindo-as entre as colheradas.

À Lúcia, Maia à primeira vista pareceu familiar. Como a garota vivia em uma aldeia próxima, achou que poderia já tê-la encontrado antes em alguma situação, uma festa quem sabe.   Houvesse conhecido sua mãe na idade de Maia, saberia de onde vinha a sensação de familiaridade. Mas era melhor que não soubesse. A mãe de Lúcia havia morrido muitos anos atrás. Os mortos, era melhor que ficassem longe dos vivos. Evocá-los significava aproximá-los trazendo desgraça.  Era nisso que Lúcia acreditava.

VI

No Natal, Maia comprou um chocolate para cada criança, bolo, batatas fritas de pacote e uma garrafa grande de refrigerante. Gratidão ao grupo, afago nas crianças. Em meio a risadinhas maliciosas, as mulheres lhe deram um batom vermelho e um lápis preto de olhos dizendo que estava na hora de ela, que era tão boa com as crianças, arranjar um homem e ter sua própria prole.

Antes de ir à missa – eram católicos, a religião antiga, e não evangélicos como a maioria era na aldeia agora – deixaram pronta uma fogueira grande nos fundos do barraco. Na volta, atearam fogo e confraternizaram, todos em torno das chamas comendo, bebendo e dançando, fazendo com o pouco que tinham o máximo de festividade.

Maia se recolheu mais cedo levando as crianças assim que a bebida começou a amolecer os corpos dos casais, pouco antes de cada dupla achar um canto escuro qualquer do lado de fora do barraco.

VII

Passado o Natal, o movimento de turistas aumentou de imediato na rodoviária. Chegavam em massa para a semana de sol e feriado. Pareciam mais solidários com os indígenas do que nos anos anteriores ou talvez as mercadorias estivessem mais vistosas agora, depois que uma ONG instalara na aldeia uma oficina ensinando a usar materiais alternativos na produção do artesanato.  Também havia Maia, enfeitada com um cocar vistoso, as penas tingidas de anilina vermelha, o batom no mesmo tom colorindo os olhos como uma máscara, um risco grosso com o lápis preto embaixo, as mãos exibindo as peças, nenhuma palavra e um sorriso nos lábios.

Porque atraia a atenção dos turistas, teve que descuidar das crianças naquela tarde o que a fez planejar em pensamento não repetir a pintura, tampouco o cocar, dia nenhum mais.

VIII

Lúcia havia acabado de alimentar Artur à sombra da árvore onde Maia costumava distrair as crianças. Deixou o menino sentado com alguns brinquedinhos em volta, fez um sinal para Maia – que olhasse o menino um instante, a jovem acenou de volta – e tomou a direção do banheiro, estava muito apertada.  

Maia terminava de vender uma peça, um olho no dinheiro, outro em Artur. As duas mulheres estavam de costas um pouco afastadas, as crianças com elas, terminando de desembalar o almoço que haviam trazido de casa.

Foi tudo muito rápido. O tempo de um grito que não houve, mas ecoou assombrado.

IX

A pele fina do pescoço de Artur não ofereceu qualquer resistência à lâmina. Nenhum gemido, nenhuma lágrima. A última coisa que seus olhinhos cinzentos viram foi o rosto inexpressivo do jovem que, como se lhe fizesse um carinho, arremessou-lhe para fora do corpo a alma. Um rapaz comum, como os que compravam brincos indígenas baratos para presentear as amigas, irmãs, namoradas.

Maia só viu o assassino por trás. Não soube dizer sua altura, a cor de seu cabelo ou da roupa que usava, só reparou na mochila preta que levava às costas. As outras mulheres sequer notaram a mochila. Quando entenderam o que havia acontecido, o rapaz já havia desaparecido depois de dobrar a rua na esquina mais próxima.  

Lúcia ficou abraçada ao corpo do pequeno Artur, em choque, até as lágrimas secarem. Uma multidão foi se formando em volta. Depois chegou a polícia, o SAMU, uma emissora de TV e repórteres de dois jornais.  Uma das mulheres foi buscar o pai do menino na praia, mas demorou a encontrá-lo. Quando ele apareceu o corpo de Artur já havia sido levado embora.

X

Se alguém tivesse prestado atenção em Maia teria visto ela se aproximar de Artur, pegar a estrelinha azul de plástico jogada ao lado de seu corpo tombado, o último objeto em que o menino tocara, uma mancha de sangue respingada.

Primeiro aproximou-a do nariz, depois levou-a à boca, então guardou-a na cintura, entre a pele da barriga e o cós da calça. Dos seus olhos não escorreu mais do que uma lágrima – escura – de cada lado. O rosto ficou manchado, o traço do lápis embaixo dos olhos escorrido desenhando uma pintura de guerra em seus malares. Quando secaram, seus olhos lavados pelas lágrimas, haviam se tornado cinzentos como os de Artur, mas sem o brilho, desbotados.

Além da estrela e do gosto de seu sangue na boca, restou-lhe do menino também, junto com o cinza dos olhos herdado, a última imagem vista pelo pequeno antes de sua vida escapar. O rosto inexpressivo de seu assassino, espécie de instantâneo gravada em sua memória, sem hipótese de ser apagado.

Da noite, que atravessou insone encostada em frente ao local onde sobraram esquecidos os chinelinhos do menino, emergiu com duas mechas brancas no cabelo, de modo que ninguém reparou que seus olhos haviam mudado de cor, apenas seu vistoso cabelo embranquecido foi notado.

XI

Porque houve comoção pública e certa cobertura do crime na TV e nos jornais, a polícia teve que se empenhar em encontrar rapidamente um culpado. Maia, principal testemunha, foi convidada a descrever o criminoso. Como era sabido que ela o vira apenas pelas costas, pouco lhe arguiram sobre o rosto do assassino. Se houvessem perguntado, talvez ela se traísse e contasse que o sujeito tinha a pele clara, cabelos e sobrancelhas castanhos, olhos claros, rosto fino, nariz grande, algumas manchas, cicatrizes de acne, nas duas laterais da face. Também não contou sobre a navalha que encontrou jogada num container de lixo na rua atrás da rodoviária, em cujas manchas marrons sentiu o mesmo gosto que havia provado no respingo de sangue grudado na estrelinha de plástico.

A polícia deteve quatro suspeitos. Um deles, um sujeito que havia espancado um indígena no último verão e havia sido libertado alguns meses atrás. Maia foi chamada para fazer o reconhecimento, mas o assassino não estava entre eles.  O inquérito também não deu em nada.

XII

Os pais voltaram para a aldeia depois do enterro do menino. De Maia, que não era parente, o que se esperava era que retomasse a vida, se conformasse.  

Assumiu o lugar de Lúcia na venda de artesanato ao lado das outras mulheres. A noite chorava em silêncio sentindo o cheiro de Artur no colchonete depois que as duas crianças, seus companheiros de leito, se aquietavam.

XIII

No último dia do ano ficaram só até a metade do dia na rodoviária. Arrumaram a mercadoria e foram para a praia, que era para onde as pessoas iam celebrar a passagem do ano. Acharam que a venda podia render mais, o que ocorreu de fato. Depois que a euforia da festa – fogos de artifício, desejos, bebidas, promessas e abraços – serenou, dormiram as duas mulheres e Maia, mais as crianças e os maridos, ali mesmo na areia da praia.  

Maia despertou antes de todos, os primeiros raios de sol ainda tímidos mal iluminando a expressão inquieta em seu rosto.  Apertou a navalha no bolso, desde que a encontrara andava sempre com ela por perto, sentiu encostar na pele a lâmina fria.  Caminhou menos de cem metros, lenta, pela área fofa, a intuição a guiava.

XIV

O sujeito dormia desabado no lugar onde acabava a areia e a vegetação começava. Certamente havia bebido, ressonava, a boca entreaberta, um fio de baba escorrendo dos lábios. O mesmo rosto magro, o nariz disforme, o queixo comprido, um cheiro ruim, a roupa suja e rasgada.

O pescoço não ofereceu resistência ao fio da navalha, ele abriu os olhos, mas não gritou nem disse nada.  O rosto moreno de Maia foi a última coisa que viu. Achou que era o anjo com o qual sonhava desde sempre, que havia vindo enfim levá-lo daquela vida sem sentido e sem graça.

XV

O sangue espirrou no seu rosto, nos braços, na blusa. O cheiro metálico provocou-lhe uma náusea imediata. Afastou-se, limpou a lâmina na areia antes de guardá-la de volta no bolso. Sentiu o estômago convulsionar. Dobrou-se. Alguma coisa subia-lhe pelas entranhas, parou na garganta, sentiu-se sufocar, tossiu forte. Um passarinho saltou de sua boca, fez uma pirueta diante dos seus olhos e desapareceu ofuscado pelos raios de sol que emergiam, cor de laranja, da linha onde o céu acabava.

Arrancou a blusa suja de sangue, vestia outra por baixo. Correu pela beira do mar, a passada larga, o peito projetado para frente, tão veloz que quem a visse diria que não era humana, um animal extraordinário, felino talvez, com patas impulsionadas por asas. Quando parou, a prata havia escorregado dos cabelos que haviam voltado a ser escuros e sólidos. Mergulhou no mar e nunca mais foi encontrada.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C3.