EntreContos

Detox Literário.

Sensitu (Elisa Ribeiro)

 

As vozes na minha cabeça

me pediam uma criança,

espécie de sacrifício,

remédio para dar sentido

à minha vida pequena.

I

Passado o susto, Lúcia ignorou o sonho, não o tomou como presságio. As havaianas azuis de Artur, os brinquedos de plástico barato, um pássaro pousado, um piado triste, os olhos arrancados.

O menino ressonava baixinho no colchão ao lado, também suava, mas mesmo assim – instinto de mãe – Lúcia ajeitou o lençol fino que o cobria. Artur abriu os olhos acinzentados – “mamãe”, arrulhou – fechou-os de volta.

O marido dormia pesado às suas costas.  Dali a pouco, em menos de uma hora, partiria a caminhonete que os levaria para a praia junto com mais duas famílias da aldeia e os sacos de artesanato.  Tentou voltar a dormir entoando mentalmente uma prece na língua dos antepassados, mas o sono já havia escapado.

II

Era o terceiro ano seguido em que faziam uso desse expediente. A chegada de Artur os impulsionara. Dinheiro extra, não muito, mas qualquer coisa ajudava. Chegavam um pouco antes do Natal, depois do Carnaval regressavam. Da primeira vez, Lúcia estava grávida. No ano seguinte, deixara Artur aos cuidados da vizinha, comadre, mãe de uma menina da mesma idade. A contragosto havia trazido Artur dessa vez. Aquela rotina não combinava com a presença de uma criança pequena, mas não encontrou ninguém com quem pudesse deixá-lo.  

III

Os homens iam para a praia vender sorvete ou água mineral levando junto miudezas: brincos, braçadeiras, miniaturas de animais esculpidas em madeira. As mulheres ofereciam as mercadorias do lado de fora da rodoviária. Pela manhã, espalhavam as peças no chão, uma lona por baixo, à sombra das árvores. À noite, desarrumavam e carregavam tudo para um barraco próximo, moradia improvisada onde dormiam os três casais, os dois meninos filhos de um deles, o pequeno Artur e Maia, a adolescente que se juntara ao grupo no segundo dia de rodoviária.  

IV

Maia apareceu quando as mulheres espalhavam sobre a lona o artesanato. Provavelmente as estivera observando na véspera. Ofereceu-se para distrair as crianças, levar algumas peças para vender dentro da rodoviária, o que elas quisessem, em troca de comida.

A dormida junto com o grupo aconteceu naturalmente. Ao fim do dia, Maia ajudou as mulheres a recolher e levar a mercadoria para o barraco. Lavou as crianças, contou uma história enquanto comiam e embalou Artur, que choramingava de sono ou fome, talvez cansaço, até ele adormecer em seus braços. “Dorme, meu passarinho, deixa o sono te levar”, entoava, balançando-o no colo.

Quando Lúcia se aproximou para alimentar o filho, ele sorria no sonho, parecia saciado, como se o acalanto de Maia o houvesse nutrido ou hipnotizado. Lúcia disse à garota que se servisse da papa de milho com frango que haviam preparado. Disse também que ficasse, dormisse entre as crianças se desejasse.  Maia sorriu de volta. Banhou-se depois de comer e deitou-se de costas para os meninos maiores, o corpo em concha protegendo Artur, a mão de leve acariciando suas costas.

V

Maia era como preferia ser chamada, o nome mesmo era Maiara. Era indígena também, não tinha pai nem mãe, vivia com a tia numa aldeia próxima àquela onde o grupo morava. Assim como eles, havia descido para o litoral para fazer algum dinheiro, mas não tinha conseguido trabalho, foi essa a breve história narrada.

As crianças gostaram dela desde o primeiro contato. A cada ônibus que chegava ela se apressava em oferecer os brincos arrumados em um mostruário improvisado. Às mulheres, não lhes custava dividir o alimento com a jovem. Maia comia pouco, roía só uma parte do que lhe davam, o resto dividia com as crianças distraindo-as entre as colheradas.

À Lúcia, Maia à primeira vista pareceu familiar. Como a garota vivia em uma aldeia próxima, achou que poderia já tê-la encontrado antes em alguma situação, uma festa quem sabe.   Houvesse conhecido sua mãe na idade de Maia, saberia de onde vinha a sensação de familiaridade. Mas era melhor que não soubesse. A mãe de Lúcia havia morrido muitos anos atrás. Os mortos, era melhor que ficassem longe dos vivos. Evocá-los significava aproximá-los trazendo desgraça.  Era nisso que Lúcia acreditava.

VI

No Natal, Maia comprou um chocolate para cada criança, bolo, batatas fritas de pacote e uma garrafa grande de refrigerante. Gratidão ao grupo, afago nas crianças. Em meio a risadinhas maliciosas, as mulheres lhe deram um batom vermelho e um lápis preto de olhos dizendo que estava na hora de ela, que era tão boa com as crianças, arranjar um homem e ter sua própria prole.

Antes de ir à missa – eram católicos, a religião antiga, e não evangélicos como a maioria era na aldeia agora – deixaram pronta uma fogueira grande nos fundos do barraco. Na volta, atearam fogo e confraternizaram, todos em torno das chamas comendo, bebendo e dançando, fazendo com o pouco que tinham o máximo de festividade.

Maia se recolheu mais cedo levando as crianças assim que a bebida começou a amolecer os corpos dos casais, pouco antes de cada dupla achar um canto escuro qualquer do lado de fora do barraco.

VII

Passado o Natal, o movimento de turistas aumentou de imediato na rodoviária. Chegavam em massa para a semana de sol e feriado. Pareciam mais solidários com os indígenas do que nos anos anteriores ou talvez as mercadorias estivessem mais vistosas agora, depois que uma ONG instalara na aldeia uma oficina ensinando a usar materiais alternativos na produção do artesanato.  Também havia Maia, enfeitada com um cocar vistoso, as penas tingidas de anilina vermelha, o batom no mesmo tom colorindo os olhos como uma máscara, um risco grosso com o lápis preto embaixo, as mãos exibindo as peças, nenhuma palavra e um sorriso nos lábios.

Porque atraia a atenção dos turistas, teve que descuidar das crianças naquela tarde o que a fez planejar em pensamento não repetir a pintura, tampouco o cocar, dia nenhum mais.

VIII

Lúcia havia acabado de alimentar Artur à sombra da árvore onde Maia costumava distrair as crianças. Deixou o menino sentado com alguns brinquedinhos em volta, fez um sinal para Maia – que olhasse o menino um instante, a jovem acenou de volta – e tomou a direção do banheiro, estava muito apertada.  

Maia terminava de vender uma peça, um olho no dinheiro, outro em Artur. As duas mulheres estavam de costas um pouco afastadas, as crianças com elas, terminando de desembalar o almoço que haviam trazido de casa.

Foi tudo muito rápido. O tempo de um grito que não houve, mas ecoou assombrado.

IX

A pele fina do pescoço de Artur não ofereceu qualquer resistência à lâmina. Nenhum gemido, nenhuma lágrima. A última coisa que seus olhinhos cinzentos viram foi o rosto inexpressivo do jovem que, como se lhe fizesse um carinho, arremessou-lhe para fora do corpo a alma. Um rapaz comum, como os que compravam brincos indígenas baratos para presentear as amigas, irmãs, namoradas.

Maia só viu o assassino por trás. Não soube dizer sua altura, a cor de seu cabelo ou da roupa que usava, só reparou na mochila preta que levava às costas. As outras mulheres sequer notaram a mochila. Quando entenderam o que havia acontecido, o rapaz já havia desaparecido depois de dobrar a rua na esquina mais próxima.  

Lúcia ficou abraçada ao corpo do pequeno Artur, em choque, até as lágrimas secarem. Uma multidão foi se formando em volta. Depois chegou a polícia, o SAMU, uma emissora de TV e repórteres de dois jornais.  Uma das mulheres foi buscar o pai do menino na praia, mas demorou a encontrá-lo. Quando ele apareceu o corpo de Artur já havia sido levado embora.

X

Se alguém tivesse prestado atenção em Maia teria visto ela se aproximar de Artur, pegar a estrelinha azul de plástico jogada ao lado de seu corpo tombado, o último objeto em que o menino tocara, uma mancha de sangue respingada.

Primeiro aproximou-a do nariz, depois levou-a à boca, então guardou-a na cintura, entre a pele da barriga e o cós da calça. Dos seus olhos não escorreu mais do que uma lágrima – escura – de cada lado. O rosto ficou manchado, o traço do lápis embaixo dos olhos escorrido desenhando uma pintura de guerra em seus malares. Quando secaram, seus olhos lavados pelas lágrimas, haviam se tornado cinzentos como os de Artur, mas sem o brilho, desbotados.

Além da estrela e do gosto de seu sangue na boca, restou-lhe do menino também, junto com o cinza dos olhos herdado, a última imagem vista pelo pequeno antes de sua vida escapar. O rosto inexpressivo de seu assassino, espécie de instantâneo gravada em sua memória, sem hipótese de ser apagado.

Da noite, que atravessou insone encostada em frente ao local onde sobraram esquecidos os chinelinhos do menino, emergiu com duas mechas brancas no cabelo, de modo que ninguém reparou que seus olhos haviam mudado de cor, apenas seu vistoso cabelo embranquecido foi notado.

XI

Porque houve comoção pública e certa cobertura do crime na TV e nos jornais, a polícia teve que se empenhar em encontrar rapidamente um culpado. Maia, principal testemunha, foi convidada a descrever o criminoso. Como era sabido que ela o vira apenas pelas costas, pouco lhe arguiram sobre o rosto do assassino. Se houvessem perguntado, talvez ela se traísse e contasse que o sujeito tinha a pele clara, cabelos e sobrancelhas castanhos, olhos claros, rosto fino, nariz grande, algumas manchas, cicatrizes de acne, nas duas laterais da face. Também não contou sobre a navalha que encontrou jogada num container de lixo na rua atrás da rodoviária, em cujas manchas marrons sentiu o mesmo gosto que havia provado no respingo de sangue grudado na estrelinha de plástico.

A polícia deteve quatro suspeitos. Um deles, um sujeito que havia espancado um indígena no último verão e havia sido libertado alguns meses atrás. Maia foi chamada para fazer o reconhecimento, mas o assassino não estava entre eles.  O inquérito também não deu em nada.

XII

Os pais voltaram para a aldeia depois do enterro do menino. De Maia, que não era parente, o que se esperava era que retomasse a vida, se conformasse.  

Assumiu o lugar de Lúcia na venda de artesanato ao lado das outras mulheres. A noite chorava em silêncio sentindo o cheiro de Artur no colchonete depois que as duas crianças, seus companheiros de leito, se aquietavam.

XIII

No último dia do ano ficaram só até a metade do dia na rodoviária. Arrumaram a mercadoria e foram para a praia, que era para onde as pessoas iam celebrar a passagem do ano. Acharam que a venda podia render mais, o que ocorreu de fato. Depois que a euforia da festa – fogos de artifício, desejos, bebidas, promessas e abraços – serenou, dormiram as duas mulheres e Maia, mais as crianças e os maridos, ali mesmo na areia da praia.  

Maia despertou antes de todos, os primeiros raios de sol ainda tímidos mal iluminando a expressão inquieta em seu rosto.  Apertou a navalha no bolso, desde que a encontrara andava sempre com ela por perto, sentiu encostar na pele a lâmina fria.  Caminhou menos de cem metros, lenta, pela área fofa, a intuição a guiava.

XIV

O sujeito dormia desabado no lugar onde acabava a areia e a vegetação começava. Certamente havia bebido, ressonava, a boca entreaberta, um fio de baba escorrendo dos lábios. O mesmo rosto magro, o nariz disforme, o queixo comprido, um cheiro ruim, a roupa suja e rasgada.

O pescoço não ofereceu resistência ao fio da navalha, ele abriu os olhos, mas não gritou nem disse nada.  O rosto moreno de Maia foi a última coisa que viu. Achou que era o anjo com o qual sonhava desde sempre, que havia vindo enfim levá-lo daquela vida sem sentido e sem graça.

XV

O sangue espirrou no seu rosto, nos braços, na blusa. O cheiro metálico provocou-lhe uma náusea imediata. Afastou-se, limpou a lâmina na areia antes de guardá-la de volta no bolso. Sentiu o estômago convulsionar. Dobrou-se. Alguma coisa subia-lhe pelas entranhas, parou na garganta, sentiu-se sufocar, tossiu forte. Um passarinho saltou de sua boca, fez uma pirueta diante dos seus olhos e desapareceu ofuscado pelos raios de sol que emergiam, cor de laranja, da linha onde o céu acabava.

Arrancou a blusa suja de sangue, vestia outra por baixo. Correu pela beira do mar, a passada larga, o peito projetado para frente, tão veloz que quem a visse diria que não era humana, um animal extraordinário, felino talvez, com patas impulsionadas por asas. Quando parou, a prata havia escorregado dos cabelos que haviam voltado a ser escuros e sólidos. Mergulhou no mar e nunca mais foi encontrada.

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20 comentários em “Sensitu (Elisa Ribeiro)

  1. Ana Carolina Machado
    30 de março de 2019

    Oiiii. Um conto sobre uma índia chamada Maia que tem uma amizade muito forte com crianças, especialmente por um menino pequeno chamado Artur. Ela junto com outras índias vende artesanato . Um dia Artur é morto, meio que cumprindo o presságio que a mãe dele tem no começo do conto até mesmo com o detalhe dos brinquedos que estavam ao redor dele quando morreu, e mesmo sem ser da família Maia tem dificuldades para superar e vai atrás do assassino. Ao encontra-lo na praia corta o pescoço dele com a mesma lâmina que ele usou no garotinho e tendo feito o que ela achava ser justiça um passarinho saiu de sua boca e logo depois a moça mergulhou no mar sumindo. Achei interessante porque é como se o texto tivesse peças que aos poucos vão se encaixando e o verso que está antes do conto que fala sobre as vozes que pediam uma criança acho que faz menção as motivações do assassino. E o passarinho que sai da boca dela pode ser uma metáfora de que a parte do Artur que estava nela querendo justiça tinha sido libertada. Parabéns pelo conto e boa sorte no desafio.

  2. LUCIANO ALVES
    27 de março de 2019

    RESUMO: A história gira em torno de Maia, um ser – uma mulher – aparentemente entre dois mundo, que é convidada a unir-se a uma turma de ambulantes que vendiam coisas próximo a uma rodoviária.
    Junto ao grupo desenvolve um especial apego por um dos bebês, do qual torna-se quase uma babá.
    Após o assassinato do menino Arthur, o bebê, Maia como única testemunha do crime, guarda alguns objetos que levariam-na ao encontro do culpado. Após algum tempo levada instintivamente ao assassino, executa-o e some no mar

    CONSIDERAÇÕES:
    O texto começa com um enredo factível (mesmo com a menção do pássaro com os olhos arrancados, na imagem de um sonho – o que me fez lembrar a música Assum Preto, de Luiz Gonzaga), e prossegue em uma narração de um cotidiano natural. Apenas no final, parte para o místico ou sobrenatural. Termina com uma virada brusca do comum para o sobrenatural, acho que para causar espanto ao leitor.
    Enfim, gostei.

  3. Gustavo Araujo
    27 de março de 2019

    Resumo: indígenas vão ao litoral para vender artesanatos; alguns levam os filhos. Maia, também índia se afeiçoa a uma das crianças, que é depois morta por rapaz; na noite de ano novo, Maia descobre onde o assassino está e o mata.

    Impressões: é um conto bem desenvolvido, com protagonistas indígenas “reais”, o que é muito difícil de se ver por aí, já que a maioria dos textos que os trazem acaba por romantizá-los ou utilizar suas versões como José de Alencar. Maia é uma protagonista misteriosa, de modo que não sabemos muito sobre suas intenções. Isso ajuda o texto a prender o leitor. Por outro lado, a leitura se mostra um tanto arrastada, em face da opção pela linearidade, o que é reforçado pela marcação dos capítulos. Um conto irregular, a meu ver, pois se acerta ao provocar angústia, também erra pela falta de elementos mais marcantes. De todo modo, é um trabalho interessante. Boa sorte no desafio.

  4. Virgílio Gabriel
    26 de março de 2019

    Um certo dia uma garota se une a indígenas que vendem produtos na rodoviária. Ela se apega as crianças, e após uma dessas ser assassinada, seu cabelo e olhos mudam de cor. No final de ano, na praia, ela encontra o rapaz. O mata com a mesma navalha, e após isso, corre em direção ao mar e nunca mais é vista.

    Bom, eu estava prestes a comentar que não se adequava ao tema, mas o final mudou o meu modo de pensar. O conto em si, apesar de muito bem escrito, não caminha. É como se eu estivesse lendo um bom romance de pelo menos 300 páginas, mas que para um conto parece não combinar. Não entendi também a colocação de marcação (capítulos) em cada parágrafo.

    No geral é um bom drama, com 1% de fantasia no final. Esperava mais dinamismo e fatos marcantes, mas ainda assim gostei de ler. Parabéns.

  5. Estela Goulart
    25 de março de 2019

    Resumo: (contarei o que entendi da história) Lúcia e Maia são índias que trabalham vendendo artesanatos na rodoviária para sobreviver. Maia é uma cuidadora das crianças indígenas, e quando um dos meninos sofre uma violência terrível, ela vai atrás do culpado e, num lance de magia, se transforma em pássaro.

    Comentários da história: interessante. Aparentemente, não tinha nenhum aspecto fantasioso, o que considerei monótono. Logo, o enredo se tornou mais enigmático. Uma boa história.

    Comentários da narrativa: gostei das separações em capítulos e da sua maneira de escrever, o que facilitou a progressão da história.

    Comentários da gramática: bem escrita, nenhum problema a comentar.

  6. Cirineu Pereira
    24 de março de 2019

    Resumo
    História, um tanto mística, de vingança, envolvendo casais indígenas que, ao final do ano, vendiam artesanato num balneário. A eles se junto Maia, uma jovem também de raízes indígenas, ajuda a cuidar das crianças, inclusive de Arthur, filho de Lúcia. Até que, enquanto Maia, auxiliando também com as vendas, descuida-se de Arthur e o menino é subitamente degolado por um transeunte. Usando de recursos místicos, Maia encontra o assassino e o degola com a mesma navalha, ao fim de que “regurgita” um pássaro.

    1. Aplicação do idioma
    Sem demonstrar erudição desnecessária ou característica de estilo. Vocabulário objetivo, sem erros notáveis de ortografia ou gramática.

    2. Técnica
    Sem grandes destaques, exceto pela ligação entre introdução e desfecho. A divisão do conto em seções identificadas por algarismos romanos causa estranheza, concedendo uma certa “artificialidade” à narrativa. Ademais, o estilo narrativo tem um quê de crônica, conferindo um caráter impessoal e pouco profundo.

    3. Título
    Título hermético, parece relatar ao latim, não causa efeito sobre o leitor.

    4. Introdução
    Bom início, reportando diretamente à cena, sem maiores esclarecimentos, requerendo que o leitor dê continuidade à leitura para maior entendimento. Ressalva apenas para “os olhos arrancados” que, mesmo após conclusão da leitura, não permite saber a quem pertence, se ao pássaro, se a algum brinquedo ou se ao menino (no sonho da mãe)

    5. Enredo
    Bom enredo, porém linear, sem complexidade

    6. Conflito
    O conflito tem pouca força, a propósito é ofuscado pelo clímax, é mal delineado e recebe pouco espaço no conto.

    7. Ritmo
    Ritmo constante, sem grandes enlevos, salvo pelo clímax

    8. Clímax
    Salvo pela adição do elemento fantástico, é um desfecho pouco original, a vingança.

    9. Personagens
    Há uma alternância de protagonismo, inicialmente incumbido à mãe e posteriormente transferido para Maia, em ambos os casos, as personagens são narradas de maneira bem impessoal, sem muita profundidade.

    10. Tempo
    Boas referências temporais que ajudam, inclusive, na construção dos personagens e sua realidade social

    11. Espaço
    Poucas descrições, caracterização pobre dos cenários

    12. Valor agregado
    Há uma referência clara ao preconceito, à discriminação e à condição social dos indígenas e seus descendentes, porém o autor peca pela pobreza e caracterização dessa cultura, tão somente sua condição social é enfatizada.

    13. Adequação ao Tema
    É, sobretudo, um conto “social” em que o elemento fantástico parece ter sido inserido para satisfazer ao requisito do concurso.

  7. Fernanda Caleffi Barbetta
    20 de março de 2019

    Resumo
    Lúcia e seu marido, juntamente com outras duas famílias da mesma aldeia, vendem artesanato na praia, entre época de Natal e Carnaval, para ganhar um dinheiro extra, No terceiro ano, o casal leva o filho Arthur com eles. Os homens vendem sorvete, água e miudezas na praias e as mulheres vendem artesanato na saída da rodoviária. De noite, dormem em um barraco. Maia, uma adolescente, se junta a eles, cuidando das crianças e levando algum artesanato para vender dentro da rodoviária, em troca de comida. Lúcia via alguma familiaridade na jovem, que dizia morar com a tia em uma aldeia vizinha à deles. Após o Natal, o movimento aumenta na rodoviária, e Maia atrai os turistas com suas penas e maquiagem. Distraída com as vendas, não percebe quando alguém se aproxima de Arthur e o mata com uma navalha no pescoço. O assassino foge. Os olhos de Maia ganham uma tonalidade cinza e seus cabelos ficam brancos. Ela guarda a imagem do assassino em sua memória apesar de não ter visto seu rosto. Encontra a navalha no lixo e guarda consigo. No dia de ano novo, encontra o assassino dormindo na areia e o mata da mesma forma como ele havia matado Arthur. Um pássaro sai da boca de Maia, que corre para o mar e some entre as águas.

    Comentário
    O texto é muito bem escrito. A história é interessante.
    Ficou sem sentido este parágrafo:: “Houvesse conhecido sua mãe na idade de Maia, saberia de onde vinha a sensação de familiaridade. Mas era melhor que não soubesse. A mãe de Lúcia havia morrido muitos anos atrás. Os mortos, era melhor que ficassem longe dos vivos. Evocá-los significava aproximá-los trazendo desgraça. Era nisso que Lúcia acreditava.” Se a intenção era relacionar Maia à mãe de Lúcia, acho que ficou confuso.
    Foram poucos os erros gramaticais. Encontrei alguns problemas com vírgulas:
    Quando secaram, seus olhos lavados pelas lágrimas, (tirar vírgula) haviam”
    o resto (vírgula) dividia com as crianças (vírgula) distraindo-as entre as colheradas.
    todos em torno das chamas (vírgula) comendo, bebendo e dançando,
    teve que (se) descuidar das crianças naquela tarde (vírgula) o que a fez planejar
    As duas mulheres estavam de costas (vírgula) um pouco afastadas, as crianças
    Quando ele apareceu (vírgula) o corpo de Artur já havia sido levado embora.
    Acentuação: atraia (atraía) / A (À) contragosto /A (À) noite
    “Da noite, que atravessou insone encostada em frente ao local onde sobraram esquecidos os chinelinhos do menino, (eu acrescentaria o nome Maia aqui) emergiu com duas mechas brancas no cabelo, de modo que ninguém reparou que seus olhos haviam mudado de cor, apenas seu vistoso cabelo embranquecido foi notado.”
    A mesma coisa no início do cap XV, dizer que é de Maia que fala. “O sangue espirrou no seu rosto, nos braços, na blusa. O cheiro metálico provocou-lhe uma náusea imediata.”

  8. Felipe Takashi
    18 de março de 2019

    Sinopse: Lúcia mora no litoral, com o filho e o marido. Maia é uma jovem indígena que acaba conquistando a confiança de todos os artesões da região. A relação de Maia e o filho de Lúcia, o jovem Artur, é um amor incondicional. Mas o destino quis que a vida dele fosse ceifada ainda jovem, e restou a jovem indígena resgatar o preço de sua alma.

    Comentário: Esse conto é extremamente inquietante. No começo, ele até que não diz muito a que veio, mas após a inserção de Maia e do assassinato de Artur, pude ver o qual fantástico essa história era.

    Lista de contos Felipe Takashi

    1º – A Dama Rubra
    2º- O Dia Em Que Acordei Morto
    3º – Betiron, um Reino
    4º- Os Dois Lados da Penteadeira
    5º- Dezembro
    6º – Sensitu
    7º- Uma Canção Para Nara
    8º – O Animalismo
    9º- Lúcia no Mundo das Coisas
    10º- Passageiro 3J
    11º- Apenas Um Dia Comum

  9. Gustavo Azure
    10 de março de 2019

    RESUMO: A vida cotidiana de indígenas inseridas no meio urbano e o trágico assassinato de uma criança.

    CONSIDERAÇÕES: O realismo do conto criou uma tensão crescente e explorou expressivamente a inserção dos indígenas nas cidades, mostrando o cotidiano difícil. Personagens muito bem elaborados, fluxo ótimo, clima tenso. O conto descreve o cotidiano de uma maneira tão realista que até mesmo quando Maia revela-se ser (ou ter se tornado) sobrenatural, parece que isso é comum nos nossos dias. Parabéns!

  10. Rocha Pinto
    10 de março de 2019

    Lúcia ignorou um sonho, não o tomando como presságio. Foi para a praia com três famílias, incluindo a sua. Um rapaz foi assassinado por um sujeito. Por intuição a mulher que tinha o rapaz, encontrou esse sujeito e matou-o. Depois entrou no mar, desaparecendo para sempre.

    Argumento pouco interessante para mim que não gosto de mortes em ficção, ainda para mais em excesso.

  11. M. A. Thompson
    9 de março de 2019

    Olá Sensitu.

    RESUMO: O autor narra a vida de alguns indígenas que vivem de vender artesanato na praia. Uma das crianças é degolada por um estranho portando uma navalha. Uma das indígenas vinga a morte da criança degolando um homem que, supostamente, era o assassino. Expele um pássaro pela boca e se transforma em uma criatura que some no mar.

    O QUE ACHEI
    A fantasia demorou tanto para entrar no conto que quando entrou não fez mais sentido.

    FANTASIA ou COMÉDIA?
    Tentou ser fantasia.

    Boa sorte!

  12. Shay Soares
    3 de março de 2019

    Sensitu – uma índia que do nada aparece, se junta a outro grupo para vender pulseiras e outros artesanatos a época de fim de ano e termina por matar o assassino de Arthur, um menino indígena.

    É um texto muito bonito e sensível, mesmo que eu não soubesse nada dos hábitos indígenas eu poderia tomar como verdade o relato que aqui se encontra, consegui desenhar muito bem na minha cabeça os traços e cultura que a narrativa traz.

    O texto me manteve interessada do começo ao fim, a trama envolvia: quem é Maia? O tempo todo esperando o ponto onde o poema logo no início se encaixe, quando na verdade o assassino era outro e Maia nada tinha de ver com o poema em si. O conto ainda deixa perguntas: a razão das mechas no cabelo, o passarinho e a corrida na praia para o banho de onde nunca regressou. Era um espírito? Por que veio num primeiro momento? Queria proteger, evitar o assassinato?

    Adorei, obrigada por compartilhar!

  13. Paulo Luís
    28 de fevereiro de 2019

    Olá, Um Passarinho, boa sorte no desafio. Eis minhas impressões sobre seu conto.

    Resumo: Uma família indígena, numa época natalina vende artesanato no litoral e na rodoviária, quando uma jovem índia, órfã, se junta ao grupo, ao mesmo tempo em que é cuidada, Ajuda nos serviços e cuida das crianças. Quando acontece um crime e muda a história de todos.

    Gramática: A leitura flui com facilidade. Não percebi nada que desabone.

    Tema/Enredo: O conto, no meu entender, não atende ao propósito do desafio: fantasia ou comédia. Á princípio parece ser uma lenda indígena, mas no decorrer da narrativa não se confirma essa tendência. O conto tem um cenário e um enredo muito bem desenvolvido, mas acontece um crime sem nenhuma fundamentação. Quero dizer que, o eixo do conto, não teve nenhuma valoração em todo o contexto anterior, assim como a vingança. Pois, esta também, não tem uma construção convincente. A trama em si tinha tudo para um grande enredo, mas infelizmente tomou outros rumos.

  14. Thiago Barba
    28 de fevereiro de 2019

    Indígenas que viajam todo ano para a praia durante a temporada para vender seus artesanatos. Maia uma adolescente, cuida das crianças enquanto os adultos trabalham, até uma criança ser morta. Ao final Maia encontra alguém (assassino ou não, não há certeza no texto), e o mata da mesma forma que o menino foi morto.
    Narrativa poética, imagética, sensível. Me encomodei com a separação em, capítulos (?). Acredito que em muitos momentos não seria necessária a separação, até encontro momentos que a utilização é viável, mas em certos momentos a opção de usá-los não tendo uma mesma relação, me pareceu estar como um recurso pelo recurso, pois ele faz cortes onde a cena segue normalmente, logo na sequência da cena anterior.
    Acho que a história e o desenvolvimento, assim como a utilização de tudo o que vai sendo utilizado no texto, tudo muito bem desenvolvido, como exemplo o sonho premonitório, palavras que parecem soltas no meio das frases são justificados com o seguir do texto.

  15. Lucifer Friend
    28 de fevereiro de 2019

    O conto narra a vida de três famílias indígenas que saem de sua tribo para vender artesanatos e outras coisas na praia, durante a alta temporada das festividades de fim de ano até o carnaval. Os homens vendiam sua mercadoria na praia e as mulheres ofereciam as suas na rodoviária e entorno. No segundo dia, após a chegada dos indígenas, uma jovem índia chamada Maia se aproxima e se oferece para ajudar as mulheres nas vendas e no cuidado com as crianças. Elas se afeiçoam à moça, tanto quanto Maia a elas. Após alguns dias passados, enquanto todos estavam distraídos com seus afazeres, Artur, o filho de Lúcia, que era mais próxima no convívio com Maia, foi brutalmente degolado por um jovem desconhecido. Maia, que havia se apegado muito ao menino, fica muito desolada e espera encontrar o assassino. Ela encontra a navalha que o criminoso usou. O crime causa comoção, mas fica impune. Chega a virada de ano e, após os festejos, mais para o fim da noite, a moça encontra o assassino e o degola, como ele havia feito com o indiozinho. Após a vingança realizada, a jovem índia caminha pela areia da praia, sentindo-se estranhamente mal, se transmuta em um ser fantástico (sereia?) e retorna para as águas do mar.

    Considerações:
    Cumpre o quesito tema: é fantasia
    O conto comunica bem o que pretende. O português é bom, havendo apenas erros com vírgulas (pouquíssimos).
    Consegue prender a atenção, enquanto leva o autor por situações cotidianas até a reviravolta com o inesperado assassinato do indiozinho e tem como ápice a vingança de Maia e sua transmutação em sereia (?).

  16. Cicero Gilmar lopes
    27 de fevereiro de 2019

    Resumo: Lúcia é a mãe de Artur e tem uma rotina que se repete há três anos, um pouco antes do Natal; vender artesanato junto com o marido e mais dois casais de amigos. Neste ano levou o filho pequeno e tiveram a companhia de Maia, garota indígena que juntou-se ao grupo na rodoviária. A garota logo se integrou e cuidava das crianças com muito carinho, mas não conseguiu evitar que o pequeno Artur fosse assassinado, sem motivação aparente e de forma covarde. Herdou do menino morto o cinza dos olhos e a imagem do assassino gravada em suas retinas, depois encontrou a a navalha usada no crime. A polícia não teve sucesso em resolver o caso, então, Maia caminhou naturalmente para cumprir o seu papel de anjo vingado e depois desapareceu.

    Considerações: Novamente um texto muito bem escrito, a trama é um pouco rasa, mas o autor compensa isso com uma construção lenta e repleta de possibilidades. Ele abre caminhos, propõe alternativas e nos deixa olhar o horizonte, mas não segue nenhuma das estradas abertas. São possibilidades somente.

  17. Higor Benizio
    26 de fevereiro de 2019

    Resumo: Uma índia com poderes sobrenaturais, os usa para desvendar o assassinato de um indiozinho, e se vingar. No final, após concluída a vingança, um passarinho saí da boca dela, ela entra no mar, e some.

    Sobre o conto: É um bom conto. A escrita é experiente, sóbria, e nada cansativa. Acho que boas imagens foram criadas para Maia, principalmente no final. A única coisa que incomoda é a morte meio afobada do Artur. O moleque morre sem mais nem menos. O acontecimento central do conto acabou ficando estéril, isto deveria ter sido trabalhado de uma forma mais profunda. Por exemplo, o autor(a) não dividiu o conto em núcleos? Por que não compor um do ponto de vista do assassino? Daria muito mais corpo e sentido a tudo.

  18. Luiz Ricardo
    26 de fevereiro de 2019

    RESUMO: Pelo terceiro ano seguido Lúcia e sua família viajam nas vésperas de natal para fazer dinheiro extra no litoral. Outras famílias se juntavam a ela para dividir os trabalhos. Os homens vendiam alimento na praia enquanto as mulheres vendiam mercadorias do lado de fora da rodoviária. No segundo dia uma garota indígena chamada Maia aproxima-se das vendedoras oferecendo serviço em troca de comida. Os laços se estreitam depois que Maia se apega às crianças e principalmente ao pequeno Artur, filho de Lúcia, uma das vendedoras. Passados alguns dias, com o tumulto de turistas em volta, Maia, sua mãe ou qualquer pessoa não conseguiu evitar o assassinato do pequeno Artur, debaixo de uma árvore onde Maia costumava brincar com ele. O criminoso consegue fugir, mas não por muito tempo, pois Maia, como uma força da natureza, misteriosamente encontra o assassino e o faz provar o sabor da vingança. Depois a garota, como um ser mágico, mergulha nas águas do mar para nunca mais ser vista.

    CONSIDERAÇÕES: O conto está excelente. Muito bem escrito e envolvente. As cenas finais são muito boas e lembram as fantasias espetaculares de algumas animações japonesas.

  19. DANILO.RODRIGUES BEZERRA
    23 de fevereiro de 2019

    RESUMO: uma garota indígena chamada Maia decide se juntar a um grupo de outra tribo que vende brincos na praia. Com o grupo ela conhece Artur, uma criança que é brutalmente assassinada. Maia decide vingar a morte do pequeno.

    CONSIDERAÇÕES: história bem narrada e sem erros ortográficos e gramaticais. Algumas pontas ficaram soltas, como a relação de Lúcia, mãe de Artur, com Maia (ou isso ou eu que não entendi a relação). Também faltou trabalhar a motivação do crime, parece ter sido um ato isolado. O passarinho que aparece no início e no final dá um teor interessante, poderia ter explorado mais também esse tópico. Mas a história prende a atenção, a escrita é boa e torna a leitura bem fluida, com vontade de saber o desfecho. O tema foi muito criativo.

  20. Emanuel Maurin
    21 de fevereiro de 2019

    Um passarinho, que conto! Boa tarde!

    Numa aldeia perto da praia moravam juntos algumas famílias que vendiam artesanato na paria e na rodoviária. Numa dessas muitas viagens precisaram levar o pequeno Artur em contragosto da mãe. Encontraram nessa empreitada uma menina especial que virou parte da família, era Maia, ajudava na venda e cuidava das crianças das famílias.
    A ligação de maia com Artur era imensa.
    Um dia, o menino foi assassinado com uma navalhada no pescoço a sangue frio.
    Após o episódio sangrento, Maia começou a ter vontade de vingar a morte do menino. Seguiu sua intuição e encontrou o assassino, pegou a navalha que ela tinha guardado, matou o verdadeiro culpado do crime, vingando a morte de seu grande amiguinho Artur. Depois desapareceu…

    Fácil de entender, a narrativa flui bem, texto criativo e rico em detalhes.

    Gostei muito, parabéns.

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Informação

Publicado às 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C3 e marcado .