EntreContos

Detox Literário.

Somos Seis (Jacob d’Veneto)

Uma a uma elas desciam os degraus até que chegassem ao porão.

Fazia muitos anos que as irmãs todas juntas não desciam até aquele lugar.

Sempre que a mãe ia até lá era para procurar coisas do passado. Renata é a que a acompanhava e agora era ela que encabeçava a fila. Com nó na garganta procurava ser forte porque se esmorecesse naquele momento, fazia com que todas também pusessem a chorar, talvez quando chegasse lá embaixo não fosse forte o bastante. As outras cinco irmãs também não iriam aguentar, mas por hora ela tinha que ser forte. Ela não era, nem a primeira nem a última a vir ao mundo naquela família, porém tinha sido arrimo, desde quando a mãe ficara sozinha depois da morte do pai.

Como era longa aquela escada, parecia não terminar nunca!

Silvia a mais velha havia saído de casa logo que completara dezoito anos. Parecia ter sido ontem, mas se passara trinta e oito anos. Ela estava logo atrás da primeira. Queria colocar as mãos nos ombros da irmã, mas hesitava em fazer, porque para ela, a irmã era a mais chata. Era a que fazia as cobrança para o cuidado com a mãe, avisando-lhe da velhice que caminhava a passos rápidos. Ultimamente recebia ligações da irmã, pelo menos duas vezes por mês, para que viesse ver a mãe. Sabia que ela não duraria muito, mas a Universidade não a deixava sair. Havia opinado em não se casar justamente por isso, para não ser cobrada da vida pessoal.

Chegou a ficar dez anos sem dar notícias. Seu pai ligava, deixava recado, até que um dia ele se deslocou para onde morava, mas, justamente naquela semana, havia partido para o Egito em mais um pós-doutorado. Viagens, livros, aulas, seminários, publicações, eram muito mais importante que a visita de um velho gagá.

Ficou sabendo pela vizinha da estada do pai à sua procura, ligou, esbravejou e recriminou seu ato violento de não a deixá-la em paz e viver a seu modo.

Na morte do pai, só veio depois do enterro. Chorou muito, mas foi só um dia, depois tudo voltou ao normal. E agora com a mãe não seria diferente. Havia sido enterrada ainda ontem e amanhã seus compromissos seriam inadiáveis.

Eram somente dezoito degraus, que pareciam não ter fim, não terminavam nunca!

Suely era a segunda filha, porém era a que encerrava a fila. Muito gorda não conseguia acompanhar as irmãs. Foi a primeira a se casar dentre elas. Ficou grávida do cafajeste do vizinho que morava em frente; era assim que sua irmã Silvia falava quando se mencionava o nome do seu marido.

Teve cinco filhos todos homens; parecia querer parir até que viesse uma menina. Sua mãe sempre dizia que ela só tivera mulher e Suely só homem. Seu marido, o tal do cafajeste, que disso não tinha nada, era um excelente companheiro e pai, e a apoiava em tudo que dispusesse a fazer.

Sempre presente na casa dos pais, os respeitavam muito, mas pela vida agitada em dividir o consultório de psicologia, os filhos e o marido, não conseguia tanto tempo para com os pais, que por sua vez a compreendiam, pois pela leva de filhas que tiveram sabiam que não era fácil administrar tudo.

Quando o pai partiu sempre procurou ajudar a irmã Renata, e agora com a partida da mãe não seria diferente.

Dois degraus à frente distanciava das demais. Queria esticar as pernas para alcança-las mas poderia se desiquilibrar e partir por cima delas. Assim ia a pata choca.

Susan era a terceira da fila, porém, a penúltima da prole. Durante quatro anos viu o que era ser caçula até que veio mais uma. Pelo fato da última ser a mais bonitinha de todas quando pequenina, ouvia dos parentes que tivera sido feita para preparar a beleza da última. Isso a fazia querer morrer. Além disso era a mais alta, o que lhe fazia tirar o sono por muitas vezes. Media sua altura com a dos meninos, e ainda sobrava muito para competirem com ela em tamanho. Quando fosse para escolher um deles para namorar faltava uns centímetros para chegar ao seu ombro; não iria se casar nunca, ficaria pra titia.

Mas como, sempre tem uma tampa para sua panela, apareceu para trabalhar na cidade o Zé Torre. Pronto, não demorou muito para a festa de casamento. Das irmãs foi a segunda a se casar. Ficou morando na mesma cidade, e todos os dias passava na casa dos pais. Mas só passava. Isto era no café da manhã, no almoço e no jantar ou até depois de alguma festa. Arrumar a louça que deixava sobre a pia era para os outros. Mesmo que tudo da casa estivesse nos seus devidos lugares, ela desarrumava e partia deixando tudo sujo sobre a mesa. Até que um dia, Renata a irmã chata, a cobrou pelos seus deslizes. Ficou uns dias sem aparecer, até que a irmã chata, sentindo sua falta foi pedir-lhes desculpas. No dia seguinte tudo voltou como era antes.

E agora, Renata era a que puxava a fila e mal sabia ela o que ia encontrar lá embaixo.

Suelem era a quarta da fila, porém era a terceira que viera naquela família. Demorou somente dois meses do resguardo da sua mãe pelo nascimento da irmã Suely para que ficasse grávida dela. Nasceu e continuou sendo muito magrinha. Cresceram praticamente juntas, mas o peso entre as irmãs era o que fazia a diferença. A chamavam de: a gorda e a magra.

Ela não dava muita importância para esses comentários, quem não gostava das comparações era a irmã. Mas o que mais a intrigava é que a irmã mesmo sendo muito gorda nunca ficava sem namorado, ela porém, só tivera um e foi com quem se casou, e ainda foi a última a se casar. Só teve uma filha.

Suelem foi muito ligada ao pai. Quem os presenciava parecia ser a queridinha do papai. Talvez pela sua idade ser muito próxima da irmã e também pela sua magreza, dava a impressão que o pai tivera mais cuidados para com ela.

Depois que se casou em poucos meses mudou-se para fora do país. O marido, um engenheiro mecânico, foi trabalhar em uma multinacional. Das irmãs era a que mandava recursos para os velhos. Todos os meses chegava uma correspondência do banco com aviso de crédito do exterior.

Vinha todos os anos para as festas de Páscoa, Natal e Ano Novo. Seu marido muito carismático dizia gostar de passar as festas com a família, era uma maneira de uni-las. Aprendera isso com a família dele que tinha o mesmo ideal, mas a família dela não ligava muito para isso. Quando chegavam tinham notícias não muito agradáveis, é que o dinheiro que mandava nunca chegavam nas mãos dos pais.

Simone era a caçula. Esse nome ela fez uso sempre. Era a que mais dava trabalho para todos. Deu trabalho aos pais quando eram vivos e agora sabia-se que continuaria a dar trabalho.

O dinheiro que vinha do exterior, sempre tinha uma finalidade, era para ela, a caçula.

Comprava o que podia e o que não podia e as dívidas iam para os pais pagarem.

Quando o pai morreu ouviu-se falar que foi desgosto pelo trabalho que a filha Simone dava a ele.

Casou-se e separou-se logo no primeiro ano. Com a filha na barriga foi acolhida pelos pais. Assim que a menina nasceu deu para adoção. Quando os pais souberam foi tarde; perderam a tutela para um casal desconhecido. Dizia que pela menina ser muito bonita não faltou para quem quisesse. Os pais e todas as irmãs ficaram muito chocados, mas ela não deu importância alguma para isso.

Casou-se novamente, e novamente e agora sabe-se lá com quem está. Como sempre se vestia como rainha e possuía bons carros, nunca lhe faltava pretendentes. Foi a única que não chorou na morte do pai, nem da mãe e agora para ela era tudo muito normal.

Renata a irmã sargentão, na verdade só tinha isso de nome, pois era a que apagava o fogo, tudo sobrava para ela, de sargentão mesmo não tinha nada. E também foi a única que quebrou o paradigma do “S” na família Souza e Silva. A mãe com sobrenome Souza e o pai com sobrenome Silva.

Diziam os vizinhos que seu Silva ficou muito contente quando soube da nova gravidez da esposa. Dizia que nasceria um homem. Então, quis ele escolher o nome para o filho, o qual chamaria Renato. Mas quando a parteira disse que havia nascido outra menina, a mãe disse que seu nome seria Renata e ninguém mais tocou no assunto.

Não só pela diferença das iniciais do nome ela também era muito diferente. Era a que unia a família. Achava-se até que se ela não existisse, a família Silva não seria o que é hoje.

E depois de uma eternidade chegaram ao porão!

Lá estava junto à mesa o advogado da família, ao qual se preparava para iniciar a leitura do testamento, depois das mulheres se arrumarem em semi círculo. Olhando para elas, iniciou-se a leitura.

E assim se sucedeu:

– Estamos aqui neste porão, pois foi aqui deixado pela vossa mãe, nesse testamento, pedindo que fosse somente lido aqui. Ele foi escrito pelo pai de vocês a próprio punho. Depois vocês atestarão desta verdade.

Olhou para as mulheres, engoliu a seco e continuou:

-Todas as sete filhas deverão estar na abertura desse testamento…

Depois destas palavras, Simone, a gastona, foi logo interrompendo o advogado perguntando sobre o número das irmãs.

– Somos seis, por que essa agora de sete filhas? Será que o velho errou na escrita ou tem mais uma filha que nós não sabemos?

O advogado não dizendo nenhuma palavra depois do interrogatório da moça, ouviu-se um rumor nos degraus da escada onde apareceu a sétima mulher; mulata aparentava ter quarenta anos.  O vestido e as jóias que trazia não eram de pouco valor. Só ricas eram vistas assim.

A mulata assim que galgou o subsolo pôs-se logo ao lado da caçula cumprimentando a todas com um único sinal de cabeça.

O advogado continuou:

-Todas as sete filhas deverão estar na abertura deste testamento e o primeiro nome ao qual foi citado para a herdeira desta casa, da fazenda da Tijuca e do baú com dólares e jóias é para a Zu…

Antes que o sujeito terminasse de pronunciar o nome, começou-se uma verdadeira algazarra naquele lugar. Todas falavam ao mesmo tempo. Gritavam e xingavam.

O advogado por mais que pedia silêncio não conseguia conter aquele alvoroço das seis mulheres.

Aos poucos foram se acalmando, até que voltaram à posição inicial.

Assim que o silêncio pairou, o advogado prosseguiu:

– A fazenda Cleópolis e a casa da rua Parati..

– Qual fazenda? – Interrompeu Renata com indignação – Qual casa da Rua Parati; qual baú de dólares e jóias?

E a baderna voltou.

O advogado mais uma vez questionava por silêncio, agora em voz alta, mas era impossível conter a todas.

– Senhoras, por favor silêncio; silêncio senhoras; essas palavras não são minhas, são do vosso pai, o senhor Ermenegildo Pereira.

Ao enunciar o nome do falecido o silêncio pairou num único momento.

Mais uma vez Renata tomou a palavra interrogando o nome do falecido:

– Ermenegildo Pereira?  

Todas as irmãs questionaram ao mesmo tempo num coro

– Quem é Ermenegildo Pereira?

Renata reclama outra vez:

– Nosso pai chamava-se Silvio Silva e nossa mãe, Serafina Souza Silva. Quem é Ermenegildo Pereira?

O advogado todo confuso e nervoso começa a vasculhar pelas outras pastas sobre a mesa. Em seguida, de mão de uma delas diz:

– Perdoem-me, estava lendo o testamento que será realizado amanhã neste mesmo horário coincidentemente também num porão.

Mais uma vez começa o alvoroço entre as seis mulheres, porém, agora sendo mais fácil de ser contido.

Antes que o sujeito iniciasse a leitura do testamento adequado, Silvia lançou a pergunta.

– E esta mulher que chegou, quem é?

O advogado, sem tréguas responde com convicção:

– É a minha esposa!

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C3.