EntreContos

Detox Literário.

Revelações (Gavião)

Seres alados caminharam entre os homens, mas nenhuma trombeta soou naquele dia. Ouviu-se, em contrapartida, o silvo agourento de corujas.

***

O Opala desbotado a acomodava enquanto, perdida por lembranças igualmente desbotadas, observava o sereno da madrugada em seu capô. “No dia em que o combustível for de graça, é capaz de você tirar essa carroça enferrujada da garagem.”, o pai lhe disse certa vez. Sentia muita falta da rabugice do homem.

Lembrava-se das primeiras noites, as mais barulhentas, quando era possível notar vultos de pessoas sendo carregadas como camundongos nas garras de seres bestiais. As luzes das cidades apagaram-se gradualmente e, após poucas semanas, o mundo mergulhou na escuridão.

Um som metálico no beco próximo arrancou Samira de sua nostalgia. Quase como reflexo, buscou o revólver que guardava embaixo do banco do motorista. Desceu silenciosamente do carro, deixando a porta entreaberta. Aproximou-se do beco com cuidado, torcendo para que fosse um gato, um cachorro ou qualquer coisa que ela pudesse jantar – e não o contrário. “Bobagem!”, gritavam seus instintos. Não há mais animais domésticos.

No fundo do beco, a fonte do barulho refletia amassada os escassos raios de luz que conseguiam entrar ali. Samira não percebeu qualquer movimento próximo à lata de cerveja, o que era ao mesmo tempo perturbador e reconfortante. Teria sido o vento?

Cedendo a uma curiosidade impetuosa, deu dois passos para dentro do beco, apertando as vistas quase ao ponto de expeli-las das órbitas. Mesmo assim, nada. Naqueles tempos de terror, o vento era um brincalhão, pregando sustos em crianças justificadamente medrosas – mas não daquela vez.

Uma pancada na cabeça obscureceu os sentidos de Samira e encerrou sua longa madrugada solitária.

***

Ainda de olhos fechados, levou a mão direita à cintura, mas não encontrou o que procurava.

– Se é sobre a faca, guardei ela pra você, moça. O revólver também.

Samira abriu os olhos em espanto por ouvir uma voz humana. Surpresa maior a aguardava do lado de fora de suas pálpebras, entretanto.

– Ele… – as pregas vocais vibraram ásperas, a princípio – eletricidade?

– Pois é – o rapaz franzino parecia se divertir com a incredulidade dela -, temos algumas mordomias aqui embaixo.

Ao tentar endireitar o corpo, sentiu a cabeça pesada e achou melhor não forçar muito o movimento.

– Perdão pelo golpe, aliás – ele disse, percebendo a dor alheia –, foi pra evitar qualquer escândalo.

– Antes você do que eles – as palavras saíram naturalmente da boca dela.

A alusão às criaturas atuou na silhueta daquele rapaz como nenhuma pancada poderia fazer.

– Você… chegou a ver algum?

De repente, a voz do pai ecoou mais uma vez na consciência de Samira: “Não sai do porão por nada! Eu vou buscar sua mãe e volto, mas não sai daqui!”.

– Alguns.

***

A humanidade já foi conhecida por sua capacidade de adaptação. Como ratos, foram apanhados a céu aberto. Como ratos, buscaram refúgio no subsolo, nos porões, nas cavernas e em definitivamente qualquer buraco que parecesse minimamente seguro. Longe da visão sombria dos seres que ironicamente apelidaram de “anjos”, surgiram aos poucos pequenos aglomerados subterrâneos. Alguns, como Nova Babilônia, até contavam com alimentos cultivados e precários mecanismos para geração de energia.

– Sabe do que eu sinto mais falta, Samira? Bacon. Dava um rim por um x-infarto.

– X-infarto?

– É. Tinha esse lugar perto de casa que fazia um lanche com três carnes diferentes, uma bacia de maionese e bacon à vontade. A gente chamava de x-infarto. Até o dono da lanchonete gostou do nome.

Samira encontrou naquele novo modo de vida certo alento para as dores do passado. Não tinha nenhum luxo, às vezes odiava comer batatas com tanta frequência, mas era muito melhor do que qualquer coisa que tivesse encontrado em seus dias de nômade. Ainda por cima, acabou se afeiçoando a algumas pessoas ali.

– X-infarto… você é um babaca, Josias.

– Babaca?! O babaca aqui fez você sair daquela lata velha e te carregou por um quilômetro sem nem suar a camisa.

– É disso que eu falo, só um babaca pra se vangloriar de um sequestro.

– Eu já expliquei, não foi sequestro! Você estava armada, pensa o barulho que aquela merda ia fazer, na melhor das hipóteses!

Antes de Samira, Josias costumava fazer suas rondas na superfície sozinho, mas ela se mostrou uma companhia confiável e conhecia as proximidades muito melhor do que qualquer outro batedor. Compartilhavam temores e aflições nas suas idas e vindas. Às vezes, também compartilhavam o nascer do sol.

– Daqui a alguns anos, as crianças nem vão mais saber o que é um céu azul – ela pensou em voz alta.

– Nem o que é bacon.

Samira usou todas as forças que tinha para conter o riso, mas não conseguiu.

– Babaca.

***

– O velho Dida sabe como espantar eles, Samira!

– O velho Dida DIZ que sabe muita coisa, e esse velho tá caducando há tempos.

– Mas e se for verdade? Talvez… talvez a gente tenha alguma chance…

– Chance de virar comida de coruja, Josias.

Ele tentou tocar sua mão, mas ela a recolheu.

– Samira, o pessoal tem adoecido, e não é só de falta de sol, as pessoas estão perdendo a sanidade aqui embaixo. Não dá pra viver desse jeito pra sempre.

Pelo buraco que chamava de janela, ela via as galerias fracamente iluminadas. As pessoas se recostavam aqui e ali, crianças sujas desapareciam em corredores escuros e apareciam novamente saindo de outros, a vida seguia errante naquela cidade de toupeiras.

Ele a puxou para si em um movimento vagaroso, sem muita resistência dessa vez.

– Sabia que eu esbarrei em seu carro lá em cima outro dia. Tentei ligar, mas não funcionou.

– Ele só funciona comigo.

– Sei. Achei uma coisa lá que você talvez queira guardar – falou, enquanto tirava um embrulhinho retangular do bolso.

Samira removeu o papel pardo com cuidado, descobrindo a fita de rádio com sua caligrafia torta na etiqueta: “Clube da Esquina I”.

– A gente pode procurar um rádio na próxima ronda.

Ela apertou a testa contra o ombro de Josias. Ganhara a fita do pai em algum momento de sua adolescência. Era difícil encontrar as palavras naquela situação.

– Eu vi meu pai em dois pedaços. Nem sei qual foi o fim da minha mãe. Você é um babaca, mas é o que me sobrou.

Josias a abraçou mais forte, sentiu o ombro molhado de lágrimas e não a soltou até que elas cessassem. Por todo esse tempo, pensou no quão forte aquela garota conseguia ser diante de tanta desgraça. Era mesmo um tolo por cogitar deixá-la para trás.

***

– João disse… os anjos… ele disse… ah, as pragas… sete cabeças… dez chifres… João disse… – o velho murmurava agachado em um canto sujo quando os dois chegaram.

– Dida! Oi! Dida! Sou eu, Josias.

A feição do velho se iluminou, como se retirado abruptamente daquele transe.

– Meu amigo profeta…

– Como o senhor está?

– Caquético, mas vivo – o homem abriu os braços magros e olhou para si, como que para comprovar a veracidade de suas palavras.

– Bom saber – Josias esboçou um sorriso, enquanto Samira permanecia imutável a seu lado – Dida… o senhor me disse uma vez que sabia como espantar os anjos. Era verdade?

O velho fechou os olhos, como se algo lhe doesse em algum lugar inalcançável. Tal expressão se estendeu por longos instantes. Ali, em posição fetal, Samira mal podia diferenciá-lo de uma pilha de ossos.

– Dida? – Josias insistiu.

– Quem é que resolveu chamar aquelas coisas de anjos? Blasfêmia… blasfêmia estampada na testa.

– Não sei quem deu o nome, Dida, eu só quero afugentar aquelas coisas.

– Ah, meu amigo profeta… pobre de você. Que caminho feio você escolheu – Dida olhou de relance para a jovem Samira, depois de volta para Josias –, o que vai ser da moça muda se você não voltar?

– Eu vou com ele, velho caduco – Samira corou por ter xingado o homem, chegou a achar que tinha estragado tudo, mas ele soltou uma gargalhada rouca. Era possível ver suas costelas mexendo enquanto ria.

– Pelo menos você escolheu uma boa companheira, Josias. Até quando ela vai conseguir te acompanhar, eu não sei.

Samira esboçou outra má resposta, mas sentiu a mão Josias em seu ombro e isso lhe acalmou. Ambos sabiam que o velho Dida não falava por mal, também não podiam questionar o que ele dizia, afinal, quem é que sabe do futuro? Permaneceram em silêncio, então.

– O ninho, meu amigo, derruba o ninho e os pássaros perdem a morada.

A simplicidade das palavras não refletia em nada a dificuldade da ação. Ninguém sabia onde ficava o ninho dos anjos.

– Como é que a gente vai destruir um negócio que nem sabe onde está ou como é, Dida?

– Sete cabeças… dez chifres… João disse… os anjos…

***

– Você acha mesmo que consegue fazer aquele Opala funcionar?

Samira ainda não gostava da missão a que se propunham, mas não podia abandonar Josias ao relento de suas ideias.

– Se alguém consegue, sou eu.

– Bom. – Josias não deixava de perceber a tensão em cada milímetro da companheira, das unhas do pé às pontas da cabeleira negra.

– Tem certeza de que quer fazer isso?

– Já passamos pelo mais difícil, Samira. Descobrimos o ninho, conseguimos os explosivos… agora é só botar a mão na massa.

Ela mal reconhecia o rapaz franzino que um dia lhe apresentara a vida no subsolo. Josias tinha criado confiança no que fazia e coragem para fazê-lo – como ninguém mais nos túneis da Nova Babilônia.

– Posso te perguntar uma coisa?

– Claro.

– Por que o Dida te chama de profeta?

Josias, que futricava um caderninho puído cheio de anotações, parou por um momento e sorriu para o nada.

– Eu conheço o velho desde muito antes de toda a merda acontecer. A gente vivia nas ruas e ele era o único que sabia ler, aí eu ficava atormentando pra ele me ensinar.

– Ué, e aquela história de lanchonete perto de casa?

– Tinha uma lanchonete, sempre gostei do cheiro de bacon, mas o resto era só história pra te fazer rir.

– Mas…

– Enfim, eu lembro que ele me perguntou por que eu fazia tanta questão que ele me ensinasse.

– E aí? – Josias tinha a mania de enfiar suspense em tudo.

– Aí eu fiz a cara mais séria que consegui e disse: “Um dia, eu vou escrever algo muito importante e as pessoas vão lembrar de mim por causa disso”. Ele passou a me chamar de profeta nessa época.

***

O edifício Abaddon era um prédio de vinte e tantos andares bem no coração do que havia sido uma grande cidade. Suas sombras se estendiam por longas distâncias no início da manhã. Era impossível não sentir a atmosfera lúgubre que emanava dele. Samira estacionou próximo à entrada principal do edifício, mas não tirou as mãos do volante por alguns instantes.

– Chegamos.

– É, chegamos.

Josias foi o primeiro a descer do carro. Checou a trouxinha de pano que saía da entrada do tanque, ainda estava úmida. De dentro do porta-malas, tirou duas mochilas de lona e entregou uma delas a Samira.

– Quando você estiver pronta.

Ela passou as mãos uma última vez pelo painel do carro, checou o volume do rádio. “Adeus, velho de guerra.”, pensou. Josias observava aflito o topo do prédio. Contava os minutos para vê-lo ruir. Samira finalmente fez um sinal de positivo com a cabeça e Josias ateou fogo à ponta do pano. Por fim, a jovem apertou o botão “Play” do rádio.

***

A voz de Lô Borges ecoou alta na metrópole fantasma, falando coisas sobre um trem azul e um sol na cabeça. Quase instantaneamente, o edifício respondeu com o bater de centenas de asas. Vários anjos se aglomeraram ao redor do velho Opala, cravando suas garras na lataria, rasgando teto, portas, tentando enlouquecidamente parar aquele barulho, enquanto outros sobrevoavam os arredores procurando os responsáveis. As chamas invadiram o tanque de combustível e logo uma explosão de penas tomou a entrada do imponente Abaddon.

Enquanto as feras se ocupavam com a insanidade do lado de fora, duas figuras sorrateiras esvaziaram suas mochilas de lona nas fundações do prédio sem qualquer empecilho. O plano havia funcionado até então.

Josias e Samira estavam quase chegando à saída, quando uma espécie de assobio rasgado fez suas espinhas tremerem. Era a primeira vez que viam um anjo tão próximo e à luz do dia, devia ter dois metros e meio de altura. Ele agitou suas grandes asas com ferocidade e investiu contra Samira. Josias disparou quatro vezes contra a cabeça da besta, que só então cessou o ataque. Foi difícil até para tirá-la de cima da companheira.

Samira sangrava bastante, tinha ferimentos nas duas pernas e um corte profundo no ombro esquerdo. Era impressionante que ainda estivesse lúcida.

– Vai – ela disse -, eu fico e termino o serviço.

– Para com isso, Samira – Josias não consegui esconder o desespero na voz -, você veio por minha causa. Não vou te deixar aqui nunca.

Samira pensou no quanto gostava daquele rapaz. Perdeu a consciência em seguida, com um sorriso no rosto.

***

Quando acordou, reconheceu o teto encardido de seu quarto em Nova Babilônia. Tinha o corpo inteiro dolorido e mal conseguia mover o braço esquerdo. Josias cochilava sobre uma pilha de papéis na mesa ao lado da cama. Com algum esforço, ela conseguiu puxar uma das folhas, pareciam todas conter o mesmo texto:

“Aos que possuem coragem, é possível afastar os anjos destruindo seus ninhos. É apenas o começo, mas é um começo.

Josias

P.S.: sugiro que não levem as pessoas que amam com vocês, ou podem ter que sequestrá-las no final.”

– Babaca.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.