EntreContos

Detox Literário.

Saga dos Sapos (Sapo Rei)

No fundo do mato, quase no meio do pântano, foi gerada uma criança, abandonada pela , sem ninguém para que a aplacasse da fome ou que a tirasse do frio.

Estranhamente seu choro foi atendido, e ao seu socorro veio o Cidrão espinhento e áspero para envolvê-lo com ternura e carinho, depois de já aquecido o Limoeiro correu até ele com seu alimento amargo e verde, dando de mamar para o infante o extrato de seus frutos.

Então em sua casa, no brejo, a criança foi criada com amor e proteção por aqueles que o demonstraram compaixão, crescendo junto aos vaga-lumes e as mariposas, usando longos trapos de seda dos insetos que faziam,  brincando junto ao córrego com os sapos e as rãs, respirando a cerração úmida da madrugada e o sereno gélido da tarde ele esperou o Sol nunca criado e pelo calor que jamais sentiria na pele.

Mesmo amando natureza ele ainda estava só e nada poderia aplacar sua solidão, então decidiu deixar, não abandonar, o Cidrão e o Limoeiro para desbravar o capim alto que separava o pântano e o brejo do bosque e da floresta, indo aonde jamais sonhou ele se aventurou ao norte e depois ao sul, seguindo o leste e oeste, mas não encontrou ninguém, revirou de cima a baixo cada canto de sua terra só para perceber que estava sozinho.

Já velho ele voltou a sua morada ao lado de seus cuidadores e novamente deitou-se sobre o Cidrão e ouviu a música tecida pela palavra de um só Deus, e sua velhice foi revertida a sua idade de nascença ao adormecer sozinho em meio as plantas, acordando com fome e frio.

Mas ao despertar já estava entre o Capim-Cidreira para aquecê-lo e ainda tinha o Limoeiro para alimentá-lo, e desta vez tinha ainda mais companhia pois sobre ele foi colocado incontáveis constelações de pontos solitários, distantes e frios ao limite do céu, e para zelá-lo no firmamento foram estagnadas três pequenas estrelas douradas e brilhantes, sinais dos olhos de Deus sobre aquela terra e sobre ele.

Foi então que percebeu que voltou a ser uma criança abandonada, fadado a ter a vida novamente em solidão.

Mas o Senhor tinha planos para ele, e sobre o céu coseu um manto branco e puro, de aura e luz com bordões de ouro e prata, findando-o com pedras preciosas e brilhantes. Quando foi-lhe dado o manto foi dado o direito de reinar sobre aquela terra, tornando-o o primeiro homem a pisar sobre os pântanos com o sangue nobre e abençoado.

Reinou em um reino sem súditos, comandando os sapos e os insetos, as árvores e os arbustos, reinou para ninguém senão os selvagens e Inocentes Cinocéfalos, que o viam como um santo morto há muito tempo, não como um rei.

Em suas caminhadas ele encontrou a costa do continente minúsculo, lá sentou na areia e contemplou, mais uma vez, sua solidão sobre céu estrelado, sonhando com o Sol que nunca vislumbrou um mundo inacabado. Mas diferente de outrora ele não chorou pelo sentimento, mas o abraçou com ternura e melancolia.

E do mar eles vieram, trajando negro, sujos e maltrapilhos, com fome, sede e ânsia de poder. Em quatro eles vislumbraram o homem trajando majestade sentado sozinho com lágrimas nos olhos encarando o horizonte marinho.

Dos que vestiam negro somente a pequena garota teve a coragem de tocar os ombros do rei da terra, e ao tocá-lo ela seria salva na morte. Depois o homem de negro se aproximou, estendendo a mão e ajudou o homem de branco a se levantar da areia dura e seca, e foi assim que a amizade deles se iniciou.

Por toda a minúscula imensidão do país eles caminharam juntos, deixando seus laços mais próximos e amistosos. Por sua nova família o Rei Branco faria de tudo que estivesse ao seu alcance para mantê-los juntos dele.

Depois de um tempo, a verdadeira natureza do sangue do trapo negro tomou sua forma, e a sede de poder enrijeceu seus corações, fazendo exigirem do pobre rei coisas além de seu alcance, até que, por fim, tomaram dele o manto branco, rasgaram seus trapos negros e os estiraram ao chão.

Sem entender o antigo rei recolheu-os e os ligou a seu corpo, formando uma grossa túnica de tecido mais negro que a noite que nunca acabou. Mas com medo da

solidão ele partiu ao encontro de seus amigos, só para ser renegado e expulso de sua casa junto ao Cidrão e ao Limoeiro.

Sem chão nem teto ele se retirou para a caverna que encontrou em suas andanças, lá se mesclou a escuridão sombria e no fundo da terra descobriu criaturas antigas que dormiam tranquilas por incontáveis gerações, e com elas se sentiu aceito.

Nos confins da terra ele talhou a primeira catedral que o mundo jamais viria, lá ele forçou a pedra contra a própria pedra, e com lascas sobre lascas ele abriu a nave da igreja, ornamentou as paredes sólidas e cortou as portas e janelas, acendeu um fogo eterno sobre as tochas e atraiu as criaturas que ali dormiam para proteger a primeira casa do Senhor.

Mas algo não estava certo, e o homem de negro podia sentir, e do fundo de seu coração uma tristeza o abateu, em sua mente ele tentou meditar o quanto ficou ausente do pântano, de seus verdadeiros amigos, os cinocéfalos, e daqueles que tiraram tudo que ele nunca teve.

Quando voltou sentiu o mal de sua ausência, no ar sentiu o peso dos metais e do carvão que nublava as estrelas e deixava o céu sem sua beleza abismal e profunda, tornando-o cinza e frio, com brumas e fuligem sob as folhas secas das árvores quase mortas.

Ao vislumbrar tanta podridão rapidamente pensou em seus acolhedores e correu até o pântano, correu tanto que perdeu o ar e ao chegar desmaiou. Ao acordar viu que o Cidrão e o Limão ainda estavam onde ele os havia abandonado, mas estavam diferentes, secos e amarelados, doentes, a beira da morte e do esquecimento.

Isso o fez lamentar, e quase chorar pela alma das plantas que chamou de pai e mãe, mas eles ainda podiam ser salvos, e mesmo que já estivesse velho defenderia seus familiares.

Para isso foi a procura da antiga família que se apossou de sua terra, procurando por todo o continente até se deparar com a enorme construção de tijolos e cimento, com uma enorme chaminé sobre o topo do palácio.

Ele observou assustado cada detalhe da horrível construção cinza e gelada, mas isso não abalou sua jornada. Renegando o medo e o desespero ele rezou pelo Limão e pelo Cidrão e entrou no forte.

Caótico e lustroso eram os salões do odiável edifício, repleto de pinturas obscenas e heresias. Mas isso não era tudo, pois ao sentirem a presença de um homem de Deus em sua morada as criaturas pecaminosas se arrastaram pelo chão e subiram por sua perna, deixando o tecido que revestia seu corpo intacto mas rasgando a carne através da roupa.

Mas o homem de negro não tinha com o que se defender senão pela força, e com suas mãos tentou puxar cada uma dos insetos repulsivos que corroíam o sustento de seu corpo, com isso não ganhou nada senão mais dor pois quanto mais forte puxava mais atarracavam-se fundo e fundo em seus músculos e tendões, rompendo a pele e deixando o sangue se alastrar pelo chão frio e áspero e mostrando as horríveis gravuras no chão revelando cenas de um futuro distante.

Sobre seus olhos veio a cena da idade, corroendo o mundo e transformando o verde em areia estéril, com ruínas sobre ruínas, sem ossos nem morte, somente o frio e a escuridão abraçavam as dunas da visão fictícia.

Mas o Homem de preto era forte na fé, confiou em seu Deus e sobre seus olhos ele esfregou sua mão suja de sangue e pus, e assim acordou das previsões mentirosas e alusivas.

Perturbado e enlouquecido pela dor ele foi atingindo pelo estase insano da adrenalina, e em um só folego gritou para Deus mesclando sua voz ao silêncio da noite.

Este foi o ato que denunciou sua presença para a realeza branca, e isso foi o que o fez pecar pois o primeiro a descer foi o Rei, trajando o branco da tirania e corrupção, com raspas de seda e bronze sobre a roupa religadas com o ouro e prata, exalando maldade e sede de poder.

Com uma espada seu braço foi ferido, com uma lança seu peito foi varado e com uma adaga seu pescoço foi cortado, mas, mesmo assim, continuava vivo, não poderia morrer antes que o veneno fosse dissolvido da terra e com um só golpe derrubou o Rei do poder da Vida.

A segunda a descer para o Salão foi a Rainha, cuja beleza sedutora encantava as mais formosas aias e deslumbrava os mais rústicos olhos, portada com a postura de santas, com os braços sempre abertos para acolher os pecadores e apresentá-los a uma novíssima gama de perdições e iniquidades.

Tão graciosa era visão que fez lágrimas surgirem de seus olhos e escorrerem pelo rosto para se misturarem ao sangue da garganta degolada, dando-lhe a ilusão de conforto e paz, oferecendo um peito dormente para aconchegar a cabeça ferida e tempestuosa, forçando visões sobre uma vida feliz e pacífica.

Por um segundo ele ansiou viver na mentira, desejando que todas as negligências fossem esquecidas e que pudesse, finalmente, colocar os pés no verdadeiro Mundo do Senhor, vislumbrar a Majestade da Virgem e conhecer o Filho, almejando sair do Pântano e levando consigo nada além da coragem de desbravar o novo mundo, mas tais sentimentos o faziam sentir-se egoísta, forçavam-no a manter os pés no chão.

Percebendo que os truques não funcionariam na mente fanática do Santo a Rainha mudou sua estratégia e rogou sobre ele magias inomináveis de dor e pesadelos, conjurando hordas infinitas dos insetos que outrora o atacou, ateando-lhe fogo, derrubando relâmpados sobre ele, mostrando-se muito mais formidável que o Rei.

Mas mesmo assim o dever ainda deveria ser cumprido e não seria a decadente magia que o faria desistir. Juntando forças ele se levantou e andou com dificuldade até a catalisadora da dor, sangue ainda pulsava da garganta rasgada e do peito perfurado. Mas diante dessas adversidades as mãos foram colocadas em volta do pescoço da Rainha, que enquanto era estrangulada não deixou de conjurar magias contra o antigo amigo.

O terceirou a descer foi o Príncipe Branco, agora já era maior de idade, possuindo as forças do pai e da mãe, mas imaturo e arrogante, viu no homicídio a chance de ser rei, esgueirou-se pela escuridão do salão, mesclando-se à fraca luz das velas, pronto para apunhalar o inimigo.

Mas o Santo foi mais rápido, pois ao sentir a fina lâmina cravar-se em suas costas virou um contra ataque certeiro contra o herdeiro, fazendo com que o novo reinado de terror terminasse antes de começar.

Ajoelhado sobre uma poça de sangue e lágrimas o Santo sabia que teria mais uma tarefa para realizar por isso esperou.

A quarta e última a descer foi a Princesa Branca, que ao ver a cena chorou como uma criança recém-nascida pois não queria morrer nas mãos de um homem que há muito tempo seu amigo.

Com um último esforço o Homem de Preto se levantou do sangue que encharcava suas vestes, andou até a pequena criança e com um amor paterno a abraçou, tirando dela toda dor e mágoa, fazendo com que o pequeno coração parasse de bater enquanto a Princesa adormecia em seus braços.

Ao sentir a vida indo embora da única amiga restante o Santo finalmente realizou o que havia feito e chorou com todos a todo pulmão, gritando desesperadamente por perdão aos corpos, implorando a Deus misericórdia, sentindo os ferimentos puxando cada vez mais o sangue do seu corpo, sentindo a vida deixando seu corpo e condenando sua alma.

Precisava ser rápido, carregou a criança desfalecida nos braços e correu até a caverno escura que esculpiu para as criaturas das trevas, entregando a adormecida para as Profundezas, colocando-a em um caixão de madeira escura e deixando-o guardado pelo último dos Monstro de Deus.

Por fim, pouco antes de morrer, o Santo ferido foi encontrado por um pequeno grupo de Clérigos da Igreja Primitiva, sendo levado até o pequeno monastério construído na borda do Pântano.

Em sua última semana de Vida o Santo contou sua saga ao Bispo da Torre e quando finalmente morreu foi enterrado em um lugar reservado, desconhecido por todos exceto o Bispo, quem em seguida o Canonizou propriamente.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.