EntreContos

Detox Literário.

PAF! (Mormaço)

 

Conhecia o trajeto perfeitamente, embora nunca o houvesse percorrido de baixo de tamanho aguaceiro, muito menos depois de inalar três grossas e longas carreiras de PAF. Ele aumentara a dose mais uma vez. O rosto havia congelado. Empertigou-se no banco do motorista e alongou o pescoço para mais próximo do para-brisa, feito uma tartaruga esticando-se do casco, para que os olhos pudessem enxergar melhor a rodovia. As lanternas embaçadas dos faróis não ajudavam muito na iluminação da escuridão que o cercava. Estava com os sentidos tão impregnados da substância, que podia ouvir, em alto volume, o som emitido pelo asfalto sendo bombardeado pelos pingos d’água. “Bum! ” “ Bum! ” “ Bum! ”  O brilho das gotas explodindo no capô queimavam suas pupilas como se fosse a intensa luz de um holofote, dificultando ainda mais a visibilidade da estrada. Os dentes esfregavam-se uns nos outros obscenamente. Os dedos das mãos fundiram-se ao volante, o solado das botas aos pedais. Nos últimos quatro quilômetros viajados, carro, uma Range Rover preta dois mil e dezessete, e homem, um professor universitário de trinta e oito anos, pareciam transformados em uma só porção de matéria.

Máquina e ser-humano se desconectaram em frente a uma churrascaria. Saiu do carro e inspirou profundamente, enchendo os pulmões, e expirando, bem devagar, logo em seguida. Sempre fazia este movimento respiratório, ajudava a acalmar os nervos e frear os pulos do coração ocasionados pela droga.

O PAF, além de um tapa na cara, era mágico. Ele era oriundo de asas de fadas, que ao voarem, expeliam de suas finas e translúcidas asas um pó multicor, que se usado em quantidades maiores a posologia determinada, aliava a euforia da cocaína com as viagens psicodélicas do ácido lisérgico. O Pó de Asa de Fada era uma droga exclusivíssima.  

O Mormaço Bar e Restaurante era uma típica churrascaria de beira de estrada, construída às margens da Mata dos Jacarés, com um amplo salão em L na parte externa, repleto de mesas forradas com plásticos duros, enxadrezados de vermelho e preto, e cadeiras pesadas de madeira escura. O interior era mais aconchegante, com um bar espelhado, moderno, poltronas acolchoadas, pista de dança, um aparelho de som que funcionava com moedas e uma iluminação baixa de boate. James Roger, o professor, era um antigo frequentador, conhecia o lugar muito antes da aparição dos seres alados.  

Um pouco menos agitado, o homem olhou para o Longines no seu pulso esquerdo e viu que ainda faltava três horas para o encontro. Eram oito da noite. Acendeu um cigarro, recostou-se no veículo e ficou observando melancolicamente a vasta vegetação por trás do estabelecimento. Cíntia, a filha dele, morava naquela floresta.

Minutos depois, jogou a guimba na piçarra molhada e seguiu para dentro do bar. Foi em direção ao balcão. O lugar estava praticamente vazio, apenas duas mesas no canto, próximas ao banheiro, eram ocupadas. James Roger acenou para eles. Um casal, notadamente apaixonado, dançava um xote que tocava na Jukebox:

“ … E tento sair dessa rotina

Não quero não, colo de mamãe,

Só quero colo de menina,

E pouco a pouco conquistar

Seu coração… “.

— E aí, Mormaço, beleza? — Perguntou o professor.

— Comigo está tudo bem! Mas você está melhor do que eu, não está, Jimmy? — O dono do bar falou de forma irônica ao perceber os olhos vidrados do amigo. James fingiu que não entendeu a indireta e nada disse. Eles se conheciam desde que eram meninotes, quando se embrenhavam na mata para caçar passarinhos e pescar jacarés no grande lago. Mormaço abriu uma cerveja long neck, serviu uma dose de vinte e um e as colocou na frente do professor.

James Roger virou a cachaça celeremente e deu um gole lento e longo na cerveja, saboreando o amargor. A garrafa esverdeada amolecia ao toque da mão dele, como se fosse feita de argila de escultura, ficando disforme, elástica e fluída, parecendo derreter. Linhas prateadas com leves tons de dourado saiam do copo de cachaça e singravam ondulantes até os olhos do homem. Ele sorriu. Gesto raro nos últimos anos. As alucinações do PAF eram conhecidas pelo professor, no entanto, ele apreciava mais o efeito eufórico da droga mágica do que o lisérgico. A euforia fazia-o esquecer de sua família. As alucinações, em alguns momentos, traziam ela de volta. Era bom e ruim ao mesmo tempo, uma dura mistura de emoções que ele não sabia lidar.

O barman serviu outra dose de pinga, depositando o copo no balcão com certa força, para que Jimmy saísse de seus devaneios.

— E essa chuva forte de agorinha, hein? — Mormaço perguntou.

— Chuva louca. De verão.

— No inverno?

— Então, por isso mesmo, chuva louca — Jimmy respondeu e virou de uma só vez a cachaça e deu mais um gole longo e lento na cerveja gelada. Rodopiou no banco e ficou de frente para a pista de dança, com os braços recostados no mármore do balcão.

— Aquela dançando não é a filha do pastor, que tomava conta de Cíntia quando eu ia dar aula na Universidade? — Jimmy perguntou.

— Sim, é a Anne, filha do ex-pastor — Mormaço falou dando ênfase no “ex”.

— Verdade, o pai dela abandonou o Nazareno pelos Map Retep

— Sim, eles e outros malucos seguem agora o Fadaísmo. Fadaísmo, a que pontos chegamos… parece piada, não?

— Infelizmente não é. Nós sempre fomos carentes de criadores, e uma cosmogonia com seres mágicos caiu como uma luva, tanto para os aproveitadores, quanto para os fanáticos. Foi fácil trocar Jesus por um Map Retep, eles viram com seus próprios olhos vários Map Retep vindos do céu, planando no ar, fazendo mágica, espalhando pontinhos multicores quando batiam suas asas… Que se fodam! Como todos os que são adorados, as Fadas estão cagando e andando para eles, no máximo sentem um toquezinho de vaidade, o resto é puro desprezo. E não estou falando da boca pra fora, você sabe muito bem disso!

Os amigos ficaram em silêncio por uns instantes.

— Vou ao banheiro, “retocar a maquiagem” — Jimmy anunciou.

Mormaço olhou com tristeza para o amigo. Mas como recriminá-lo, depois de tudo que aconteceu na vida dele?  

James Roger sempre vivera de forma boemia. Era formado em Engenharia Agronômica e era professor concursado da Universidade Rural da região. No entanto, vivia mesmo era às custas da fortuna que herdara dos pais.

Um certo dia ele conheceu a Íris, numa festa realizada no Mormaço. E tudo mudou. O playboy se apaixonou e virou um homem caseiro e trabalhador.

Íris era bióloga e havia acabado de fixar residência na cidade. Ela dizia a todos que o plano era ficar dois anos para estudar os jacarés da Mata. Em menos de um ano já estava casada com James. Cíntia nasceu pouco depois.

James Roger estava empolgado e feliz com a nova vida, as fazendas davam lucro, suas aulas estavam cada vez mais concorridas e amava de verdade sua mulher. Parecia viver um conto de fadas. Então, Íris desapareceu. E a vida dele desmoronou pela primeira vez.

James Roger quase enlouqueceu. Para ele Íris havia fugido com algum outro home, e isso o deixa enfurecido. O sentimento de traição era amargo. Contudo, Íris foi embora sem levar nada que possuía. Não levou dinheiro, nem joias, nem roupas. James relatou o desaparecimento. Procuraram por todos os lugares e não encontraram nenhum vestígio de Íris e em quatro meses deram por encerradas as buscas e o caso foi arquivado como abandono de lar. Jimmy ainda entrou em contato com a Universidade em que a esposa havia se formado. O departamento administrativo do estabelecimento informou que nunca havia passado por lá uma aluna com aquele nome. Enfim, Jimmy desistiu de encontrá-la.

Alheia ao sumiço da mãe, Cíntia crescia cada vez mais bela e com uma inteligência fora do comum. Andou aos sete meses de idade, com um ano já pronunciava palavras corretamente e aprendeu a ler e calcular antes dos dois. Era uma criança extraordinária e feliz. Sua gargalhada aguda, como um sino, fez com que o pai a chamasse carinhosamente de Sininho.

Sete anos após o sumiço de Íris, na porta do colégio de Cíntia, o inconcebível tornou-se realidade.

Sininho saiu do colégio correndo e abraçou o pai que a esperava ao lado do carro. Um abraço forte, emocionado.

— Papai, mamãe está vindo me buscar.

— De novo com essa conversa, Sininho! Sua mãe está morta. Ele nunca virá lhe buscar.

— Vem sim, papai. Ela já está chegando. Eu sei.

Cíntia viveu os sete anos sem traumas. Para ela, Íris estava viva, vivendo num mundo encantado e que viria pegá-la um dia. Sempre falava da mãe no presente. James achava que era uma forma que a menina criara para superar a ausência materna. Mas não era. O mais incrível de tudo era que ela lembrava de Íris, não como uma fantasia de criança, e sim, verdadeiramente. Ela recordava fatos que aconteceram quando ela tinha dias de vida, algo impossível para um recém-nascido.

— Filha, por favor, você já está ficando uma mocinha… — Antes que pudesse terminar a frase, um estrondo ecoou pela cidade, o horizonte se iluminou de prata intenso, como se a lua estivesse beijando a terra. Uma nuvem colorida e brilhante saiu de dentro da Mata dos Jacarés e foi se aproximando da cidade trazendo com ela um zunido ensurdecedor de insetos voando. Os pontinhos brilhantes foram tomando forma humana e aumentando de tamanho à medida que se aproximavam do colégio de Cíntia, espalhando pelos ares uma chuva multicolorida, como minúsculos flocos de neve de todas as cores. Tocaram o solo levemente como anjos vindos do céu. Todos vestiam uma espécie de tecido colante de cor verde-musgo brilhante.

Alguns moradores ajoelharam-se diante das criaturas, outros choraram. Muitos correram.

Pararam numa formação em pirâmide. Um no ápice e cerca de quarenta na base. Os da frente eram homens, os da retaguarda mulheres. Jimmy correu para o porta-malas do carro e se armou com um rifle.

— Viemos buscar a criança — disse o ser que estava na ponta da formação. Um indivíduo de quase dois metros de altura. Jimmy postou-se a frente da filha e disparou contra a criatura. Com um gesto de mão, o grandalhão desviou magicamente o projétil e voou, tão rápido quanto um piscar de olhos, de encontro ao professor, levantando-o pelo pescoço usando apensas uma das mãos.

— SOLTE-O, PLIMK! AGORA! — Imediatamente o homem com asas obedeceu, deixando Jimmy cair no chão sem fôlego. Rapidamente o alinhamento em pirâmide se dissipou dando lugar a um corredor, onde uma mulher alada, saindo da base da formação, o atravessou em passos firmes e porte altivo, enquanto os outros se curvavam. Era Íris, a mãe de Cíntia.

— Escute, Jimmy, eu vim buscar minha filha. Ela é uma Map Retep, uma Fada, como as lendas de vocês humanos contam. Não importa como vocês nos chamem, o que importa é que Cíntia irá conosco. Venha, minha querida. — James Roger ainda no chão, olhava incrédulo para a figura deslumbrante a sua frente.

— Eu não disse, papai, que a mamãe estava vindo! Não se preocupe comigo, paizinho, eu ficarei bem, e você poderá me visitar algumas vezes — deu um beijo no rosto do pai e segurou na mão de sua mãe fazendo um gesto com a cabeça, afirmando que estava pronta.

Os seres partiram da mesma forma que chegaram. Com zumbido, cores e explosão.  

— SININHOOOO! — Jimmy gritou em vão.

Em milhares de outras cidades espalhadas pelo mundo foram registrados aparecimentos de criaturas aladas.

A vida do professor desmoronara pela segunda vez.

Sentado no vaso sanitário, Jimmy olhava para aa capsulas de PAF na palma da mão, lembrando o dia em que recebeu pela primeira vez a droga.

Ele estava sentado no velho ancoradouro da Mata dos Jacarés, completamente embriagado, havia se passado um ano do rapto de sua filha e ele nunca mais a havia visto ou tido notícias dela. Então, Plink apareceu como se andasse por cima da água. Jimmy tentou atacá-lo com uma garrafa de aguardente. Mas falhou. Plink sorriu.

— Não seja tolo, humano. Agora, preste atenção! Amanhã você encontrará Cíntia, neste mesmo lugar, as onze horas da noite. Vocês irão se encontrar duas vezes por ano, a partir de amanhã. E não venha do jeito que você se encontra hoje. Venha sóbrio. Tenho um presente para você, a mando de Íris. É o pó de nossas asas encapsulado, isto ajudará na sua recuperação. Você está doente. Tome apenas uma capsula por dia.

O professor estendeu a mão e pegou uma caixa brilhante contendo as capsulas com a droga.

Antes que a criatura fosse embora, Jimmy perguntou:

— Por que ela me escolheu?

— Nada em especial, poderia ser qualquer outro. Nós temos três mil anos, estamos envelhecendo, as fêmeas precisavam procriar para dar continuidade à linhagem mágica. Os que são como eu, os machos, são inférteis. Saiba que até o eterno se deteriora um dia, meu caro. Daqui a três mil anos, será Cíntia que encontrara algum humano para procriar, se vocês ainda estiverem por aqui. Essa é a nossa nova lei — Plink falou e voou, desaparecendo por entre a vegetação.

Jimmy abriu quatro capsulas, espalhou o conteúdo em cima de sua carteira e cheirou usando uma cédula de dinheiro. Retornou para o bar e pediu uma garrafa de pinga para o amigo. Decidira ir mais cedo ao encontro daquele dia. Mormaço tentou impedi-lo.

— Não vá agora, meu amigo, ainda falta mais de uma hora. E olha só o seu estado, usando essa droga dos infernos e ainda quer beber mais

— Deixa de falar, merda! Quem você pensa que é para me dar conselhos. Você não sabe nada do que eu estou sentindo. Não encha meu saco! Vai me vender a garrafa ou não? — Mormaço lhe passou a bebida dando de ombros e o professor saiu rapidamente pelos fundos do bar e embrenhou-se na Mata.

Aquela seria a última vez que ele visitaria a filha. Sininho acabara de fazer quinze anos, ela havia dito que teria que passar para um outro estágio de evolução e partiria para uma outra dimensão. Um lugar chamado Terra do Nunca. Ele não poderia suportar aquilo. Daria um jeito de encontrá-la, fosse onde fosse. Sentou-se no velho ancoradouro e ficou bebendo a cachaça e olhando para seu relógio. Os minutos pareciam dançar lentamente diante de seus olhos. A quietude do lugar, aliada ao efeito da droga, fazia com que ele ouvisse o tique-taque do relógio como se ele saísse de dentro de uma caixa de som no volume máximo. TIQUE-TAQUE, TIQUE-TAQUE. E ele virava goles e mais goles de cachaça. TIQUE-TAQUE, Tique-Taque, tique-taque… acabou adormecendo, deitado no deck de madeira apodrecida, com o braço estendido para dentro da água. Não sentiu dor alguma quando um jacaré arrancou sua mão, engolindo junto seu relógio de pulso.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.