EntreContos

Detox Literário.

Os Invisíveis (Guelrio)

Um peixe garoupa, revoltado com as más condições de vida na baía da Guanabara, sobe o rio Carioca até a estação do bondinho do Cristo Redentor, onde cria hábitos urbanos. O Rei do Podrão, valente kombi convertida na marra em lanchonete, vulgo “fuditruqui”, gera espetacular lixo com iguarias disputadíssimas entre mendigos, cachorros, ratos, pombos, Purpurina, o peixe esquisitão, e Isca, o camarão-lixo que a garoupa trouxe de carona pendurado em sua guelra. O crustáceo cinza, magro e cheio de lodo, mais feio que bueiro entupido, mas com um coração imenso e um grande sonho: virar camarão VG. Isca comia guardanapos de papel, canudos e copos plásticos. Já o peixe garoupa, apelidado de Purpurina devido ao brilho suspeito de suas escamas, adquirido por ingestão de metais pesados e lustre adicional de óleo de navios do porto, tinha paladar sofisticado, preferia a lixeira dos restaurantes chiques, com destaque para as algas, legumes, verduras e arroz empapado dos japoneses. No entanto evitava os restos de peixe, não era adepto do canibalismo. Lá se juntaram ao jacaré-de-papo-amarelo, vulgo Amarelão, de origem seminobre, nascido na lagoa de Marapendi, às margens de um condomínio fechado onde se alimentava de poodles e buldogues franceses. Imigrou involuntariamente para o Leblon ao entrar em um caminhão de mudança de emergentes. Mesmo adaptado ao lixo dos salões de beleza, comendo cabelo, tintura e esmalte, não conseguia disfarçar suas origens; volta e meia mordia canelas de marombeiras de academia. Não resistia àqueles tênis de marca e meias acolchoadas; saudades de casa. Mas foi o vício em alisante de cabelo a base de formol que estragou sua natureza; o que ferrou com o seu fígado, fritou seu cérebro e lhe valeu a alcunha. Já o gambá Pastor, emigrado do Parque Lage, onde a arte e a luxúria corriam soltas atormentando suas convicções, era o fiel companheiro de Amarelão nas catações de latas. Embora meio tarado por ratazanas, era abstêmio e evangélico, tentava salvar Amarelão do vício, sem sucesso. Por fim, responsável pelos apelidos de todos os moradores de rua do entorno, o flanelinha gente fina Meio-fio, um bi amputado que se locomovia sentado num carrinho de rolimã — ninguém sabe o motivo de ainda não ter sido atropelado — fazia o papel de líder e protetor da mulambada esquisitona.  No fim da noite os cinco amigos se reuniam como uma família. Compartilhavam as iguarias conquistadas e dormiam em alguma marquise ainda não gradeada.

A vida passava tranquila com os perigos de rotina: levar corrida de cracudo na larica, fugir do serviço social tentando levar para abrigos municipais, sendo o real objetivo devolver os indesejáveis para a floresta devastada, manguezal assoreado e mar poluído.  Fazer social com os locais era importante. Tratar bem as madames para que doassem os restos do almoço. Para espiar a culpa social, traziam as sacolas plásticas com quentinhas abafadas temperadas com perdigotos. Esticavam os bracinhos e entregavam a sacola com os dedos em pinça, não disfarçando o horror do risco de serem tocadas por seres tão nojentos. Purpurina e Pastor as odiavam, mas aceitavam resignados, Amarelão, sempre doidão nada via, mas Isca não se intimidava. Abraçava as velhinhas, chamava de tia, pedia dinheiro para comprar caixa de paçoca para vender no sinal, enfim, enchia o saco e acabava conseguindo alguns frascos de remédio e cartelas metálicas como sobremesa.

Numa tarde de domingo de poucos restos e muita fome, Purpurina e Isca contemplavam a praia ao lado da estátua de um poeta careca que, volta e meia, perdia os óculos. O que não parecia fazer diferença,  pois seu olhar se mantinha perdido no nada da cidade. O camarão, deitado no colo do poeta saiu-se com inspirada melancolia:

— Ô Purpa, você já pensou em voltar pra casa? Tipo mergulhar nesse marzão e sair nadando até encontrar um cardume para chamar de seu.

— Que é isso, Isca, essas tampinhas de long neck , que você anda chupando escondido,  estão te deixando estranho.

— Na boa, estou falando sério. Sair dessa vida invisível. Furar as ondas, encontrar uma camarão VG,  suculenta, parruda, e fazer umas duas mil iscas numa trepada só.

— Não tem volta, pequeno. Se a gente entrar nessa viagem de cartão postal morre engolido no primeiro caixote,  tragados pelo engarrafamento de jet ski, prancha de stand up, surfista, todo aquele povo subindo e descendo nas ondas,  mijando e pegando marola na mão grande. Passar a arrebentação é uma operação de guerra. Já ouviu aquela máxima do guru vendedor de mate?  “Camarão que dorme a onda leva”. O máximo que você pode conseguir é ficar pendurado numa asa-delta.

— Sempre sonhei em voar.

— Se liga, estou falando do biquíni enfiado no rabo que voltou a moda. Não soube?

— Não. Mas gosto de bundões. Camarão VG tem bundão.

— Tu é muito burro, Isca. Tem o que na cabeça, cara?

— Você sabe, afinal sou um camarão.

— Verdade, mas não vou deixar você se matar, amigão.

— Qual o problema de morrer?

— É contigo e a sorte. Eu vou ficar por aqui mesmo. Você é um camarão, já é um milagre ainda estar vivo. Eu sou uma garoupa, posso viver trinta anos.

— De que vale viver trinta anos invisível?

— Bobagem. Esse papo tá me dando fome, vamos ali no quiosque rondar aqueles gringos cor-de-rosa. Vai sobrar limão de caipirinha e copo plástico descartável. Vamos encher a cara!  

— Quero ir para casa.

— Tua casa é aqui. Quer voltar para a poça?

— Penso grande. Quero subir na vida, emergir na Barra.

— Imergir.

— Você entendeu. Me ajuda?

— Tá bom, tá bom, para de chorar. Mas vamos precisar de apoio para passar a faixa de areia e chegar no mar. Se a gente tocar naquela areia escaldante vira milanesa instantânea. Em segundos seremos devorados pelas gordinhas das cangas, vão fritar a gente no bronzeador. Posso falar com o Farofa da barraca, ele está me devendo uns rolos.

— Tô fora dos teus rolos. Ainda por cima que esse Farofa vende camarão no espeto. Prefiro não arriscar. E se a gente for pelo Costão da Niemeyer? Lá não tem areia.

— Perigoso até para iniciados como nós. Mas vamos que vamos.

Foram andando pelo calçadão chupando limão de caipirinha. Deram um tempo no Coqueirão para apreciar o pôr-do-sol, bateram palmas e seguiram rumo ao costão. Entraram na ciclovia interditada apreciado a ressaca do mar batendo na laje.

As ondas foram crescendo e os dois rindo, desviando da espuma e gritando “Olé!”.

Camarão abraçou Purpurina e segredou: “A felicidade é líquida, amigão”. Em seguida uma onda gigantesca jogou a ciclovia para cima. Os dois voaram na turbulência da espuma. A garoupa ainda segurava o camarão pelos bigodes guando sentiu a pele raspando nos mexilhões da encosta. Breu e silêncio.

O dia amanheceu despenteado e em frangalhos. Purpurina acordou pendurado pela guelra num vergalhão do resto da ciclovia desabada. Procurou por Isca em todo lugar, gritou seu nome até cair de joelhos em prantos. Só as ondas socando as pedras respondiam: “Não sei, não sei”.

Os dias depois da tragédia foram preenchidos por uma névoa de saudade. A Garoupa não podia ver uma guimba de cigarro ou tampinha de garrafa sem o inevitável mergulho na lembrança do amigo. Amarelão e Pastor tentaram animar Purpurina, Meio-fio fazia cafuné no bicho, mas nada o arrancava do canteiro da lanchonete preferida de Isca. Dormia o sono leve da culpa, até que sonhou com o camarão se despedindo, voando em uma asa-delta. Entendeu que precisava deixar o amigo ir. Voltou ao Costão levando um canudo plástico como oferenda. Olhou o horizonte, respirou fundo e soltou a voz embargada:

— Vai em paz, camarão do bem. Vou sentir sua falta, seu isca podre desgraçado.

Afastou as lágrimas com a barbatana e perdeu o olhar no mar. Observou uma mancha se mexendo embaixo d’água. Um enorme cardume de minúsculos camarões nadavam bravamente contra a rebentação. A velha garoupa fechou os olhos e sorriu.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.