EntreContos

Detox Literário.

Justiça Flamejante (Gerd)

I.

Morte Agonizante era um dragão triste. Suas asas incandescentes cor de fogo o impediam de manter contato com qualquer criatura viva, incluindo a floresta ao seu redor. Talvez por sua face acinzentada cheia de espinhos causar certa repulsa, ninguém se atrevia a adentrar seus domínios. No alto de sua caverna de cinquenta metros, com o focinho enfiado nas pernas em descanso, observava a vida florir. O bosque logo abaixo fervilhava em sons, cheiros e sabores, mesmo com a neve já caindo. Era uma vida relativamente tranquila, embora solitária.

Tudo mudou no dia em que uma figura curiosa surgiu em seu lar sem permissão. Uma armadura pesada arrastava uma espada gigantesca à passos lentos, mal conseguindo manter-se de pé – chegou a deixar de lado a espada e colocar as mãos sobre os joelhos. A parte móvel do capacete serrilhado subiu e revelou um rosto ofegante. Havia um homem lá dentro. Já tinha ouvido falar nos predadores do campo, mas ver um de perto era bem diferente: a criatura mal tinha dois metros. Cabia na palma de sua mão.

Antes que pudesse fazer qualquer coisa, o homem sentou-se e afastou as pernas. Estava exausto. Podia devorá-lo ali mesmo ou simplesmente esmagá-lo com seus dentes, mas fazia tanto tempo que não encontrava alguém… Resolveu dar-lhe uma chance. Afinal, a espada permanecia no chão e não seria levantada tão cedo.

— Você deve estar se perguntando que material é esse que resiste ao fogo, né?

Compreendia muito bem os vaga-lumes, pois mudavam de cor quando desejavam transmitir alguma informação, mas aquilo, aos seus ouvidos, soava como um ganido de lobo. Era um tanto engraçado ver aquela figura gesticular. Brincaria um pouco antes de parti-lo em dois.

— É uma espuma metálica adaptada ao traje. Mesmo assim, ainda preciso usar toda essa tralha. Ainda bem que já estamos no inverno.

Embora não entendesse nada, seu comportamento era intrigante. Como podia estar tão calmo diante de sua imponência? Vendo que a pequena criatura não pretendia atacá-lo nas próximas horas, deixou sua zona de conforto. Esticou as asas por um momento gerando uma brisa suave e pôs-se ao seu lado, com a cauda encolhida.

— É uma bela vista daqui de cima! – Disse ele, suspirando.

Se compreendesse o que o homem estava dizendo, teria concordado.

— Sabe… Eu não queria fazer isso.  

Morte Agonizante conhecia muito bem aquela expressão caída: olhos profundos, focinho pra baixo, cansaço e um olhar distante; uma vontade de não viver. Poderia atender seu desejo a qualquer momento. Mas o amargor em sua boca adiou a decisão.

— Eu tenho uma filha de dez anos, sabia? Olhos azuis, ruiva, cabelos trançados… Ela ia adorar te conhecer…  – Passou a mão no rosto depressa e voltou a falar. — Ela foi levada ainda pequena. O chefe da tribo do norte disse que eu era fraco e não merecia a família que tinha. Minha companheira foi junto.

A neve mais grossa começava a descer. O homem levantou-se de repente. Procurou uma série de gravetos nas trepadeiras e os jogou no centro da rocha, próximo à espada.

Seguiu-se um silêncio reconfortante. Os últimos raios de Sol tocavam a superfície rochosa. Lá embaixo, toda a fauna se preparava para o início definitivo da época mais fria do ano. Morte Agonizante estava curioso para ver o que o homem faria. Deu um passo atrás assim que ele se aproximou do objeto cortante e aguardou. A criatura reuniu pequenas folhas de tamanhos variados e raspou as braçadeiras na espada. A chama veio tímida, mas logo evoluiu para uma labareda distinta.

— Assim vão saber que ainda estou vivo. – Encolheu-se. — Eu devia ter matado aquele alce quando tive a chance. Sabe, eu prefiro deixar a natureza em paz, ter uma boa convivência e… Bem, deixa pra lá. Nunca fui um guerreiro mesmo. Sou um simples coletor de frutas.  

Precisava mesmo desabafar. E fez isso pelo resto da noite.

Lá estava ele envolto em seus grunhidos, tremendo no frio ao redor da fogueira. Aquela criatura era muito interessante. Nunca havia deixado uma presa tão à vontade. Ergueu as patas, recolheu as asas e entrou na caverna, balançando a cauda gigante em aviso. Deu duas voltas em torno de si. Lá fora, o homem cozinhava um pequeno espetinho de frutas.

 

II.

No meio da noite, o fogo se extinguiu. A tempestade sólida encobriu por completo seu acampamento improvisado, incluindo a pesada (e agora inútil) espada gigante de aço polido. Se não fosse pela exigência logística, teria preferido o bom e velho capote de couro, cheio de bolsos e muita lã.  

Estava frio, terrivelmente frio. Teria de se arriscar uma vez mais, afinal, havia uma fonte de calor às suas costas, dormindo em sono profundo. Livrou-se do excesso de peso, atendeu o chamado da natureza e, na ponta dos pés, aproximou-se da entidade destrutiva. O calor era mais suportável enquanto o monstro dormia. Parecia desvanecer ao toque.

Já que estava ali mesmo, tentaria arrancar-lhe uma escama arco-íris – um presente, caso um dia encontrasse sua filha. Tirou a luva da mão direita. Estava disposto a se queimar. Fechou os olhos.

Assim que os abriu, sua mão tocava diretamente a pele da fera, enquanto as partes incandescentes recuavam em harmonia, como um enxame em consciência coletiva. Em dúvida, correu a mão alguns centímetros. Naquele instante, as pálpebras do monstro subiram. O homem congelou.

 

III.

Aquilo nunca havia lhe acontecido. Desconhecia o fato de que sua incandescência pudesse ser “desligada” em algumas partes, mas também, a maioria preferia atacá-lo primeiro em vez de se aproximar cautelosamente. Sentiu uma vontade imensa de chicoteá-lo até o penhasco, mas sua curiosidade falou mais alto. Cheirou o homem. Não havia nada de diferente em sua estrutura biológica. Deixou que o tocasse outra vez. As flamas recuaram. Que sensação agradável era aquela? O homem decidiu retirar o capacete. Não se queimou. Perplexo, recolheu-se ao canto oposto, em total silêncio.

 

IV.

Ao raiar do Sol, Morte Agonizante abriu lentamente os olhos ao sentir uma leve coceira no estômago. A criatura dormia escorada na barreira de fogo, produzindo um som esquisito pelas narinas. Sacudiu as escamas e o lançou para o fundo, em direção aos musgos. Saiu em busca de frutas.

— Ei! Desculpe! Você vai caçar?

Ignorou os grunhidos. O homem tirou um artefato de borracha da calça e apertou o passo. A árvore frutífera logo acima era sua preferida, mesmo que os frutos sempre caíssem queimados. Desamassou as asas e as deixou abertas por um tempo.  

O homem mirou no galho mais fino e atirou a pedra. Uma boa quantidade de frutas caiu em cima do solo esbranquiçado. Aquela presa estava se saindo melhor do que imaginava. Talvez fosse uma boa ideia mantê-lo por perto.

— Acho que você merece saber. – Disse ele, mastigando uma Fruta da Montanha. — Eu vim aqui pra lhe matar.

Estava bastante ocupado apreciando uma romã selvagem, pura e fresca, como deveria ser, e aquilo não passava de um ruído esporádico.

— A tribo do sul; outra de coletores, assim como eu, disse que, se eu fizesse isso, me dariam a última localização da minha filha. Você deve tê-los irritado bastante. – Secou a boca. — Mas não quero. Você está aqui, sozinho, isolado de tudo e de todos. Somos parecidos.

Após o banquete incomum, notou que ele juntou suas coisas numa mochila feita de folhas e tentou, em vão, retirar a espada do túmulo de gelo. A noite tinha sido agressiva. Não podia deixá-lo ir embora agora que via vantagem naquela parceria. E depois daquele fenômeno estranho, olhava o pequeno ser com outros olhos. Não tinha uma boa companhia há décadas. Cheirou suas coisas. Esperava que ele entendesse.

— Já tenho uma escama como prova. – Disse ele.

O homem amarrou um cipó em seu dorso e se dirigiu à beirada. Estava curioso. Como eram inventivos! Observou-o descer uma grande sequência íngreme. Mas quando estava prestes a atingir metade da montanha, o cipó se desprendeu.  

Morte Agonizante sacudiu as cartilagens e levantou voo. Fazia tempo que não descia (da última vez, provocara um incêndio tão grande que se viu forçado a viver nas alturas). Era arriscado, mas sabia que se a criatura o tocasse, a incandescência recuaria como já havia comprovado. Deixou galhos em brasa pelo caminho, mas cumpriu seu objetivo.

No solo da floresta repleta de musgos, a ventania temporária revelou um cavaleiro em armadura prateada cavalgando um enorme dragão cinzento, uma lenda que se tornaria bem conhecida nos meses seguintes.

 

V.

O homem desceu ainda tonto e desencostou as mãos de seu corpo. Uma reação em cadeia teve início e suas asas entraram em combustão. O sopro das chamas abriu uma clareira no solo, consumindo boa parte da fauna nativa. Por sorte, ele estava embaixo. Recolocou a mão em seu pescoço.

— Pelos reis escandinavos! – O olho da criatura encobria sua alma. — O que eu faço? Se te deixar aqui, você vai botar fogo em tudo!

Vasculhou sua bolsa de frutas. Talvez, se chegasse na tribo do sul com uma lenda viva ao seu lado, o tratassem com mais respeito.

 

VI.

Quando o observador da muralha de espinhos viu uma mancha escura abrindo caminho pela mata embranquecida, imediatamente tocou os berrantes. Seus companheiros lacraram as portas de madeira e posicionaram os arqueiros.

Urrou só pra ver o que acontecia. Correram de um lado ao outro, desesperados. Aquilo tinha sido divertido, mas parou quando o homem resolveu descer, já sem armadura. Não deixou de tocá-lo um segundo, enquanto conversava com outro dos seus. Um cetro com uma joia embutida e uma máscara ancestral completavam o exótico traje da figura anciã. Esta, por sua vez, ajoelhou-se e esticou os braços em sua direção. Um zum-zum-zum interminável. Morte Agonizante não estava entendendo nada, mas assim que o homem o puxou (se fizesse aquilo de novo o devoraria), virou-se e o seguiu.

A anciã continuava em sua reverência quando uma flecha nervosa escapou das mãos do arqueiro e o atingiu na traseira. Se desvencilhou por um instante e sacudiu a cauda de fogo como um lagarto irritado, atingindo em cheio a guarnição e derrubando uma de suas torres. A criatura que o provocara jazia no chão, se contorcendo pelas chamas que não se apagavam, nem mesmo com jarros de água – uma ode a seu apelido. Aquela manhã havia começado muito bem.

Mesmo assim, seguiria o homem apenas por mais um pouco. Estava tão acostumado a ficar sozinho que era estranho ter companhia. A floresta, logo à frente, ainda se recuperava de seu último rasante. O homem o direcionou para trás da montanha. Se conseguisse mais algumas romãs selvagens, quem sabe o acompanhasse até o fim do dia.

 

VII.

A tribo do norte era formada pelos mais valentes guerreiros da região. Sua estratégia principal consistia num acampamento móvel, de guarnição desmontável. O homem não sabia (ou não queria entender), mas de tanto procurar sua filha nas terras vastas sem fim, já havia perdido a noção do tempo. Era um nômade sem tribo.

Percebeu que seu pequeno guia estava apreensivo ao avistar o castelo improvisado. Já tinha visto aquela estrutura dos céus, mas sempre mudavam de lugar. Estavam desaparecidos há anos. Não fazia ideia do que encontraria lá.

De longe, o homem avistou uma bela moça carregando uma cesta de frutas. Assoviou. Estavam bem escondidos entre árvores, no sopé da montanha. Contudo, devido ao aroma perfeito de romãs, não pôde resistir. Saiu das sombras, para total espanto dos dois. Aos seus ouvidos, os grunhidos voltaram com força total.

— Calma! Ele é meu amigo!

— Sai de perto de mim! – Gritou ela, derrubando o cesto de suas mãos.

— Só quero uma resposta, depois vou embora! Você conhece Bjorn e sua filha Sven?

— Eu sou Sven! – Disse ela, rastejando sem tirar os olhos da entidade presente.

Os batimentos cardíacos de seu pequeno amigo se aceleraram. Era um pouco irritante ter de aguentar aquela mão sempre encostada em seu dorso, mas entendia o motivo. A moça trocou a expressão de pavor por dúvida ao se levantar e desamassar o vestido azul.

— Você tem quantos anos? – Perguntou ele, abalado.

— Vinte. – Disse ela, se afastando aos poucos.

Dez anos. Estava à sua procura há tanto tempo assim? Ela ainda tinha seus olhos e suas tranças ruivas permaneciam vívidas… Quanto a ele, havia envelhecido muito. Estava irreconhecível.

— E Bjorn? – Indagou, de olhos marejados.

— Meu p… O ‘chefe da tribo’ e minha mãe… Morreram ano passado.  – Outro choque. — Ela estava muito doente. Escuta, como consegue… – Não completou a frase.

Uma garotinha de vestido amarelo surgiu correndo por entre os cipós.

— Olha, mãe! O monstro da montanha! – Gritou a pequena.

— Ingrid! Vem cá, agora! – Sven a pegou em seus braços enquanto tentava descobrir de onde conhecia aquela face sofrida. O dragão já não era tão importante.

“Ingrid; a amazona da paz”, pensou.

Morte Agonizante sentiu uma queimação em suas patas. Flechas ardentes o atingiram. Logo em seguida ouviu o ruído de tambores marchando. A tribo do norte o havia localizado em seu refúgio. O homem deixou a escama arco-íris para a menorzinha e subiu em seu lombo, enxugando o rosto com as duas mãos. Aquilo já estava se tornando cansativo.

Assim que a cavalaria atravessou a ponte, esticou as cartilagens e tomou impulso. O turbilhão derrubou os guerreiros da linha de frente. De canto de olho, viu seu companheiro sorrir. A pequeninha acenava de longe, gritando coisas incompreensíveis, enquanto sua mãe entrava nos portões seguros com ela no colo. Os filhotes conseguiam ser ainda mais barulhentos.

Estava cansado da experiência. Nunca havia sentido tanta falta de sua caverna solitária.

 

VIII.

No alto da montanha, acima de toda aquela agitação, pôde finalmente relaxar. Estava de estômago cheio. Deitou-se de lado sob a rocha úmida, aproveitando a maciez da neve derretida. Agora podia descansar em paz, já que o considerava um novo amigo, contanto que ele parasse com aquele ruído irritante. O homem não parava de falar. Devorá-lo ainda era uma opção em aberto.

— Eu tenho uma neta!

Virou-se para o outro lado.

— Você deve estar se perguntando por que não fiquei. Nem eu sei direito… Bem, agora ela tem uma família e uma filha saudável. Não quero interferir. Ela nem me reconheceu! Pelo menos, posso protegê-la daqui…  

Aproximou o focinho.

— … com sua ajuda, é claro. Falar nisso, meu nome é Lars. – Acariciou seu pescoço. — Aliás, Morte Agonizante é um apelido terrível. Você me ajudou mais do que qualquer tribo em todos esses anos… Já sei! Vou chamá-lo de “Justiça Flamejante”. Que tal?

O cansaço veio com tudo. O sono já o pegava de vez. Mas aqueles dois últimos grunhidos ditos com dedo em riste, soaram agradáveis aos seus ouvidos. Não compreendia muito bem aquela sensação, mas não era a mesma angústia de antes. Estava decidido! Manteria aquele homem por perto enquanto vivesse.

Justiça Flamejante era um dragão feliz.

 

IX.

Alguns meses depois, a lenda do Domador de Dragões se espalharia como rastro de pólvora, e Sven, ao olhar a escama pendurada no pescoço de Ingrid e lembrar-se dos olhos do visitante, finalmente compreenderia. Derreter-se-ia em lágrimas. Aquilo era uma garantia. Ela e sua filha estariam seguras até o fim dos tempos.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.