EntreContos

Detox Literário.

Intuição (Lucifer friend)

Sentado sobre a cama de hospital no consultório, Ângelo balançava impacientemente as pernas para frente e para trás. Na mesma sala, separada apenas por um biombo, uma junta médica avaliava as imagens de ressonância magnética de sua coluna cervical. Eles conversavam entre si e, pelo menos para Ângelo, pareciam se divertir.

– Para vocês é fácil rir. Não é com vocês. – disse ele para os médicos.

– Não é isso. Não estamos rindo de você. É que nós não entendemos como você está aí, deste jeito, sentado, balançando as pernas, falando…

Foi o médico mais velho quem falou. Um especialista em neurologia.

– Simplesmente nós não conseguimos entender. Para mim, é algo que podemos chamar de milagre.

Os médicos o aconselharam a não fazer qualquer cirurgia. Em time que está ganhando não se mexe, dissera o especialista.

– Se você começar a sentir dores ou alguma perda de sensibilidade, aí você vem aqui e nós vemos o que pode ser feito.

Isso poderia levar dez, quinze anos para acontecer. Ou mesmo nem aconteceria. Era impossível saber.

Ângelo estava feliz. Tivera uma enorme sorte. Escapara de uma tetraplegia. Sem sequela alguma.

Ele saiu do centro de traumatologia e ortopedia, caminhou animadamente pelas ruas até encontrar uma lanchonete. Estava faminto. Pediu um lanche e um suco. Enquanto comia, observava o vai e vem das pessoas, dos veículos, a agitação normal de um dia de semana qualquer daquela grande cidade. A cidade maravilhosa. Estava no Rio de Janeiro. Era um lindo dia de primavera e ele se sentia incrivelmente bem. Fez o caminho de volta da lanchonete. Flertou com uma bela jovem que vinha pela calçada e o olhava fixamente. Seus olhos se cruzaram. Atravessou a Praça da Cruz Vermelha e seguiu em direção ao metrô. Não pensava sobre o futuro. Não pensava mais sobre o que poderia ou não acontecer.

 

Quatro anos antes

 

Ângelo caminhou pelo estreito corredor do avião à procura do seu assento. Era um avião de porte médio, desses que fazem viagens regionais. Tinha fileiras com três e dois lugares. Seu assento era na fileira com dois lugares, do lado direito, o que facilitava a procura.

– Boa tarde!

Ele cumprimentou a moça que estava na poltrona perto da janela e sentou-se.

A aeronave decolou e atingiu a altitude de cruzeiro. O voo estava tranquilo, sem turbulências. Alguns minutos depois, um homem se levanta de sua poltrona e, de pé no corredor, voltado para os passageiros, anuncia o sequestro.

Uma grande agitação toma conta de Ângelo. Sua mente trabalha com extrema velocidade e a adrenalina inunda seu corpo. Ainda sem saber exatamente o que fazer, mas já se preparando para a possibilidade de um ataque, ele se ergue do assento, num gesto impulsivo e automático.

– Pode ficar sentadinho aí. – Disse o sequestrador, apontando-lhe um objeto que parecia ser uma faca.

Ângelo volta a sentar-se. A moça ao seu lado chora copiosamente.

O avião inclina-se assustadoramente para a esquerda e muda de curso.

– Fiquem todos calmos. Ninguém vai se machucar. – falou o sequestrador. – Nós vamos pousar no aeroporto mais próximo.

Não demora muito, o avião vai descendo em direção ao solo e pousa sem problemas. Ângelo olha pela janela. Não tem a mínima ideia em que cidade está. Um caminhão tanque se aproxima e reabastece a aeronave, que logo em seguida taxia pela pista e decola novamente.

Em terra, Ângelo vê o avião erguer seu nariz e começar a subir. Mas algo parece errado. Ele parece estar lento demais para conseguir tomar altitude. A aeronave perde sustentação e cai a pouca distância do fim da pista. Um clarão alaranjado ilumina-lhe a visão, seguida por uma nuvem alta e negra de fumaça que se ergue por detrás dos prédios. Neste momento, ele sente a maior solidão que alguém poderia sentir. As lágrimas escorrem como rios por seu rosto e uma tristeza sem fim se apodera de seu ser. Ele estava morto. E vira sua própria morte.

O jovem desperta em sua cama. O dia sequer amanhecera. Tudo não passara de um terrível pesadelo. Sentia-se estranho. Fez o que sempre fazia nestes casos: não deu importância e tentou dormir outra vez. Porém, sem sucesso agora.

Percebendo que não voltaria ao sono, ele sentou-se na cama. O relógio digital marcava 5:30 e a manhã começava a clarear. Decidiu, então, que se levantaria e iria ver o Sol nascer. Ele lavou rapidamente o rosto e tomou um copo de leite. Pegou seus cigarros e um isqueiro e saiu para a rua. Iria até um morro próximo para assistir aquele espetáculo natural.

Foi realmente um belo espetáculo. Era começo de inverno e a cidade estava envolta em neblina. O céu muito azul. O astro rei veio surgindo calmamente por trás da serra, tímido, como uma criança que sorri. Sua luz derramou-se sobre as colinas suavemente. E num instante alcançava Ângelo e o tocava com seus raios.

O calor fazia a neblina se dissipar lentamente enquanto subia do chão e de sobre o capim molhado de orvalho. Ele olhou ao seu redor. Viu que havia um monte de gravetos e galhos secos empilhados em uma parte do pasto. Aproximou-se e viu que havia um garrafão de água perto. Pensou em fazer um ritual de proteção. Afinal, aquele sonho poderia ter sido um aviso. Tinha tudo bem ali, às suas mãos: a terra, a água e o ar. Só faltava o fogo, que ele faria ascendendo uma fogueira.

Ele pegou o garrafão e o abriu. Era água limpa. Ângelo se afastou sete passos e começou a despejar a água devagar, desenhando um círculo mágico ao redor do monte de galhos velhos. Voltou até a base do monte de galhos e constatou que estavam úmidos apenas superficialmente. Abaixou e acendeu um punhado de folhas secas sob eles. O fogo rapidamente consumia a pilha de galhos secos em um grande fogaréu. Ele se afastou um pouco, mantendo-se dentro do círculo de proteção. Era assim que era para ser, ele pensou. Não era coincidência. O sonho. O despertar. A pilha de galhos. A água. O ar. Representado convenientemente pela neblina que subia. E o fogo. Ângelo pediu à Deusa, a senhora dos Universos, que o protegesse. Que afastasse dele todo o mal. Ele agradeceu, enquanto a energia liberada pelo fogo parecia alterar a realidade, reorganizando-a.

 

A noite de sábado

 

Naquela semana, uma estranha sensação se apoderara dele. Não sabia bem o quê era. Sentia como se alguém o estivesse chamando para Alta Cruz, uma cidade vizinha, descendo a serra. Era como se fosse um pedaço de ferro próximo ao campo magnético de um imã. Procurou afastar aquilo de seu pensamento. Iria para lá, mas não agora. Ele queria passar alguns dias naquela cidade. Mas precisava esperar. Talvez no fim de semana próximo.

Apesar dos conhecimentos mágicos que possuía, não deu importância àquilo. Ângelo era um iniciante. Um homem de mente aberta, porém, restrito pela superficialidade que reina sobre este mundo humano. Um mundo onde a sensibilidade é sufocada pela matéria. Principalmente para os homens, desde cedo desencorajados de qualquer sentimento mais sutil.

A noite chegara. Era sábado. Havia já algum tempo que não saía para se divertir. Apenas trabalho e trabalho. E a chatice costumeira de sua casa. Seu pai não era uma pessoa fácil. E desde há muito, Ângelo sentia-se incomodado com tudo aquilo. O lar já não era um porto seguro. Mas esta noite ele iria se divertir. Iria beber todas e, quem sabe, finalmente pudesse ficar com aquela menina que tanto desejava.

Ele saiu de casa por volta das sete da noite. Foi caminhando até o centro da cidade, onde ela morava. Mas ela não estava em casa. Disseram que talvez estivesse na casa do Jô, seu irmão mais velho.

Ângelo subiu apressadamente as ruas íngremes que levavam à casa de seu irmão. Não era longe. Parou frente ao portão e chamou por Jô.

– Entra. – gritou ele.

Eles estavam na sala de estar, ouvindo rock e bebendo. Era algo bem normal para Jô e sua esposa. Eram muito animados.

– E aí, Jô? Beleza?

– Opa! E aí?

Jô não parecia muito feliz naquela noite.

– A Nati esteve aqui?

– Ela esteve. Mas saiu agora pouco. Talvez ela esteja lá embaixo.

Ângelo agradeceu e saiu. Andou pelas ruas do centro da cidade à procura de Natasha. Mas em vão. A garota não estava em nenhum dos lugares que costumava frequentar. Cansado, ele resolveu ir até o Hotel Central, onde Will, seu irmão mais velho, trabalhava.

O bar do hotel estava vazio. Ficou lá a noite toda, conversando, bebendo e fumando. Quando o expediente de Will terminasse, ele passaria a ser cliente. E o melhor, era ele mesmo quem serviria. Ele era um beberrão inveterado.

Leonel, o senhor que fazia o turno da noite, chegara pouco antes de Ângelo. Ele era muito bom de conversa e, juntos, ele e Will eram imbatíveis.

A noite passou rápido. Já tinham bebido bastante e Will disse que iria embora.

– Quer uma carona até em casa? Ou vai ficar aqui? – ele perguntou.

Ângelo disse que iria com ele. Agradeceu Leonel pela diversão e apertou sua mão.

Will parou o carro em frente à sua casa, o motor ligado.

– Vamos tomar mais uma? – ele perguntou. – Para fechar a noite.

De acordo com a ideia, seu irmão aceitou. Já estava cansado de ser o cara certinho, que nunca se diverte. E aquela noite, apesar de estar quase chegando ao fim, ainda não tinha acabado. Ângelo queria mais. Não queria voltar para casa. Queria mais diversão. Se libertar de tudo aquilo que o aborrecia.

Seu irmão acelerou e foram para um boteco que certamente estaria aberto. O bar do Yuri. Do outro lado do rio. Seu irmão sempre ia lá, mas ele nunca. Frequentar buracos como aquele nunca fora hábito seu.

Will pediu cervejas e duas doses de cachaça.

O ambiente era bastante decadente. Prateleiras empoeiradas, chão sujo, uma mesa de sinuca pequena com forro gasto. O bar ficava numa esquina, com vista para a pequena ponte. Não havia beleza. Apenas um lugar para se embebedar.

Beberam mais um pouco. Conversaram com outros bêbados. Jogaram uma partida de sinuca. Ângelo perdeu. Will desafiou alguém para outra partida.

Ele foi até a porta e, antes que acendesse um cigarro, avistou Natasha entrando em um carro parado na entrada da ponte. Ele mal podia acreditar. Tinha procurado por ela durante horas.

Ele a chamou e correu até lá.

– Oi, Anjo! – ela o cumprimentou e beijou seu rosto.

– Procurei por você um tempão no centro. Fui na sua casa, na casa do Jô…

– Vem com a gente. – ela convidou.

Ele olhou para dentro do carro e viu mais duas garotas no banco de trás. Uma delas era Maria, prima da Naty.

– Mas o carro já está cheio.

– Vamos com gente. Dá prá ir. – disse a garota.

Apesar do incômodo, resolveu entrar no carro. Não era nada agradável para ele, devido ao seu tamanho. Ângelo perguntou para onde iriam. Não houve resposta. Notou um clima estranho. Mas não deu importância. O motorista lhe era desconhecido, mas o carona ao seu lado era o Carlos, um rapaz que ele conhecia desde a infância. Cumprimentou-o.

O carro acelerou e logo estavam na avenida principal. Ele pensou que Natasha e sua prima fossem descer no centro da cidade, afinal, elas moravam lá. Mas o carro seguiu em frente. Alguém disse alguma coisa sobre um homem em uma bicicleta na rua. O motorista guiava rápido e por pouco não o atropela. Eles se entreolharam e um grande alívio pairava em suas faces. Passaram por dois bairros e Ângelo se perguntava para onde diabos eles estariam indo. Finalmente o carro entra em uma rua lateral e para no jardim da frente de uma bela casa.

Carlos os convidou para entrar e conhecer o dono da casa. Eram amigos. Ele os levou até a cozinha e serviu-lhes umas cervejas.

O anfitrião já tinha se recolhido, mas Carlos insistiu para que fossem até seu quarto cumprimentá-lo. Aquilo pareceu um tanto constrangedor para todos.

Depois de beberem e conversarem um pouco, o dia logo começara a clarear. E uma linda manhã de domingo acabara de nascer.

– É hora de ir embora. – disse a garota que estava com Maria.

Parecia que ninguém queria ir para casa. Era possível perceber aquilo sem muito esforço, apenas olhando para eles. O desejo de que aquela noite nunca tivesse chegado ao fim e eles pudessem continuar se divertindo eternamente era evidente. Voltar para casa significava voltar para os problemas familiares e toda a chatice que fazia qualquer um pensar em desistir de tudo.

– Ah! Como a gente vai para casa?

Era Maria quem perguntava, com seu jeito tímido de quem não quer nada.

– Eu levo vocês. – ofereceu-se o motorista.

Logo o carro estava fazendo o caminho de volta, sentido centro. O motorista virou à direita e pegou a rodovia. Ele puxou papo com a amiga da Maria. Era óbvio que ele queria ficar com ela. Mas ela não parecia nem um pouco afim. Dentro do carro, um silêncio desanimador logo se instalou. Ângelo olhou através do vidro. Estava uma manhã realmente bonita. A luz do Sol brilhava intensamente e o céu estava completamente limpo e azul.

 

A tragédia

 

Ângelo acordou confuso. Sentiu que era carregado por alguém, seus pés arrastando-se pelo chão. Olhou para frente, mas nada podia ver além de um borrão amarronzado.

– O que aconteceu? – ele perguntou.

– Você sofreu um acidente de carro. – a voz masculina lhe respondeu.

Não lembrava-se de nada. Não tinha a mínima ideia do que acontecera. Apagou novamente.

Acordou muitas horas depois. Olhou para o lado e viu sua mãe, de pé, perto da cama. Estava na enfermaria do hospital.

O que aconteceu? – perguntou, olhando para ela. Estava confuso e continuava a não se recordar de coisa alguma. Pensou apenas que pudesse ter bebido demais e apagado.

– Você sofreu um acidente. – ela respondeu. Seu rosto transmitia calma, como os rostos daquelas santas que ficam dentro das igrejas.

– E as garotas? – ele quis saber.

– Elas estão assim, iguais a você.

Estava satisfeito que elas estivessem vivas. Ângelo sorriu para ela e apagou outra vez.

Ele dormiu por várias horas. Um sono profundo e sem sonhos. Pesado. Um sono como o da morte. Mas estava bastante vivo. E logo ele ficaria sabendo que seu acidente, na verdade, tinha sido uma tragédia.  Principalmente para as famílias de Natasha e sua amiga, que agora dormiam o sono eterno.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C2.