EntreContos

Detox Literário.

Lágrimas de Orvalho (Alissa Harlem Kewpie)

Puck voava despreocupado como de costume. Veloz como era, ziguezagueava por entre as coníferas, balançando folhas e galhos e derrubando frutos que, por sua vez, eram logo atacados por esquilos comilões que surgiam por todos os lados. Vez ou outra, o elfo alado roubava alguma colmeia menos protegida, apenas para ser perseguido por um batalhão de zangões zangados. As reclamações, é claro, chegavam aos ouvidos de Oberon.

– Já lhe disse que não deve fazê-lo, Puck. O que passa por essa cabeça minúscula?

– Está preenchida por vontade de comer mel.

No entanto, naquele dia, o roubo de uma colmeia era problema menor do que em situações corriqueiras. Havia certa tensão no bosque.

As árvores aquietavam-se, o ar calava-se, a relva imobilizava-se, o céu contemplava a tudo, mas não emitia opiniões. E a Puck, tudo começou a parecer estranho.

– O que há com as coisas? Parecem extremamente fora de sua normalidade.

Voou, então, apressadamente, em direção ao Trono de Oberon. Encontrou, por lá, um par de guardas de Ric-Ardel que o impediram de prosseguir.

– Estranho, muito estranho. – mas como Puck era dessas criaturas desaforadas que não aceitam ser impedidos de bisbilhotarem o que não é de sua conta, conseguiu, de alguma forma, burlar os tais guardas, e adentrou ao cerco formado.

Encontrou um conselho de criaturas mágicas formado por Oberon, Titânia e Ric-Ardel, mas o que realmente lhe impressionou foi a presença de Xtopherus. Era rara a presença do senhor dos drows em tais conselhos.

– Fabuloso. – disse Puck, e aproximou as orelhas para ouvir melhor.

– Mas o que houve, afinal, de tão grave para que se chegasse a tal ponto? – Oberon questionava.

– A paz pode ser quebrada a qualquer momento, meu senhor. – respondeu Ric-Ardel. – Tal evento não passaria desapercebido, mesmo por aqueles que duvidam da existência da comunidade mágica.

– Mas um elfo envolver-se com uma humana é algo assim tão grave?

Ante tal questionamento, foi possível ouvir Xtopherus resmungar. Os outros três olharam para ele, esperando que dissesse algo, mas o senhor dos drows manteve-se calado. Ric-Ardel continuou.

– Não foi um simples envolvimento. – disse em tom taciturno.

– E então? – voltou a perguntar Oberon.

– Ele a estuprou.

Calaram-se todos. Oberon esbugalhou os olhos e deixou-se cair em seu trono. Titânia tinha fúria no olhar. Ric-Ardel abaixou a cabeça, culpa em seu semblante. Apenas Xtopherus não abalou-se tomando para si, enfim, a palavra.

– Já os alerto a tempos acerca do envolvimento com os primatas. Já lhes avisei do perigo inúmeras vezes…

– Seus argumentos são infundados… – interrompeu Ric-Ardel.

– VOCÊ SE ESQUECE? SE ESQUECE DE MEU FILHO? – berrou em protesto o drow.

Calaram-se outra vez, a tensão agora palpável no ar. Puck, tendo visto o suficiente, afastou-se, deu meia volta e seguiu por uma trilha em direção à floresta. Voava lentamente, tentando processar o que havia ouvido.

– Deve haver algum modo. – pensou consigo.

 

***

 

– Todos calados, todos calados! – gritava o elfo alado. – Esse é o conselho de Puck.

Espalhados pela clareira, encontravam-se múltiplas criaturas da floresta. Gnomos discutiam com suas vozes fininhas. Algumas fadas de Titânia haviam fugido e observavam detrás de uma árvore. Um velho druida cego estava sentado sobre as raízes de um carvalho, ouvindo tudo silenciosamente.

– Quero saber do que houve. Quem ouviu as histórias e podem contá-las?

– Ouvi que ele agarrou ela à força! – disse um duende. – Rasgou as roupas dela e afogou-a nas águas.

– Eu soube que ela o provocou. – respondeu um elfo alado. – Todos os dias banhava-se em sua presença. Completamente nua.

As fadas de Titânia resmungaram ao fundo, e uma nova confusão começou.

– Silêncio! Silêncio! – gritou Puck. – Precisamos saber da verdade, e não discutirmos contos de fadas. – não resistiu à provocação. – A verdade. A verdade!

– Então escolhei uma e ficai com ela. – disse uma voz do mundo da floresta. As criaturas mágicas e os animais presentes calaram-se, alguns fugiram, outros se esconderam. Os que ficaram observaram um velho fauno surgir dentre as árvores.

– Enius? – Puck colocou as mãos na cintura. – Veio juntar-se ao conselho de Puck?

O fauno sorriu.

– Ora, pequeno. Credes que perderia tal oportunidade?

– Então sabe do que aconteceu? – perguntou uma ninfa.

– O que quereis saber?

– Conte-nos a história. – gritaram as vozes.

– Fa-lo-ei.

 

***

 

Andava sozinho pelo bosque a procura de amoras quando viu-a. Banhava-se nas águas de um lago, a pele cálida, sobre a qual a água escorria-se, chamou-lhe a atenção. Era bela como nunca vira antes. Escondeu-se por detrás de um cedro e observou-a. Por dias e dias assim foi, sem que ela o notasse.

No vigésimo quinto dia, os pássaros cantavam alto quando, exaltado, apoiou-se contra um galho que quebrou. Saiu rolando encosta abaixo, caindo ao lago. A humana gritou e correu quando viu-lhe. Tentou aproximar-se dela a despeito dos gritos e das recusas. Afastou-se quando percebeu que ela  temia-o. Em seu coração não entendia, porque, a ele, ela era bem precioso impossível de explicar.

Ao notar-lhe que não causaria-lhe mal, no entanto, a humana saiu detrás das árvores. As mãos cobriam-lhe a nudez. Ela olhou-o tentando entender o que se passava. Nunca vira sujeito tão peculiar. Ela perguntou-lhe o nome, de onde vinha e por que estava ali. Ele respondeu-lhe tudo com calma, explicando-se. Ela enfim vestiu-se.

Continuaram a conversar à beira do lago. Ela fascinou-se com sua história. Ver o sorriso formando-se no rosto da humana fez seu coração disparar. Ver que ela estava interessada nele despertou-lhe algo que nunca sentira.

Passaram a encontrar-se todos os dias perto do lago. Conversavam sobre seus mundos, contando maravilhas um ao outro. Ele fascinou-se ainda mais por ela, por sua gentileza e bondade. Começou a ponderar se ela também não sentia algo por ele.

Foi no vigésimo quinto dia de conversas que ela despiu-se em sua frente e entrou no lago. Ele fez o mesmo e seguiu atrás dela. Em algum momento, tomou-a nos braços e beijou-a. O corpo dela aceitou-lhe. Os lábios dela eram suaves, o corpo macio, os cabelos massageavam sua pele. Seu coração palpitava enquanto tinha-a. Quando penetrou-a, foi o paraíso. Sentiu os corpos tornando-se um. Dançavam dentro da água, um levando o outro em um balé composto pelos deuses. Quando atingiu o ápice, preencheu-a com seu amor. E então foi tomado por uma felicidade inexplicável. Então olhou nos olhos dela e viu vazio. Medo e pavor misturados. Então tudo dentro de si morreu. Ele próprio foi tomado por aquele pavor e fugiu, correndo e deixando-a para trás.

 

***

 

Não me parece de todo mal. – disse Puck, o dedo ao queixo.

– Não vê que é uma grande mentira!- gritou uma fada ao fundo. – O fauno mente!

– Por que ofendei-vos se a história ainda há de terminar. Esperai e escutai.

 

***

 

Tomava banho todos os dias naquele lago, despreocupada da natureza. Um dia, caiu-lhe, ao lado, um sujeito estranho, de pele pálida e cabelos louros e belos. Correu, temendo por sua integridade. Observou-o por detrás de um cedro. Parecia tão assustado como ela.

Aproximou-se dele, ainda nua, a procurar as roupas que deixara em algum lugar. Interrogou-o enquanto vestia-se. Notou que era diferente de outros, tanto por fora como por dentro. Espantou-se, de início, com seus segredos.

Sentaram à beira do lago, trocando confidências. Ele ganhou sua confiança. Passaram a  encontrar-se todos os dias. Agradava-lhe a sua presença. Ele sabia ouvir, era o amigo que faltava-lhe.

No vigésimo quinto dia, já sentia-se, de tal modo, próxima a ele que não hesitou em despir-se e saltar ao lago. Ele seguiu-lhe, e brincaram como dois irmãos na água. Então ele agarrou-lhe, e tudo mudou.

Tentou dizer-lhe que confundia as coisas, que não sentia-se daquela forma em relação a ele, mas os lábios dele calavam-na. Tentou libertar-se de seus braços sem sucesso. Os lábios dele eram rígidos, o corpo sufocante, os cabelos espetavam sua pele. Seu coração disparava em desespero, tentando  soltar-se. Quando ela penetrou-a, foi o inferno. Sentiu ele invadindo-a. A água parecia uma prisão da qual não conseguia escapar por mais que debatesse-se. Quando ele atingiu o ápice, ela encheu-se de ódio. E então, tomou-lhe uma tristeza inexplicável. Ao olhar nos olhos dele, enxergou uma besta assustadora. Orgulho e luxúria misturados. Caiu em prantos enquanto ele corria para longe.

 

***

 

Hmmm, me parece uma história bem diferente da outra. – ponderou, Puck voando em círculos. – Qual das duas é verdade, afinal?

– Ambas. E nenhuma. – disse o fauno.

 

***

 

Puck voou de volta ao acampamento de Oberon, ainda pensando sobre as histórias de Enus.

– Esses conselhos de nada servem. – disse para si mesmo. – Confundem a todos.

Notou, então, ao longe, uma multidão. Cercavam um cedro em meio a uma clareira. Aproximou-se, abrindo espaço entre seres maiores que ele próprio.

– O que há? O que há? Deixem-me ver.

Estancou, então, diante da visão de um elfo, preso pelo pescoço por uma corda, balançando de um lado para o outro. Lágrimas ainda brotavam-lhe dos olhos mortos.

Em meio à multidão, Oberon parecia triste. Agarrava com força a mão de Titânia. Rod-Gael ainda mais desolado contemplava o corpo sem piscar. Não havia sinal de Xtopherus.

Puck ouviu Enius aproximar-se e disse ao fauno.

– Não importa qual das histórias é real. Me parece que esse é o fim.

Então voou para a floresta a procura de mel.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.