EntreContos

Detox Literário.

[Colchetes] (Adélio Um)

 

Parte 1: A fila

– “Leve essa papelada para carimbar”, dizia a mensagem no watts vinda do chefe da Casa, que prosseguiu argumentando. Enumerou todos os problemas da administração pública que conseguia lembrar do preço das canetas bic até o salmão e o champanhe. Já eu, que apesar de usar as canetas pouco teria chance de ver aquele salmão, pensava nas horas da minha vida que seriam devoradas pelo tédio, antes de tomar o primeiro gole de café do dia. Não poderia deixar meu chefe sem uma resposta.

[1] – Vá se foder! Desejo um câncer nesse seu cu! – Sentiu a liberdade em suas veias e foi para casa após enviar a mensagem. [1]

[2] – Sim, senhor. Levo antes de chegar no escritório. – Respondi, teclando com desprezo. Para me acalmar, imaginei que ele mandaria um áudio de 6 minutos, contando que um câncer no seu cu estava entrando em metástase, o que seria um êxtase se fosse verdade.

Fantasiei e caminhei até a repartição do Serviço de Autenticação e Carimbos (e demais burrocracias) vindo da casa de cópias, onde imprimi os documentos que deveriam ser carimbados, autenticados e passados por demais rituais protocolares. Como em toda boa repartição, era repartida em várias (perdoe a redundância e a interrupção demasiado longa da sentença) partes conectadas por fios de filas, irrigadas por tinta de carimbo e tédio.

A fila estendia-se por cerca de quinhentas pessoas de comprimento e uma de largura e eu estava lá pela metade depois de alguns dias esperando.

– Aguardar ser atendido é como fingir que está dormindo. – Ouvi um garoto com jeito de estagiário, falar para outro garoto com jeito de estagiário. Frente a necessidade de economizar bateria do meu celular, tocar de ouvido na conversa alheia é um ato de defesa da minha sanidade. Sendo assim, continuei ouvindo.

– Porque quando deitamos para dormir, apenas fingimos que estamos dormindo até que de fato estejamos dormindo. Isso é maluco, porque é isso aqui também: todo mundo aqui tá na fila esperando. Fingindo que tá sendo atendido até que finalmente chega a nossa vez.

Fazia muito sentido, pensei, porque temos sempre que alimentar a ilusão de escolher. Não mandar meu chefe se foder ou não pegar aquele panfleto de empréstimo fácil no caminho para cá (o que, reza a lenda, dá um azar do caralho). Alimentamos a ilusão de que decidimos dormir fingindo estar dormindo e, mesmo que quase sempre acabemos dormindo, sempre haverão noites de insônia para jogar fora nosso poder de escolha. São o mesmo tipo de escolhas que me levaram até esta fila, divagando sobre o papo furado do estagiário. As mesmas escolhas que me definem como um ouvinte entediado e covarde (cagão, mesmo) demais para mandar o chefe se foder.

 

Parte 2: Spoiler

[1] Não esperei a resposta. Voltei para casa, com o peito arfando de emoção. Horas de bunda colada no sofá de casa depois recebi a mensagem da minha exoneração. Aliviado, e surpreso pela ideia de que não ter pego aquele panfleto distribuído por um entregador de panfletos cansado e suado, no fim confirmou a maldição: quem não pega panfleto, perde o emprego. [1]

[2] Após horas fingindo que estava aguardando atendimento naquela fila, finalmente foram recompensados com um atendimento, de fato. Despejei as cerca de duzentas páginas de documentos no guichê da atendente.

– Muito bem! – Disse com olhar analítico. – O senhor devia ter protocolado esses daqui na entrada. – Disse apontando o primeiro bloco de ofícios marcados com clipes vermelhos.

– Mas aqui não é o protocolo da entrada? – Perguntei, já sabendo da resposta. Sem esperança de que qualquer jeitinho seria dado.

– O protocolo de entrada fica abaixo daqui, no B1. O protocolo daqui só aceita esses ofícios daqui se já estiver tudo carimbado lá embaixo. – A senhora falava num tom monótono. Provavelmente já dissera aquilo dúzias de vezes para pessoas que ouviam pela primeira vez. E a única resposta que pude dar foi concordar soltando o ar dos pulmões. Com o rabo entre as pernas, desci dois lances de escada e uma nova fila que me aguardava. No caminho recebo uma nova mensagem do chefe. “Por que essa demora, caralho?!”, li imaginando a doçura de sempre.

– Filha da puta esse chefe, não é?! – Foi o que ouvi antes de levantar a vista e ver nada mais nada menos que eu mesmo. – Então, não sei como dizer isso: seu dia vai ficar mais merda do que já começou.

– Como assim?

– Quando você chegar em casa, a energia estará cortada por falta de pagamento. –  Começou a citar contando cada coisa com os dedos. – Aquela gata, a Judite sabe?! Que você ia chamar para sair hoje? Então, você vai descobrir que o Eduardo já está comendo e é o Carlos que vai te contar e o melhor eu deixei para o final: Seu chefe vai te demitir antes do fim do dia.

– Quem é você? – Depois de uns segundos olhando com cara de bunda foi tudo que eu consegui perguntar.

– Como vou explicar… Eu, sou você mas para delimitar as coisas eu sou o Um e você é o Dois.

– Ei, porque eu sou o Dois? O que você tem de especial para ser o Um?

– Eu falei primeiro, logo sou mais esperto e, no mínimo mais bem informado que você.

– Valeu pelo Spoiler do meu dia de merda, mas como você sabe de tudo isso?

– É como se a vida abrisse colchetes diferentes. – Adélio Um passou o braço paternalmente sobre mim me tirando da fila e continuou. – Depois nos colocou dentro de cada um e a partir daí cada um seguiu um caminho diferente. [2]

 

Parte 3: Livro

[1] Passaram-se várias horas. A energia elétrica foi cortada de casa e sem grana, quase sufocando de tédio, resolvi caminhar na rua. Perto da parada, passei pelo mesmo entregador de panfletos que ignorei de manhã.

– Empréstimo pessoal! Empréstimo pessoal! – Dizia a pleno cansaço.

Peguei o panfleto lembrando da velha sina. Salvaria meu emprego neste momento se tivesse um. Sempre gostei de escrever, então com o dinheiro de um empréstimo poso usar para escrever e publicar um livro. Ainda posso usar o contracheque do último mês para comprovar renda e pronto. Contarei minha história de desempregado. [1]

[2]  Levantei as vistas do meu celular. A mensagem de Carlos sobre Judite foi o que faltou para acreditar em Adélio Um.

– Carlos é muito fofoqueiro. – Disse Adélio Um. – Mas serviu para alguma coisa.

– E agora qual é o plano?

– Como assim? É a sua vida. Não há planos, ao menos para essas verdades que te trouxe. Nenhuma é evitável. Você está fodido, mas para ser sincero, esperava que você tivesse uma reação mais violenta. Sei lá. Você é sempre tão bundão assim?

– Não sei. Acordei hoje e não sabia que encontraria um eu. Muito menos um que fosse o principal, afinal eu sou o Dois. Minha vida é uma merda. Você veio aqui, me deu um spoiler fudido da minha vida e eu nem estou mais a fim de continuar a ver o que acontece. Você é muio escroto e eu quero sair daqui.

– Ei, calma. Não precisa ficar assim. Fica aqui, se acalma e quem sabe…

– Calma é o caralho. Quero sair daqui. – Saí a passos largos. Afastei a mão de Adélio Um, o todo poderoso e sabe tudo, e continuei em direção a saída do prédio. Queria ir para minha casa.

– Dois, Adélio Dois. Não faz isso cara. – A voz veio de longe mas eu ignorei.

Segui caminhando até a porta de saída, a mesma pela qual entrei. Estava fechada e como o dia estava quente o sol batia forte e a luz não me deixava ver o outro lado.

– Não vai conseguir sair. – Adélio Um tinha me alcançado. – Não adianta Dois. Eu não pensei que você ia sair assim de repente. Eu não pensei esse caminho.

– Então é isso? Você controla tudo?

– Mais ou menos. Não consegui impedir você de saber a verdade.

– Você é Deus? Ou é o Diabo e eu estou no inferno? Porque o céu isso aqui não é.

– Na verdade, está mais para o inferno, mas não sou Deus, nem o Diabo. Para de ser estoico! Puta merda, Adélio Dois. Não dá pra fazer uma história assim.

– Estoico? – Procurei no Google o que significa. Como não sou filósofo, entendi que sou muito resignado e até concordei, afinal não soquei a cara de Adélio Um. – Estoico. Entendi. Se não tem nada para mim lá fora além do que você me spoilou o que sobra para mim.

– Para falar a verdade, eu também não sei. Essa parede aqui, que nos impede de sair, é um colchete. Quando chegamos nele a coisa acaba. Eu tentei sair do meu, usando uma linguagem diferenciada e entrei no seu destino. Mas agora eu fiquei preso aqui junto contigo. E quando eu parar de falar, o colchete vai se fechar sobre nós e tudo vai terminar.

– Então, precisamos continuar falando?

– Sim, mas não apenas falar. Tem que ter sentido e conexão com o que já falamos e tem que ser interessante e, de preferência, engraçado.

– Meio difícil, você já contou todas as merdas que vão me acontecer. A Judite que não vou pegar. Meu emprego que vou perder. A minha casa que está sem energia. – Dei de ombros resignado ou estoico como diria o Um.

– Tive uma ideia. Porém você vai ter que ficar quieto e deixar eu voltar um pouco e tentar concertar tudo. [2]

Parte 4: Final

[1] – Caralho! Não gostei desse “Final”. Quer dizer que tudo que escrevi até agora não fez sentido. O Adélio Dois ficou lá e eu aqui sem saber o que fazer.

Repentinamente, ouvi batidas na porta.

– Adélio. Oficial de Justiça!

– Caralho! A conta do empréstimo! – Fiquei me enrolando pra terminar esse livro e não consegui chegar a míseras duas mil palavras. 1.632, na verdade. Então, respirei e continuei. A quem estou me enganando. Estou travado. Agora o cobrador está na minha porta e eu não posso fazer nada. Não adianta colocar as coisas no tempo passado. Como se tudo já tivesse sido revolvido se não está de fato. Estou me enganando. Assim como enganei Adélio Dois, que ficou naquele colchete. Deve estar puto comigo.

– Abra a porta, em nome da lei. – Novas batidas na porta, desta vez mais violentas. Estou apavorado. Minha vez de ficar estoico. Levantei e fui até a porta e resolvi abrir.

– Adélio Um, seu merda. Você vai ter que se explicar na justiça! – Era nada mais, nada menos que Adélio Dois.

– O que você está fazendo aqui?

– Para você eu sou Oficial de Justiça Adélio. Trouxe uma intimação pela sua dívida.

– Mas você está desempregado!

– Então, eu vim te contar uns spoilers sobre a sua vida. E você não vai gostar de nenhum deles.

Adélio dois deu uma piscada para quem está lendo imaginar que é para ele. [1]

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.