EntreContos

Detox Literário.

A Batalha da Planície (Finrod Felagund)

É noite na Planície. Rodrik está no centro do círculo formado por seus companheiros, sujo e ofegante. Após o golpe, sua visão finalmente volta a focar e ele enxerga a guerra à sua frente. Visceral, sangrenta e desordenada. No chão, corpos de companheiros, orcs e goblins atrapalham o caminho, e o sangue negro misturado ao rubro, tinge a vegetação rasteira.

Sua atenção é atraída quando um grupo de goblins, se choca contra a parede de escudos que lhe abrigava.

Graças apenas à parede de escudos ainda estava vivo, mas a parede imperfeita, deixava frestas e, ocasionalmente eram atingidos. Alguém caiu no chão, deixando um vão na defesa do grupo, que precisava ser preenchido imediatamente, ou seria o fim de todos eles. Rodrik correu e estocou um orc de olhos amarelos no momento em que ele penetrava a defesa. Seu escudo fechou a lacuna. Gritou para os companheiros que estava bem, mas não estava. Nenhum deles estava. Sabiam que aquilo não ia durar.

Das altas muralhas do Reino de Baltak, Felix observava a Planície ser invadida pouco a pouco, mas o grosso da hoste inimiga ainda se mantinha de fora, detida pelo exército liderado pelo Capitão Clintisk.

Felix estava apreensivo. Já haviam sido atacados muitas vezes, mas jamais por um contingente tão grande. Conseguia enxergar ao longe, o exército de Baltak defendendo a passagem do Gargalo, uma passagem no desfiladeiro, a pouco mais de um quilometro dali. Entre montanhas, a cidade fora construída naquele lugar estratégico, dando acesso a eventuais inimigos apenas por aquele caminho estreito. Ali, um exército poderia resistir em desvantagem numérica por muito tempo.

Felix percorria as ameias, dando ordens e incitando coragem nos homens. Agradeceu aos Deuses, pelo esforço descomunal que o exército fazia segurando a imensa hoste negra enviada pelo maldito Deus das Sombras. Mas eles não segurariam por muito mais tempo. Onde estavam os Guerreiros Dragão? Os jovens que, segundo dizia a lenda, derrotariam Arkrok e salvariam o mundo. Felix olhou para as montanhas ao redor, na esperança de ver um desses grandes heróis retornando de seu treinamento. Focou novamente na batalha ao longe, o exército minguava e a horda negra não parecia diminuir.

– Diabo! Onde estão vocês, Dragões?

Dentro das muralhas do Reino de Baltak, a cidade tentava organizar o caos instaurado. Casas, lojas e pertences eram largados pela população, que fugia às pressas.

Samantha ajudava a organizar as dezenas de milhares de pessoas numa fuga ordenada. Carregando provisões, idosos e doentes, as carroças eram lentas, e a fuga da cidade prosseguia, noite adentro. Ela olhou para o palácio, que se projetava no céu noturno. O Rei aparentemente não tinha intenção de fugir, talvez ocupado em alguma conjuração mágica que impedisse o avanço do exército de Arkrok.

– Onde estão os Guerreiros Dragão, meu Deus?

Ela saiu do pequeno torpor quando ouviu vozes familiares.

– Sam!

– Samantha!

Duas mulheres e uma menina de não mais de 4 anos se aproximaram. Os cabelos louros e os olhos puxados das quatro denunciavam o parentesco.

-Mamãe! Isabel! – Samantha se surpreendeu – O que ainda fazem aqui?

Isabel, aos prantos, soltou a mãe e agarrou os ombros de Sam, desesperada: – Eu perdi Isaque! Não sei onde ele está! Eu não sei onde ele está!

Samantha se desvencilhou da irmã e a agarrou pelos braços:

– Isabel, acalme-se!  Eu ouvi dizer que alguns meninos foram até o Portão Norte para tentar ajudar na batalha. Vou pedir pra procurarem por ele, mas você tem que se acalmar!

Ela abraçou a irmã, que soluçava, e a entregou à mãe, sinalizando para se juntarem à fila.

– Nos veremos em breve mamãe, todos conseguiremos fugir, tenho certeza!

Nisso, ela sentiu algo puxar seu vestido, e viu sua pequena sobrinha, com o rosto sujo e os olhos vermelhos pelo choro.

– Titia, nós plecisamos mesmo ir embola? Eu não quelo ir.

Samantha se agachou, seu semblante, sisudo, se abrandou:

– Por enquanto precisamos, meu amor. Mas garanto que vamos voltar logo.

– Os Gueleiros Dlagão vão vir nos salvar?

Samantha mordeu os lábios: – Vão sim! Vamos ter esperança – Ela deu um beijo na criança e a entregou para a avó, que se juntou à Isabel na fila, saindo pelo portão.

Samantha acompanhou a ida da família, esperando revê-las em breve. Esperava também que as palavras ditas à sobrinha não fossem em vão. Mas agora, precisava descobrir o paradeiro do sobrinho.

Rodrik estava apavorado. Fora da parede de escudos, já avassalada pelo inimigo, ele viu um trio de trolls, grandes e cinzentos, correndo na direção dos companheiros engajados no combate, alheios ainda à ameaça maior.

– Cuidado! – Rodrik correu na direção deles, mas foi barrado pela ferocidade da batalha à sua frente. Goblins obstruíam o caminho. O grupo de companheiros à distância dava conta do número bem maior de orcs que o cercava, mas os trolls estavam perigosamente próximos.

– EEEEEEII, CUIDAD… – Rodrik sentiu um forte golpe atingir-lhe o ombro, derrubando-o.

Um orc assomou sobre ele, arreganhando os dentes negros, e ergueu seu tacape novamente, para desta vez, atingir-lhe a cabeça. Rodrik arregalou os olhos, mas viu uma lâmina brotar e sumir do peito do inimigo. Fora salvo no último instante, mas algo mais lhe atraiu a atenção. Uma figura branca se aproximava em grande velocidade. O som de cascos de cavalo em disparada parecia sobrepujar a gritaria da batalha. Era o Capitão Clintisk!

O cavaleiro branco abria caminho pela horda à golpes de espada e, veloz, foi em direção ao grupo, que mal via os trolls já atacando-os. Clintisk ergueu sua espada branca apontando para o céu, que trovejou. Um relâmpago desceu das nuvens até a arma, e o capitão a apontou na direção dos monstros. Um clarão branco iluminou o lugar, e logo depois, os trolls estavam caídos, carbonizados. Um coro de determinação saudou a proeza do grande capitão do exército humano, dando-lhes nova empolgação.

Rodrik ergueu sua arma, pronto para se unir ao líder, quando viu uma flecha púrpura, solitária, partir da turba inimiga, cruzar o espaço como se magicamente guiada, e se encravar na coxa direita do capitão, ignorando sua armadura.

– Não… – a voz do jovem saiu embargada pelo soluço, ao ver o campeão desfalecer na sela de seu cavalo.

Longe dali, uma sombra deslizava sobre o campo de batalha. Era Linksratus. Sua velocidade e agilidade vampíricas lhe conferiam o papel de assassino oculto. Ele não engajava em lutas cara-a-cara. Matava inimigos pelas costas. Os humanos mal sabiam o que lhes salvara, os orcs sequer viam o que os matara. Era assim que progredia no combate. Um vulto mortífero.

O meio-vampiro parou atrás de um aglomerado de corpos. Ser híbrido tinha suas desvantagens: precisava descansar. Ergueu os olhos púrpura para o céu, à noite estava apto a usar todo seu potencial, mas em breve o sol nasceria, e ele estaria novamente fraco.

Foi quando viu um cavalo branco conduzindo um homem desfalecido cruzar o campo de batalha. Linksratus estremeceu. O Capitão Clintisk fora abatido!

– Abram os portões, RÁPIDO!!!! – Felix correu pela muralha praguejando. Ele desceu a galope as escadas de pedra até chegar ao pátio onde soldados se reuniam ao redor de Clintisk.

– Ele está morto?

– É o nosso fim!

– Malditos sejam os Dragões, que não voltaram a tempo!

– Abram caminho! – bradava Felix em meio à turba até alcançar o cavalo do capitão.

Crianças que não deveriam estar ali corriam alardeando a morte do capitão, antecipada à constatação.

Clintisk respirava pesadamente, desmaiado. Não demonstrava ferimentos, exceto pela estranha flecha púrpura cravada em sua coxa.

– Derrubou Clintisk com apenas um tiro… Só pode ser um Duque de Arkrok… Maldição! Ajudem-me aqui! – os soldados prontamente o ajudaram a desmontar o homem ferido.

– Ele ainda está vivo! Levem-no para a curandeiria! Rápido!

Felix apertou as têmporas. Sem Clintisk, o Gargalo não demoraria a cair.

– O capitão Clintisk caiu! O capitão Clintisk caiu! – Um garoto maltrapilho vinha correndo espalhando as más notícias.

Imediatamente o povo, em romaria, lamentou. Choro, descrença, raiva e desespero eram vistos nos olhos e nas bocas das pessoas. Samantha agarrou o menino fofoqueiro.

– Isaque! Sua mãe está desesperada!

Pessoas choraram e se desesperaram ao ouvir as palavras do garoto que viera da muralha, gerando um início de confusão

– Tia Sam! O capitão Clintisk morreu! É O NOSSO FIM!

Samantha abraçou o sobrinho, que explodiu em pranto.

– Tenha fé NOME! Nosso exército é forte. Eles vão segurar!

Agora, as lágrimas de Samantha se mesclavam às do sobrinho, mas ela não se deu por vencida. Virou-se e gritou para o povo:

– Vamos ! Chorar não vai nos salvar. Honrem as vidas que estão se sacrificando pelas nossas!

O brado da mulher fez renascer a coragem no coração de alguns, suficientes para conter o povo e reorganizar a fila de fuga, entretanto, uma coragem desprovida de esperança.

Mas Samantha ainda se agarrava à fé de que aqueles garotos que deixaram o Reino, quase um ano atrás voltariam a tempo. Mas sua fé minguava, como o exército de Baltak.

Rodrik rugiu, enfiando a espada na garganta de um goblin. Ao seu lado, apenas um punhado de soldados sustentava a posição. A linha de defesa do Gargalo cedera à pouco, e a ordem para retroagir havia sido dada. Mas ele e os companheiros se recusaram a fugir. Ainda sustentavam alguma resistência próximo à torre de guarda do Gargalo. A coragem do grupo inspirava os soldados a lutar até o fim, mesmo que fosse apenas para retardar a invasão da planície. Entretanto, já mal conseguiam repelir os orcs que os cercavam.

Sangue e suor pingavam de seus cabelos curtos quando se livrou do último inimigo. Mas não se aliviou; um som grave de tambores precedeu o terrível: um grupo de trolls armados e encouraçados com placas de metal, vinha em sua direção, avassalando tudo em seu caminho.

Enquanto isso, Linkisratus retroagia, defendendo a retirada dos soldados de Baltak. O Gargalo caíra. Enfrentar aqueles números na planície era suicídio. Com sua velocidade sobre-humana, conseguia impedir que os inimigos atingissem os soldados em fuga. Divisou um pequeno grupo de soldados lutando ao longe, perto da torre de guarda. Uma pilha de inimigos jazia ao redor deles, demonstrando seu valor.  Pobres almas valentes. Link desejou ajuda-los, mas sabia de seu dever. Continuou retroagindo.

Na cidade, as pessoas choravam e, em seu desespero, atrasavam a fuga. Quase toda a população já fora, mas ainda restava alguns retardatários, e a mulher permanecia ajudando-os. Agora, tambores orc são ouvidos. Precursores da catástrofe.

Samantha lamentou. Pessoas antes, sorridentes, cheias de esperança e amor, agora condenadas à morte ou à padecer fugindo.  Ela já não esconde mais as lágrimas ao imaginar que aqueles homens, mulheres e crianças podem estar mortos no anoitecer do próximo dia.  

Com esforço, Rodrik conseguiu se desviar da enorme lança do troll, que tentara fisgá-lo. O monstro tapava o próprio céu, como uma montanha negra. Rodrik golpeou-o, mas sua arma não ultrapassou a espessa armadura do inimigo. Angustiado, ele viu seus companheiros caírem um-a-um, ante à temível brigada. Os Trolls os abatiam com facilidade e brutalidade.

Rodrik avança num último esforço contra o monstro e o apunhala no flanco. O Troll geme de dor e atinge o rapaz com um golpe de mão que o arremessa longe, cuspindo sangue. Ao tentar se levantar, o rapaz sente seu peito ser atravessado.

Rodrik engasga, mas não grita, mesmo quando a lança é arrancada de seu peito e o Troll segue adiante, como se tivesse matado uma mosca. O rosto do rapaz pende, enquanto seus olhos perdem a vida. Ele divisa as montanhas ao longe. Sua visão falha, turva. Uma figura está lá. Rodrik sorri e se despede.

Agora, amanhecia na planície. Link ainda cobria a fuga dos guerreiros aliados, quando algo o aterrorizou. Cinquenta trolls encouraçados avançavam, se aproximando do exército em fuga. Quando aqueles monstros alcançassem exército, seria um desastre. Mesmo enfraquecendo, Link se preparou para ir de encontro a eles. Talvez conseguisse derrubar uns 2 ou 3 antes de ser morto.

O pelotão de trolls já chegava no exército, quando algo aconteceu. Um tremor violento agitou a terra, derrubando humanos e orcs. Estarrecido, Link viu de perto; o chão se abrir abaixo das bestas, numa enorme fenda e tragá-las para o seio da terra.

Com um novo tremor, a fenda se fechou novamente, deixando apenas escombros e poeira no lugar da brigada de trolls. Os dois exércitos, pararam, atônitos.

Uma sombra surge dentro da poeira. Nela, Link divisa um rapaz, alto, trajando uma armadura cinzenta e uma capa de pele. Era um d’Eles; Yori; Um Guerreiro Dragão.

A poeira baixa, e o exibe a ambos exércitos. O rapaz olha para os humanos e Link capta o brilho verde nos olhos negros dele.

O Guerreiro Dragão, sem qualquer palavra, investe, como um aríete, contra o exército negro.

Felix ainda estava atônito. Que bendita proeza fora aquela? Nada humano poderia ter destruído aquele batalhão de Trolls daquela forma.

O sol raiava, e com ele, gritos de júbilo e alegria foram tomando o campo e contagiando a muralha, até o convencerem. Um Guerreiro Dragão finalmente retornara!

A planície reverberou a euforia dos humanos. O Guerreiro Dragão avançou contra o assustado exército negro. Os soldados de Baltak agora são outros. O espirito renovado e a empolgação da chegada do lendário campeão lhes deu novas energias e eles investem contra a horda também.

Felix vê uma chama reluzir ao redor de Yori e, no momento em que com o punho adiante, ele atinge o exército inimigo, a aura se transforma em um imenso dragão esmeralda, que penetra as linhas inimigas, devastando tudo em linha reta. A turba negra, totalmente desorientada, agora é massacrada pelo exército humano, que luta renovado. Felix não consegue conter o grito de alegria.

Samantha agora ouve o bramido de milhares de vozes em exaltação. Estava prestes a deixar o Reino de Baltak, quando viu um homem correr em sua direção, anunciando aos gritos o que ela tanto implorara.

– Acabou ! Acabou! Estamos salvos! O Guerreiro Dragão chegou!!

Mais homens vêm atrás replicando a notícia e a multidão que antes fugia da cidade agora comemora. Ela corre adiante e vê uma procissão já dentro da cidade. À frente, Yori, um dos jovens que foram treinar e retornar como a esperança que tanto ansiavam.

Yori passou por ela sem a notar, conduzido pelos soldados em êxtase. Sam caiu de joelhos em meio à profusão de alegria e chorou. Uma mão toca seu ombro e ela vê Félix, com um sorriso enorme e acolhedor. Ele a ajuda a levantar e ela abraça o amigo. Eles não dizem nada, sabem que o rumo daquela guerra acabara de mudar.

– Tia Sam!

Seus sobrinhos surgiram correndo e a abraçaram. Sua mãe e sua irmã vinham atrás, abraçadas em pura emoção.

Samantha ergueu a sobrinha e a colocou nos ombros, para ver o desfile do herói rumo ao palácio. Sam sorria e chorava sem poder exprimir palavras, mas sabia o que aquilo significava:

Esperança.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.