EntreContos

Detox Literário.

Benza Deus as Amizades (Zacarias)

Tem hora que a gente dá a maior sorte, e isso não acontece todo dia, porque a vida não é sempre assim tão boa, como quando eu tava saindo de casa e Seu Murilo passou no carrão bonito dele, um Ford Corcel 80, da melhor qualidade, e dando meia-paradinha, gritou: Sobeaê, Zacarias, que levo você pro trabalho; e eu fiquei doidinho porque ele nem parou direito, e eu tive que entrar no possante dele meio que andando, seu Murilo nunca me deu carona, sempre passava direto, sem parar, e aquela era a primeira vez, e fui logo sentando, puxando uma conversinha, lembrando dos tempos de infância, e tava contente pra caramba porque, além de economizar o-da-passagem, via que seu Murilo era gente boa, dez, mas pra meu azar, quando o carro parou no primeiro sinal vermelho, pufff-pufff-pufff, deu uma engasgada e morreu feito um tuberculoso, aos peidos, aí seu Murilo falou: Zacarias, amigão, desce e dá uma empurradinha que o possante pega, e a gente voa pro trabalho; e eu pulei pra fora do carro como um raio e empurrei o bicho, que demorou pra caramba pra pegar, só me fazendo suar bastante, então seguimos viagem direto pro Centro, mas não foi assim tão-tão diretinho não, que quando entramos na Avenida Brasil, em Coelho Neto, o possante engasgou outra vez e seu Murilo falou: Meu Deus, o que há com essa máquina maravilhosa?, tava tão boa… e disse: Por favor, Zacarias, dê uma empurradinha no possante que ele pega; e eu desci suando feito um cavalo que não tinha nem a força dum bode, e quase me caguei calça abaixo de tanta força que fiz, porque o carro tava numa subida desgraçada e, finalmente, graças ao bom Deus, o danado pegou, e a gente voltou a flanar pela Avenida Brasil, mas isso durou pouco, até o trânsito engarrafar na subida de Parada de Lucas, e o possante, pufff-pufff, engasgou e morreu, e seu Murilo nem precisou pedir porque eu sabia o que fazer, e dei logo aquela empurrada de bode, e veio gente me ajudar quando seu Murilo disse: Meu amigão Zacarias, você não aguenta esse tranco sozinho, proteja os colhões senão você pega uma hérnia nos bagos que vai te deixar brocha pro resto da vida, um aleijão-sacudo; e, por sorte, o carro pegou, então pulei dentro e corri pra verificar os bagos lá embaixo, e senti na mãozada que dei na cueca que tava tudo do mesmo tamanho, e só pensando na parceirona Nataly me olhando e me chamando de otário-sacudo, mas tava tudo no lugar, graças a Deus, e foi quando fiquei meio chateado porque seu Murilo tava sentado ao volante limpinho e sequinho-da-silva, e eu suando feito um bode velho, sovaco fedendo pra caramba, então eu falei com meus botões: Por favor, Senhor, Deus Todo Poderoso, não deixe o possante morrer novamente, que eu não aguento mais fazer força, vou acabar me cagando todo; e o carro, graças ao Santo, seguiu em frente, então eu abri a janela pra tomar uma fresca e vi que tava todo cheio de poeira, camisa cagada de graxa, calça molhada entre as pernas parecendo um mijão, sentindo que o calor tinha azedado a marmita, porque a diaba cheirava esquisito pra caramba, mas tudo bem, devia ser o ovo frito com repolho da Nataly, vamos em frente, e quando passamos pela Rodoviária Novo Rio, o desgraçado fez, pufff, e morreu, e eu, que já tava todo emporcalhado mesmo, desci correndo e dei uma empurrada fraquinha, botando os bofes pela boca, e o carro pegou novamente, e pulei dentro dele, e finalmente chegamos na Avenida Rio Branco, onde gritei: Seu Murilo, pelo Senhor Todo Poderoso, dê uma meia-paradinha que eu vou saltar; e me joguei pra fora do possante antes que ele morresse de novo, e seu Murilo gritou pra mim, que já corria lá fora: Zacarias, meu amigão, amanhã te pego novamente, te dou outra carona, porque você é dez e mora no meu coração; e eu fiquei batendo na roupa que já fedia de tanta catinga e poeira, marmita azeda, e aquele dia só ficou bom mesmo quando cheguei em casa e abracei Nataly e contei essa merda toda pra ela, e Nataly disse com aquele jeitão parceiro dela: Zacarias, você é um tremendo otário, sabia?, seu Murilo nunca valeu nada, um grande filho da puta que quando o carro tá bom não te dá carona coisa nenhuma, e agora te fez empurrar o carro dele daqui até o Centro, que isso não se repita; e eu fiquei olhando pra Nataly e disse: Nataly, querida, não queira mal seu Murilo, nós somos amigos desde criança, saiba que ele não faria isso comigo; e Nataly com seu jeito amável virou proutro lado e dormiu, e eu fiquei a noite toda pensando naquela história, e quando foi de manhã, já indo de novo pro trabalho com roupa limpinha e passada, vi seu Murilo chegando com o Corcelzão 80 dele, e quando ele passou direto, vi que ia com ele o Plínio, que é contínuo como eu lá na repartição, e fiquei olhando e achando que seu Murilo nem ligava mesmo pra mim, quando de repente o possante fez pufff-pufff-pufff e morreu, naquele mesmo sinal vermelho, e o Plínio desceu correndo pra empurrar, então eu pensei: Que sacana é mesmo seu Murilo, Nataly tinha razão, minha Nataly sempre tem razão, é melhor eu correr e pegar o busão…

O dia seguinte era sábado, que tiro pra sair com Nataly, pra tomar uma fresca, e já tava tudo arrumado prum banho na praia de Ramos, e Nataly já tinha preparado um farnel gostoso que eu tava doido pra comer enquanto tomava uma gelada com a turma da pelada, e foi quando o Plínio chegou correndo com os olhos esbugalhados e foi dizendo: Zacarias, meu chapa, pelo amor de Deus, me ajuda porque mamãe tá morrendo, a velha tá que não se aguenta, preciso que você leve a gente com seu possante num hospital; aí eu falei: Plínio, garoto bom, logo agora que eu ia levar Nataly pra pegar uma fresca na praia de Ramos?; e ele falou: Vamos, Zacarias, senão a velha morre; e meu coração, que é uma bola de algodão, me fez pegar o moleque Plínio pelo pescoço e dizer: Então vamos, garoto, porque mãe é coisa séria; e botei o coitado no meu Fusca 64 e flanamos até a humilde residência de sua mãe, um barraco feito de pau, caindo aos pedaços, ao lado de um valão fedorento pra caramba, e pegamos a velha, um molambo, um fiapo de gente já batendo no fim da vida, com seus quarenta e cinco anos, parecendo já ter morrido muitas outras vezes, e botei ela no banco de trás e o Plínio ficou ao lado dela dizendo: Mamãe, mãe, segure as pontas mamãe, fica boa, mamãe; e nesse vaivém amalucado, passei em casa e botei a Nataly de copiloto, e disse: Vamos pra onde, Nataly?, que sou um homem viril que de hospital não sabe nadinha; então Nataly falou: Toca pro Carlos Chagas que fica pertinho, em Marechal Hermes; e toquei pra lá, e o Fucão zuniu pela Avenida Brasil esburacada, e logo chegamos em Marechal Hermes e fomos tirando a velha do Fuca, e ela parecia um espetinho de churrasco de tão magrinha que era, vestida com aquele tubinho imundo com duas alças que mais parecia um pano de cachorro deitar, e arrastamos a velha pela porta adentro, então um segurança do tipo vou-te-meter-a-porrada veio logo dizendo: Aqui tem que pegar número!; e eu disse: Que numero, seu segurança?, a velha tá vai-não-vai!; então ele falou: Pega um número aê, sujeito abusado, e fica na tua; e eu olhei e tinha um monte de gente, então falei pra minha turma: Vambora, senão a velha morre; e foi quando um sujeito sem mãe gritou lá do meio do mundaréu de gente: Leva a velha pro Caju!; então perguntei pra Nataly: Nataly, que hospital que é que fica no Caju, querida?; e Nataly, com jeitão afetuoso, me deu um solavanco e disse: Caju é um cemitério, Zacarias, deixa de ser burro; e o Plínio já tava desesperado, e então falou: Toca pra Penha, pro Getúlio Vargas, que é logo ali; e eu falei pra ele: Leva a velha correndo, mas não a velha correndo, que ela tá morrendo e não pode correr, bota ela no colo; e o Plínio, coitado, outro desgraçado magriça, com a mãe dobrada em cima do ombro, saiu correndo e jogou a velha no banco de trás do Fucão, e a coitada quase nem respirava, e depois do tombo no banco respirava menos ainda, um fiapo, e o Fucão zuniu feito louco, e logo chegamos ao Getúlio Vargas, mas a gente não conseguiu entrar porque era o mês das greves e tinha que respeitar, então eu falei: E agora, Nataly, o que faremos?, a velha tá vai-não-vai, mais pra vai que pra não-vai; e a Nataly, esperta pra caramba, falou: Nem tem jeito, Zacarias, mete a velha no Souza Aguiar que fica logo ali, no Centro da Cidade; então liguei meu Fucão 64, e foi quando vi que um guarda tinha colado uma multa no vidro do carro, então Nataly falou: Zacarias, essa vida é mesmo uma merda; e eu disse: Vambora, querida, que a gente vê isso depois; e quase duas horas mais tarde imbiquei o possante na porta do Souza Aguiar e fomos enfiando a velha no hospital, e o moleque Plínio parecia um homem feito, porque levava a velha com desenvoltura no ombro, já parecendo estar nas últimas, respirando pouco, falando bobagens que ninguém entendia, revirando os olhinhos e escorrendo uma baba grossa pela boca, e veio um enfermeiro muito atencioso e disse: Senhores, o que esta senhora tem?; e sentiu o pulso da velha, e sentiu o coração da velha, e então falou: Os médicos não estão atendendo, estão numa reunião verimportant na diretoria, assim, seria conveniente que os senhores levassem a velha ao Hospital dos Servidores do Estado, que fica pertinho, na Gamboa, lá, os médicos atendê-la-ão com a máxima cortesia, tudo será resolvido, o problema dela é coração fraco; então imbicamos pra Gamboa como o homem disse, e aí, Nataly, que é muito esperta, parceirona, falou: Como é que a gente vai internar essa velha num hospital de servidores se ela nunca teve um emprego na vida, Zacarias, vive na maior miséria, isso aqui é um hospital pra parasita do Governo do Estado, meu querido, isso ainda vai dar merda, vamos pra outro lugar; aí, o Plínio, que é botafoguense doente, coitado, nunca teve bom gosto, falou: Vamos pro Rocha Maia que fica perto do meu time do coração; então eu dei um cavalo de pau no Fucão e acelerei pro Rocha Maia, mas não consegui encontrar o danado do hospital porque me perdi no caminho, e a velha babava, gemia, revirava os olhos, e Nataly, feito uma doida, botava a cabeça pra fora do Fuca tentando arrancar a multa colada no para-brisa dizendo que aquilo tava impedindo ela de ver o Pão de Açúcar e o Corcovado, então eu disse: Para com isso, querida, pelo amor de Deus, me tira dessa merda de lugar que eu já não sei o que fazer, tô perdidinho nessa terra dos bacanas, nesse oásis dos ricaços, você é meu copiloto de fé; e a velha não dizia coisa com coisa, babava, gemia, revirava os olhinhos, e Nataly lembrou que a gente tava pertinho da Gávea, onde fica o Miguel Couto, e como sou flamenguista doente, sujeito de bom gosto, achei que era uma boa ideia e imbiquei pra Gávea, e o Fucão, cansado pra caramba, deu uns peidos barulhentos quando acelerei passando uma segunda, e uma hora depois chegamos ao Miguel Couto e fomos empurrando a velha pra dentro do hospital, e sem ter quem atendesse, chegou um segurança gordo, tipo hipopótamo, que foi dizendo: Calmaê, chapinha!, aqui tem ordem, entra na fila; então fui logo dizendo: Olha o estado da velha seu segurança, ela tá morrendo que dá dó; e o Plínio, menino pacato pra caramba, já tava criando caso com o segurança obeso tipo Papai Noel, e o segurança foi empurrando a gente com a barriga pruma fila sem tamanho nem fim, e a gente não sabia mais o que fazer, e Nataly, de saco cheio, saiu do hospital querendo desgrudar a multa de trânsito do para-brisa, e toca de esfregar o vidro pra ver se o papel desgrudava, e eu fui lá e disse: Nataly, querida, pare com isso; e o Plínio começou a gritar feito doido dentro do hospital, e a velha, um caniço de bambu, quase ia mas não ia, então foi me dando um troço por dentro e eu acabei dando um bolachão no hipopótamo, foi quando juntou gente e o povo começou a dizer novamente pra velha ir pro Caju, vê se pode?, que se a gente chegou depois tinha mais era que esperar, que a velha se ferrasse porque todos ali tavam morrendo há mais tempo que ela, e vieram outros seguranças, e eu achei que iam encher a gente de sopapos, e isso era o que faltava, então eu falei pro meu pessoal: Queridos, tenham calma, vamos levar a velha pro Mário Kroëff, um hospital com nome tão bacana como esse deve atender a gente muito bem; e partimos pro Mário Kroëff, e nada de encontrar a desgraça do hospital, e eu já tava perdido quando, de repente, doido da vida, imbiquei o Fucão pra Parada de Lucas, depois pra Coelho Neto, e logo tava em Acari, num pulo tava de volta na Pavuna quase enfiando a velha de volta no barraco de pau dela quando Nataly, que é parceirona demais, falou: Zacarias, vamos pra tendinha de seu Zaqueu; e quando chegamos lá ela disse: Mete um cuscuz na velha, mete uma pamonha na velha, mete nela uma Coca-Cola que só tem açúcar, mete um caldinho de feijão, um café quente; e duma hora pra outra os olhinhos da velha foram revirando de um jeito bom e ela começou a dizer coisa com coisa, renascida, e o moleque Plínio ficou sorrindo, então Nataly falou: Essa velha tava era morrendo de fome, Zacarias; e toma outro cuscuz, toma outra pamonha, vai outra tapioca, e logo a velha pediu uma cervejinha gelada, e depois outra, e logo começou a pitar um cigarrinho, e o Plínio tava todo feliz, então a Nataly falou: Vamos todos pra praia amanhã; e não deu outra, no dia seguinte arrastei o Plínio e a velha até o carro, e logo imbicamos com meu Fucão 64 na praia de Ramos que tava numa calmaria de fazer gosto, sem onda nem nada, uma verdadeira água parada, e a velha, metida num calçolão cor-de-rosa encardido que dava dó de olhar, flutuava na marola daquele bonito mundaréu de gente, boiava leve como uma pluma, e o Plínio tava todo feliz, benza Deus as amizades.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.