EntreContos

Detox Literário.

Autorregeneração (Isilda Martins)

– Como vais escapar? Tudo aqui pode matar-te, mas eu posso o fazer de forma mais eficiente. – Disse Juan.

– Vou precisar de vestir umas calcinhas antes de me dizer algo mais. – Respondeu Selene.

– Sinta-se à vontade. Gostou da noite?

– Sim… Au. ‘Cê tem vidro espalhado no chão?

– Tenho sim. Mas, você… Você não está escorrendo sangue. Sua ferida se fechou, eu vi. Como isso é possível?

– Há coisas que não é possível explicar. Você mata, eu curo. A noite foi boa, sim. Agora me mostre mais.

– Tenho um corpo ali na geladeira, quer ver? Sempre quero saber se é possível voltar à vida.

– Depende do tempo que está morta. Pode voltar à vida, sim, mas uma estranha forma de vida. Me mostre o corpo.

Juan levou Selene até à geladeira, pisando os cacos de vidro. Deixava poucas gotas de sangue no chão, pois se autorregenerava imediatamente.

– Pode abrir, está aí. – Disse Juan.

– Sim, mas antes eu quero algo de você. – Disse Selene.

– Diga, o que quiser.

– Isto. – Disse Selene, agarrando a face de Juan com as duas mãos.

Aí ela viu todo o sofrimento que ele carregava dentro de si. Toda a dor veio para fora dele. Ele gritava, chorava de dor. Até que Selene o largou. Juan se deixou cair ao chão, tremendo de medo.

– Que… Que você fez comigo?

– Fiz com que o garotinho que havia morrido em você voltasse à vida. Agora me vou e vou chamar os policiais. Era bom você fugir.

– Porque me diz isso? Porque me ajuda?

– Porque sei que você ainda tem bondade dentro de você.

Juan fugiu quando ouviu aquelas palavras. Sentiu medo. Medo que não sentia faz tempo. Enquanto se afastava do prédio começou a sentir raiva de Selene. Raiva por ela ter feito transparecer sentimentos antigos. Ele havia de se vingar, de uma forma ou de outra…

Os policiais chegaram, já Selene tinha saído. Não podia deixar eles saber que ela se autorregenerava. Com sorte, nem iam dar pelo sangue dela. Com sorte.

Os policiais fizeram investigações, analisaram o quarto ao pormenor, encontraram o corpo na geladeira, mas não chegaram a nenhuma conclusão. Sabiam, pelos indícios, que tinham lá estado duas pessoas, mas não havia registo deles na base de dados. Nem ADN nem impressões digitais.

 

Selene. Selene não era o seu verdadeiro nome. O nome verdadeiro não interessava. Tinha atravessado guerras milenares e tinha sobrevivido, graças à sua autorregeneração. Diria que era meia vampira. Mas não bebia sangue, nem, na verdade, comia muita carne. Depois de ver tanta carnificina, só comia carne que visse ser criada à frente de seus olhos.

Existia desde o tempo dos romanos. Lembrava-se de uma vida quase despreocupada, de uma vida agradável. Depois, foi convidada para uma festa particular. Ia ver Spartacus, na noite em que ele se revoltou com os seus colegas. Depois, pouco se lembra. Teve a sensação de morrer, ou quase. Até que um criado muito amigo dela se aproximou, já os revoltosos partiam. Cortou-se com uma faca no pulso e juntou o sangue dele ao dela. Aí, seu corpo regenerou com uma rapidez que se sentia queimada por dentro. Quis gritar, mas Zacarias a impediu.

– Chiu, não faça nenhum som, se quer sobreviver.

Selene (não seu nome na época) tentou silenciar-se. Até que as dores passaram.

– Venha, agora a única forma de matarem você é cortarem sua cabeça. – Disse Zacarias.

– O que sou? O que você é?

– Um ser mágico. A partir de agora poderá ter a vida que quiser, mas aconselho-a a partir comigo, se quiser viver mais tempo. Pois aqui ninguém sobreviveu. E todo o mundo sabe que você veio nesta festa.

Selene acedeu. Viajaram muito, atravessaram séculos, sempre mudando de local, para não serem descobertos. Selene tentou ter algumas relações sérias, mas não se podia dar ao luxo de descobrirem a verdade sobre ela. Então ela partia, de coração partido, com Zacarias, seu fiel amigo. Descobriu, com o tempo, que se tinha tornado infértil com a autorregeneração. Mas sempre teve Zacarias para a ajudar. Até ao dia em que, durante a conquista árabe da península ibérica, ele se meteu com a princesa moça-árabe. Ele era judeu. E os judeus até eram aceites na comunidade islâmica, nessa altura. Mas não deixou de ser um crime meter-se com uma princesa. A sentença? Morte por decapitação. Não houve nada que Selene pudesse fazer para ajudá-lo. A sua presença era recusada no castelo, na prisão. Só pode chorar, chorar como não fazia desde que descobrira que era estéril. A partir daí, o silêncio tornou-se a sua companhia. Não confiava em ninguém. Não podia viver em comunidade com os islâmicos por temer o que lhe fariam, uma vez que era cristã e amiga de um recém-condenado. Não podia ir para os cristãos, pois eles andavam malucos com suas cruzadas e atacando tudo o que não fosse explicado por Deus na bíblia. E, que Selene soubesse, a sua vida não constava lá.

E assim percorreu os séculos, até chegar aos dias de hoje.

 

Juan. Juan foi um menino que sofreu muita desgraça na sua vida. Foi abandonado em bebé junto com seu irmão de 5 anos, assim que sua mãe morreu. Cresceu na rua junto com ele, comendo do que apanhavam do chão e do lixo. Um dia foi raptado. Mas por uma família que sempre lhe quis bem. Só que Juan era revoltado por não terem levado seu irmão também. Mais tarde soube que ele tinha sido apanhado por um homem, violado e morto. Que seu corpo tinha sido jogado ao lixo. Nunca perdoou quem o criou, começando, em segredo, a torturar sua irmã mais nova. Quando ela chegou na idade de 8 anos, já Juan tinha 14 anos, ela confessou aos pais tudo o que passava com Juan desde neném. Foi expulso de casa, indo viver para a rua, de novo. Mas ele sabia como sobreviver, tinha lábia. Rapidamente arranjou um trabalho numa empresa como moço dos recados. Evoluiu, voltou aos estudos e lutou por subir de posto, o que conseguiu. Mas sua vontade de fazer mal aos outros estava apenas adormecida. Um dia conheceu a filha do chefe. Era linda, de olho azul e corpo escultural. Tinha 18 anos, tal como ele, na altura. Convenceu o patrão que era um bom homem, respeitador e convenceu-o a deixa-lo sair com a filha dele. Foi o seu erro. Nessa noite, depois do jantar, levou-a a um prédio abandonado, o mesmo onde tinha levado Selene. Ela, curiosa, deixou-se ir. Ele torturou-a de maneiras inimagináveis. Fez com ela tudo o que queria ter feita com sua irmãzinha. Ela morreu de choque, tal não foram as dores que sofrera. E saiu, deixando seu corpo na geladeira. Dizendo a seu pai que não a via desde o jantar, que a havia deixado na porta de casa. Seu pai, desconfiando, mas sem razões justas para despedi-lo, teve de aguentar o sofrimento para dentro. Até que o corpo dela foi encontrado.

 

Juan estava desaparecido, aos olhos do pai da moça assassinada. Portanto, só podia ter sido ele. E fez questão de o dizer na delegacia. Contou tudo, o que fez a polícia começar nessa linha de investigação.

Na morgue, estavam preparando o corpo de Margot, a moça morta. E eis que entra uma moça nova no local, dizendo que era sua amiga e se queria despedir. Era Selene. Os empregados assentiram e deixaram ela só com o corpo, avisando o pai de Margot no corredor. Ele chegou perto de uma janela e viu o milagre acontecendo. Selene se feriu num braço e abriu uma ferida no braço de Margot. Quando ele ia gritar por ajuda e entrar, vê que, quando o sangue das duas se tocaram, o corpo de Margot se mexeu, tremendo violentamente. E o corpo de Margot voltou à vida…

– Moça, como te posso agradecer? Margot, minha querida… – Disse o pai de Margot, entrando na sala.

– Não conte nada disto para ninguém. Mais tarde eu entrarei em contacto com vocês. Ah, me chamo Selene. – Disse Selene, deixando pai e filha se abraçando.

O caso foi notícia em todo o Brasil. Margot tinha voltado à vida por milagre. Ninguém falou em autorregeneração, não sabiam de pormenores. Pois todas as feridas de seu corpo tinham desaparecido. Mais consciente, e depois de vários exames, Margot confirmou o que a policia já desconfiava; que Juan era o culpado de seu desaparecimento. Mas ali estava ela, viva e sem marcas. A polícia não sabia o que fazer.

Juan soube do caso pela televisão. Ficou fulo da vida quando soube que Margot estava viva. ‘Ela é minha!’, disse Juan para si próprio, dando um murro na mesa da cafeteria.

Selene bateu na porta. Havia um policial fazendo segurança, mas não a reconheceu, pois ela vinha sem peruca, desta vez. Margot e seu pai deixaram-na entrar, reconhecendo seu nome. Dispensaram os empregados todos e ficaram os três a sós.

– Não tenho palavras para descrever o agradecimento que tenho por você. – Disse o pai de Margot.

– É sério, eu estava morta e voltei? Nem me lembro de morrer… – Disse Margot.

– Grata por vossos agradecimentos. Mas, agora, tenho a notícia má. Você é imortal.

Pai e filha se entreolharam.

– E depois, que é que isso tem de mal? – Perguntou o pai.

– Tem que ela não morre de jeito nenhum, a não ser que lhe cortem a cabeça. Ah, e não envelhece. Ou seja, ela tem de desaparecer do mapa, para que ninguém descubra a verdade sobre ela. – Disse Selene.

– Calma aí. Você me devolveu a filha só para falar que vou perdê-la de novo? – Perguntou o pai, começando a desesperar.

– Infelizmente, assim é. Se o seu segredo for descoberto eu e muitos mais, creio eu, serão descobertos.

– Muitos mais? Como assim!?

– Zacarias, meu companheiro de viagem, um dia me falou que havia mais como nós, nem todos bons, claro. Na verdade, nunca me encontrei com nenhum mais, além dele. Mas se Zacarias me falou que haviam mais, porquê não acreditar?

– E quem é esse Zacarias? – Perguntou Margot.

– Ele morreu durante as conquistas islâmicas. – Respondeu Selene.

– No Iraque ou na Síria?

– Nenhum dos dois. Na península ibérica mesmo.

– Península ibérica? Mas isso faz tempo…

– Pois faz. Mas é assim, você tem a hipótese de fugir comigo e ser minha companheira de viagem. Ou pode ir sozinha. Mas lhe digo, sozinha é um caminho penoso.

– Pois se tenho o dinheiro do meu pai e posso ir para onde eu quiser, porque havia de ir com você ou sozinha?

– O dinheiro é uma prisão, sempre nos diz onde está. O melhor era pensar em começar uma vida do zero.

– Eu? Jamais!

– É assim, eu tentei lhe fazer a realidade da coisa. Você faz como entender. Se acabar morta é sua responsabilidade. Ainda mais com o criminoso à solta.

– É isso mesmo. Eu vou fazer o que entender. E, agora, agradeço o que fez comigo, mas suma desta casa.

– Tudo bem. – Disse Selene. – Eu sumo. Mas você vai se arrepender.

Selene saiu do apartamento de Margot e do pai revoltada. Aquela moça tinha assinado a sua pena de morte.

Juan aguardava à beira do hotel. Tinha barba, bigode e uns óculos escuros, pelo que não o reconheceram. Mas houve alguém que ele reconheceu. Selene. A viu entrar e sair do hotel. Que teria ido fazer lá? Claro, aquela história do ressuscitar. Só podia ser obra dela. Ficou indeciso entre perseguir Selene ou esperar que Margot saísse. Mas, afinal, para que seguiria Selene? O que ele queria naquele momento era Margot. E haveria melhor forma de se vingar de Selene que matar Margot, novamente?

Margot precisava sair. Ignorou os avisos do pai e dos policiais que faziam vigilância no hotel e saiu. Precisava ver o local onde tinha sido morta. Demorou a chegar lá, mas encontrou o local. Ficava na entrada de uma favela tomada pelos bandos de droga. Sentiu-se demasiado rica para aquele local, pelo que voltou atrás, até uma banca de roupa barata que visto atrás. Comprou a roupa, se mudou e voltou ao prédio. Lá dentro, viu que estava ainda com a fita da policia para não entrar. Ela a rasgou. Subitamente, escutou um barulho atrás de si. Virou para ver o que era. Se assustou com a presença de um homem barbudo.

– Oi, se lembra de mim? – Disse o homem.

Margot reconheceu sua voz de imediato. Era Juan.

– Me larga, você não pode me matar mais. Veja, sou imortal. – Disse Margot, cortando-se de seguida com uma faca que tinha levado consigo, sem entender que tinha realizado a coisa mais estupida que podia ter feito.

– Me diga, se eu cortar sua cabeça, você se autorregenera? – Perguntou Juan.

Margot ficou pálida. Tentou fugir, mas não conseguiu. Nesse momento, em que Juan se preparava para a decapitar, apareceu Selene.

– Larga ela. Vem lutar com alguém de seu tamanho, ou força. – Gritou Selene.

– Porque haveria de fazer isso? – Disse Juan, começando a degolar Margot.

Mas Selene conseguiu com que Juan largasse Margot, puxando por ele. Foi difícil, mas conseguiu.

– Fuja. – Disse Selene para Margot, mas esta recusou.

– Não, quero ver o que faz com ele. Afinal, agora somos iguais. Irmãs?

Selene olhou para Margot e assentiu com a cabeça.

– Irmãs. – Disse, por fim, Selene.

Foi uma luta rápida. Selene sabia artes marciais, fruto de ter passado uma temporada bem longa no Tibete, onde nunca lhe perguntaram a causa de não envelhecer. Ou se magoar. Conseguiu derrota-lo e agarrar numa faca. Em principio não o queria matar, pois sabia todo o sofrimento por que tinha passado, e donde vinha toda aquela revolta. Mas tinha de o fazer, pois senão não o parava. Matou-o, degolando-o. O seu corpo inerte caiu no chão.

– Venha, irmã. – Disse Selene para Margot. – A partir de agora, fazemos essa caminhada junta.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C1.