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Detox Literário.

Betiron, um Reino (Elene)

Seus olhos estavam embotados pela poeira quente do deserto, mesclada ao suor que porejava em seu rosto, produzindo gotículas que reluziam em sua pele antes de misturarem-se ao pó; algumas delas escorriam pelas pálpebras e faziam pêndulo nos cílios antes de serem lançadas pelo movimento das piscadas, menos apertadas do que necessárias e caírem novamente na face ou no tecido rústico que compunha parte da armadura de Ute, e neste caso último, evaporando quase que instantaneamente, desapareciam antes mesmo de serem percebidas.

Era o sol escaldante do deserto de Betiron, estava mais quente do que em todas as estações passadas. Ute permanecia quase inerte, apoiando-se com uma das mãos na espada, ainda embainhada, da qual pressionava o cabo reluzente que, ora o prendia por uns instantes ora o soltava, em descanso, esticando os dedos num alongamento e recolhendo-os como se fosse desferir um soco,  repetiu isso inúmeras vezes, deixando transparecer uma inquietude e ansiedade que não lhes eram comuns.

Aflorava em seu íntimo o instinto aguerrido do sangue de seus ancestrais, num impulso quase desenfreado para empunhar aquela arma, enquanto a outra mão segurava, com menos firmeza, os longos e finos pêlos do pescoço de Tot, sua montaria.

Não era um animal qualquer.

Desde a infância o destino lhes presenteou com uma invejável amizade. Ele havia resgatado o bicho ainda filhote, de um ataque feroz de um Nebriú, um terrível predador que, após dizimar seu pequeno bando, perseguia o minúsculo ser ainda indefeso, não fosse a intervenção de Ute, seria parte da refeição daquele dia no cotidiano do veloz, selvagem e esfomeado caçador.

Desde então não havia mais nada que os separasse.

Estavam ali, naquele viés do tempo, juntos, na encosta de uma alta colina prestes a travarem (agora real) a maior batalha de suas vidas  até aquele momento.

À frente deles, acampados,  estava uma horda de soldados, muito parecidos com os Vertilhões, um povo bárbaro de terras distantes que causavam uma sensação fria de terror mesmo em meio ao calor da estrela mor dos céus de Betiron.

Era imensa a quantidade de criaturas, das mais diversas e estranhas já vistas pelos olhos de seu povo, eram milhares de milhares, uma infinidade a perder de vista e  a escurecer a linha do horizonte.

Ute não encontrava lembrança de ter visto algo parecido em toda sua vida,  nem mesmo em suas batalhas imaginárias lá dos idos tempos de sua longa infância, das quais sempre saía vitorioso juntamente com seu amigo felpudo.  

No entanto, esta batalha que se lhe apresentava agora, era mais que verdadeira, era iminente, necessária e trazia consigo temores e sensações diferentes das quais ele sentia quando criava as suas. Tantas batalhas épicas com pueril imaginação, geradas quase que naturalmente pelo poder criativo inerente às mentes infantis.

O medo não era coisa estranha para ele, mas naquele momento estava um pouco além do que se esperava, e ainda assim não diminuía a sede pela batalha. Era imprescindível um acerto de contas, e em turbulência alguns sentimentos se digladiavam em seu interior, num misto de ódio, vingança e justiça, predominando esta última.

Mas foram eles que quebraram a paz, trouxeram uma guerra, feriram seu povo, reino e família. Era este pensamento que atravessava-lhe a mente numa incômoda rotina, ferindo seu orgulho e furtando-lhe a paz, alimentando a fúria, contida apenas pela necessidade de planejamento e organização exigidos em batalhas desta grandeza.

Teriban seu irmão mais velho havia sido capturado durante uma expedição de sondagem, coisa rotineira que costumava fazer e o que geralmente realizava em companhia de soldados mais próximos, alguns até amigos, nascidos de outras batalhas vestidas de menor importância.

Foram pegos de surpresa pelos invasores, a tropa quase toda exterminada e seu irmão capturado. Todavia, dois soldados conseguiram (em breve saberemos) fugir da matança e relatar a invasão repentina pelas estranhas criaturas. Um deles morreu na chegada, vítima de um ferimento de lança, quando já estavam bem afastados, sendo atingido por um disparo tão certeiro cuja arma foi arremessada a uma distância assustadoramente grande e, como que para causar terror e demonstrar a habilidade do atirador, apenas feriu o alvo, permitindo que o moribundo vivesse e caminhasse definhando até a chegada, para transmitir a mensagem, se não pudesse o outro faria.

Ele observou tudo isso, avaliou cada detalhe, e concluiu (com pouco esforço) que o êxito da fuga não fora resultado de habilidades dos soldados, apesar de serem os melhores sob o comando do irmão, mas entendeu o recado do inimigo acampado ali com audácia e afronta.

Seu pai líder do seu povo morrera há poucas estações, e seu irmão, o próximo da linhagem na sucessão ao trono de Betirun,  nem estava totalmente integrado ao posto (desconsertado ainda pela perda recente do pai) não havia deixado as obrigações de costume, como nesta última sondagem em que fora capturado.

Ute estava agora no comando, mesmo nunca tendo almejado tamanha responsabilidade.

Tinha confiança no irmão, o amava de fato e acreditava que seria um bom rei, talvez não com a mesma expressividade de seu pai que, apesar de aguerrido, soube estabelecer laços com os povos à sua volta.

Sentia, lá no fundo, que ele seu irmão não era a melhor opção para assumir o reino e, talvez por isso, achava-se em falta por não permanecer mais próximo dele na linha de comando.

Não houve resistência ou qualquer disputa de sua parte com relação a ascendência ao trono pelo primogênito.

Acatou de bom grado o desejo do seu pai.

Quanto às suas batalhas imaginadas quando criança, nunca tivera a menor pretensão de que viessem para o mundo real, eram lúdicas e belas, não haviam nelas dor nem sangue e nem medo, ainda desfilavam vivas em sua memória.

Um fio de culpa o assombrava.

Possivelmente tivesse impedido a captura do irmão, pois era mais hábil por natureza, mais atento e com reflexos que causavam orgulho ao próprio irmão, coisa que ouviu do mesmo, tanto em público quanto em treinamento, quando estavam apenas os dois.  Além de ser também o mais forte; apesar do irmão ser o menos jovem.

De alguma forma a ordem do cosmos permitiu esta distinção, e talvez fosse ele o capturado ou até morto.  Quem ia saber?

As escolhas criam os universos de possibilidades.

E ali estava o seu universo, a visão daquilo tudo o assustava, mas ele permanecia concentrado, olhos fitos no horizonte, diminuindo a rigidez da pose apenas com o intuito de transmitir confiança e calma ao amigo de batalha. Tot não possuía a consciência da sua força e poder, embora agisse com ferocidade em reflexo por instinto de defesa.

Tudo bem com você amigo? Perguntou Ute ao animal, enquanto afagava o pescoço do bicho com uma leve pressão seguida de três batidinhas. Em seguida, encostando o rosto no animal, sussurrou:

Agora é pra valer Tot, força e coragem!  

Podia sentir a pressão do fluxo sanguíneo bombeado pelos dois corações de Tot, que batiam ao mesmo tempo, tão sincronizados que pareciam apenas um.

Mais do que nunca, naquele momento eles eram um só. Os rufos cardíacos em harmonia. Batidas compassadas de três corações.

O silêncio pairava na atmosfera e, não raras vezes, era quebrado por gritos e grunhidos vindos de alguma das legiões nas tropas inimigas que, enfurecidas, tinham de ser contidas por alguma frase de comando, com palavras ou vocábulos de ordem.

Apesar de não entender o significado, Ute reconhecia a firmeza e determinação de alguma patente superior naquelas expressões de comando, as quais eram acatadas repentina e abruptamente após um movimento do comandante, seguidos por um barulho oco, resultado pela batida ao chão dos calcanhares de milhares de soldados em um movimento.

O barulho lembrava o som de um trovão no meio de uma tempestade já estabelecida.

Era nítida a característica selvagem daquele povo, apesar da organização e uma certa disciplina enquanto soldados. Ute estava atento a todos estes comportamentos e esta percepção o preocupava. A distância não permitia visualizar nitidamente a aparência dos oponentes, e pouco menos sua força.

Quando criança, costumava escapar sorrateiramente e sem a permissão de seus pais, ia rumo ao campo de guerra para assistir de longe o desenrolar das batalhas. O ato era apenas movido por ímpeto infantil, e desta forma acabou por entender e aprender alguns dos comportamentos de um exército em suas táticas de guerras como recuos, abertura de alas, movimentações, pontos fortes e fracos, terrenos, ataques surpresas, uso de peritos, adaptabilidade e a inescrutabilidade, movimento de montarias, arqueiros, aríetes, torres,  catapultas, uso do fogo e tantas outras armas e ferramentas de guerras que os seres de todos os tempos eram capazes de fabricar. Angariava ali, involuntariamente, insumos para suas brincadeiras de guerras, mas no subconsciente preferia que elas permanecessem assim, apenas na imaginação.

Tot mostrava-se impaciente, como todo ser que possui além dos sentidos comuns de uma raça. Pressentia algo que os olhos não viam e o que a luz não revelava, como se enxergasse uma brecha no tempo ou um vislumbre do futuro, ou talvez fosse apenas confusão nos sentidos, causada pelos novos e estranhos odores que eram trazidos no vento. A primeira opção era a mais provável, indubitavelmente.

Ele era pequeno quando encontrado e salvo por Ute, o qual não fazia idéia das proporções que o bicho alcançaria, tinha as patas traseiras extremamente fortes, que lembravam o tronco de árvores antigas, com garras pequenas que davam mais apoio ao impulso e equilíbrio quando necessário permanecer apenas sobre elas. Uma cauda esguia, resistente e pontiaguda que podia ser enrijecida e perfurar como uma lança e, por outro lado, quando controlada instintivamente, tornava-se flexível como um chicote ao ponto de cortar qualquer material que existia em Betiron.

As patas dianteiras eram bem maiores e escondiam garras tão fortes quanto o material de sua cauda, estas porém, de composição sólida e tão rígidas quanto resistentes, nunca perdiam o fio, eram retraídas ou expostas quando o animal desejava, e a força do seu golpe partia o mais petrificado dos troncos de Équitons árvore altíssima, de tronco espesso com dureza semelhante ao aço, mas de cor ocre, bem conhecidas e comuns naquelas terras deixando sulcos profundos quando as garras não alcançavam a outra extremidade do caule.

O exército de Ute aguardava reforços em respostas às mensagens enviadas aos povos com os quais seu pai conseguiu, durante o seu reinado, criar alianças. Eram três e receberam uma mensagem escrita pelas mãos de Ute para exprimirem com maior eficácia o teor da urgência e criticidade da situação que enfrentavam.

As três mensagens começavam quase com o mesmo tom e assim  diziam em suas primeiras linhas:

Amigo Nef, rei de Torkevah, que as dádivas dos tempos e as boas sensações estejam com teu povo! Uma nova guerra veio até nós.

O coração de Betiron confia que tu manténs em boa mente o acordo firmado com nosso povo e a verdadeira afinidade que guardam com tanta honra, cujo valor não pode ser mensurado em qualquer língua existente ou que venha a ser criada. O nosso povo e Ute, filho de Quimom, rogam que venhas em nosso auxílio, com tantos quantos dos teus soldados puderes, com toda força que possuas, com tuas melhores invenções, armas e exércitos. Nossa existência depende deste apoio. O tempo de paz foi menos longo do que bom, um povo desconhecido e hostil se colocou em nossas terras e passando por nós, chegará em teus domínios, e guerreará contra os povos destas terras. Nas minhas previsões a nossa força é pouca se sozinhos o enfrentarmos, mas unidos à tua força e poder seremos capazes de garantir a paz sobre este mundo, ao menos por algum tempo. Estes intrusos não aceitaram negociações e aguardam, pelo que vi, apenas o início de uma batalha, ao que nos parece o seu prazer está nestes eventos cruéis, não trazem bandeiras ou brasões, aparentam não ter morada, consomem e destroem o que encontram em seu caminho…”.

A mesma petição foi enviada aos habitantes de Kefrat e Guereth, cujas terras também seriam  devastadas por este invasor.

Ute relembrava dos acordos que seu pai fizera e de quantas vezes visitou estes povos, junto com Tot e seu irmão. Eram povos grandes e poderosos e seu amigo sempre fazia sucesso junto a eles, o qual era uma máquina de guerra viva, e tanto os soldados quanto as crianças ficavam maravilhados com ele, de cuja espécie nunca fora encontrado outro representante. Obviamente que os povos percebiam que a união entre eles, donos de uma força tamanha para a batalha, era o mais racional e assim a amizade era forjada tanto pelo medo quanto pela razão.

Mas Ute sempre foi  muito bem acolhido por todas aquelas raças. A origem, a formação, a feitura ou composição deles nunca foi fator que o levasse a julgar estes povos como inferiores ou superiores, eram amigos e ponto.

Isso o animava e encorajava um pouco mais, o medo era preciso, mas a coragem necessária.

O silêncio que incomodava até aquele momento, foi quebrado por um reboliço vindo da turba de criaturas ali acampadas, Ute olhou em sua volta, olhou à sua frente, não havia recebido retorno de qualquer negociação.

Era hora de falar com seus homens, não havia mais tempo para aguardar os reforços, sobrava esperança de que chegassem, talvez no meio da batalha.

Ute levantou o corpo ainda montado e em um brado dirigiu-se aos soldados:

—  Senhores!

Ceifaram a nossa paz!

Hoje somos um só grito, um só povo e um só legado!

Hoje não existem pequenos nem grandes neste exército!

Somos todos GI-GAN-TES!

Hoje a voz da liberdade será proclamada pelo brandir de nossas espadas!

Hoje somos os muros e as armas deste reino!

Hoje somos um só coração!

Cada vida entregue aqui seguirá no cosmos com seus elementos…

seguirá nos corações de cada habitante de Betiron!

Pelo povo!

Por nossa terra!

Por BE-TI-RON!!”

Cada frase de Ute era intercalada pelos gritos dos soldados em ovações e movimentos uniformes de suas armas. Viam nele e em sua fera indestrutível a esperança de vencer aquele exército de incontáveis bestas e criaturas que ameaçavam suas vidas e terras, seu mundo.

Ute endireitou-se montado em Tot  e, desembainhando sua espada, empunhou-a em riste ao lado do corpo, com um urro que estrondava no vento inflamando de seus soldados a coragem e o ânimo:

— Avançar!!!!

Desceram a colina rumo ao campo de batalha para enfrentar um inimigo desconhecido.

Enquanto desciam, sobre o galope quase flutuante de Tot, pôde observar no horizonte atrás deles, à esquerda e  à direita, os primeiros sinais dos reforços tão esperados, faltava apenas um, mas já era possível perceber um esboço de sorriso em sua face, como alguém que diz:

”— Eu sabia…”

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C1.