EntreContos

Detox Literário.

A Dama de Negro (Saturn)

Solstício de inverno. Sentei-me próximo a lareira de minha casa. Afoito, receoso, ansioso como sempre. Uma sensação de tristeza profunda. Os dias não têm sido normais. Às vezes, sinto um exorbitante calafrio percorrer a espinha. A dor é forte, dilacerante. Sinto como se perdesse todas as minhas forças. Uma voz ecoa na minha cabeça.

— Não venha. Ela diz.

Dias frios são bizarros. Eu os odeio. Eles sempre me trazem a sensação de morte iminente. A inquietude do silêncio me deixa apreensivo, angustiado.

Venho carregando um fardo terrível. A dor de não conhecer meus verdadeiros pais e, a grande vontade curar a pessoa que mais amo neste mundo.

Minha mãe adotiva fora diagnosticada com câncer há alguns anos. Seu tratamento não está sendo nada eficaz. Quase sempre a presencio chorando. Em desespero por não saber o que fazer para se livrar desta apavorante doença.

— Maldita seja.

Não tenho mais palavras para confortá-la. Dentro de mim, não existe desespero maior que o medo de perdê-la.

Sou filho único. Uma pessoa cheia de sonhos e, claro, muitos defeitos. Meus pais não puderam ter filhos. Aliás, este fora um dos motivos pelo qual minha mãe desenvolveu o raro tipo de câncer que acomete sua vida. Ela tentou, foram numerosos os procedimentos, mas, nenhum pode permiti-la ser mãe de sangue. Fui adotado quando tinha apenas dois anos. Entregue em um lar onde mães que rejeitam seus filhos os deixam para adoção. Não era o meu caso. Até onde sei, minha mãe biológica me amava. Apesar de toda dificuldade sou uma pessoa afortunada. Fui acolhido por uma família de grande influência na cidade onde moramos. Proporcionalmente muito bem de vida.

Aos dezoito entrei para a universidade e, foi ai que tudo mudou. Meu pai era advogado. Minha mãe uma renomada médica esteticista. Segui os caminhos de meu pai e fui para o ramo advocatício.

Na época, parecia ser o melhor a fazer. Em pouco tempo me destaquei entre as turmas. Meus pais se orgulhavam.

No dia dezessete de dezembro do ano de 1986 perdi meu pai, em razão de um grave acidente automobilístico. Minha mãe não se conformou. Desde então, somos apenas eu e ela. Faltava pouco para me formar. Fiquei dois anos confinado, reservado na minha dor. Meus sofrimentos eram tantos e tão substanciais que, basicamente me exilei do mundo. Dediquei-me a arte, a escrita e, qualquer movimentação que me levasse à fantasia de mundos diferentes. Cinco anos mais tarde voltei aos estudos, me formei na escola de artes de Coimbra. Tornei-me uma pessoa completamente diferente de quando meu pai era vivo. Deixei a barba crescer, tatuei seu nome no meu peito junto à palavra fé. Fernando Lourenço, este fora o nome de meu pai. Ele deixou tudo que pode para mim. Casa, carro, bens materiais, uma vida absolutamente estável. Há pouco tempo encontrei uma carta sua me dizendo o que fazer caso ele partisse. Minha mãe a guardou sob seus cuidados. Nela, ele cita sua doença e fala da minha responsabilidade em cuidar dela. Seu amor por mim sempre fora tão grandioso que ele confiou a mim sua maior preciosidade em vida. Mesmo sem encontrar aquela carta eu sabia que esta era a minha missão em vida. Porém, eu a negava, profundamente. Não aprendi lidar com sua ausência.

A dor e a ansiedade sempre tomaram conta de mim. Meus pais nunca souberam do meu real mundo interior. Tentei negá-lo, tentei fingir que este não existia. Ledo e absurdo engano. Descobri recentemente que carrego comigo os estigmas de um passado que vêm passando de geração em geração.

— Você precisa me escutar. Esta voz me diz.

De fato, não há mais como negar sua presença. Ela faz parte de mim. Por causa de meu pai tornei-me uma pessoa muito inteligente, mas, ao mesmo tempo deveras, atrapalhado. Meu dom era o de me atrasar. Não importa o que eu fizesse e nem como o fizesse eu sempre me atrasava nos momentos mais importantes da vida. Foi assim na minha formatura, no meu primeiro encontro, no nascimento do filho do meu melhor amigo.

Maldito seja este dia. Maldito seja este início de tarde. Fria, gélida. Chega a congelar as minhas entranhas. Estive sozinho em casa por um longo período. Minha mãe não vai nada bem, encontra se hospitalizada. Eu, sequer imaginava que este pudesse ser o seu último dia de vida.

O telefone tocou inúmeras vezes. Mas, eu não o atendi. Ouvi a campainha tocar. Nada. Eu não me mexia. Foi como se estivesse cativo.

Senti minha alma sendo puxada para fora do meu corpo. Meu coração estava acelerado, meu corpo imobilizado. Eu queria, queria muito ter atendido a porta, mas, não conseguia.

Alguém gritou bem alto do lado de fora da casa.

— Pablo. Você esta ai? É urgente.

— Sua mãe já esta sendo velada.

— Velada? Eu me indaguei.

Meu Deus. Isso não. Isso não pode estar acontecendo comigo. De novo não.

— Como isto foi acontecer?

Nesta tarde, eu deveria ter ficado perto dela. Este deveria ter sido o meu último compromisso para com ela.

Acontece que, desta vez, exagerei, este não era um compromisso comum. Uma despedida, o irrevogável momento que a vida nos reserva para olhar quem amamos pela última vez. A dor e a saudade dilaceram tão logo recebemos a notícia da perda de alguém. Esses sentimentos trazem a tona lembranças de momentos que sabemos, não poderão mais voltar. Sem entender o que, de fato, acontecera, fui me refazendo.

Tomei um banho quente, fiz a barba, coloquei minha melhor roupa para vê-la, calcei meu melhor par de sapatos e borrifei algumas gotas do perfume doce que ela tanto gostava. Em meu rosto marcas do meu sofrimento. Olhos inchados depois de tantas lágrimas. Faltava pouco para que eu pudesse vê-la pela última vez.

A mulher que me acolheu em vida, a quem aprendi a chamar de mãe estava indo embora. Eu não podia acreditar. Não pude lidar com sua ausência.

Olhei no espelho e vi minha expressão de acabado. Não tinha dormido por duas noites seguidas preocupado com o estado de saúde dela. Infelizmente neste dia ela não suportou. Deus resolveu levá-la para junto de seu encontro. Resolvi que deveria me recolher alguns minutos, o suficiente para recuperar completamente as minhas forças e estar pronto para carrega lá.

Maldito fora este meu pensamento!

Assim que recostei minha cabeça na almofada perdi completamente a consciência. Acordei horas depois com o brilho da lua entrando pela janela.

— Deus, por favor, diga-me que ainda tenho tempo.

Não sabia o que fazer, sai correndo, não encontrava a chave do carro, tropecei na calçada, torci o tornozelo, tudo estava dando errado. Lembro-me de segurar alguma coisa.

— Eu só queria olhar para ela uma ultima vez!

Não tem jeito, não adianta mais gritar para o mundo a minha saudade. Provavelmente a enterraram sem mim.

— Por que eu tinha que ter esse dom detestável de me atrasar para tudo?

Assim que cheguei no cemitério encontrei os portões fechados. Não havia ninguém. Era meia noite. Os sinos da igreja badalavam as horas para anunciar o tamanho do meu desespero. Meu coração batia no ritmo daquele som fúnebre que só os sinos conseguem ecoar.

Eu não queria saber, simplesmente entrei. Pulei o muro do cemitério e fui ao encontro dela. Haviam muitas, muitas coroas sob o jazigo de nossa família. Permaneci ali pedindo perdão pelo meu atraso, pedindo a Deus uma chance de poder senti-la perto de mim uma vez mais.

— Mãe, “EU TE AMO”, não queria que fosse. Não queria ter dormido e não ter tido a chance de estar aqui para me despedir.

Comecei a ver sombras, vultos me cercavam naquele lugar tenebroso. Silhuetas de pessoas de todas as idades, idosos, crianças, adultos, homens e mulheres, imagens rústicas. O cheiro de morte era terrificante.

— Estou delirando?

— Devo ter enlouquecido com a perda.

Fui tocado no ombro por um velho que usava vestes brancas. Em seu pescoço havia um extenso cordão vermelho sangue e uma chave com o formato do infinito no cabo.

— Você quer vê lá? Perguntou-me o velho.

Olhei para ele fixamente. Eu não estava com medo, não estava assustado, não pensei em correr, nada, eu só queria mesmo poder ver a minha mãe.

— Sim, eu quero Senhor. Respondi imediatamente.

— Pegue!

— Segure a bem firme em suas mãos.

— Esta chave vai levar você até ela uma última vez.

— Você terá duas opções com esta chave. Entretanto! Deve escolher se quer vê lá uma vez mais no teu passado ou se deseja vê-la em seu futuro.

— A sua frente existe duas portas. Na traseira do túmulo de sua mãe, escolha uma delas e siga em frente, não pare, não olhe para trás ou tudo acabara. Este caminho não deve ser observado pelos homens.

— Quando chegar lá sua mãe o estará esperando e, você poderá ter a chance de se despedir.

— Mas, preciso alertá-lo! Por qualquer uma das portas que você entrar haverá um preço a ser pago. Não se pode invadir o passado, nem, tampouco, o futuro, sem que um preço seja cobrado por essa visita.

Rapidamente o agradeci, peguei a chave e sem pensar muito escolhi a porta do futuro. Precisava saber como minha mãe estaria depois de sua partida. Em minha mente só pensava que ela continuaria sua vida no reino dos céus e sua trajetória de luz permaneceria.

Quando entrei pela porta do futuro luzes brancas saíram de mim, comecei a sentir meu corpo pesado, a gravidade daquele estreito corredor fazia-me arrastar por entre os pequenos espaços cheios de terra e lama.  Devo ter rastejado por horas naquele estreito local.

O velho me disse para não olhar pelos corredores adjacentes e, haviam muitos, muitos corredores que se ligavam ao que eu estava percorrendo.

Finalmente, pude ver uma porta feita de madeira de lei, um clarão saia por entre as suas lacunas. O corredor foi ficando maior e, por fim, pude-me reerguer. Assim que abri aquela porta me deparei com uma paisagem confusa. De um lado ilhas com labaredas de fogo, demônios, a terra queimava e ardia em brasas, chamas azuis, avermelhadas, em tons de amarelo ouro. Nunca imaginei nada igual. Em outros, ilhotas, árvores com diversos tipos de frutas, aves cantando, silhuetas de anjos. Eu estava entre um e outro mundo, sob um imenso penhasco, prestes a me jogar.

Minha mãe sentava-se embaixo de uma monstruosa árvore ressequida. Exuberante, ela usava um vestido marfim e, observava o mesmo horizonte que eu.

Lancei-me ao encontro dela. Desta vez nada poderia me impedir de abraça – lá uma última vez.

— Você veio meu filho.

— Sabia que você viria.

— Eu estou aqui mãe. Me perdoe.

— Mãe, eu sinto muito, me desculpe, não queria ter apagado, ter me atrasado na sua despedida. Eu te amo tanto mãe. Só queria agradecê-la por toda felicidade que você me deu.

— Ah, meu filho, minha vida toda foi por você, desde que te conheci ainda pequenino eu sabia que você era a minha luz e, agora você está aqui meu pequenino.

— Você esta lindo, esta muito bem meu filho. Exatamente como sempre quis ver você. Por favor, continue sua vida sendo sempre a melhor pessoa que conseguir ser. Nunca se esqueça das palavras e dos sonhos de sua mãe. Da alegria que deu a mim e a seu pai.

— Mas! Não temos tempo.

— Você precisa ir agora! Eu devo ser julgada muito em breve e seguir por um destes lugares que você vê.

— Mãe, por favor, não vá!

— Meu filho, vá agora, vá depressa, não olhe pra trás, siga pelo mesmo caminho de onde veio, aproxime se daquele local que o trouxe até aqui. Vá bem rápido.

— Eu achei que a veria no seu futuro mãe, que estaríamos bem. Não queria vê-la presa aqui aguardando um julgamento.

— Não se preocupe meu filho. Essa é a grande transição entre a vida e a morte. Daqui seguirei para um lugar melhor.

Olhei pra trás e vi anjos descendo, demônios se elevando. Que lugar assustador.

— Eu não vou deixá-la, não posso ir embora. O que está acontecendo?

Vir-me-ei por um instante e a porta desapareceu, uma janela surgiu. Uma variação no tempo permitiu-me ver meu próprio corpo caído sobre o túmulo de minha mãe. Havia pessoas me olhando, me puxando, tentando me acordar. Foi então que percebi que já era dia.

Muitas horas haviam se passado desde que entrei no futuro de minha mãe. Eu estava atrasado demais para voltar.

Aquela voz ecoou de longe. — Pablo, você deve voltar agora. Volte rápido, imagine a porta da saída uma vez mais.

Eu não segui, não imaginei porta alguma. Segui correndo para junto da minha mãe. Foi então que senti algo me atravessar com muita força. Aquilo rasgou o meu peito. Fui levado para bem longe, tragado para um lugar sujo e fétido. Olhei para os meus pés e vi meu corpo inerte ao chão. Eu estava todo ensanguentado com uma arma na mão. Através daquela imagem contemplei meu passado. Um passado presente, bem diante do meu futuro. Num instante tudo escureceu e, ela finalmente se manifestou.

A dama de negro. A fada que assoviou em meu ouvido os ventos da morte.

— Eu morri? Perguntei assustado.

— Seu tempo aqui se esgotou. Ela me disse.

— Eu o avisei para não vir até aqui.

— Esta voz? É a mesma que me abordou no momento em que eu repousava frente à lareira de meu pai. Não tenho dúvida. É ela. Isso me manteve cativo.

— O que você quer de mim?

— De você nada. Eu só precisava dela.

— Por que você se matou?

— Me matar?

—Entendo.

Dei-me conta do tamanho vazio que me destruirá. Tudo que vivenciei até então foram os resultados de minhas próprias decisões.

— Não há mais como chegar até onde eles estão. Suas escolhas o tiraram deste mundo. Esta é a maldição que carregam nossos antecessores. Mortem.

— Tentei alertá-lo. Mas, você não me ouviu.

Comecei a perceber os resultados de minhas ações. A morte não fora minha inimiga. Ela me avisara para não seguir por este caminho de trevas.

— Posso ver o seu rosto? Perguntei a ela.

— Non habeo faciem. Ela me respondeu deixando uma enorme alabarda cair de sua mão. A foice da deusa morte. Recolhi-a do chão.

Imediatamente ela se transformou na mulher mais linda que vi. Sem que percebesse, eu também tinha mudado. Tons escuros tornaram minhas vestes enegrecidas. Um capuz recobriu meu rosto.

— Gratias. Ela me disse.

Rapidamente percebi o que acabara de acontecer. Pude livrá-la de seu fardo. Assumi-lo, dando continuidade à missão que me fora passada pelos meus predecessores.

— Adeus. Eu me despedi. Ela seguiu sorrindo.

Não havia mais dor, tristeza, frio, nada. Eu me tornei um com aquele objeto enorme. A ceifadora de vidas que me tirou da pessoa que mais amei.

— Adeus minha mãe.

Tudo que me consola, é que pude me despedir.

Um século depois e ainda sigo com a minha missão. A longevidade terrena vem aumentando cada vez mais. Este se tornou o presente que pude oferecer a humanidade fazendo uso correto do maior dom que Deus me deu.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C1.