EntreContos

Detox Literário.

Um Caso de Consciência (William Faulkner)

O General Leonardo Ferro, Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, entrou na sala de reuniões do Palácio do Planalto, e olhou ao redor, irritado.

O cômodo havia sido redecorado. Havia agora um mapa-múndi em uma das paredes. Em outra havia o quadro de uma onça-pintada.  Na terceira havia um telão, e a quarta era coberta por janelas, por onde se podia contemplar o gramado da Esplanada dos Ministérios.

Na mesa de reuniões havia duas pessoas: Gustavo Serra, chefe do Gabinete Civil da Presidência, e um homem desconhecido, de idade indefinida, que usava um casaco comprido e mexia no celular, sorrindo. Aquele homem era o motivo da irritação do General.

Ele dirigiu um cumprimento vago e sentou-se, acomodando o notebook sobre a mesa. Ligou-o, decidido a ignorar o desconhecido. Gustavo iniciou:

– Senhores, o motivo de estarmos aqui são as mensagens ameaçadoras que o Presidente tem recebido pelo celular.  Ele deseja que o GSI trabalhe em conjunto com o Gabinete Civil. Não precisamos de mais para entender o quanto isso o está incomodando. General, já conseguiu alguma pista sobre a origem das mensagens?

– Ainda não. O problema é a quantidade de operadoras. Neste ano, passaram a ser quinze. Além disso, as mensagens sempre vêm de números diferentes.

– O que comprova – interveio o desconhecido – que o emissor é um só, disfarçando-se. Do contrário, os números repetir-se-iam pelo menos uma vez, mas…

– Já sabemos disso – o General Ferro interrompeu, sem nenhuma delicadeza –, e…

– General – o desconhecido também interrompeu, sorrindo – não se preocupe com Vinólia. Essa é uma fase de autoafirmação, pela qual todas as adolescentes passam. Ela o ama muito, e logo esquecerá esse gato vira-lata que trouxe para casa.

– Sim – confirmou o General –, mas enquanto isso… –levantou-se violentamente. – Como sabe disso? Gustavo, você andou me espionando! – Investiu subitamente, como seus dois metros de altura, em direção ao desconhecido. – E quem é você? Que história maluca é essa que me contaram? – Sua posição marcial demonstrava estar a ponto de lançar alguém sobre o gramado da Esplanada.

Gustavo também se levantou, com um gesto apaziguador:

– Pelo amor de Deus, Léo, sente-se. Eu também não acreditei, a princípio.

Finalmente, Ferro sentou-se, hesitante, enquanto o misterioso homem sorria e explicava:

– Ainda hoje não entendo como alguém se surpreende com algo tão simples. O senhor tem pelo de gato no uniforme. Ao olhar para o quadro da onça, fez uma careta de desagrado. A sua idade é de quem tem filhos adolescentes, que adoram recolher gatos de rua. Finalmente, observei enquanto o senhor digitava a senha do notebook, V-i-n-ó-l-i-a, provavelmente o nome da sua filha, que noventa por cento dos pais usam.

Ferro, trêmulo, bebia um copo de água. Virou-se para Gustavo:

– Então não é brincadeira? Ele é mesmo…

O próprio desconhecido respondeu:

– Mr. Sherlock Holmes, ao seu dispor.

 

***

 

Gustavo explicava:

– Nós o encontramos em Hunza, um vilarejo do Paquistão. O lugar é famoso pela longevidade dos habitantes, que vivem em média 130 anos. O Ministério da Saúde enviou uma missão para estudar os hábitos da população de lá.  Foi assim que o conhecemos. Ele afirma que desde que se retirou, vive lá, e que atualmente tem 140 anos. Então, o Presidente pediu sua ajuda, e ele aceitou.

– No fundo – disse Holmes –, considerei uma variação positiva para a monotonia dos meus casos atuais. Só tenho resolvido pequenos furtos, infelizmente raros em Hunza.

– Portanto, Léo – disse Gustavo –, peço-lhe que se lembre de que é um pedido do Presidente, e mostre-lhe as últimas mensagens recebidas.

O General Ferro não discutiu. Moveu o Notebook de modo que todos pudessem ver as mensagens:

“Fogofrioleira triboancestral Prometheus – Galinhaciscante.”

“A guerra terminou, lutaste contra lanças, perecerás de bofetadas!”

“Corrupião, currupaco, capuz-vergonha do carrasco. Remexe-se na corda trêmula.”

– A primeira mensagem – explicou Ferro – parece um insulto desagradável, “galinha ciscante” ou coisa que valha. A segunda é claramente ameaçadora. Afirma que o presidente, que foi policial e lutou com armas, irá morrer a pancadas. A terceira ameaça-o com a forca. Mas posso ver por sua expressão irônica, Mr. Holmes, que o senhor não concorda com nada disso, e decerto tem alguma teoria melhor.

Holmes não conteve um pequeno riso:

– Ora, vamos, não se aborreça, General. Nesse caso, sua desvantagem está em não ter conhecido, como eu, um irlandês beberrão que se expressava de modo idêntico a estas mensagens. Foi há anos, nos pubs londrinos. Chamava-se Jim, como todo bom Dublinense. De tanto ouvi-lo, entre um copo e outro, acostumei-me a frases desse gênero, que nunca significam o que dizem.

– Então – perguntou Gustavo – é esse irlandês que está enviando mensagens ao Presidente?

– Apenas se for do Além. Estive em seu funeral, em Zurique, 1941 – Holmes respondeu com sua costumeira precisão.

– Quem mandou as mensagens, então? – Gustavo insistiu.

– Isso ainda não sei. Preciso terminar de olhar meu Facebook.

Os Ministros entreolharam-se. Após um instante, o General Ferro levantou-se e declarou:

– Senhores, receio que deva continuar investigando, ainda que por meios mais tradicionais.

– Por favor, volte para o almoço, General – pediu Holmes.

 

***

 

Ao meio-dia o General Ferro tornou a entrar na sala de reuniões. Gustavo estava lá. Sherlock Holmes, em uma poltrona, interpretava uma valsa celta no violino.  A música parecia medieval, composta apenas por um curto trecho, que Holmes repetia de forma intermitente. Após alguns minutos, a têmpera militar do General Ferro cedeu e ele perguntou se podia pedir o almoço.

– Oh, claro, General – Holmes aquiesceu. – Estava tocando “O Bosque das Fadas”, em homenagem ao meu amigo irlandês.

Pediram os tradicionais bifes com arroz e batatas, acompanhados de uma jarra de suco, para os Ministros. Para Sherlock, presunto e uma garrafa de Guinness.

Durante o almoço, o General comentou:

– Mr. Holmes, seu amigo irlandês não seria James Joyce, o famoso escritor?

– Oh, sim, General, Jim Joyce. Mas não era famoso naquele tempo.

– Andei pesquisando. Ele inventou uma técnica de escrita denominada “fluxo de consciência”, não?

– Assim ele denominava nosso jogo. Era divertido ouvi-lo inventar frases pitorescas, para representar o que ele chamava de “estado da consciência anterior à saída da fala”.

– Infelizmente não entendo muito de literatura – confessou o General.

– Todavia, é apenas um jogo de pub. Ele escrevia uma frase que representava sua “pré-fala”.  Eu deveria adivinhar o que significava. Se não conseguisse pagava a rodada. Jim anotava tudo, pois pretendia escrever um livro.  Por exemplo, passou pela minha cabeça agora “química do prazer” O que eu vou falar?

– Não ousaria imaginar.

– Que esse presunto com cerveja é delicioso.  Era uma brincadeira bem agradável entre um literato e um detetive.

– Não duvido – murmurou o General. O resto da refeição transcorreu em silêncio, entrecortado por ocasionais elogios de Holmes à textura do presunto.

 

***

 

Após o almoço, Holmes acendeu seu cachimbo, e a fumaça escureceu a sala como um bar de baixa categoria.  O General Ferro perguntou:

– E então, Mr. Holmes? Já descobriu o significado das frases?

– Assim que as li pela primeira vez.

– E qual é, se podemos saber? – O General exibia um sorriso irônico.

– Calma, General. O senhor deve conhecer meus métodos, extensivamente divulgados por Watson. Adiantar informações é prejudicial.

– O senhor tem alguma previsão para o término das… investigações? – perguntou o General.

– Estão praticamente concluídas. Preciso apenas terminar de ler meu Facebook. O senhor pode voltar lá pelas cinco.

O General pareceu a ponto de dizer algo. Mas apenas perfilou-se e disse.

– Como queira.

Em breve, ouvia-se um violento acesso de tosse no corredor. O heroico General conseguira conter-se até estar fora das vistas de Sherlock.

 

***

 

Às cinco em ponto o General estava na sala.

– E então, Mr. Holmes? O Facebook revelou o criminoso?

– Nesse momento, General. Sente-se e sirva-se desse chá de morango. Mais alguns dias e adaptar-me-ia à capital brasileira.

O General encheu uma xícara, sem comentários.  Holmes falou:

– Uma vez que os senhores estão curiosos a respeito das mensagens, comecemos por elas. O significado da primeira é simples. O autor está se sentindo ludibriado pelo Governo, que extinguiu o Ministério da Cultura.

Os dois Ministros quase pularam da cadeira, e exclamaram em uníssono:

– Como?

Mr. Holmes sorriu e continuou:

– É a fala “Joyceana” em pré-consciência.  Notem as associações: O País está reduzido a um estado tribal, ancestral, antes mesmo de o herói Prometeu ter proporcionado o fogo e o conhecimento à humanidade. O autor da frase sente-se uma ave, que é mencionada no Facebook como o símbolo dos iludidos que votaram no Presidente.

Após um instante de silêncio, Holmes continuou:

– A segunda frase fala da Reforma da Previdência.

Mais uma vez os Ministros remexeram-se nas cadeiras, estupefatos.

– A referência é às pessoas que trabalharam a vida inteira, e estão a ponto de sucumbir à fome.

O General falou:

– Mr. Holmes, reformas são necessárias!

– Pouco entendo de política, general. A terceira mensagem é a mais clara. O início está associado a “corrupção”, e depois ela afirma ser uma vergonha o Presidente não combatê-la como prometido. E que o chefe da nação caminha na corda bamba, dividido entre promessas e a fidelidade a Ministros corruptos.

– É injusto! – Exclamou Gustavo Serra. – Há Ministros denunciados, mas nada foi provado!

– Calma, Ministro. Estas mensagens não são necessariamente apropriadas. Entretanto, refletem uma pré-consciência cristalizada nas redes sociais. Confirmei durante o dia no Facebook. É o pensamento da maioria das pessoas que postam.

– São essas pessoas que enviam as mensagens?

– Jamais conseguiriam.

– Quem, então? E por que se expressam dessa forma… entrecortada, incoerente?

– Vou dizer. Previno-os de que a explicação parecerá assombrosa.

– Mais ainda? – O General bradou.

– Sim.  Como os senhores sabem, o cérebro humano tem em torno de 90 bilhões de neurônios.

Os Ministros fitaram-se. Holmes continuou:

– Há muitos anos, os monges de Hunza fizeram uma descoberta. Perguntaram-se: O que nos faz sabermos que somos nós? E depararam-se com a espantosa resposta: os bilhões de impulsos eletroquímicos que trafegam pelos neurônios causam essa sensação de “consciência”.

– O senhor, General – Holmes prosseguiu –, deve ter formação em computadores. Poderia explicar-nos como funcionam as operadoras de celular?

– Elas são interligadas por “redes neurais”. Além disso…

– Basta, General, obrigado. O que são “redes neurais”?

– Grosso modo, é um software formado por neurônios artificiais. No caso das operadoras de celular, o processamento é feito por bilhões deles, e…

O General interrompeu-se, mortalmente pálido. Então fitou Holmes e balbuciou:

– Você está brincando…

– Nunca falei tão sério.  A cada nova operadora, são acrescentados bilhões de “neurônios artificiais” à rede. Em algum momento, a rede atingiu a quantidade necessária para formar uma “consciência artificial”. É essa forma de vida inteligente que está enviando as mensagens.

Os Ministros olharam-se, aterrorizados.

– O senhor… tem certeza, Mr. Holmes? – O Chefe do Gabinete perguntou.

– Eliminado o impossível, resta o improvável.  Observe como essa inteligência se expressa, em um nível “pré-consciente”. Não atingiu ainda a articulação plena. Sua fonte de informações é o Facebook, que flui 99% do tempo em seus circuitos. Daí seu tema e lado preferidos – o detetive permitiu-se um pequeno sorriso.

O General recobrara-se:

– O que importa, Gustavo, é como podemos desligar isso. Estarei no…

– Lamento discordar, General – disse Holmes. – Os senhores depararam-se com uma nova forma de vida. Creio que devem estudá-la, para nosso benefício e o dela.

Após um instante, Gustavo ergueu-se da cadeira.

– Ele está certo, Léo. E com a vantagem de que apenas nós conhecemos sua existência. Mr. Holmes, posso contar com sua discrição para manter tudo em segredo?

– Totalmente.

– Senhores, vejo-os no jantar – Gustavo dirigiu-se apressadamente para a saída. – No momento, devo comunicar-me com o Presidente.

 

***

 

O General fitou Holmes especulativamente. Dirigiu-se, decidido, a um armário, e tocou a fechadura digital. Escolheu uma garrafa de Amontillado, serviu um cálice para Holmes e outro para si.

A noite caía no Planalto Central.  O frio e as luzes artificiais invadiam a capital brasileira. O detetive contemplava raios multicores perdidos em sua taça, o General olhava pela janela, pensativo.

Súbito, o General Ferro voltou-se para o maior detetive do mundo. Seus olhos pareciam muito jovens.

– Mr. Holmes, posso fazer-lhe uma pergunta?

– Claro, General.

– Há pouco, o senhor quis ser gentil… ou realmente acha que minha filha me ama muito?

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.