EntreContos

Detox Literário.

Vênus de Milo (Praxiteles)

 

Plínio fitava curioso a velha dentro do caixão. Percebeu que a maquiagem conseguira esconder o grande hematoma do olho esquerdo e encobrir as várias escoriações causadas pelo trágico acidente, porém, a imagem do rosto ferido de sua avó já havia sido gravada, de forma indelével, na mente do garoto.  O atropelamento aconteceu bem em frente à residência em que viviam. O menino viu tudo da porta de casa. O aceno para ele, o atravessar de rua sem olhar para os lados — ato que ela, veementemente, sempre o alertara a nunca cometer — e o enorme ônibus azul que a atropelou. A frenagem estridente, o voo mortal, o baque estalado do rosto no asfalto, o ronco dos pulmões afogados de sangue… todas estas cenas assombrariam, pelo resto da vida, qualquer menino de nove anos de idade. No entanto, Plínio, com o correr dos anos, passou a lembrar da tragédia como uma saudade doce.  

Ao olhá-la, ele tentava entender a morte. Sua avó parecia dormir, a diferença era que a barriga não se mexia. Não subia e nem descia, estava parada, silenciosa. Os lábios fechados não emitiam o som assoviado de quando ela pegava no sono de boca aberta. Plínio teve vontade de balança-la, como fazia quando se levantava mais cedo do que ela, nos dias de domingo, excitado para ir encontrar os amigos e jogar futebol, no gramado do oitão da Igreja, depois das aulas da escola dominical. Acabou não fazendo, ficou com medo de tocar no corpo sem vida, imaginou que ele pudesse se esfarelar feito o cavaco chinês que o senhor que tocava triangulo vendia.

Não era a primeira vez que a morte se avizinhava do menino. Seus pais haviam morrido quando ele tinha menos de um ano de vida. O pai assassinara a mãe e depois se matara. Quando a polícia chegou, Plínio estava sentado, entre os cadáveres, sobre uma imensa poça de sangue. Ele brincava tranquilamente com seus bichinhos de pelúcia.

Sua avó paterna o criou desde então. O menino não lembrava dos pais, e não sabia a verdadeira estória de suas mortes. As vezes ele sonhava com um homem que aparecia em sua cama, se ajoelhava, e pedia desculpas, chorando copiosamente. Ele imaginava que podia ser seu pai.  Com a mãe nunca sonhara.

A Congregação estava repleta. Praticamente todos os membros compareceram ao velório. Plínio estava ao lado de Dona Sara, a ajudante de sua avó. Ele se sentia estranho, com receio de ficar aos cuidados daquela senhora de meia idade que tinha obsessão em dar-lhe banho, sobretudo quando dona Carmelita estava ausente. Eram banhos demorados. “Deixa eu lavar bem a cabecinha do seu pinto, meu querido.”. Ela dizia enquanto arregaçava e desarregaçava a pele da glande do menino. Iniciava com movimentos lentos e ia aumentando a velocidade aos poucos. “Você é um garotinho sujo, Plininho, você não lava direito esse pinto.”. E a mão dela cada vez mais célere, a voz mais esganiçada e as bochechas parecendo que iriam explodir de tão vermelhas. Os olhos esbugalhavam, a língua serpenteava entre os lábios sem batom e o banho terminava com o garoto sentindo uma quentura arrepiante emanar de dentro dele, seguido de um formigamento entorpecente que deixava suas pernas bambas. Então ela sussurrava: “Ah, Plininho, você é um menininho muito sujo, muito sujo.”. E o beijava na face lembrando-o que Dona Carmelita não precisava saber de nada daquilo. Nas primeiras vezes ele até que gostou da sensação que sentiu, mas começou a ficar desconfortável com a situação e um sentimento de raiva e medo o consumia todas as vezes que a mulher se aproximava dele.

Plínio nunca dissera nada sobre os banhos a sua avó. No entanto, descontava toda sua raiva na pequena Sofia, a filha de dona Sara, que tinha um ano a menos do que ele. Toda vez depois de um banho o menino arrumava um jeito de maltratar Sofia. Beliscava-a, mordia, dava pontapés, acusava ela das maiores barbaridades. Mas a menina parecia ter adoração ao garoto, quanto mais sofria, mais se apegava a Plínio.

— Dona Sara, será que ele vem? — Plínio perguntou.

— Ele quem, meu querido?

— O “cão imundo”.

— Quem?

— Meu avô.

— Acho que ele não vem. Eu nunca o conheci, só sei das coisas horríveis que dona Carmelita falava sobre ele. Mas não se preocupe, meu menino, se o pervertido não vier, eu te levo comigo, tomo conta de você. Antes de dormir, você tem que tomar um bom banho, claro. Se livrar desse cheiro de enterro.

Um calafrio subiu pelas costas do menino. Ele tinha certeza que ela inventaria alguma desculpa para lhe dar banho. Teve vontade de chorar, coisa que ainda não conseguira fazer. Tudo sucedeu tão rápido que ele se via dentro de um filme. Um filme triste e aterrorizante. Que não era ele que estava ali em pé, de frente para uma caixa de madeira marrom que guardava uma velha morta. Que sua avozinha não havia partido de verdade. Tinha esperança que de uma hora para outra Dona Carmelita iria se levantar e chama-lo para irem para casa, dizendo que não foi nada, que fora só um susto e que ela estava bem.

— Vamos esperar um pouquinho mais… quem sabe meu vô aparece e me leva com ele — Plínio falou num fio de voz.

O garoto sempre fora uma criança suave e tranquila. Para o gosto de sua avó, quieta até demais. Muitas vezes ela o pegava perdido em pensamentos, com o olhar distante, muito parecido com os modos do pai dele, o que a deixava muito apreensiva. Por baixo do manto de docilidade e contemplações, o menino escondia uma faceta de crueldade e frieza assustadoras, pouco conhecida por sua avó. Dona Carmelita apenas desconfiava que alguma coisa nada comum adormecia dentro de seu neto, algo poderoso e ruim, certamente oriunda da herança genética do “cão imundo” do seu ex-marido. “Naquela família, Plininho, ninguém presta! ”. Ela costumava dizer após três ou quatro cálices de licor de jenipapo, que o neto era terminantemente proibido de chegar perto.

A escuridão engolia de mansinho o bosque do campo-santo, quando finalmente deram por encerrada a espera. O avô do menino não apareceu naquele dia e em nenhum outro dia durante a vida de Plínio.

O garoto caminhou cabisbaixo em direção ao portão de saída. Sua vontade era fugir dali o mais rápido possível, não conseguiria passar uma noite sequer aos cuidados daquela mulher. Se ela quisesse banhá-lo mais uma vez ele enfiaria uma faca bem fundo dos olhos dela, muitas e muitas vezes, ou, quem sabe, a esperasse dormir e a acordasse com um banho de água fervendo em cima de sua cara de ovelha. Era assim que Carmelita a chamava ás escondidas, quando ela e seu neto estavam a sós. O garoto gostava do apelido, achava muita graça naquilo. Talvez a pele do rosto dela derretesse com a água quente feito os pelos dos filhinhos da Pompéia, a gata angorá de Sofia. O menino abriu um sorriso ao vislumbrar a imagem.  

Com o passar do tempo dona Sara ficou definitivamente com a guarda de Plínio. Nenhum parente mais próximo foi encontrado para se responsabilizar pelo garoto. Os banhos abusivos continuaram por um longo tempo até o dia que Plínio, já com treze anos, e quase um metro e oitenta de altura, a esbofeteou e ameaçou com uma faca. Plínio suspeitava que Dona Sara fazia a mesma coisa com a filha, mas, nunca teve certeza. Eles jamais tocaram no assunto. Nem mesmo depois de casados.

A mãe de Sofia nunca mais se atreveu a encostar no menino. Rapidamente arrumou uma outra criança para cuidar e dar banho. Plínio muitas vezes se perguntou como que uma mulher tão religiosa, que só falava em Jesus e que vivia de bíblia na mão podia agir de uma forma tão má. Tentou falar com Deus, conversar com ele, perguntar coisas que o afligiam. Orava fervorosamente, como havia aprendido com o pastor. Nunca obteve uma resposta. Acabou concluindo que Deus não existia de verdade e cada pessoa inventava o Deus que me melhor lhe conviesse E teve a certeza que quem mais usava seu nome eram os dissimulados, para mascararem a maldade que ardia em suas almas, Depois deste dia ele nunca mais frequentou a congregação e o assunto Deus não mais fazia parte de seus pensamentos.

.

 

Plínio e Sofia cresceram juntos, numa relação doentia de violência e obsessão. A menina fazia de tudo para chamar a atenção do rapaz, que crescera “bonito feito um príncipe”. Era assim que ela o descrevia para as amigas de colégio. E Plínio não perdia a oportunidade de feri-la, fosse com palavras, fosse fisicamente. Os joguinhos sexuais entre eles começaram quando ele tinha quinze e ela catorze. Sofia também desabrochara formosamente. O que deixava Plínio assustado. Ele não queria que ela tocasse em suas partes íntimas. As lembranças das mãos de dona Sara ainda povoavam os pesadelos do rapaz. Mas Sofia não perdia a chance de acaricia-lo, principalmente durante a noite, quando Plínio dormia. Ela entrava furtivamente no quarto do irmão postiço e começava a masturba-lo e a chupa-lo.  Plínio acordava sobressaltado, e para deleite da menina, ele a cobria de socos, pontapés e xingamentos. Nunca chegaram a transar efetivamente nesta época. Sofia só queria ser agredida, saciava-se com aquilo. E Plínio gostava de maltratar, de ver nos olhos da garota a união delirante de sofrimento e prazer.

Plínio tornou-se um adulto reprimido e violento e Sofia uma devassa submissa. Plínio formou-se em pedagogia. Gostava de ficar perto de crianças. Algumas vezes as observava no banheiro. Fazia questão de levar os pequenos para fazerem suas necessidades fisiológicas, tirar-lhes o short e ajuda-los a urinar. Sempre com muito cuidado, sem chamar a atenção dos outros professores e muito menos dos pais. Nem Sofia sabia desta tara.

Aos vinte e cinco anos, Plínio se casou com Sofia. O que foi um verdadeiro escândalo familiar. Mudaram-se para uma casa em um bairro afastado da cidade. Dona Sara adoeceu logo em seguida e morreu. Plínio não compareceu ao enterro.

Depois de casados as fantasias ficaram cada vez mais bizarras. Nem o nascimento do filho deles fez com que diminuíssem o ímpeto de buscar prazer das formas mais infames possíveis. Contratavam garotas e garotos de programas e ficavam um fim de semana inteiro em orgias sadomasoquistas. Mas, o que mais lhe davam deleite eram as brincadeiras com gatos ou cachorros que recolhiam na rua. Enquanto Plínio os torturava e os esquartejava, Sofia se masturbava enlouquecidamente vendo a cena. Aquilo a excitava de uma forma única. Era aquilo que ela queria para ela.

— Você vai fazer isso comigo, não vai, meu amor?

— Vou sim, sua puta! — Plínio dizia e mostrava a faca ensanguentada para ela, que esticava a língua tentando lamber a lâmina, enquanto arreganhava as pernas e batia em sua boceta violentamente com um chicote.

— Vou te cortar todinha, vadia de merda!

— AHHHHH, FILHO DA PUTA! — Sofia gritava num gozo tão intenso que a fazia perder a consciência por vários minutos.

Numa certa manhã de segunda-feira a campainha da casa de Plínio e Sofia foi tocada, mas, ninguém atendeu. A polícia arrebentou a porta e encontrou um menino de pouco mais de um ano brincando sozinho em cima de uma poça de sangue ao lado do corpo esquartejado de uma mulher e de um homem com um tiro na cabeça.

 

“… Serrei suas duas mãos que eram diamantes e quando

rezava pareciam conchas de marfim.

Serrei suas duas pernas, os seus dois bracinhos, você

ficou sendo

A Vênus de Milo do meu jardim…”. Rogério Skylab.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.