EntreContos

Detox Literário.

Trilhas (Enamorada)

 

Arrancar minhocas para a pesca era uma forma de caçada. O expectante encanto da pesca não deixava margem à percepção do gosto diferente. A enxada perfurava a terra aqui e ali, os terrões mansos esboroavam surdos sob os golpes. As iscas começavam a aparecer, movimentos desordenados, sem o mínimo cálculo. Isso era levemente excitante, dada a pouca possibilidade de fuga que tinham, se bem que se embarafustassem por todos os buracos. Estavam ali, diante de Bia e dos primos, inescapáveis. Quando as espetaram no anzol, a sensação era de que revestiram o aço de agonia trêmula e molhada.

Então, o caminho dos peixes, em águas azuis, em bandos, aos pares, os peixes nas águas, escamas brilhantes, reflexos metálicos, os peixes avançando, formação de combate, os peixes…

O estilingue ia sempre com ela. Também, era pecado matar passarinho, mas ninguém poderia impedir-lhe de dar pedradas ou mesmo de matar pardal. Pardais eram criaturas más, comiam os ovos das outras aves e botavam-lhes nos ninhos. Ah! o estilingue ia ali junto ao peito… E levava a marca dos dezenove passarinhos que não matara. Conseguira matar apenas uns três. A pedra batia fofa no peito da ave. O coração pulava no peito de Bia, mas diante do pássaro morto a angústia crescia como se fosse um assassinato. Era importante dizer aos meninos: acertei, matei. Criava-se o respeito em torno.

A garota ia chegando à casa em meio a essas reflexões. O morro perdera, naquele longo instante, o mistério das assombrações, das mulheres amortalhadas arrastando correntes, dos imensos fantasmas brancos. Onças de cabeças enormes e patas rudes desertaram. No meio da serra, a sua diversão era gritar e ficar ouvindo o eco. O caminho a engolia, o rio ficava para trás.

— Onde estava, filha? As primas a chamaram para brincar de casinha — a mãe avisava.

O futebol era um campo de batalha. Contar as feridas, as pisadas, as torceduras no pé; mostrar o olho escurecido e inchado por uma batida violenta, tudo isso era a glória. Evidenciavam-se estilos: havia o mestre, engenhoso, rápido, malícia em negações e enleios; o violento, estourador de bolas em altos e sonantes balões, temido, temível, a estabelecer distâncias. E os apagados, os que jogavam por obrigação: um ou outro chute a uma bola desgarrada.  Bia punha a alma e o corpo numa partida, como se combatesse o último e glorioso combate. A luta ficava mais feroz quando assistida, era uma forma de ser notada, vista, colocada em destaque.

— Por que não aprende balé, Maria Beatriz? — o pai chacoalhava a cabeça.

Era ali, no futebol, que se resolviam os maiores problemas e complicações interiores. A menina sempre jogava, ave rara, vista com espanto e até com admiração pelos outros. Não tirava boas notas no estudo, compensava-se no futebol. Ou matava saudades indefinidas, vontades incaracterizadas.

O futebol sob o sol das quatorze horas era quase um martírio, campo de terra vermelha, eucaliptos em torno. Por perto a rua que conduzia ao cemitério. Lugar alto e belo. Enquanto a bola não vinha, Bia contemplava ao longe o azulado das montanhas, percebia o canto de um pássaro pouco além ou acompanhava os malabarismos de uma pipa mal dominada por um amigo.

Deixava-se ficar pelos cantos, absorta na paisagem, perdida na contemplação de um inseto. Outros dias preferia planejar o trabalho da horta, o contato com a natureza. Havia muita fome de natureza naquele tempo. Ela amava o dinheirinho que ganhava, quando o avô lhe permitia ficar na porta da loja vendendo verduras ou frutas. Conhecia todas as árvores: um pé de ipê amarelo (só podia ser amarelo, ainda não havia florescido, mas por que haveria de ser de outra cor?) , um pé de limão doce, três ou quatro laranjeiras envelhecidas, mangueiras (uma de manga espada), bambus, dois pés de uvaia, folhas miúdas, picadas de sol… as goiabeiras eram as melhores amigas e os abacateiros vieram depois. Gostava de cultivar orquídeas e cuidar de abelhas. Podia, entregar-se a arroubos místicos ou recordar leituras.

Mas a bola subia, tocada surdamente, ao som de apitos histéricos. E vinha o banho frio, um caldo grosso de poeira escorrendo pelo chão, gols e arranhões enumerados na mesma euforia, misturados às águas, repetidos nos sonhos, convidando para a liberdade de bolas que subissem para bem alto e talvez nem mais voltassem.

Um dia foi violentamente arrancada do devaneio. A bola chutada com força atingiu-lhe o estômago. Começou a ver tudo esverdeado e confuso, uma bola enorme subindo-lhe pela garganta, apertando, sufocando, comprimindo a barriga. Disfarçando o sofrimento, saiu encurvada do campo. Foi quando começaram a rir dela; então descobriu que o ódio pode dominar a dor e teve vontade de matar os que riam; o ódio imenso escapava pelo olhar em fúria: e perceberam que era perigoso zombar. Silenciados, Bia pôde retomar sua dor e sofrer, aliviada.

Gostoso também era cair na água fria da piscina. Choque violento, arrebentação, pulmões premidos, o peso da água batida de braços aflitos, espadanados. No calor, a água amaciava a pele, tocava a carne — volúpia mansa — beijava e alisava os pelos abandonados. A jovenzinha se perdia na imensidão daqueles vinte metros, sonhava oceanos bravios, lutava com peixes ferozes.

Estudou engenharia, bancou a baby-sitter para arredondar a mesada enviada pela família. Depois, só podia contar com ela mesma, embora tão pouco. Foi-se ganhando a cada dia, cada ano, as coisas amontoadas em si, o que ajuntou e o que ajuntaram. Muitas coisas foram tiradas, mesmo arrancadas com dor. Algumas deram trabalho, noites sem sono, vaguidão. Outras foram se desprendendo devagarinho, de manso, e foram ficando para trás como uma coisa para sempre perdida e a que se olha, de longe.

Quanta coisa se formou com cuidado, levou tanto tempo. Levaram quarenta anos a elaborando. Acreditava mesmo que nasceu com um poder nas veias; seu primeiro choro foi de medo e espanto diante dessa coisa inexorável. Ganhou alguns princípios, forjou ou elaborou muitos. A vida lhe entrava pelo ser adentro através de uma filosofia cujas peças podiam ser decompostas, lubrificadas. Almoçava e jantava. Dormia. De menina passava a jovem e de jovem a adulta. Tinha que trabalhar para o futuro. Era quase bom ter um futuro, uma pátria com heróis bonzinhos, um para cada data festiva. Viver a vida com seus ritos. Procurar o nome nos documentos e lá encontrar: fulana de tal, filiação, estado civil, gênero, sinais particulares. Haveria de se casar com um homem honesto e trabalhador, fiel… Criaria filhos.

Depois, essas coisas foram ficando ruins… Bia sentia vontade de gente, saía e logo voltava, cansada, mesmo antes de ter feito qualquer contato. Existiam léguas de distância entre o aceitar e o acolher.

Na trilha das reminiscências confundia, numa só mesmidão, o carinho e a afronta: desejo de abraçar a menina magra, sem quatro dentes na frente, sentada diante dela, na classe. Amor intelectual? A moça da folhinha a olhá-la o dia todo, intemporal, sem idade, indesgastável, o corpo seminu fixado em eternidade. O tapa num campo de futebol, no meio de muita gente. Laura foi a cobaia no seu laboratório de inexperiências sobre o amor, a primeira mulher a quem se ligou sentimentalmente e que a ajudou, sem dúvida, a atravessar o deserto de neuroses.  A namorada que partiu na madrugada. Daniela que prometeu de vir lhe fazer companhia. Renata que ficou de vir, não veio. Luciana que viajou para o Chile. Tempos de sonhos e ilusão, de pesadelos virados rotina, de ofensas somadas a poucas carícias recebidas….

— Nunca vai dar certo?

Bia precisava expulsar as sombras ou, pelo menos, não lhes dar uma importância maior de sombra. O corpo que se revigorava, ocupava tempo (tanto, porém) cuidando do corpo, como se a ele depois devesse exigir contas. Parava e via que era realmente estranho dar uma importância tão grande a si mesma. Não sabia de si até ao fundo, ainda, e detestava, como detestava, decepcionar as pessoas.

Quando, carregada de flores e bombons, deparou com Gina, já dona da situação, não se deu por vencida e, se não ganhou, não perdeu a parada. Eram duas deslumbradas, querendo descobrir, em cada ângulo, um novo apelo de vida: lugarejos plantados nos montes, cheios de bons vinhos, bons queijos. Enfrentou um homem, num beco escuro, abraçado a ela, na base do grito. Roubaram-lhe um guarda-chuva, enquanto a beijava entre as pilastras de um estacionamento. Não se perdoou pelo descuido — chovia a torneiras escancaradas naquela noite. Gostavam uma da outra, o contato de pele, o aconchegar dos pelos. O capim dobrado ao vento, amaciado, na câmara lenta da tarde densa, no desejo galopante das veias, no convite das pernas, no arfar de seios desarvorados, em cabelos felinos, ferinos. Aprofundaram-se, às vezes, exigentes ou reticentes…

Beatriz começou a se sentir como ser completo, com um nome delineado, um caminho a seguir. Era outra. Incluía-se na multidão dos normais e incorporava a rotina dos frutos nas árvores, dos humanos na rua. E, até se diluía nas cantigas pendentes de lábios no ar. O mundo lhe era restituído: sol, árvores, terra, gente…

De alguma forma, trazia a vida revivida, com seus transes e transas. Mais precisamente registrava sua vida, a de outros e lugares, depois da elaboração por dentro; devolvia-a como produto salvo das triturações do íntimo.

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Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.