EntreContos

Detox Literário.

O Amante, a Rosa e o Enforcado (Aia Dorneles)

 

Passava-se da meia noite quando um pequeno tumulto tinha início no pátio externo da casa grande. Os negros a contragosto estavam despertos após injusto dia de labuta. Zezão e Criolo eram duas peças importantes no plantel da fazenda, além da lavoura, eram bons no cascalho, não se faziam de rogados nas lavras, os braços fortes na bateia também provaram ser úteis na quebra das pedras. Porém agora sua serventia seria outra.

Rosa dormia tranquilamente em seu leito perfumado alheia a tudo que viria a ocorrer. Ela nunca teve apreço por seu marido que complacente, tentava agradá-la da melhor maneira possível naqueles dias onde a delicadeza não era permitida.

João Dorneles, sujeito batalhador conseguiu o direito de minerar nas áreas do córrego dos Capotos e Rio São João, também possuía algumas lavras no Morro do Conde perto da Serra dos Caiapós, que lhe rendiam prosperidade e a posição de homem respeitado por léguas de distância no interior de Minas.

A união do casal se deu quando ela transitava entre os treze e quatorze anos, ele já viúvo por algum tempo se encantou pela pureza da flor resolvendo despir-se assim do triste luto. Isso lhe custou uma pequena roça de milho no ponto de colheita, duas vacas leiteiras e um casebre caindo aos pedaços, verdadeira pechincha para ambos os lados. Bom também para a menina que se salvava da rude lida no campo, cercando-se do luxo da vida de sinhazinha.

No começo do matrimônio, paciente, João tratava a esposa como um pequeno bibelô, era sua jóia preciosa que devia ser apreciada e nunca usada. Viria o tempo em que as núpcias seriam consumadas, enquanto isso ganharia o apego de sua posse.

Finalmente a hora chegou. A menina foi tomada sem ao menos saber qual o significado daquilo tudo, parecia uma brincadeira desconfortável além de vexatória. João se esmerou no carinho, não quis parecer um touro velho, afoito e desajeitado, tinha medo, estava inseguro enquanto a menina quedava-se em vãs tentativas de se esquivar, no fim ela até sentiu uma inexplicável alegria, um entorpecer preguiçosos do corpo que a levou a um sono protetor.

Por seguidas noites João visitava sua Rosa, cuidava e regava sua alma com amor, com o tempo as brincadeiras deixaram de ser estranhas, tornando-se normais. Curiosa a menina buscava explicações que nem mesmo as escravas mais assanhadas tinham coragem de lhe contar, findavam a conversa com sorrisos maliciosos por entre dentes.

O povoado de Santana crescia como ponto de trocas e mineração, era pouso de varias tropas que circulavam pelo centro-oeste mineiro.

Teodoro, filho de um insignificante criador de mulas não era um rapaz bonito. Nem precisava ser, pois entre um povo rústico a beleza não era importante, mas trabalhador e engraçado sempre era notado, não fazia distinção entre senhores ou cativos. Para a molecada era um bobo que trazia alegrias.

As visitas à fazenda Dorneles eram frequentes, zelava pelo estado da tropa do patrão.

A pequena Rosa com dezessete anos, a mesma idade que o rapaz, se encantou pelas trapalhadas que fazia com os animais. Em meio às cavalgadas do fim de tarde um amor puro e proibido foi surgindo, não tardou para que a pobre garota descobrisse que na verdade aquelas brincadeiras noturnas eram melhores quando feitas com alguém que se ama.

Antes das negras servirem o jantar na casa grande, do outro lado dos currais, embaixo de um enorme pé de pequi, os dois se amavam. No começo escondidos, depois acobertados pelos negros da senzala.

Mesmo com o risco e os vários perigos a serem vencidos, as tardes terminavam em ternos momentos de prazer.

A criança cresceu tornando-se uma bela mulher, João acreditava que agora seria livre para amá-la a seu modo. Resolveu que dali em diante dividiriam o mesmo leito. Os encontros sob as luzes de lamparina, sempre tarde da noite poderiam ser estendidos a qualquer hora do dia.

Suas primeiras investidas não tiveram o êxito desejado. Rosa sentia-se violada, corava-se ante a vergonha do marido trancando em si mesma deixando ser possuída sem a mínima resistência. Seu corpo mole, sem calor não tinha a mesma serventia para o esposo apaixonado. Foram vários mimos, inúmeras conversas e nem mais um sorriso por parte da amada.

Os dias corriam de forma lenta, o único momento de vivacidade da pequena flor era durante as refeições ao cair da noite. Enquanto os candeeiros ardiam, a mulher se alimentava com um sorriso na face. João sentia-se feliz por ainda perceber um momento de alegria na vida de sua preciosa cativa.

Todo crime tem seu castigo, mesmo no amor as almas padecem. Zeloso como sempre, João numa tarde qualquer saiu em busca da sua Rosa. Não houve tempo para aviso. Debaixo do pequizeiro, sobre o capim macio, via sua linda flor desabrochando nos braços de outro. Uma angústia terrível se apossou da sua alma. Oculto por um tronco seco à beira do caminho testemunhava a consumação de seus temores. Congelado, envolto pelas sombras que reclamavam seu lugar ao dia, viu os amantes partirem.

Quem dera ele ter derramado uma simples lágrima naquele instante. Era tão pouco o preço a pagar por sua redenção. Não conseguiu ser gentil anti tal ofensa, deixou a amargura infectar sua alma.

Rosa chegou perguntando pelo esposo. Ninguém sabia seu paradeiro. De tudo não era um mau sinal, pois significava que não haviam se encontrado pela estrada.

Com a noite já adiantada o senhor chegou em casa. Não quis que lhe esquentasse a janta, tão pouco sono ele tinha. Foi até a despensa, apanhou uma moringa de cachaça produzida em seu próprio alambique. Na varanda se embriagava enquanto o urutau piava no mourão da porteira.

Durante a semana passou carrancudo. Abria a boca apenas para distribuir ordens sempre ríspidas, por duas vezes, como uma raposa espreitou sua amada se entregar para o moleque dos cavalos. O banco rústico de madeira no canto da varanda e a cabaça de pinga se tornaram o consolo do velho rejeitado.

No fim suas idéias deturpadas iam se formando. Pela tarde convocou seu capataz ordenando-lhe buscar uma encomenda no arraial. À noite despertou os negros que murmuravam pelo pátio da casa grande.

Era chegada a hora, João Dorneles decidido entrou pisando firme. A mulher dormia sem nada desconfiar.

Acordou assustada com o marido arrancando-a da cama. Sem saber por qual motivo foi arrastada pelos cabelos ainda em mangas de camisa. Do alto das escadas que davam acesso à varanda foi arremessada de encontro aos negros, como restos sendo jogados aos cães. Numa atitude automática e protetora, Zezão acudiu sua sinhazinha. Lá de cima seu dono ordenou que afastasse ou então o fogo iria comer. De arma em punho, apanhou uma tocha untada por sebo animal.

– Para o pequizeiro atrás do curral. Ordenou.

Neste momento as coisas ficaram claras, tanto para Rosa quanto para os escravos.

O marido havia descoberto os encontros furtivos.

Ele não iria a tal local nesta hora da noite por motivos simples. As negras da cozinha bem como o resto dos cativos sabiam que aquela seria uma trágica noite.

Zezão que também era crente na fé de seus ancestrais rogou para que seus deuses se apiedassem da pobre mulher. Outras tochas foram acessas. Nesta noite poderia ocorrer um motim salvador, mas aquelas pobres almas sabiam apenas suplicar.

Guiados por seu senhor, Zezão e Criolo conduziam a chorosa Rosa amparada por cada um de seus braços. Atrás deles uma pequena comitiva de negros escoltados por jagunços armados capengavam pelas trilhas que antes lhe trazia tanta felicidade. Em suas roupas de dormir, Rosa tinha seu corpo ferido pelos galhos dos arbustos, seus pés delicados ainda descalços sangravam rasgados pelas pedras salientes. Mesmo com os negros tentando minimizar o sofrimento, eram instigados a apertar os passos pelo fogo das tochas dos capatazes.

Após a janta, naquela mesma noite, os homens incumbidos de ir ao arraial, supervisionados pelo próprio João Dorneles prepararam algumas fogueiras próximas da árvore que por tantas vezes fora testemunha daquele grande amor. Ali também deixaram algumas cordas e o velho chicote usado para o castigo dos negros desobedientes.

A jovem foi atada ao tronco de pequi. Era normal almas serem atormentadas pelo açoite do carrasco naquelas paragens, mas uma senhora branca até mesmo para os cativos seria algo imponderado.

O som dos cavalos se aproximando já podia ser ouvido. Os jagunços arrastavam o pobre amante que de tanto cair pelos caminhos, além da surra que levou tinha suas vestes sujas com sangue misturando com a poeira da estrada. Ao desmontarem, o jovem exausto, quase semi-consciente viu sua amada com as costas nuas iluminadas pelas chamas acusadoras daquele lume amaldiçoado.

De cócoras junto ao fogo, João supervisionava o castigo. Zezão à direita da moça desferia-lhe potentes chibatadas. Era ela ou ele, se não obedecesse também seria castigado. Criolo, do outro lado sovava-lhe com uma tala de cipó São Jorge.

Desfalecida, a moça não viu seu amado chegar. A cada açoite os negros clamavam por seus orixás. Tantas vezes viram sua gente padecer sobre o flagelo do carrasco mesmo assim nunca foram tão fortes as súplicas por piedade.

Não se sabe quando a Rosa desistiu de viver. Mesmo depois de sua morte não houve misericórdia, os negros foram obrigados a prolongar o martírio. A carne dilacerada amortecia o som da chibata, parecia uma esponja sendo espremida pelas mãos rudes de uma criança.

O rapaz foi levado para junto de seu amor. Por seus pulsos amarrados foi içado num dos galhos da árvore. O velho Dorneles queria ver seu padecer. Zezão recebeu ordens de parti-lhe os ossos da perna. Implorando perdão ao pobre flagelado cumpriu a tarefa com o coração em pedaços. A dor foi tão forte que o moço não conseguia se sustentar, com a alvorada seus suspiros aos poucos se esvaíram, por fim uma peixeira enferrujada acabou com seu penar.

João Dorneles permaneceu todo o tempo atiçando o crepitar da fogueira, nem uma lágrima, nem um suspiro, somente ordens sem emoção. O brilho das chamas impunha-lhe um semblante satânico, até os jagunços temiam seu amo.

De manhã, a guarnição responsável pela ordem local foi enviada para investigar o rapto do rapaz. Em situação de honra ninguém bule com coronéis. Ficaram para o almoço partindo após estarem certos que os escravos dariam sepultura cristã aos pecadores. Teriam mais do que mereciam e deram por fim a questão.

João Dorneles se tornou arredio, passava um bom tempo no banco da varanda perdido em seus devaneios. Despachava ali mesmo com seus homens de confiança, nunca mais correu suas lavras. Ele realmente amava aquela ingrata, como sua flor foi murchando e definhando, seu coração havia sido mortalmente envenenado por aquela vil traição.

A negação, a recusa em acreditar em seus olhos, a confirmação e os dias oculto em meio ao capim do pasto. Tudo fervilhava em sua mente, tudo era nítido por mais que os dias corressem, ele vivia incansavelmente aquele triste momento.

O arrependimento veio tarde demais. Sua vergonha transformou-se em tristeza, e esta lhe consumia. Quando por fim deixou sua casa, seguiu o caminho do suplício de seu amor. Para recordar seu crime, sacramentando sua angústia mandou cortar um grande ipê amarelo e com sua madeira ergueu um cruzeiro. Aquele símbolo de dor marcaria para sempre onde perdera sua alma.

Numa sombria manhã de domingo, como em noites anteriores não havia dormido. O cheiro do café torrado na hora perfumava o ambiente, o pão de queijo fumegava aos pés da fornalha.  Passava da hora do amo sentar-se em seu banco, as negras temiam incomodar-lhe. Os jagunços esperavam as ordens.

Por palpite, Zezão e um capataz seguiram ao pequizeiro, foram eles á colherem aquele fruto sem vida que ao sabor do vento oscilava atado a um dos braços da cruz.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.