EntreContos

Detox Literário.

O Barulho dos Corpos que Não Valem (Cecília Prata)

A forma como o céu se coloria com um azul quase negro indicava que já passara das dez horas há algum tempo. Havia um cheiro dos manguezais, trazido pela corrente de vento que vinha assanhar cabelos e levantar saias, misturado com um cigarro queimando numa esquina mal iluminada e com a cerveja derramando na ponta da rua, no lado oposto à banca de frutas de D. Dina, que só descia a lona quando o último ousado se arriscava a passar por aquela rua sinistra. André caminhava, entre cigarros, cerveja derramada e tenda fechada, por aquela rua, carregando cansaço, fome e sono, exatamente às dez e vinte e dois numa noite de quinta-feira.

Num outro ponto da cidade calorenta, com o céu de mesma cor, o vento não aparecia e nem carregava odor nenhum – na verdade, os prédios altos e elegantes não deixavam que o ar circulasse muito por ali e o clima era notoriamente abafado. Duas cafeterias vizinhas estavam, cada uma, com dois casais provando bolos de chocolate com recheio de morango e apenas um par, na cafeteria que não aceitava cartão, sorria um para o outro. Às dez e vinte, Laysa dobrou a esquina que dava para a rua das confeitarias. Caminhou dois minutos suando, percebendo a falta de ar quando passou pela calçada onde comiam os apaixonados que se sorriam. Laysa, às dez e vinte dois, sentiu saudade do seu amor.

A rua esquisita revelava diversos prédios de quatro andares, a maioria deles com a pintura descascada e o musgo manchando algumas janelas dos andares próximos do topo. O porteiro entediava-se na sua função desde os dez minutos após assumir o turno e ouvia, através de um rádio prata que mais chiava do que falava, a partida dos estaduais. Um gato passou por entre grades brancas recém pintadas e foi logo apanhado pelos braços magros e cheios de pelinhos negros de Isabel, que chegava da faculdade naquele horário. Ela amansou o felino no seu colo e sorriu para o porteiro Alberto.

– Seu Alberto, que horas são? – Isabel perguntou, segurando a maçaneta de metal do portão individual. Ele pigarreou, com um certo mau gosto.

– Dez e vinte e dois. – Com a secura de Alberto, pelos marrons de gato na sua blusa branca manchada de mostarda, Isabel entrou no condomínio, com uma mochila pesada e uma marmita vazia.

O celular de André vibrou por dentro da sua calça – ele acabara de pagar a segunda prestação e sempre o escondia quando precisava voltar tarde para casa, pois já havia sido assaltado duas vezes no último ano. Apesar disso, não tinha muito o que reclamar: vivia só, bebia ocasionalmente e sempre ouvia música, do instante em que acordava até decidir por deitar-se. André costumava discursar, no único circulo de amigos, que o silêncio era demasiado barulhento para seus ouvidos e que a única coisa potencialmente capaz de calar esse barulho era a música – as vozes, os instrumentos tocados por mãos humanas… André costumava dizer que a música era o contato de homem com homem através da arte e das sensações. André amava gente, arte e sentir.

Laysa sacou seu celular com a tela trincada rapidamente, quando parou numa padaria pequena e bem iluminada. Enviou uma mensagem para sua mãe, avisando que já estaria em casa; em seguida, respondeu Amália, que enviara um grande achado musical e que ela precisava ouvir: disse-lhe que ouviria assim que pudesse e foi amável ao confessar a saudade que sentira há poucos instantes, quando passou pelo casal sorridente – Laysa olhou as mensagens e Amália sequer as recebeu. Só saberia da sua saudade muito mais tarde, quando talvez sentisse também. Laysa entrou na padaria, sorriu ao senhor baixinho de mãos grossas e pediu sonhos. Cinco sonhos couberam numa bolsa pequena de papel e Laysa acabou por ter que segurar um sorrisinho pela ideia de sonhos estarem amontoados em um saco de papel. Os sonhos dela não cabiam sequer no seu corpo alto.

Isabel parou um instante fora do edifício sete e foi checar a área de ração dos gatos que perambulavam pelo estacionamento. Visto que tinha água limpa e ração nos recipientes, ela colocou o gato no chão e refez o caminho de volta, dessa vez indo para dentro do edifício. A senhora do cento e três sorriu para ela, descendo as escadas com tênis de corrida e indo até a academia, vazia naquele horário. Isabel decidiu não ter pressa ao subir os três lances de escadas e tirou o fone embolado da sua mochila. Pôs no aleatório e foi surpreendida com a sua música favorita. Na metade do terceiro lance, Isabel cantava que nem um homem, sua casa e nem sua carne lhe definiam.

André dobrou a última esquina do seu trajeto e sentiu uma gota quente de suor descer pela curva funda das suas costas. Era uma noite extremamente abafada e o suor lhe roubava as forças. Ele ouviu uma mãe gritar por seus filhos que brincavam no escuro da rua, o mais novo correu de volta para pegar a bola murcha esquecida no meio fio e a porta se fechou: só havia silêncio, escuro e um corpo negro suado a dar passos tensos. André se sentia atordoado e angustiado. Não sabia mais identificar as horas pela cor do céu e seu relógio parara, de repente. O tic tac também optara por abandonar André e o faria mergulhar num ensurdecedor caminho silencioso.

Laysa morava longe do local onde trabalhava e sempre voltava de ônibus, mas essa noite estava disposta a andar e se sentia livre. Há alguns dias vinha conciliando muito bem trabalho, família e relacionamentos. A sensação de manter tudo num equilíbrio ideal movia os passos da mulher que só tomara, em sua vida, decisões difíceis e conflituosas. Seu corpo de vermelho dobrou a esquina, desviou de um cachorro amolecido e doente na rua e firmou os passos para os cinco minutos finais de caminhada até sua casa. Laysa foi tomada por uma repulsa esquisita, inesperada. Ela olhou para cima e tentou localizar a lua: não a via, nem tampouco haviam estrelas. Laysa se sentiu só e desamparada, com sonhos nas mãos e com a ausência de Amália, que não sabia da sua saudade.

Isabel se sentia esplêndida, embora cansada. Chegou ao seu andar em uma música e meia e antes de entrar em sua casa, abriu as mensagens de um rapaz que supunha gostar. Carlos enviara um áudio de dois minutos, trinta minutos depois dela deixar a faculdade e ele. Ela gravou um curtinho, avisando que ouviria antes de dormir e que acabara de chegar em casa, bem. Ele logo ouviu. Mandou algumas flores e ela sorriu, meio sem jeito com o afeto que vinha do outro. Isabel bloqueou a tela do celular e guardou-o no bolso esquerdo, após tirar dele o chaveiro de concha para abrir a porta. Não foi preciso giro nenhum: a porta estava aberta. Isabel sentiu suas pernas fraquejarem no mesmo instante em que um bolo quente e fervente subiu à sua garganta.

André ouviu passos atrás de si e o suor gelado agora queimava sua pele. Não arriscava olhar para trás e tentava se manter aparentemente confiante, pisando duro e olhado sempre reto para o fim da rua. Olhou nervosamente para seu relógio parado e caminhou para o lado oposto da rua, onde corria esgoto livremente, de dia à noite; ouviu alguns cochichos e os pés, que ele suponha serem quatro, lhe acompanharam no cruzar da rua. André estava perto de não conseguir esconder seu nervosismo e a tensão, sua respiração fazia mais barulho do que as risadas dos dois homens que seguiam ele. Eles falavam-se com um tom de expiação e preparo de ataque. Era o que André pensava, por entre o medo, o suor e o desespero. Ele pensou que correr não seria uma boa opção, mas precisava acelerar o passo e chegar mais rápido na casa verde 212.

– Ei, neguinho. – André ouviu e não se virou. Seus olhos lacrimejaram e ele enxugou as mãos na calça jeans gasta.

– Olha que a gente já não gosta de preto ainda mais preto marrento. – Nada, nenhum movimento além do andar reto de André.

– Para agora, negro! Pare aí. – a segunda voz ordenou, em tom alto.

André correu.

Laysa atravessou a última rua e entrou na sua, enxergando de longe a luz do poste em frente a sua casa, que ficava no final da rua, já sem asfalto e com alguns tufos de mato crescido. De um beco entre casas maiores, saíram dois rapazes mais altos que ela.

– Olha só, que delícia! Tu não devia sair de casa uma hora dessa. Vem aqui ver como você me deixou com esse vestidinho.

Laysa só andou, assim como André fez. Não sentiu medo, estava firme. Ouviu insinuações mais pesadas e apressou o passo, levemente.

– Deixa quieto, cara. Você sabe que ela gosta de outra coisa.

– Isso é fácil de corrigir, cara.  

Risadas. Corpos se aproximando. Laysa se virou para responder e deu de cara com o sujeito, que lhe disse algumas outras palavras que ela não ouviu. Ela não pode reagir, seu corpo foi puxado pro escuro dentro do escuro; o grito dela foi abafado e os sonhos de Laysa, que dividiria com sua mãe, foram lançados numa poça.  

Laysa não teve como correr.

Isabel entrou dentro do apartamento branco-sujo e correu para desligar o fogão que aquecia há muito tempo uma panela vazia, já queimada. Uma garrafa de água estava derramada no chão e ela jogou um tapete fininho em cima dela; o sofá estava sem as almofadas do encosto e a televisão desligada. O celular da sua mãe, Célia, estava jogado dentro de um copo com água e sabão na pia, da mesma forma como terminavam outras discussões dela com o marido. Isabel entrou em desespero.

– Mãe? Mãe você está aqui?

Ela andava com cuidado, sem saber bem o porquê. A porta do único banheiro do apartamento estava escancarada e o espelho colado na parede pelas duas, no dia seguinte a mudança, quebrado. Haviam gotas de sangue na pia amarelada. Isabel gritou pela mãe e se descobrira em prantos. Correu até o quarto, gritando. Achou a mãe com a testa rasgada, com pedaços do espelho entre os fios pretos do cabelo curto.

Célia também não correu. E nem pode mais responder a sua filha.

O tom do céu era, agora, cor de quase onze, cor de madrugada que se aproxima. A noite era quente em todo e qualquer local naquela cidade. O vento desaparece sempre depois das dez e cinquenta – ele deixa de perambular, de fazer mexer as folhas das árvores, cabelos e vestidos. O vento das dez some e dá lugar ao barulho do silêncio das onze, que se transformará em caos, à meia noite.

Faltavam dois minutos para as onze quando André não resistiu ao último golpe em sua cabeça. Ele perdera as contas enquanto ouvia a motivação dos homens que lhe chutavam todo o corpo; ele ouvira o rapaz de branco manusear de uma arma e a repreensão do outro. E então veio o pontapé na nuca.

Faltavam dois minutos para as onze quando Laysa, com o sabor metálico de sangue na boca, ao tentar se sair dos corpos que lhe agrediam, sentiu uma coisa quente dentro dela. Os rapazes se entreolharam e correram, levantando as bermudas, quando Laysa caiu no chão sujo do beco, por cima da faca.

Faltavam dois minutos para as onze quando Isabel catou do cabelo da mãe os pedaços de espelho. Ela colocou a cabeça da mãe no colo, sentiu um estilhaço furar sua pele e tampouco se importou. A mãe morta pesava mais do que aquele vidro contra sua pele fina. Célia, com os olhos espantados e mortos, não sentia a dor da filha.

Às onze, já não havia vento sequer. Só silêncio.

E no silêncio corria barulhento o sangue vermelho de André, Laysa e Célia. Um barulho estrondoso de revolta, injustiça. De corpos que não valem.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.