EntreContos

Detox Literário.

Manuscrito (Verônica Martins)

 

As mãos trêmulas abafaram os soluços que saiam descontrolados de sua boca, o corpo tremia e as lágrimas escorriam em abundância por suas bochechas. Lembrou-se então que as mãos estavam sujas, sentiu o gosto de ferrugem nos lábios. Fechou os olhos com força e encostou a cabeça no canto da cama, onde escondeu-se desde o momento em que constatou a tragédia.

Minutos depois engatinhou devagar até o outro lado do quarto, primeiro viu os pés dela em uma posição estranha, calçados em um fino scarpin. Avistou o objeto de desejo.  Avançou sem olhar para a mulher estirada no chão e pegou o celular. De repente tê-lo nas mãos lhe trouxe mais angustia que conforto. Ligaria pra Alan e contaria tudo o que aconteceu, ele viria lhe buscar e protegê-la de tudo, mas, por algum motivo os dedos não se moveram. Um estrondoso trovão cruzou os céus trazendo junto uma forte chuva. Correu para fechar as janelas, quando virou não pode deixar de encará-la. A pele sempre perfeitamente bronzeada agora estava pálida, os olhos semi abertos fitavam o vazio, os cabelos dourados possuíam mechas tingidas de vermelho sangue. Mas foram os lábios que fizeram um frio correr por sua espinha, tal como se lembrara antes do estopim, carregavam aquele sorriso cínico com o qual tivera o desprazer de conviver durante muito tempo…tempo demais. Ali, estirada no chão, ainda zombava dela. Imagens fragmentadas de momentos antes retornaram à sua mente.

Discussão

Choro

Raiva

Briga

Seu reflexo diante do espelho depois de golpeá-la, seus últimos suspiros. O que era aquele olhar?

Contemplação

Prazer

Adrenalina

E então, pânico.

Sobressaltou-se quando o celular tocou, deixando-o cair no chão. Agachou-se para pegar e viu a foto de Alan, seu noivo, estampada na tela trincada.

Queria atender, o que diria? O que aconteceu? O telefone silenciou e segundos depois voltou a tocar. Com as mãos trêmulas, Carla atendeu.

– Onde você está?

Onde ela estava? Olhou ao redor, o quarto do velho chalé de Verônica, costumava passar muitos momentos ali, aquele lugar contou muitas histórias…e com certeza contaria muitas mais.

– Carla, onde você está?

Carla voltou a si, ouviu a respiração do outro lado da linha. Seus lábios tremiam, queria chorar, contar-lhe tudo.

Precisava dizer.

“Dirigindo… A chuva está muito forte, vou encostar em algum lugar e esperar passar, preciso desligar…estou bem, amo você”. A mentira saiu num só fôlego, o coração apertou. Não havia mais volta pelo que fez, menos ainda pelo que iria fazer.

Sou uma boa pessoa… era o que repetia a cada minuto. Tinha trinta anos, fazia trabalho voluntário, respeitava as leis, adorava cachorros, frequentava a igreja, não tinha coragem de matar uma mosca. Deitada na cama, rolou até que pudesse olhar para baixo…uma mosca. O sorriso continuava nos lábios, agora azuis, de Verônica.

Levantou, limpou as lágrimas. Estava feito.  

Não foi tão difícil quanto imaginou pegar o corpo e colocar no porta malas, Verônica era minúscula e esguia. Nunca entendeu como uma criatura tão pequena pudesse lhe esmagar com tanta facilidade. Ensopada, limpou o lugar com o máximo de esmero que conseguiu, retirando qualquer sinal de que estivera ali. Permaneceu na porta algum tempo analisando o quarto, sua mente trabalhava muito rapidamente em algo que ainda não fazia ideia no que se transformaria. Entrou uma última vez para pegar um objeto que sabia onde ficava escondido desde criança. Contemplou-o.

Ligou o carro de Verônica e partiu.

Já estava longe do chalé, a estrada seguia sem trânsito por causa das chuvas, um ou outro carro passava por ela. Então o cenário mudou, apertou mais forte o volante quando ouviu sirenes, conteve o instinto de fugir. As viaturas passaram por ela a toda velocidade, seguidas de ambulâncias. Não havia desvio, acompanhou os carros e se viu em um bloqueio. Andou devagar, o coração acelerado enquanto policiais auxiliavam os motoristas. À frente uma cena estava montada, dois carros haviam se chocado, dois copos cobertos foram colocados nas macas, um outro permanecia no chão, a perícia tirava fotos. Passou lentamente por ele, era uma mulher, jovem e bonita, o único ferimento visível era um pequeno furo na testa.

Seu olhar parecia chocado, em pânico, os lábios entreabertos, sem sorriso.

Ouviu buzinas então voltou a si. Passou pelo bloqueio sem ser parada e seguiu.

Sou uma boa pessoa, sou uma boa pessoa. Sua uma boa pessoa.

Freou bruscamente, os pneus cantaram levantando a água da chuva. À sua frente a figura de um homem que parecia tão surpreso quanto ela. O carro ficou a centímetros de acertá-lo. Apertou forte o volante, a respiração acelerada. Esperou que saísse da frente para que continuasse. Ele hesitou, por uma fração de segundo Carla achou que ele viria em sua direção, buzinou. Muito lentamente ele caminhou mancando para o outro lado da estrada sem deixar de encará-la um segundo.

Acelerou e viu sua figura negra ficar para trás. Conforme seguia, instintivamente foi diminuindo a velocidade até parar. Foi tomada pela vertigem, sua mente era uma confusão de imagens e pensamentos. Aquela sensação familiar tomou conta de si. Encostou a cabeça no volante dando pequenas batidas. Em poucos minutos, tudo fez sentido.

Num rompante deu a ré, o carro voltou a toda velocidade na estrada vazia. Não demorou a encontrá-lo.

Nunca dê carona a estranhos. Era o que sua mãe diria. Mas depois que se comete a maior das loucuras as outras simplesmente tornam-se insignificantes.

– Precisa de ajuda?

Ele era jovem, não devia ter mais que vinte e cinco anos, estatura média, branco. Barba feita e as roupas não eram ruins. Carregava uma mochila que parecia bastante pesada. Ele entrou no carro sem dizer nada, muito desconfiado, um pouco transtornado. Permaneceram em silêncio por algum tempo durante o trajeto.

Quando chegaram em uma encruzilhada ela parou.

– Esquerda ou direita…para onde está indo?

Ele virou-se pra ela, seu semblante era cansado.

– Por que voltou? Costuma dar carona para estranhos na estrada em dias chuvosos?

– Costuma aceitar?

– Bem, você não parece uma assassina em série.

– Você parece?

– Não consegue responder uma pergunta sem fazer outra?

– Desculpe, tem a ver com minha profissão.

– Detetive?

– Um pouco mais romântico que isso. Sou extremamente observadora, seu perfil é muito comum, confesso que estava esperando algo mais…original.

Sua expressão fechou, passou a mão pelo rosto exasperado.

Ela sorriu.

– Seu corpo está tenso, não relaxou um músculo desde que entrou no carro. Olha pra todos os lados como se estivesse esperando algo, ou alguém surgir. Por dois momentos achei que iria me atacar, mas simplesmente desistiu, concluo que não sabe o que fazer. Não está acostumado a estar no controle. A chuva não levou totalmente o cheiro de álcool impregnado em você. Olhos vermelhos, pupila dilatada… estava chapado não tem muito tempo. O fato de estar machucado o impede de tomar decisões bruscas.

– Impressionante. – ironizou – Sabe dar conselhos também?

– O que você quer fazer?

– Voltar no tempo seria uma boa.

– Seria maravilhoso. – disse com sinceridade – Foi difícil pra você?

– O quê?

– Matar aquelas pessoas.

Silêncio.

– Por que voltou? Ele perguntou uma segunda vez.

– Não sei direito…ainda é apenas um rascunho.  

Carla sentiu o golpe, a vista escureceu. Instintivamente seus lábios formaram um sorriso, como aquele que odiava tanto enquanto se entregava a escuridão.

***

Acordou sentindo-se enjoada, um solavanco quase a fez cair. Estava no banco de trás, uma dor latejante na cabeça a fez situar-se no que estava acontecendo. A chuva cessara, não fazia ideia de que horas eram, o carro corria.

Por um breve momento decepcionou-se por ainda estar viva. O sentimento passou tão rápido quanto veio.

Olhou para o perfil do estranho no banco do motorista. Ele socava o volante e praguejava. Carla sabia que o machucado na perna o limitava. 

– Seu nome é Pedro, tem vinte e quatro anos, mineiro. – ela começou a dizer, a voz rouca. – Filho de pais simples, mas honrados. Estudioso, o envolvimento no crime foi por acaso…

– Que merda está falando, sua louca?

– Eu sei… clichê, não é? Não há identificação… deixe-me tentar novamente. Pedro…

– Cale a boca!

– Paulistano, estudante de arquitetura. Conheceu uma garota…Laís, as tragédias começam assim..com um amor. Ela era diferente, ousada. O fogo em seus cabelos o deixava louco. Você a levou para conhecer o seu mundo, mas Laís não se adaptou. Ela o levou para conhecer o dela e você ficou. Drogas, sexo, aventuras…Perigo. Vocês tentaram fugir, noite chuvosa… uma mochila cheia de drogas. Confronto, tiros, mortes… você conseguiu, mas a que preço?

Ele parou o carro. Respirava ofegante. Carla sentou no banco olhando-o pelo retrovisor.

– Ana Alice. O nome dela era Ana Alice. – ele disse.   

Carla sorriu.

– É mais bonito.

– Eu não matei ninguém! Nunca…ela fez…tentou nos proteger e tudo que fiz foi correr. – chorou.

Carla senti o coração encolher, aquela sensação de desespero ameaçou tomar conta de novo. Não podia permitir, não havia mais volta.

– Pare! Cale-se…está estragando minha história com essas baboseiras, ninguém liga pra isso.

– Sua história? Você é mesmo louca, não é? Saia da porra do carro antes que eu…

Ela olhou em volta, a mente fervilhando, sair poderia ser a melhor solução, mas algo estava impedindo-a. Balançou a cabeça freneticamente.

– Não…não foi assim que imaginei…não é assim que termina sua parte! –. disse-lhe com raiva repentina.

– E como é que termina, louca maldita? Saia da porra do carro!

Carla olhou nos olhos dele, parecia cada vez mais um menino assustado, sem rumo. Precisando de ajuda.  

– Você morre.

***

– Carla?

Abriu os olhos lentamente, observou o rosto de Alan, seu sorriso era gentil, a voz preocupada… o cheiro familiar. Abraçou-o.

– Está na hora.

Acenou.

– Só me dê um minuto.

Quando ele saiu, levantou e caminhou até o espelho. Vestia um vestido negro, um fino scarpin da mesma cor nos pés, os cabelos presos. Encarou seu reflexo e não se reconheceu.

A cerimônia era reservada, apesar da grande quantidade de pessoas e da imprensa do lado de fora. Durante as últimas três semanas o rosto de Verônica estampou os principais jornais. O que aconteceu com a escritora mais famosa do país? Verônica Martins, romancista, ganhadora de prêmios internacionais com seus livros de suspense policial e terror. Seu corpo foi encontrado em avançado estado de decomposição dentro do próprio carro em um desfiladeiro de difícil acesso. Junto à ela havia um outro, que mais tarde foi identificado como sendo do universitário Bruno Xavier, principal suspeito do crime. As autoridades acreditam que Bruno abordou Verônica na estrada depois de se envolver em um confronto com traficantes onde morreram três pessoas, entre elas, sua namorada Ana Alice Moreira. O que aconteceu depois ainda era um mistério.

Carla depositou uma rosa do túmulo e se afastou. O velho chalé estava a poucos metros de distância. Sempre fora desejo de verônica ser enterrada naquelas terras, como os pais. Entrou hesitante, passou pela salinha com a TV e lareira e encaminhou-se para o quarto. As lembranças estavam vivas, podia ver duas meninas brincando de contar histórias, uma era extremamente talentosa, a outra, esperta. Carla nunca havia se importado em ser uma Ghost Writer, gostava de escrever mas nunca conseguiu espaço. Quando Verônica, uma jovem influencer, propôs assinar as autorias para ajudá-la, aceitou, ganhou dinheiro e suas histórias ganharam o mundo. Nunca imaginou que tudo terminaria assim.

Sentou na velha escrivaninha, onde havia pilhas de papéis, uma em especial. Folheou o manuscrito, acreditava que era a melhor coisa que já havia escrito. Verônica também, lembrava-se bem da emoção contida em seus olhos, como se ela própria o tivesse escrito.

“Por que o escreveu a mão?” ela lhe perguntou, mas já sabia a resposta.  

Carla a odiou naquele momento.

Não dessa vez, não essa história… era meu, coloquei minha alma em cada linha!  

Fechou os olhos, lembrou dos últimos instantes juntas, as lágrimas caíram. Pegou o manuscrito, passando a mão delicadamente sobre a capa improvisada que já juntava poeira. Aproximou-se da lareira, hesitou.

Você tirou minha vida também.

Virou as costas e partiu, deixando sua alma ceder ao fogo. Mas não era o fim.

Ainda tinha uma última história para contar.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.