EntreContos

Detox Literário.

A Menina e o Pato (O Fiel João)

Giselda perdeu-se na floresta e tinha algumas horas que só via árvores e arbustos multiplicando-se ao seu redor. Resolveu que andaria em linha reta até encontrar uma saída. A noite ia caindo e com ela vinha a lembrança das lendas contadas em volta de fogueiras, e uma delas, a mais aterrorizante, era sobre o bruxo, não se sabia ao certo se era mesmo um bruxo, mas era fato, ou lenda, que havia um ermitão habitando aquela selva enigmática, e que viajantes solitários ouviam o ressoar de seu piano indo e vindo pelas folhagens.

A garota se deitou ao pé de uma grande árvore, foi acalmando-se e descansando da longa andada. Lembrou-se do chamado da mãe, antes que saísse de casa, indicando para que retornasse logo ou desse algum aviso se fosse dormir na casa dos parentes.

Como em lugares lotados, onde há muita gente olhando para todos os lados, e às vezes por um olho semimorto da nuca percebemos que somos observados clinicamente, Giselda despertou num susto com essa sensação estranha. Não havia de ser nada, mas era fato que durante o sono tinha rolado para um lugar que não se lembrava.

O céu jazia rosado, e ela via intrigada um borrão na linha do horizonte. “Um tipo de casinha”, pensou. Uma rasura na paisagem que ia tomando forma quanto mais perto ela chegava. Nada impediu que se embrenhasse com as mãos pequenas pelos galhos, cipós e matos que pareciam dar cobertura ao habitáculo. Enquanto arrastava os dedos naquele emaranhado, correndo risco de ser picada ou até mesmo cortar-se, achou uma argola de folhas secas que indicava a entrada e puxou.

Logo que entrou, percebeu coisas estranhas no chão. Eram cabelos, fios entrelaçados e que, espalhados, indicavam uma trajetória. Com cuidado para não tropeçar, Giselda seguiu e entrou no cômodo ao lado. Ela deu de cara com as costas agigantadas de uma criatura que estava sentada à frente de um piano de cauda.

“BLAMMMM!”, o som grave que veio do instrumento deixou a menina aturdida, colocando-a em posição de fuga, mas logo veio uma melodia doce. Do susto à calma, do desespero à maresia, assim a cena de uma pequena desconhecida na sala de um estranho tornou-se corriqueira. Giselda observava-o, sentadinha na banqueta ao lado do instrumento, e também era observada, como vizinhos que se encontram no final de tarde.

O chá estava servido em cima do piano, mas a xícara do homem gordo estava vazia. Tirando as mãos atarracadas das teclas, ele ajeitou o babador tamanho família que mantinha no peito e olhou para a garota, indicando que lhe servisse de mais chá.

– Claro! – ela respondeu.

Alcançou a garrafa térmica e inclinou na direção do homem.

– Com cuidado – indicou ele.

– Você não consegue pegar a garrafa porque tem braços pequenos, não é? – ela disse.

Ele não respondeu nada, parecia sentir-se mal, somente continuou a olhar o líquido esfumaçado cair no recipiente.

– Já chega, assim está bem – ele disse.

– Tudo bem.

A garota se afastou por um momento e aquele homem, que tinha membros minúsculos e desajeitados, levava com dificuldade a xícara até a boca. A cada gole, metade do líquido caía-lhe pelo canto dos lábios, encharcando o babador.

– Você parece um bebê!

– Não percebe que eu tenho uma doença?

– Que doença?

– Isso você não poderá entender. Saiba apenas que todos os homens possuem uma doença. A minha me faz ter essa aparência horrível, o nariz enorme e pontiagudo.

– Eu não tenho doença.

– Isso você nunca sabe. Meus braços não se desenvolveram, observe, e em contrariedade a isso, ganhei dedos longos, mas não consigo controlar seus movimentos, tremo muito, e assim não posso aparar as minhas unhas e cabelos, que crescem demasiadamente. Isso tem sido há décadas uma maldição.

A garota olhou para trás, vendo que os cabelos começados no outro cômodo tinham por destino a parte de trás da careca do homem, um rabo de cavalo tímido e amarrado com fiapos e caules. Foi por eles que ela havia passado quando entrou e lembrou-se de que tinham muitas cores.

– Então o senhor tinha cabelos claros, já os pintou de vermelho também, depois teve cabelos meio cinza, e agora eles estão completamente brancos, não é?

– Não foi bem assim que aconteceu, mas… – disse ele, virando mais chá e encharcando o babador novamente.

– Estou muito confusa. Eu nunca vi nada disso antes.

– Você pode me servir mais chá?

Afoita por atendê-lo, a garota acabou desequilibrando a garrafa, que rodopiou entre as unhas grandes do homem e lançou um jato fervente em seus braços.

– Aaaaa!!! Você me queimou!

– Não fui eu, foi você que derramou com essa…

– Com essa o quê?! Pode falar! Queria dizer com essa coisa, não? Com essa pata asquerosa? É isso que você queria dizer!

A garota tapava a boca, como se não quisesse confirmar o que tinha pensado.

– Eu não… Eu não quis ofender.

– SIM! Vocês nunca querem! Quer saber? Você invadiu minha casa e eu não me importei, então agora você faz pouco de mim, faz pouco de mim! – ele chorava e berrava, levando as mãos sujas aos olhos – Você agora faz chacota, você é como todas as criaturas horríveis das aldeias, todas as criaturas horríveis do mundo!

– Me desculpa! Por favor!

– Não! Basta desculpar, e vocês voltam a fazer suas barbaridades!

– Eu faço qualquer coisa, por favor, me desculpa, me…

– ESTÁ BEM! Pare de desculpas, isso me irrita profundamente.

– Tudo bem.

– Abra a gaveta da estante ao lado da janela e pegue uma outra garrafa térmica, todo o chá se acabou com a sua imprudência…

– É essa aqui? Por que ela é assim, oval?

– Essa é uma garrafa especial… Agora, sirva-me com cuidado desta vez.

– Sim – disse ela, aconchegando-se novamente ao lado do piano para ouvir uma outra canção, muito doce também, que o homem iniciava.

– Giselda, chegue mais perto.

– Tá…

– Você esteve todo esse tempo na floresta, e ao entrar aqui, me vendo seguro e tranquilo, em nenhum momento reclamou de fome ou de sede. Você deve estar morrendo de sede, não é mesmo?

– Eu não queria incomodar. A mamãe sempre diz que…

A menina ficou paralisada e nada pode fazer contra a investida do pianista possesso. Ele espirrou de supetão todo o líquido da garrafa em sua cabeça. Giselda nada enxergava e, sem fôlego, rolava embaixo do piano tentando desvencilhar-se da gosma azulada que lhe tomava.

Giselda parecia diminuir de tamanho quando encontrou a saída e disparou pela floresta. Quanto mais corria, menor ficava, e aquilo que restara pulando de poça em poça, após alguns minutos, era tudo, menos humano.

O pato parecia ter se vingado de todos na floresta pela maneira como empunhava o bico ao andar, remexer a asa quebrada e grasnar para o alto. Havia algumas feridas em seu corpo, mas nada que o fizesse deixar de seguir na direção daquela porta de madeira, milimetricamente escolhida há alguns momentos. Atravessou a cerca com dificuldade e após um rasante de deixar qualquer águia boquiaberta, bateu com força o corpo, fazendo um estrondo, e depois completando com mais quatro ou cinco bicadas fortes. O bicho queria mesmo chamar a atenção de quem fosse que morasse ali.

Aos passos que desciam pela escada, era possível perceber que não eram de alguém apressado, mas sim de uma Dona Fran cansada, até mesmo um pouco triste, que acabara de acordar após noite insone. Foi quando por ventura ela ouviu, em meio aos tantos outros barulhos de animais que de manhã resolvem dar o ar da graça, os batidos e rebuliços do pato à porta.

Rebateu o tom áspero do bicho com um grito, indicando com um aceno para que ele entrasse. Titubeante, o animal subiu as escadas e se aninhou no sofá da sala. Foi quando alguém veio do quarto ao lado, assustado com o barulho de algo se mexendo. O pato havia se apossado do controle remoto e parecia chocá-lo. O homem tentou pegar o objeto, mas o bicho estufou o peito, dando uma encarada e catando sua mão numa bicada.

– Ai! Mas, que merda de pato é esse? – disse o Seu Paulo, pegando o bicho que nem um galho e levando pra fora dali.

– Cuac! Cuac! – o pato inflava as asas, mesmo a quebrada, e reclamava como um duque, antes de ser arremessado janela afora.

– Paulo, cadê o Pato?! – disse dona Fran, ao entrar na sala e dar por falta.

– Pato dentro de casa?

– Está machucado.

– Nada!

– Paulo, um pato dentro de casa é um presente de Deus. Um sinal de fartura.

– Eu não quero saber de bicho dentro de casa. Ainda mais esse bicho metido. Cadê a Giselda?

– Eu não sei…

– Eu falei pra ela não sair, falei pra ela não sair…

– Deixa de papo e vamos esperar ela lá fora.

– Que desaforo dessa menina…

O casal sentou na banqueta que ficava à frente da casa. Seu Paulo olhou a floresta ao longe e lembrou-se de uma lenda antiga. Não havia relato de sumiço de ninguém naquelas aldeias, nunca antes, mas a vista que se afigurava – árvores escuras intercaladas atrás das cercas – lhe deu certa preocupação. Então ele subiu e trouxe a espingarda, colocando-a em repouso ao lado da coxa.

– Pra que isso? – disse a esposa.

– Tá tarde. Tem muito ladrão de galinha por aí. Deu no jornal.

– Conversa fiada, Paulo. Você não tá achando que…?

– Achando o quê? Ficou doida, mulher?

– Você sabe do que eu estou falando.

– Vira essa boca pra lá!

– Eu não estou afirmando nada…

– Quer saber?! Eu acho que esse bicho trouxe foi azar!

Para se desvencilhar daquele mau trato, o pato, com seus ares aristocráticos, mexia-se como um bailarino novato tentando seus primeiros passos num espetáculo de balé. Ondulava o pescoço e mexia as patinhas de um lado ao outro com o rabo eriçado para o alto.

– Esse pato, além de assombrado, é um metido à besta!

O velho estava cada vez mais rude e conforme falava, sua boca ficava avermelhada, como se a raiva se espalhasse por sua pele e barba, que ele sempre coçava. Puxou o bicho num sem pulo do chão, tirando-o dos passos de dança e apertando-o com força pelo pescoço. O pato abria o bico numa tentativa de pegar ar e Fran, paralisada pelos gestos endiabrados do marido, encolhia-se na banqueta. Paulo empunhou a arma e – num movimento robótico – atirou no pescoço do pato, degolando, assim, o animal.

– Não! – gritou a esposa.

– Morre! Morre! – o velho gritava.

– Eu sou a Giselda, eu sou a Giselda.

Ambos voltaram a atenção para o local onde a cabeça do pato tinha rolado. Do bico ao comecinho do pescoço rasgado, formava-se um S que falava.

– Era a Giselda, seu desgraçado! – disse Fran ao marido.

– Minha filha?! – disse Paulo.

Fran pegou a arma do chão, mirou como podia na direção do marido e atirou. Acabou acertando sua cabeça em cheio.

Giselda continuou.

– O velho do bosque me transformou num pato e disse que essa seria minha doença enquanto eu vivesse, então agora eu acho que isso tudo acabou. Obrigado, pai…

O sangue saía do bico e a ave se engasgou, repousando finalmente o pescoço na grama.

Após este breve ato, Fran desolada levou a arma na direção do pescoço, um pouco abaixo do queixo, e também acabou estourando seus miolos. Os corpos ainda quentes rolaram de frente um para o outro, como um casal que acaba de se deitar e busca sugar o calor que ainda resta após um dia daqueles. Ao meio deles, a cabeça do pato, ainda empinada e majestosa, parecia apreciar as nuances das nuvens e estrelas celestiais. Seu corpo, distraído e parvo, ao contrário, pulava no barro e espirrava sangue naquela família unida, afinal.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.