EntreContos

Detox Literário.

A Gangorra (Fantasma)

Sabe…

Quando os olhos ardem e você não chora?

Quando a boca seca e a água não molha?

Quando o coração bate e você o sente?

Quando a solidão rompe as correntes?

 

Não sei se a aspereza da areia em minhas mãos, o cheiro do sangue, ou aquele gosto de ferrugem em minha boca poderiam me dizer algo mais do que a verdade. Segurando-o em meus braços sentia o cobertor de seu corpo aquecer minha pele. Não sabia o que dizer, senão um “não me abandone” e eu disse isso. Disse com todo meu coração partido, com toda minha falta de fé e com a imensidão do meu egoísmo, mas disse.

Ainda que impedido de avistar as nuvens, naquele dia, tinha total certeza de que elas estavam lá, no céu, adornando meu caminho. Eram elas, empurrando o vento, lançando uma brisa morna sobre meu rosto. O ar se esgueirava pelas trilhas de meus cabelos, balançando-os como se fosse um milharal numa tarde qualquer e esse mesmo vento traiçoeiro chacoalhava os braços dos ipês desfloridos, provocando-os, fazendo com que uns resvalassem noutros, derrubando as últimas folhas secas, e assim caía a primavera, quase sendo segura pelos galhos, num tom afetuoso e do mesmo modo; opaco, num tenro aperto de mãos o elo se rompeu.

Sabe…

Quando você enxerga, mas não vê?

Quando a boca se move, mas não há voz?

Quando o coração dispara e você o sente?

Quando a solidão faz ranger os dentes?

 

Enquanto caminhava naquela praça onde os ladrilhos definiam o ritmo do meu corpo, e sua tutela me cadenciava, ali eu e ele éramos somente um, ou dois uns em um. Tudo era tão simples e cotidiano, tão similar como outro dia qualquer.

Pra mim estava escuro demais, um apinhado de barulho desenhado nas cores mistas do aroma de grama se fundindo com odor de combustível que exalava pela descarga dos motores, de algo nadando em gordura quente, açúcar sendo caramelizado, e o som repetido e explosivo dos grãos de milho crescendo e saltando dentro do carrinho de pipocas.

Os cheiros sempre deram sabor para minha vida. O vento trazia tudo e levava para além do que eu sentia, se propagando e anunciando, desenhando todo aquele espaço em minha mente, contornando obstáculos fixos e móveis, seguindo, convidando mais pessoas a uma odisseia única com direito a tudo que pudesse experimentar; ah, como é bom experimentar um passo, outro passo e assim; um movimento de cada vez, como num tabuleiro de casas claras e escuras, e essa era a dança da minha vida.

Mas ele não. Dormir ao pé da cama, me ouvir roncar, me ouvir chorar, dar carinho mesmo quando eu o mandasse sair. Não importava quantas vezes eu o dizia para ir embora, ele voltava antes mesmo de se esquecer, bem antes mesmo de eu me sentir só.

Paramos ali, na verdade ele parou primeiro. Estávamos de frente ao banco onde sentava habitualmente, me aproximei com o devido cuidado. Minha mão esquerda visitou os contornos da peça de cimento, e eu senti a leve poeira impregnando na ponta dos meus dedos, os poros do material ressecado como uma lixa e os relevos do artefato me revelando mais do que um conceito de arte, eu podia imaginar a pessoa que construiu aquilo, mesmo não tendo ideia de quem fosse. Mais que isso, ao apalpar a superfície também percebi o calor em certo ponto, onde alguém esteve sentado há pouco, uma bunda grande, não, duas talvez. Entretanto, era apenas um banco de praça, era o que era, e ali as pessoas sentavam para respirar, pensar na vida, ter ideias absurdas ou simplesmente não ter ideia alguma. A maioria buscava unicamente se esquivar da crueldade do mundo real, divagar, se perder.

Sabe…

Quando você vê algo e ignora?

Quando você se diz algo que o apavora?

Quando o coração não para de bater?

Quando a solidão quer acompanhar você?

 

Eu, bem, eu gostava de estar com ele, de assistir as coisas de outro modo. E ali em frente a um pequeno parque sobre milhões de grãos de areia, onde risos infantis preenchiam todo um ambiente e eu podia descobrir os escorregadores, ouvir o vai e vem dos balanços cantando feito grilos no meu ouvido, ou até mesmo sentir a vertigem ao experimentar o som rangido do gira-gira enrolando minhas tripas. Ah, ele parecia não se importar, era ainda mais atento que eu, mas mesmo assim ele estava tão quieto e tudo girava ao nosso redor.  

Sentei-me ao lado dele. Conversar com ele me tirava do meu casulo. Talvez pudesse ser visto como louco, ou quem sabe seria apenas engraçado me observarem assim. É irônico que tantos olhos enxerguem a nossa vida, enquanto na maioria das vezes somos cegos para aquilo que está tão perto de nós, nossas vidas, nossa família, nossos corações.

Tirei os sapados para sentir a grama, me confortei ao perceber que ela ainda estava lá, mesmo com suas falhas, com sua fragilidade, com toda a falta de cuidado, lá estava ela, a massagear meus pés e aderir a seu formato quando pousava sobre seu carpete. Era maravilhosamente singelo e belo.

Nunca gostei de companhia, nunca quis uma família, mas tive uma. Criado em um orfanato, adotado por uma alguém que “eu não queria”, “abandonado” pela mesma família após um acidente de automóvel onde fui arremessado pelo para-brisa. Ainda ouço a voz dela me pedindo para colocar o “maldito” cinto de segurança. Após aquele dia entendi que a solidão era mais escura do que eu podia imaginar. Acordei e vi que tudo era diferente, queria ter morrido no acidente, eu devia ter morrido, na verdade, nunca deveria ter nascido.

 As vozes dos médicos, os sons metálicos, aquele aviso de que “vai doer só um pouco”, é só uma “picadinha”, tudo é uma pequena mentira para nos dar conforto, mas chega uma hora que a única coisa que pode-se dizer é a verdade. E eu a ouvi sem poder encarar o rosto da pessoa que foi sincera comigo. “Será assim até o fim da sua vida.” Simples assim. “Mas e depois do fim, continuará tudo escuro?” Eu só queria saber essa resposta.

 

Sabe…

Quando você não enxerga mais?

Quando você grita e ninguém responde?

Quando você para de escutar o coração?

Quando quem enxerga e escuta é solidão?

 

Passei quinze anos sozinhos até encontrá-lo. Convivemos ao todo por doze anos. Era apenas um pedaço de pelos de três meses, largado na rua. Sabe aquela coisa de amor à primeira vista? Bem, comigo é claro que não funcionou. Mas quando ele agarrou meu cadarço e não soltou mais e eu fui “obrigado” a dar um tapa nele, poxa, aquele ganido foi de doer o coração. Peguei-o no colo apenas para acariciar e soltar novamente, porém ele me lambeu e eu entendi que aquela relação não teria como dar errado.

Conhecer seu cheiro, seu hálito, seus dentes e seus odores, alimentar alguém além de mim mesmo, ter quem me amava mais do que eu. Para um homem cego e tolo como eu, não foi nada fácil ensinar-lhe as boas maneiras, pisei tanto em cocô de cachorro que achei que iria nascer um cogumelo em cada pé. Certo dia levei um escorregão no xixi do gordinho e caí de bunda no chão, quando xinguei um palavrão daqueles e o anjinho veio e saltou lambendo a minha boca, não dava para me zangar, ou melhor; não dava para me manter zangado com ele.

Ter sua língua acariciando meus pés desnudos sobre a grama, e perceber que ele adormeceu com a cabeça sobre eles e ficou lá quieto, respirando, respirando até… Ouvi as mães chamando os filhos, as vozes indo e vindo. Eu quis esperar um pouco mais, deixar a chuva ficar mais densa, não deveria ser um temporal, apenas uma chuvinha passageira, e eu queria curtir a algazarra das crianças sob as nuvens, afinal era uma visão deslumbrante, principalmente para mim que não podia vê-los.

Cochilei por alguns minutos sob a chuva. Acordei e ainda sentado, curvei-me para acaricia-lo, minha mão brincando com os pelos de sua cabeça, e o que estranhei é que suas orelhas ainda estavam deitadas, mesmo com a folia das crianças que já haviam ido embora, mesmo com a chuva escorrendo das nuvens, e mesmo com a ventania que já era mais intensa, então eu percebi que ele estava quieto demais.

“Ei garotão, você está bem?”

Perguntar isso e esperar uma resposta, olhar e não ver mais nada. Sentir os olhos arderem e não chorar, a boca seca e a água da chuva ser impossível de molhar, o coração bater tão forte e a solidão romper as nossas correntes. Eu o enxergava e não o via mais. Não havia voz. Como eu pude ter ignorado aquele silêncio.

“Ele está morto?”

Isso me apavorou. A chuva aumentou, me levantei, deixei os sapatos de lado, desabotoei a coleira, segurei a corrente nas mãos e gritei o mais alto que pude. Coloquei-o no colo e corri pedindo socorro. “Pra que lado?” Não sabia e agora era uma tempestade.

Sabe…

Quando a chuva molha seus olhos?

Quando trovões saem de sua boca?

Quando seu coração não bate mais?

Quando a solidão te grita de volta?

 

Não sei quantos metros corri, mas não foram muitos. Caímos os dois, trombei em algo de ferro, e o que me salvou foi o corpo dele, que já estava morto, e ainda assim sangrou por mim. O que eu sabia é que estava caído no parque, abraçando a areia com os dedos de minhas mãos. Meu pé doía como se tivesse dado um giro de 180 graus, talvez tenha dado mesmo. Hoje, posso dizer que foi num dos brinquedos, um balanço de cavalinho, bem do lado suspenso, na altura do meu peito. Foi fácil para quem viu o sangue no brinquedo. Fiquei caído por horas, abraçado a ele, enquanto a chuva não parava e depois mesmo dela parar.

Quando as pessoas chegaram, deve ter sido estranho para eles, verem um homem sujo de sangue abraçando um cão morto. Não me importo com o que pensaram, nem com o que pensam. Não me importo com mais nada.

 

Sabe…

Quando não se enxerga mais futuro?

Quando as palavras secam na boca?

Quando seu coração bate por bater?

Quando você se vê apenas um “eu”?

 

Perdi o equilíbrio, pois ele era a outra ponta da gangorra. A vida é assim. Sinto-me um cão sem dono, como ele, um fantasma. E agora só há uma corrente presa no ventilador, uma coleira no meu pescoço, o silêncio que grita e a solidão que insiste em me acompanhar. Após isso, quem sabe exista “eu e ele”, mas antes só queria encarar o espelho e ver meu rosto quando encontrar a resposta para seguinte pergunta:

“E depois do fim, continuará tudo escuro?”

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Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.