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Detox Literário.

Mágoa de criança (Givago Thimoti)

Futebol é um espelho da vida. Talvez seja esse o grande motivo do esporte ser o mais amado no nosso país. É uma das poucas coisas que conseguem alinhar pessoas totalmente diferentes.

E, de quatro em quatro anos, geralmente em junho e julho, nosso país para pela Copa do Mundo. Os amantes de futebol agradecem enquanto os não-entusiastas ou ignoram o motivo dos feriados (como quase todos os outros) ou reclamam da importância dada ao esporte. 

Para mim, isso é mágoa. Sim, mágoa de pessoa traída ou enganada. Pura, simples, mal resolvida e, que em certos pontos, corrói.

É difícil apontar uma geração brasileira que não sofreu por um fracasso canarinho. Meu avô ouviu o Maracanazzo, ao passo que meu pai viu a exuberante e envolvente Seleção de 82, recheada de craques, fracassar diante da Itália. Não tem como esquecer a nossa primeira queda para a França, em 86, com a estrela Zico perdendo um pênalti.

Para mim, a França essa é a nossa maior rival. Claro que nossos hermanos são extremamente irritantes. Sim, os alemães também concorrem por esse título na última Copa (ainda não consigo ouvir a voz do Galvão sem sentir uma vontade de sorrir e balançar a cabeça incrédulo, visualizando os sete gols germânicos.)

Bom, o trauma em questão é 2006. Mesmo que não faça muito sentido (pelo menos para quem não se importa com futebol), eu entendia a importância de uma Copa do Mundo. O futebol já fazia uma parte da composição da minha alma.

O Brasil tinha um elenco extremamente talentoso. Dida, uma barreira difícil de se ultrapassar. Juan, um dos últimos zagueiros clássicos que nosso país desenvolveu. Cafu, capitão do penta. Na frente, os principais nomes; Kaká, o certinho, Ronaldinho Gaúcho, um bruxo com a bola no pé e o Ronaldo Fenômeno.

A trajetória da seleção foi bem tranquila. Adversários frágeis demais para o nível daquele time.

Assim como a maioria dos garotos da minha idade, eu tinha um ídolo na seleção canarinho: Ronaldinho Gaúcho. Ostentei a camisa dez, com o nome deste cidadão, como um manto. Para mim, era o Bruxo que manteria a taça em terras tupiniquins. Seja com um passe para o Ronaldo ou para o Adriano, uma cobrança de falta magistral ou até um gol no rebote (porque o que vale é bola na rede).

Chegou a hora da confissão. Não me leve a mal. Coração de criança é assim mesmo.

Ronaldinho não era o único craque que me encantava. Tinha mais um. Para mim era impossível não gostar dele. Era o melhor jogador do meu PlayStation 2, liderava a melhor seleção do jogo… A tal da França. Seu nome era gostoso de se falar.

Zinedine Zidane.

Imagine a contradição que senti quando vi os dois times perfilados. O time do meu país contra o Zidane. Falar o quê? Sentir o quê? Lembro de alguns dribles do francês e eu me segurando para não comemorar.

Não lembro de um ataque do Brasil. Talvez seja porque a Seleção não atacou, apenas assistiu o desfile do Zizou.  Foi chapéu no Fenômeno, drible seco na defesa brasileira e, claro, a cobrança de falta.

Esse é o único momento memorável do jogo. Foi uma falta boba do lado esquerdo do ataque francês. Zidane ajeitou a bola com carinho, correu e bateu na bola com uma leveza extraordinária. A pelota fez uma curva fugindo da bagunça típica causada por uma cobrança dessas e encontrou Thierry Henry livre, leve e solto. O atacante levitou no ar e chutou com o lado interno do pé. A rede estufou-se como se tivesse ocorrido uma explosão.

De fato, ocorreu uma explosão. Era o sonho brasileiro do hexa voando pelos ares.  

Naquele momento, a admiração se transformou em revolta. Pura fúria de criança. Meu ídolo francês havia acabado de meter uma faca nas minhas costas e retirado, lentamente, aproveitando minha agonia causada pela dor. Cego, culpei a ele, a Dida que não conseguiu alcançar a bola, a Roberto Carlos que considerou seu meião mais importante que a marcação. E é claro, culpei a mim, por torcer secretamente pelo Zidane.

Pela primeira vez, sofri por futebol. Nada era mais real do que aquilo. Lembro de chorar lágrimas de fogo naquela tarde que virava noite. Doía horrores. Eu sentia uma dor no peito, com o epicentro um pouco acima do estômago. Minha respiração foi totalmente prejudicada pela minha tentativa de reclamar, insistentemente, da derrota. Era muito novo e não sabia a quem culpar. Claro, ainda tinha a maldita sede. Não importa quantos copos d’água mamãe me entregava. Nada passava.

– Calma, filho. Vai passar.

Aos poucos, vi Zidane liderar a França para a final, entretanto, não assisti o jogo derradeiro da carreira dele. Confesso que senti que não agüentaria a duplicidade dos sentimentos. Talvez eu comemorasse quando o camisa dez desferisse uma cabeçada no peito do zagueiro italiano. Ou choraria internamente ao vê-lo passar ao lado da taça, sabendo que nunca mais a encostaria.

Vejam, essa é a ironia da mágoa. Ela é uma faca de dois gumes. O tamanho dela não importará se você continuar se importando com a pessoa. E quando esse alguém é um craque do futebol como Zidane, é impossível não se importar com ele.  

Doze anos se passaram e mais uma vez, a Copa do Mundo prende minha atenção. A França está do outro lado da chave. Zidane se aposentou e virou treinador. Mas o fantasma da mágoa, armada pelas lanças da raiva, paira no meu subconsciente. Tento ignorar, mas a derrota daquele dia ainda recoa em mim, causando aquela queimação e umas fungadas típicas de um garoto ressentido de seis anos.

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4 comentários em “Mágoa de criança (Givago Thimoti)

  1. Rafael Penha
    10 de junho de 2018

    Muito bom conto.É sempre bom relembrar as mágoas do passado, e o autor o faz com bastante paixão. A dualidade de sentimentos foi bem interessante, chegando até a fazê-lo se sentir culpado pela pequena torcida pelo meia francês. Bem legal!

  2. Fabio Baptista
    9 de junho de 2018

    O adversário que eu mais tenho medo na Copa é a França. Acho que é a única seleção que tem o Brasil como freguês de caderno, a zica com os caras é impressionante.

    E tudo está desenhado pra gente pegar eles na semifinal esse ano. Quem sabe a desforra?

  3. Gustavo Araujo
    8 de junho de 2018

    Lembro bem desse jogo, quando a França destroçou o Brasil. Eu já estava numa fase de desilusão com o futebol havia tempos, mas mesmo assim não pude conter certa tristeza ao ver o gol do Henry e pensar “já era…” De todo modo, torci pelo Zidane na final – pq ele era um jogador fantástico, herdeiro de um Zico, de um Platini, de um Boniek – e fiquei mais frustrado do que na desclassificação do Brasil quando ele sucumbiu às provocações do Materazi. No fundo, queria que a França vencesse aquela Copa. A Itália já jogou bonito, mas em 2006 mais lembrava o Brasil de 1994 com aquele futebol retranqueiro e horroroso. Levou o caneco, mas jogando feio pra burro.

  4. rubemcabral
    8 de junho de 2018

    Olá, Givago.

    Achei a crônica bem bacana. Ficou interessante essa questão do conflito do seu jogador favorito nos games destruindo nossa seleção.

    É impressão minha ou as Copas que mais marcaram os autores aqui foram sempre quando eles/elas tinham seis anos?

    Abraços.

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Informação

Publicado às 7 de junho de 2018 por em Copa do Mundo e marcado .