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Detox Literário.

Memórias do Penta (Tamires de Carvalho)

Meu pai sempre me colocava para dormir no final do jornal nacional. Era como uma lei lá de casa. Estudando a partir das sete da manhã, eu só podia, no máximo, assistir ao jornal nacional. Era o Bonner dar “boa noite” que eu levantava do sofá e também me despedia dos meus pais.

Entrando na adolescência, é claro, eu não dormia. Apenas ia para o meu quarto. Ouvia músicas e fazia coisas superimportantes que todo adolescente gostava de fazer antes da internet ser o que ela é hoje.

Naquele tempo, eu atualizava a minha tabelinha da copa. Precisava marcar todos os jogos, ficava atenta aos jornais, uma vez que não conseguia assistir tudo. Minha prioridade eram os jogos do Brasil. Esses eu não perdia por nada!

Decidiram fazer a copa na Coréia do Sul e no Japão. Eu, ainda que cumprindo a pena de dormir antes da novela, tinha permissão para assistir aos jogos. “Ela não vai conseguir acordar mesmo”, dizia o meu pai. Mas eu acordava sempre que ouvia a voz do Galvão Bueno. Mesmo com a televisão baixinha lá na sala. Pela fresta da porta, eu via que o meu pai e às vezes também a minha mãe já estava preparado para o jogo.

Não me perguntem sobre os jogadores, placares ou coisas do tipo. Eu não saberia responder nada sem consultar o Google. O que eu me lembro desta copa tem algo mais que o futebol, que os jogadores ou a Fátima Bernardes fazendo a cobertura da delegação brasileira.

Naquela copa eu tinha uma tabelinha na qual eu anotava todos os resultados dos jogos. Essa tabelinha foi um brinde que o meu pai ganhou de uma financeira. Todos os resultados dos jogos da copa de 2002 foram anotados lá. Naquela copa eu acordava de madrugada sempre que necessário, para assistir aos jogos do Brasil ou de outras seleções. Um dos jogos lembro-me de ter assistido na TV 29 polegadas lá do colégio. A diretora colocou a TV no pátio e mandou fazer cachorro-quente, foi como um dia de festa. Em 2002, eu me apaixonei pela primeira vez por esse evento esportivo.

No dia do Penta, logo depois do jogo minha mãe pediu ao meu pai que ele comprasse um frango assado. Ele ligou o carro e eu fui, com ele e as minhas irmãs, comprar o frango. Sem imaginar a festa que estava para explodir, mesmo em uma cidade pequena como a que morávamos, entramos de gaiato em uma carreata e demoramos quase duas horas para voltar para casa. Chegamos praticamente sem voz.

Certa vez li de um autor americano de negócios que ele não entendia o que acontecia no Brasil na época de Copa do Mundo. Segundo ele, era uma letargia, um anestesiamento que beirava o ridículo. Na verdade, não é nada disso e nós brasileiros entendemos bem. A cada quatro anos temos nossas esperanças renovadas, de que noventa minutos, talvez um pouco mais, consiga unir a nossa nação. E por noventa minutos, por sorte, sem pênaltis, isso acontece.

Aquela foi a primeira e última copa que assisti e pude vibrar com o meu pai. A de 1998 eu assisti na casa dos meus avós. Nas duas anteriores, era ainda muito criança. Na copa de 2006, perdemos a minha mãe. O Penta teve um sabor de descoberta na época. Hoje, saudade.

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7 comentários em “Memórias do Penta (Tamires de Carvalho)

  1. Fabio Baptista
    9 de junho de 2018

    Bela crônica!

    A copa de 2002 não foi particularmente especial para mim. Espero estar errado, mas acho que nenhuma mais será como foi a de 94. Talvez o Brasil volte a me cativar e volte a decidir a Copa nos pênaltis como decidiu naquela ocasião, mas, desafortunadamente, eu nunca mais terei 14 anos.

    Mas me lembro que comemorei bastante, com meu pai que dizia não estar torcendo, mas na final, logo após o segundo gol, veio até minha casa (um puxadinho no mesmo quintal, onde eu morava com minha agora ex-esposa) com um sorriso do tamanho do mundo no rosto pra me dizer “era esse o goleiro que não tomava gol? É que ainda não tinha jogado com nóis!!!”.

    Tamires, seu texto me fez reviver essa boa lembrança! Obrigado.

  2. Gustavo Araujo
    8 de junho de 2018

    Bacana seu texto, Tamires. Como outros aqui, também tem aquele ar de nostalgia infantil, gostoso de ler e de se deixar transportar para aqueles dias. Marcar os resultados em tabelas pode ser viciante mesmo. Eu próprio fiz isso na Copa do México de 1986, reproduzindo à minha maneira todos os jogos – mesmo com a desclassificação do Brasil pela França. É como se isso nos tornasse mais íntimos do torneio. Enfim, gostei bastante do que você escreveu. Um abraço!

  3. Leo Jardim
    7 de junho de 2018

    Boa crônica.

    Todos tempos boas histórias para contar sobre Copa, afinal é um evento que marca nossa vida de quatro em quatro anos, como um checkpoint no calendário da nossa curta existência. Muita coisa muda entre uma Copa e outra. A de 2002 foi a ultima que vi com meu pai, éramos só nós dois lá em casa que acordávamos para assistir os jogos. Na Copa de 2006 eu morava sozinho e vi toda ela em bares e n na de 2010 e 2014 eu já estava casado. Enfim, meu pai ainda está vivo, mas nunca mais tive aquele momento de cumplicidade só nós dois novamente… queria escrever sobre isso 😦

    • Gustavo Araujo
      8 de junho de 2018

      Bora escrever, Sr Leo Jardim!

  4. rubemcabral
    7 de junho de 2018

    Olá, Tamires.

    Bela crônica nostálgica! Lembro que fui a casa de uns amigos ver o último jogo e como festejamos depois. Espero que recuperemos um dia tal “clima” quando assistíamos os jogos das copas.

    Abraços.

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Informação

Publicado às 6 de junho de 2018 por em Copa do Mundo e marcado .