EntreContos

Literatura que desafia.

Coração Cabeludo (Apóstata)

2017

Quem sou eu? Meio demônio, meio humano?” Beliar estava no alto da serra. Perscrutava cada detalhe da paisagem. “É hora de parar um pouco, buscar uma razão para prosseguir ou… descansar”.  O sopro quente do ar sussurrava: “Não durma nunca. E jamais fique de todo desperto — encontrará a verdade. Ela é pior do que isso tudo”.

O fazendeiro podia avistar as cidades vizinhas, a sua sede, o afogadilho do dia-a-dia, o horizonte esmaecido. Estava no Pico do Espinhaço. De um lado o despenhadeiro. Do outro lado a estradinha tortuosa, que subira a cavalo, cruzando os cafezais. O neto ficara para trás, atrapalhado com a inexperiência das rédeas. Logo o alcançaria. Queria que o rapaz conhecesse bem aquele lugar, simbolizava o trono da família, de onde emanava o poder. Não lhe confessaria os segredos mais negros, seria apenas uma conversa longa e explicativa.

 Aquelas encostas tomadas por muros verdes orgulhavam o proprietário. Os cafeeiros pareciam sentinelas irrequietas ao longo de faixas, os ramos balançando animadamente ao vento como se dançassem ao ritmo das máquinas e dos homens. Nem sempre fora assim. Mãos ferrenhas tiveram que impor uma marca. Assim que a colheita estivesse na Cooperativa, comemorariam o aniversário do único neto, que recebera o seu nome.  Era da linhagem, mas ele tivera apenas filhas e netas. Insistiu muito para que escolhessem outro, mas não aconteceu…

O pai, também Beliar, pouco lhe ensinara. Moldou o mundo a sua volta do jeito que quis. A única questão era que este mundo, para ele, era álcool, mulheres, jogo e mentiras. Se os seus olhos duros se fixassem no filho, bastava isso para que ficasse entendido que fizera algo a descontento, que parasse de rir ou que saísse. Não era sempre que conversavam, no entanto era comum o menor ouvir dele:

— Estou tentando falar com você de homem para homem. Será que consegue dar conta disso?

— Não acredito que é meu, seu marica! — incansável nos insultos.

Não se pode amar alguém ser ter medo dele também. E, talvez uma pitada de ódio. Com as lembranças vinha um quebranto, um cheiro quente que causava náuseas. Pela primeira vez, Beliar constatava o escoar do tempo. Sentia um aperto largo sobre o peito cheio que levava a alma para onde não se apercebia o corpo com seus resíduos e mágoas. Era a morte apertando o cerco. Vinha em espirais amplas, de longe, sempre se aproximando…

Um vento pálido agitava as folhas rígidas dos cafeeiros, fazendo os galhos estalarem. A terra cheirava a calcário e a ferro. As grotas da serra diziam “vem que somos túmulos abertos”.

Parecia ter sido ontem. Estava com dezessete anos, e então se tornou o que era hoje. Aconteceu tudo ali mesmo. Desalento enorme.

 

Há meio século

 

O menino espiava o terreiro de chão batido com os grãos espalhados em camada fina. Chuva pesada era prometida. Feriado, nenhum empregado. O pai chegara do boteco a uma da madrugada.

  — Vá enleirando o café! Já vou ajudar… — a voz pastosa, com suas promessas de escuridão e medo, acordou o filho. — Ei, molenga! Leiras altas no sentido do declive!!  

  — Ih! Pai… Tô com sono. —

  — Não adianta chiar. Tem que cobrir também! — o homem retrucava impaciente, estupidez no semblante. — A chuva tá perto! Vá na frente!

O rapazinho tremia a cada relâmpago. Fincava pernas com força no chão. O vento forte revolvia-lhe os cabelos. Não sabia por onde começar, mas teria que fazê-lo. Medo da surra. O pai era bravo, bebeu…  Tanto café!

O garoto começou a rodar os grãos com a energia que a magreza permitia. Lembrou-se das muitas surras. Humilhava-se, pedia perdão, invocava santos. Os rogos se perdiam entre os estalos da correia e as palavras raivosas do pai. Se o pai não viesse logo, a sova era certa. Era trabalho para até o dia chegar. Conseguiria sozinho estender a lona? Cadê o pai?

Foi quando ouviu uma cantarola do outro lado do terreiro. Cantiga engrolada, palavras carcomidas. Ventania, poeira. Estreitou os olhos…  O pai já havia feito uma grande leira!? Nem o ouvira os palavrões… Não, não era o pai. Mais baixo e troncudo aquele. O pai também não era para canções. Estava confuso.

Chegou mais perto:

— Quem é o senhor?

— Vim ajudar o menino. Logo tá tudo pronto. O capeta me mandou.

— Ó o respeito com o patrão. Vamos então.

A voz fanha voltou para o canto escorrido, lamento. A presteza não condizia com o velho. Parecia ter motores nos pés e braços. Até o menino ganhou forças, mas mesmo assim, o misterioso ajudante amontoava o triplo, ou mais, de café que ele…

Em pouco mais de uma hora, o rapaz voltou para a casa. Os primeiros pingos caíam ameaçadores. O pai, que cochilara na velha cadeira de balanço, despertou esbravejando:

— Como? Já aqui, mariquinha? E o café?

— A chuva vai estragar tudo, bosta. Ah! se arder…

— Não deu tempo de amontoar. Veio embora por causa de uns pinguinhos? Dormi sem querer… Vamos terminar, merda. Dá tempo.

— Não, pai, nós enleiramos, cobrimos com os encerados. Não vai molhar! — retrucou em tentativa de acalmar o bruto.

— Como “nós”?  Quem ajudou você, pirralho?

— Uai! o homem que mandou. Que velhote bom de serviço! O aguaceiro tava esperando a gente terminar.  

— Como assim? Não mandei ninguém. Tá mentindo! Não deu tempo. Quero ver.

— Trabalho de três ou quatro horas, pra dois terreireiros dos bons.  Agora um moleque e um velhote, como você disse, não dão conta não…

O bronco pegou um guarda chuva no canto da dispensa e saiu blasfemando e arrastando o filho pela mão. Encontrou toda a colheita organizada com precisão. As leiras viradas como deveriam, cobertas com o plástico preto. Os montes de café mais adiantados na secagem também vedados. Nem ele, sóbrio, faria tudo tão de acordo. Aparvalhado:

— E como pagou o velho?

— Ele disse que não precisava, devia isso pro senhor. No momento certo, cobraria, de mim, um favorzinho.  Convidei-o pra casa, a chuva vindo. Agradeceu. Não entendi. O velho fala umas coisas de louco. Disse que estava livre das coisas deste mundo. Não entendi!

— Qual o nome dele?

— Perguntei, pai. Respondeu com outra pergunta: “qual o seu?” Eu lhe disse e… que esquisito! O velhote falou que gostava muito do meu nome, que o chamasse Beliar também. Doido mesmo!

— Encrenca vem por aí! Como ele era? — o pai mais irritadiço.  

— Não sei explicar.  Parecia o tio Tonico, um pouco. Pele amarelada, cara … Não sei…

 

Nas semanas seguintes era só esse o comentário na família e na vizinhança. O acontecido era uma charada. O rapaz recontava a história, descrevia o ajudante, ao seu jeito… O que escondia é que se estabelecera uma relação entre a figura e ele. Pequenas fugas intermitentes.

Sentavam-se no terreirão, molhados da chuva ou do luar, sombras penando. Levados para o sem rumo. O novo companheiro contava histórias, encantava-o. Mostrava-lhe o futuro, ia montando um cenário muito lógico. O garoto sentia-se liberto, livre da timidez. Aquele apelo vindo de fora lhe trazia o mundo e a sensação perigosa de que o pecado era fascinante. Outras vezes, cara fechada, não mais amigo, integrado ao vento, o homem era ameaçador, quase feio:

— Você já matou?

— Esmaguei um louva-deus. Barata, grilo, conta? Prendi um monte de mandruvá no vidro e ia fazendo os bichos estalar com um espetinho.

— É. Tem vontade de matar… — Ia instruindo o menino, que vacilava entre o medo e o fascínio. Pouca coisa. Era a preparação:

— Não existem limites. Não existe para você o que é possível e o que não é.

— De agora em diante serei sua sombra. E você será consolado.

— Não precisa se afligir. Tudo no tempo…

O pai continuava agastado, talvez envergonhado pela tarefa que dera ao filho, por tê-lo abandonado no serviço. Andava nervoso. E não se emendava, com bebedeiras e maus-tratos às filhas, à mulher, sobretudo ao garoto. Injustiças se repetiam. A situação se degringolava: a fazenda descuidada, falta de dinheiro e de crédito, dificuldades em conseguir trabalhadores. Maus amigos e maus conselhos…

 

Os primos fizeram uma festinha surpresa para Beliar, dezessete anos.  Música, salgadinhos as horas correram. Cansados de esperar pelo chefe da casa, resolveram cortar o bolo:

— “Parabéns a você, nesta data queri…” — a porta da sala é aberta de supetão, a gargalhada incomoda.

— Festa para o macho!? — o homem chacoalhava o litro de pinga, bebericava no gargalo, sorvia o curto prazer, xingava, ria… Abraçava-se a um e outro, quase os derrubava no desequilíbrio do corpo. Espetáculo constrangedor. Acabou por entrar para o banheiro, batendo a porta com violência.

O jovem Beliar, a custo, tolerou os vivas, os cantos restantes e saiu da sala dissimulando o choro. Voltou em minutos intermináveis, gritando, desesperado:

— O pai… O PAI… SANGUE — as palavras saindo da boca, fragmentadas, todas pânico.

Pela porta escancarada dava para notar o lavatório quebrado, a risca sanguinolenta na garganta, o corpo na poça rubra. O filho suava, não raciocinava com clareza e, interrogativo, olhava o cubículo como de uma janela à distância, perplexo. Assim descobriu que o ódio podia dominar a dor.

A angústia delineava cada rosto dos passivos expectadores daquele mistério. Petrificados, olhos faiscantes diante de um argumento sem réplica. Nada a ser feito. Desgastado luto. Saudade e dor mescladas de alívio.

 

Em um domingo qualquer, família reunida. A avó trouxe a velha caixa de fotos amarelecidas. Cada um via uma delas e passava para o outro…

— Mãe!! Olha o velho que me ajudou no terreiro! É parente! Por isso não cobrou. Por que nunca o conheci? AQUI, vó, tia…

— Não pode ser! É o seu avô! Faleceu faz trinta anos, antes que você nascesse. Seu pai devia ter a sua idade… — choramingou a avó, ruim de contas.

— Triste foi a morte desse. Um acidente como aconteceu com seu pai. Caiu no curral, o cavalo o pisoteou no rosto. Arrebentou a cabeça. O caixão teve que ficar lacrado, não pudemos abraçá-lo em despedida.

Beliar se enojou. O retrato caiu no vomitado, rolou entre as garrafas, achou um vão, estatelou-se diante de todos os olhos. Era uma tortura. Ninguém conseguia arrancar-lhe o papel sujo das mãos:

— Foi ele mesmo. Certeza!!!! — confirmou o rapaz — Tenho conversado com ele quase toda noite. É estranho porque é como se ele estivesse vivo, do meu lado, orientando, determinando.

Espanto geral: assombração do avô! Vinda constante? O que queria? Descrença. O menino sofria com a perda do pai…

 

Porém, o conselheiro noturno permaneceu, pesadelo e sedução. Agora se revelava. Beliar nunca soube exatamente como a nova presença era, às vezes vinha na forma do avô ou de homem qualquer, um anjo ou um bicho, ou…  Escutava-o aflitivo, sempre a lançar chamas grossas e pesadas para uma só direção: riqueza e poder. Amadureceu forçado, ajudou a mãe na administração dos bens e em seguida a substituiu. Vivia em inquietude inexplicável. A vida, externamente, corria dentro da mais absoluta ordem. A forma como os negócios se resolviam, somente ele e o diabo conheciam. Instruções e precauções constantes aos ouvidos. O mundo não mais era o mesmo.

A torrente, sempre alimentada, engrossou-se com o casamento — esposa conveniente que deu a Beliar mais amor, mais dedicação, mais obediência, mais terras, mais influência, três filhas e na quarta gravidez:

 

1982

 

— UM ALFA POR VEZ! — a voz cavernosa cobrava seu tributo.

Sem camuflagem, sem carisma e sem graça, o Anjo Caído surgiu: totalmente calvo, cicatrizes espalhadas no corpo vigoroso, asas como fachos de luz sólida. Locomovia-se balançando o grande tronco mole. Podia-se ver por dentro dele, a escura massa de que era feito, em convulsão. E os olhos, quase humanos, gosmentos, borbulhantes. Ousava protegido pela repugnância que provocava. O asco impedia que fosse tocado. Beliar aprendera a conviver com aquela criatura conspurcava e aturdia.

— Está me forçando a ser o que não sou. Não me force. — o humano implorava. Não sabia se estava vivendo dia ou noite.

— Tem livre-arbítrio. Ele ou você? — o demo sorria com deboche, pronunciava as palavras em tom retumbante:

— Quer semiviver em angústia?

— Eu não quero matar — respondia o homem como se estivesse em outro plano, vagante…

— Não será a primeira vez. Lembra como socou a cabeça do seu papai no mármore. A mão dele tremia ao erguer a navalha. O bêbado olhava para você e me via. Nós éramos um só.  Prolongamentos em caminho paralelo. A violência nos consumia.   Sombras preenchiam todo espaço visível com borrões de silhuetas e seu pai, pasmado, não conseguia discernir quem era quem. O sangue jorrou do pescoço, borrifando.  Ninguém estranhou a sujeira no seu corpo, nas suas roupas: “Pobrezinho, abraçou-se ao pai agonizante”— o sorriso transformou-se numa gargalhada enquanto se desprendia dele uma baba raivosa.

— Eu subsistia… Não queria… — Como por automatismo, as imagens iam ficando cada vez mais nítidas. Beliar sofria. Acompanhava-se de uma legião de mágoas, sentia-se entorpecido, enjoado e deslocado. Titubeava:

— Não, não matarei meu filho nem nascido! — repetia atordoado.

— É mais fácil agora do que depois de conhecer seu rosto, seu sorriso. — Em imenso círculo de perversidade, Satã compelia o homem a consumar um ritual derradeiro de uma cadeia irremediável a se cumprir.

— A escada é perigosa. É deixar a mãezinha cair — irônico.

Havia muita coisa em jogo. Humano e tentador sempre terminavam por combater lado a lado, golpe por golpe. O vestido longo varria o chão. E se fez aquele espaço para os pés voláteis. Sem compromisso ou intenção. As faces da mulher contorcidas pela dor. O sangue formou poças sob o quadril, em volta das pernas. O marido desceu os degraus em correria, ajoelhou-se ao lado dela, segurou-lhe a mão. Já clamara por socorro… Inevitável. Ela não mais procriaria…

 

1890

 

— Quantas meninas terei? Preciso de um herdeiro. Se Deus não o traz, que seja o Diabo! — palavras ditas ao acaso ou para o caos. A resposta…

O Coronel prendeu a respiração. Uma paixão pegajosa foi tomando conta dele de mansinho. Um perfume vazava das paredes, ameaçava tomar forma de algo, engoli-lo. Fome de bicho. Petrificado esperava…

A mulher intuiu o desejo, guiou o macho para dentro de si. Agasalhou aquele corpo com calor diferente. Nunca se entregaram assim. Um homem e uma mulher se redescobriam. Tinham vindo não sei de que mundo. Mergulharam em rio manso e largo, cujas águas guardavam todas as vontades. Perderam o tempo, o tino, as distâncias. O sangue era pura fervura. Claridades-sombras estendiam caminhos sempre cada vez mais para dentro. Muito mais para dentro.  Era o aviso de que geraram um filho homem.  E assim como os cheiros e as cores nutriam os desejos, sons ecoavam na mente masculina: “Tem um preço.” — “O menino terá o meu nome”.

Era definitivo de todo e aceitamos de comum acordo. Acontecendo natural, como a coisa mais esperada. Sem pânico, sem remorsos.  Gosto amargo-e-doce dessa criação.

 

2017

 

— UM ALFA POR VEZ! — a dor funda trazia Beliar para diante do pouco que restava de si mesmo e das imagens vívidas que o consumiam. Procurava situar-se e encontrava um tempo áspero. Ele engoliu um bolo espinhento de saliva. Trazia a expressão esvaziada.

O rapaz desceu do cavalo. Entreolharam-se. O velho carregado de lembranças, de uma luta que ficou no passado, mas ainda marcava o presente. O vento chicoteava quebrando o silêncio.

— Que conversa é essa, vô? Por que aqui?

— O dia chegará em que ciência, religião, matéria e espírito, simultaneamente revelarão seus propósitos secretos para a humanidade — o avô profetizou e complementou:

— Eu não sou um obstáculo que você precisa transpassar. Será o meu substituto. Mas não sei se está pronto. Quero ajudá-lo. Não sei se hoje deve ser o dia final — sorriu com brandura.

O rapaz nada compreendia. O velho falava com ele, não o escutava. Olhava assombrado para a borda do penhasco, notava apenas um vulto e sentia um desejo incontrolável de empurrá-lo. Como podia ser? Era uma visão ou o avô? Amava-o e o queria morto? Era um pandemônio.

Beliar-avô, por um segundo, desviou os olhos para a ribanceira, quando sentiu um forte impacto atingir o queixo. Levou alguns instantes para que percebesse o que acontecia. Tentando ignorar a dor, equilibrou-se, girou a perna, atingiu o oponente, que cambaleou, quase caiu. Olhou para o neto furiosamente. Gotas de suor desciam-lhe pelo rosto. Chegou a sentir uma ponta de culpa. Era o destino.

— É o demônio! Vou acabar com você! — o jovem vociferava mantendo os olhos fixos no alvo. Enxergava nele o mal, não conseguia se refrear. Irracional.

— Sou o seu avô! Calma! — preparava-se para receber o próximo golpe. Sempre teve medo de estar na situação que se apresentava agora.

— Vamos resolver isso de uma vez por todas — a voz do garoto soava fria, diferente de sempre. Foi ganhando estridência a cada fala truncada:

— Revide… Revide, seu maldito!

— Um de nós deve… sumir… Vamos… lute… — bateu-lhe no peito, chutou-lhe as costelas.

— Covarde! Velho covarde…

O ataque seguinte foi tão rápido que, mesmo estando alerta, Beliar-avô não conseguiu impedir que o lábio inferior fosse atingido. O gosto de sangue veio logo a seguir. Por reflexo, retesou-se em preparação para novo impacto. Foi neste momento que decidiu acabar logo com aquilo, antes que o pior pudesse acontecer.

O moço, certamente, não estava preparado para o que viria a seguir. O velho avançou contra o rival, que se desviou do ataque surpresa, contra-atacando em seguida. Engalfinharam-se. Os dois caíram. Ouviu-se um barulho abafado. A cabeça do rapaz batera na pedra. A luta chegou ao fim. O capim dobrado, sangue ríspido, célere porejando em fixo desastre. Espanto e dor. Beliar certificou-se que o coitado não respirava. Mudo, confuso. Estupidamente imprevisível. Os fatos seguiram em direção errada.

— Eu sei… — o Demo apareceu na forma verdadeira, soltava chispas — Eu lhe dei arbítrio mais uma vez. Não queria deixar as emoções atrapalharem. É o responsável por ter escolhido essa opção. Você sabe que poderia ter sido diferente — ele encarava o humano, rindo, rindo…

— UM ALFA POR VEZ! As regras foram quebradas, o velho matou o jovem — puro sarcasmo. A missão continua com você — vaticinou o imponderável.

— Você teve forças para mais um gesto. Então eu vim. Serei sempre a sua sombra e você será consolado — o demo repetiu a jura. E, integravam-se de novo, para a completa desarmonia.

Em transe, Beliar aproximou-se do abismo, erguendo o corpo do neto. Arremessou-o no ar como um boneco de pano. Parecia uma roupa que se desprendia, despencava com os braços e pernas abertos, girando, sem parar. Perdeu-se no vazio verde, sem visibilidade nenhuma. Nuvens negras na tarde de tempo indefinido. Acidente triste.

O sobrevivente montou no seu cavalo, puxou o outro. Evasivo, sem deixar pistas. Encheu os pulmões, só via o horizonte mais esmaecido, fino. O aperto no peito, agora, mais largo. Teria que explicar. Montanhas ruiriam na sua boca, lançaria destroços sujos pela língua, cuspiria larvas. Envolveria todos em tramas de verbos. Inquestionável. O desespero perdia-se nas últimas luzes da tarde.

Temerosa busca. Somente no dia seguinte, resgatou-se o cadáver para o enterro cristão. Resultado do trabalho de uma equipe por horas e horas. Estava bem mais abaixo na encosta, de bruços, com a cabeça mais baixa do que os pés e o rosto enterrado na vegetação rasteira.  A carne a se acinzentar, com manchas esverdeadas, sinais de lividez nas juntas. Ossos expostos, crânio rachado, olhos estatelados, vidrados. A boca aberta deixava ver a língua enrolada para dentro, macilenta como uma lesma. Terra e sangue formavam uma argamassa ocre e consistente. A perícia não encontraria sinais de luta… Outro caixão lacrado.

Beliar quedou exausto num desvão, estava perdido em contradições. Sentia pejo de si mesmo. Foi aí que se olhou de frente: o Homem e o Mal, que insistia em povoá-lo. Não perdera de todo a identidade humana. O diabo instalara-se simplesmente em sua cabeça. Vinha em pedaços, em momentos, em épocas, em contornos. Acompanhava-o em fatos, acontecimentos, sem uma sequência temporal. Percebia-se subitamente incapaz de resoluções. Houve um momento de plena estatização. Como lutar contra/com as trevas? Os pés se afundavam no barro pegajoso. Sentia-se vivente e cativo. Somente a voz conhecida, em ondas corporificava: “Controle! Controle!”.

O jogo das negativas, e nesse jogo o tempo em atropelos passando, cada minuto uma batida mais forte do coração convulso. A angústia seca foi estalando sob os passos de Beliar. O antigo eco lhe repôs a frieza dos pensamentos. Casa cheia, imprensa… Precisava manter a firmeza. Devolver às coisas a dimensão própria.Controle! Controle!”. A dor mornizou. Houve paz. O senador retornava ao movimento.

 

— Viajamos logo depois do almoço. Malas prontas? Em três dias, tenho reuniões importantes na capital — orientou a mulher com riso breve, educado. Era como um relógio regulado com precisão, implacável muitas vezes, usando o dom que o diabo lhe dera. O senador Beliar continuou o monólogo:

— Estão quase se matando lá para manter o poder!  Afinal, tenho posição neste país — espetou o dedo no ar.

Em seguida, deu sinal para que a esposa saísse do escritório. Antes, ela lhe passou as novidades da família: a neta mais velha estava grávida. Se fosse menino, teria o seu nome. Feliz e, ao mesmo tempo, tenso, o homem pediu privacidade para algumas ligações:

— Alô! Consultório do doutor Frederico Cury? — Ele se identificou. Um prolongado silêncio.

— (…)

— Sim. Pretendo continuar com a terapia.

— (…)

— Segundas e quintas, a partir da próxima semana. Confirmado. — Um frêmito percorreu-lhe a espinha. Não vomitaria os seus segredos no divã. Ninguém podia saber. As pessoas eram falíveis, as aparências precisavam ser salvas. Risos saudariam sua queda.

Olhou-se no espelho. Estava completo, integrado: o demo e ele — um todo. Tranquilizou-se. Permaneceria movendo-se nas sombras até que um descendente forte viesse substituí-lo. Haveria muito a se fazer. “Controle! Controle!”.

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19 comentários em “Coração Cabeludo (Apóstata)

  1. werneck2017
    17 de outubro de 2017

    Olá,

    Um texto que, talvez por incapacidade minha, não conseguiu impressionar. Notei algumas construções de frases deficientes que poderiam ser reescritas. Também a finalização sobre um senador que faz terapia não me pareceu verossímil, apesar de ser Brasília uma legião de pessoas demoníacas. Alguns erros de gramática, já comentados anteriormente. As cenas da narrativa ao longo do texto não formam algo que flui cadenciado. Sugiro a reescrita para o aproveitamento de uma boa ideia e que pode originar um trama interessante.

  2. Rafael Soler
    17 de outubro de 2017

    Gostei bastante da trama e da mitologia envolvendo o pacto com a criatura sinistra. É algo recorrente em muitas histórias de terror, mas que nunca parece ficar batida, devido as diversas roupagens que esse plot pode ter. A ambientação também me agradou muito, consegui visualizar a fazenda e a plantação.

    Acho que o pacto poderia ter ficado um pouco mais claro para o leitor. Não sei se foi só comigo, mas tive que retomar algumas partes do texto para entender qual era exatamente o custo do trato.

    Muito bom o conto!

    😀

  3. Lucas Maziero
    16 de outubro de 2017

    Sinto dizer que o conto não me agradou. Pelo estilo, pelas construções frasais, pela ideia…

    O começo se mostrou confuso (de acordo com o meu entendimento, não sei como as pessoas entenderam), a saber:

    “Era da linhagem, mas ele tivera apenas filhas e netas. Insistiu muito para que escolhessem outro, mas não aconteceu…”

    O descendente era filho ou não?

    Um Beliar pai disse a um Beliar filho:

    “— Trabalho de três ou quatro horas, pra dois terreireiros dos bons. Agora um moleque e um velhote, como você disse, não dão conta não…”.

    Essa fala demonstra que o pai sabia que o menino não daria conta, mas mesmo assim o deixou fazer o trabalho. Até aí tudo bem, só que…

    “O bronco pegou um guarda chuva no canto da dispensa e saiu blasfemando e arrastando o filho pela mão…”

    Esses diálogos ficaram destoantes, e esta frase desabona o conceito de que o pai sabia que o menino não daria conta; porém, se fosse dito que ele estava agindo com deboche, intencionalmente, só para fingir que não sabia que o filho não daria conta, faria mais sentido.

    Frases assim: “Pele amarelada, cara…”

    Num primeiro momento dá a impressão que a pela amarelada custa caro… Sei lá, esse modo de dizer não me encanta, além de dar um nó no cérebro.

    “Pequenas fugas intermitentes.”

    Demora para se processar, pois por si só é uma frase sem sentido…

    Falas separadas assim, ditas pelo mesmo personagem, só se justificam se o que se está a dizer for muito grande, assim se quebra para não cansar e ao mesmo tempo permite que se respire, o que não é o caso:

    — Não existem limites. Não existe para você o que é possível e o que não é.

    — De agora em diante serei sua sombra. E você será consolado.

    — Não precisa se afligir. Tudo no tempo…

    Foram ditas pelo mesmo personagem, e essa separação confunde.

    Afinal, o jovem Beliar que aniversariava seria o menino que encontrou o velho de motores nos braços e pés?

    Valha-me Deus! Que confusão de Beliar para cá, Beliar para lá, eu não entendi qual Beliar era qual. E o Beliar do começo do conto, que no final encontra um Beliar jovem, de quem este era filho?

    Desculpe-me, eu não estou a zombar. Realmente não aproveitei quase nada desse conto, o que é uma pena. Afora que as cenas que assumiram ser de terror, não o foram, não causou nenhum impacto. Desculpe-me!

    A gramática e ortografia estão bons, nada a apontar.

    Parabéns!

  4. Luis Guilherme
    16 de outubro de 2017

    Boa noiteee, tudo bem?

    Esse desafio me é particularmente caro, uma vez que amo o gênero. Por isso, tenho lido com bastante expectativa os contos.
    Dito isto, vamos ao seu:

    Olha, sendo sincero, achei bem confuso o texto. A linguagem é bem trabalhada e tem algumas ótimas construções, como a cena do sexo. A linguagem empregada de forma metafórica e poética me agradou bastante nesse trecho, bastante mesmo.

    Porém, essa mesma linguagem acabou ficando meio rebuscada em alguns momentos, e eu tinha que ficar constantemente parando a leitura para reler e tentar entender o que se passava, e isso tirou um pouco a fluência pra mim, deixando um pouco cansativo.

    Um ponto positivo pra mim foi a dúvida que deixou no ar: existe mesmo um demõnio externo, ou o rapaz apenas cria uma representação da propria maldade como forma de atribuir a culpa? Essa questão ficou em aberto, e digo isso como algo positivo, pois deixa o leitor viajar e divagar.

    Acho que o texto, por meio dessa ferramenta, aborda a questão do bem e mal que existem dentro da pessoa, e de como muitas vezes as pessoas utilizam seus “bodes expiatórios” pra justificar suas fraquezas e maldades. E normalmente o coitado do demônio leva toda a culpa, né? rsrs

    Naquela série Lucifer, tem uma cena que Lúcifer vê um homem pregando na rua sobre como o demonio está arruinando a humanidade, e Lúcifer, irônico, diz algo como “não precisa me dar todo o crédito, vocês tem se virado muito bem sem mim.”

    Mas divagações à parte, voltemos ao conto: por fim, na questão do gênero, achei que pecou um pouco. Pra mim, faltou o terror, ou pelo menos um suspense. O texto não causou nenhuma sensação de aflição, medo ou angústia, nem nada que se aproximasse do terror.

    Enfim, um bom conto, deixa algumas reflexões, mas que acho que careceu de uma adaptação maior ao tema, e que sofreu um pouco com a linguagem confusa em alguns momentos (e brilhante em outros)

    Parabéns e boa sorte!

  5. Edinaldo Garcia
    16 de outubro de 2017

    Escrita: Adoro contos de terror nesses ambientes bucólicos.Gostei bastante da poética apresentada. É bastante peculiar. Mas me parece que o autor caiu em suas próprias armadilhas linguísticas em alguns momentos. Algumas períodos mal construídos, alguns um pouco confusos. Achei o ritmo um pouco acelerado. Exemplo: num momento estão discutindo para matar o filho ainda no ventre da mãe e no outro parágrafo a mulher grávida está deitada no chão ensanguentada. Os períodos muito curtos me incomodaram um pouco, pois eu gosto de conectivos. (É viadagem minha mesmo). Algumas vezes entre um período e outro na mesma cena eu tive a impressão de coisas terem acontecido como se o narrador estivesse ocultando acontecimentos; talvez tenha sido proposital, porque este recurso foi e é usado por muitos escritores renomados.

    Terror: É muito bom. Eu adoro contos de terror na roça. Se me permito só uma ressalva, a parte do pai abusador, violento achei poderia trabalhar isso mais a fundo, ter cenas mais fortes de violência teria engrandecido ainda mais a obra, que por sinal já é muito boa.

    Nível de interesse durante a leitura: Eu fiquei totalmente imergido na trama.

    Língua Portuguesa: É ótima.

    dia-a-dia – dia a dia (As palavras compostas que possuem entre seus termos um elemento de ligação, representado por uma preposição, artigo ou pronome, já não mais requerem o emprego do hífen). Frescura minha mesmo.

    Há meio século – é incomum ter ficado vago esta data sendo que todas as outras foram especificadas.

    Nem o ouvira os palavrões – Achei estranho esse período

    Música, salgadinhos as horas correram – Não gostei dessa construção.

    Abraçava-se a um e outro – Abraçava a um e outro

    um anjo ou um bicho, ou… – O texto tem muitas reticências, mas essa me incomodou bastante.

    o Anjo Caído surgiu: totalmente calvo, cicatrizes espalhadas no corpo vigoroso – esses dois pontos foram colocados de maneira errada, pois esperamos que a sugestão virá depois deles, sendo que ela veio antes. Não sei se consegui explicar isso.

    abraçou-se ao pai – mais um “se” usado como pronome reflexivo num lugar que deveria estar.

    Claridades-sombras – Esse termo ficou confuso (acho até que neste caso eu fui ignorante, pois não entendi mesmo)

    Era definitivo de todo e aceitamos de comum acordo. – Fiquei confuso aqui com a troca do eu lírico. “Aceitamos”?

    O velho falava com ele, não o escutava. – não seria: O velho que falava com ele não o escutava.

    Devolver às coisas a dimensão própria. – Ou esse período está errado ou foi incrivelmente escrito com uma poética primorosa. Quem vai ser devolvido: a dimensão própria? É isso que o período está dizendo, que vai devolver a dimensão própria para as coisas. Caso fosse devolver as coisas teria que ser escrito: Devolver as coisas à dimensão própria.

    Frederico Cury – é parente do Augusto Cury?

    Veredito: Muito bom.

  6. Fheluany Nogueira
    15 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – A narrativa traz mais que um pacto com o diabo. É o Mal gerando um filho, atravessa gerações de uma família, vai ganhando poder, influência. Não se sabe até onde chegará. Fez pensar no Anticristo, com sua sutileza, engenhosidade e sabedoria.

    Terror e emoção – Horror é a lembrança de algo horrendo, ameaçador, repugnante; pavor. Terror é pessoa ou coisa que amedronta, medo do que pode acontecer. O conto está perfeitamente enquadrado no tema proposto, com boa dose de suspense.

    Escrita e revisão – Bem escrito, regionalismo (sem exageros) para combinar com o espaço explorado. Diálogos críveis. Notei apenas uma ou duas distrações ao digitar.

    Parabéns. Abraços.

  7. Antonio Stegues Batista
    13 de outubro de 2017

    ENREDO: Homem faz pacto com o diabo. Regular. Nada original.

    PERSONAGENS: Logo que li o nome, associei-o com o nome de um demônio. Oquê? O cara é humano? Casou e tem filhos? Bem, vale tudo. Mas, na realidade era quase isso. Talvez fosse a índole má do homem e o demo existia apenas na sua imaginação, talvez provocada pelos maus tratos. Personagens bem definidos. Regular.

    ESCRITA: Muito boa. Gosto da frases curtas, com sentido direto e lógico. Ótima escolha de palavras para compô-las.O texto é bem escrito, no entanto a história não trouxe grandes revelações.Foi previsível os acontecimentos e o final, parece que você pensou em vários, mas no fim, escolheu exatamente o mais ruim, que selou em definitivo uma história nem boa, nem ruim, a meu ver.

    TERROR: Regular. Não senti nenhum terror, já que nada de novidade ou diferente aconteceu. Achei o tema muito batido. Boa sorte

  8. Ana Maria Monteiro
    13 de outubro de 2017

    Olá, Apóstata. Se bem entendi, o título do seu conto reporta diretamente à questão sobre quem é o demónio. Eu diria que o próprio Beliar, não sei. Mas, ao que tudo indica, ele toma contacto com o demónio como entidade exterior, apenas para se familiarizar com a sua condição que lhe será intrínseca.
    Ele é quem tem o coração cabeludo, ele é quem encarnou o mal, ele é o próprio Demónio, nascido humano e criança, como todos os humanos. Daí ser necessário ao seu subconsciente criar-lhe uma figura exterior para que “a criança” se vá ambientando e crescendo com a sua própria realidade que, provavelmente já vem de trás – é o que o texto indica ao fazer passar o papel de geração em geração.
    Esta é uma interpretação possível, apenas.
    Ainda assim, algumas coisas ficam confusas. Como o “pacto” mais ou menos apresentado e a forma como o filho homem é concebido em 1890. Com quem? com a própria mulher? com outra? Excessivamente vago. Ainda que seja uma tradição, estas histórias do mal estarem associadas ao masculino, noto que as figuras femininas são excessivamente postas de fora, como se não existissem, quase, ou fossem apenas mais umas cabeças de gado.
    Quanto ao resto, não tenho grandes sugestões a fazer; algumas frases um pouco sinuosas e duas que me parece que foram erros de digitação, estas: “Não se pode amar alguém ser ter medo dele também.”, penso que a palavra que quis escrever foi “sem” em lugar de “ser”; e aqui: “Nem o ouvira os palavrões… “, parece-me que esse “o” sobrou após alguma alteração que intercalou no texto,provavelmente na revisão.
    O conto adequa-se perfeitamente ao tema do desafio.
    Parabéns pela participação e boa sorte.

  9. Paulo Luís
    12 de outubro de 2017

    A primeira leitura é pouco difícil entender a história. A escrita de construções arrevesadas. Há primeira hora não se entende o que seja leira, “Vá enleirando o café!”. Só recorrendo ao dício. “Não se pode amar alguém ser ter medo dele tam-bém.” – “A chuva vai estragar tudo, bosta. Ah! se arder…” E mais outras tantas. Afora esses pormenores, o enredo, bem original, além de corresponder a temática exigida pelo desafio. Em particular a contra encenação do bem e do mal, tendo o diabo como protagonista, atendendo perfeitamente aquilo que se pode exigir de uma obra que se pretende ser de terror. Muito bom.

  10. Paula Giannini
    11 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    Seu conto é quase uma saga. São sagas, aliás, meus livros preferidos. O Tempo e o Vento, Terra Vermelha, Cem Anos de Solidão, e por aí vai. Gosto da premissa de retratar três gerações de uma família, avô, pai, neto, sob a inusitada e pertinente para o desafio, ótica do mal.

    É interessante notar que, ao fazer uma pacto com o diabo, o avô (na época ainda um pai), faz o tal acordo justamente para trazer à vida um filho homem. Dessa forma, a genética do mal se espalha pela família através da linhagem masculina, enquanto as mulheres, alheias ao que acontece, funcionam como meras coadjuvantes, sendo poupadas de praticar o mal, mas não de sofrer com ele.

    Outro ponto interessante é perceber a escolha do autor no momento em que o avô mata o próprio neto. Dessa forma, ele não só corta na própria carne, como abre mão justamente do que pediu ao inferno. Para continuar como o alfa da família, abre mão da continuidade desta. De certa forma, a impressão que fica (ao menos para mim) é a de que, ao se unir ao mal, o avô (alfa) e toda a sua família, ganham um certo stats de feras, assemelhando-se às matilhas de animais onde a organização exige a existência de um alfa para sobreviver. Talvez o demônio os veja dessa forma.

    Embora, com a morte do neto, fique a impressão de que para o protagonista “o crime não compensa”, visto o imenso sacrifício que precisa fazer a fim de manter sua palavra diante do capeta, resta ainda a triste desolação. O maligno o consolará. Sem dor, sem culpa, sem remorsos, sem freios. “— De agora em diante serei sua sombra. E você será consolado.”

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  11. Andre Brizola
    10 de outubro de 2017

    Salve, Apóstata!

    Gostei do conto. O texto, difícil para quem viveu apenas em cidades (tive que pesquisar certos termos para saber do que se tratava), é um companheiro de luxo para o enredo que trata de um pacto com um diabo; certas vezes a poesia das frases acaba até mesmo soterrando o aspecto assustador do conto.
    Achei muito legal a opção de contar a origem do pacto através da regressão no tempo. Na verdade, todos os cortes para contar outras linhas do tempo foram muito bem utilizados, e isso enriqueceu demais a narrativa. Foi uma opção inteligente para colocar o leitor a par de todos os pormenores dos acontecimentos anteriores, sem prejudicar o ritmo dos acontecimentos atuais.
    Minha única crítica é com relação ao final do conto. Saímos de um ritmo que nos leva por plantações e terreiros, chão de terra batida e iluminação no lampião, para uma conclusão atual demais, com ternos, acompanhamento psicológico/psiquiátrico e viagens a Brasília. Analisando friamente isso é totalmente condizente com o personagem, mas não “comprei” isso durante a leitura, sabe? Mas entendo que o problema aqui provavelmente sou eu.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  12. Nelson Freiria
    10 de outubro de 2017

    Esse, provavelmente, foi o título mais estranho do desafio.

    Se esse conto for do mesmo autor que escreveu aquele do “(…) doía denso” em algum outro desafio, eu não me surpreenderia. A linguagem regionalista em meio as rimas cria toda uma ambientação bem elaborada. Por mais que ache brega essas rimas, tenho que reconhecer a capacidade do(a) autor(a) em criá-las, pois não é nada fácil pensar linha após linha que orientem a história com coerência, sentimentalismo e palavras que combinam. Mas acho que aquele “!!!!!” poderia ter sido evitado. Vi uns erros de digitação, mas nada demais.

    A maldição que assola a família de Beliar (esse nome me deu a sensação da pronúncia do Chico Bento para o nome ‘Belial’) ficou bem construída no sentido de ter potencial de aterrorizar o psicológico do personagem, mas esse me pareceu não pareceu se abalar ao ter que cometer atrocidades, o que me deixa meio descrente sobre o terror do conto. Creio que dava para ter se focado um pouco mais no clima sombrio, principalmente qnd o capiroto aparece para conversar e aconselhar, já que a imagem do avô não parecia ser de todo o mal. A frieza de Beliar ao final também não ajuda a enxergar os efeitos dessa terrível maldição.

    O conto seguia as datas dos anos em algarismos, não sei pq não manter isso ao invés de “Há meio século”, acho que ficaria mais bonito.

    • Nelson Freiria
      10 de outubro de 2017

      Correções:

      “mas esse me pareceu não se abalar”*

      “numerais”**

  13. Fernando.
    10 de outubro de 2017

    Olá, Apóstata, gosto de histórias que vão passeando pelo tempo e o seu conto é um desses. Você tem um domínio bem legal da linguagem, usa as palavras de forma interessante. Somente algumas frases me soaram um tanto confusas, poucas. A história que se inicia na fazenda de café e que termina em Brasília, o mal que vai se ampliando (como no nosso país hoje). Ponto para a sua metáfora. Algumas horas achei que a questão do mal ficou, como que, obvia demais, mas hei de convir que o mal é assim mesmo, evidente por demais, não é mesmo? Talvez um pouco mais de sutileza deixasse a sua narrativa mais a contento. Mera opinião de quem pouco entende de contos de terror e que se arvora em dar palpite. Cá com os meus botões fiquei pensando no sentido do título dado por você à história. Será que perdi algo? Meu abraço fraterno.

  14. Regina Ruth Rincon Caires
    10 de outubro de 2017

    A ambientação da narrativa já me enlaçou, de começo. Sinto-me em casa. E aí aparece a dualidade: BEM X MAL. Pacto com o diabo, a cobrança, o acerto de conta. Sensacional! O TEXTO É PRIMOROSO! O autor possui completo domínio da linguagem, a estrutura do conto é perfeita, narrativa fluente, lógica, frases bem formuladas, bem construídas. Excelente a descrição dos fatos atrelada aos pensamentos do protagonista. Enfim, é um conto de primeira linha. Achei interessante a colocação da lona plástica naquela época. Não tenho lembrança disso, lembro apenas de encerados de algodão, rústicos. Enfim… Não atrapalha a linda história.
    Parabéns, Apóstata!!!

  15. Eduardo Selga
    9 de outubro de 2017

    A circularidade é um dos recursos narrativos que mais têm condições de provocar lirismo e, na outra ponta, dramaticidade, em suas diversas manifestações, dentre elas o terror. Por “fechar” a narrativa, ou causar essa sensação num primeiro momento, a circularidade provoca a ideia de solidez, de edificação bem erguida.

    A circularidade foi bem usada no conto, expressa de maneira contundente nos protagonistas. Eles são, na verdade, duas posições narrativas que se repetem e por vezes se substituem: a nova e a velha geração de homens de uma família. Aliás, acho importante observar que o conto é a estória de uma família, não de personagens específicos. Mais que isso, numa perspectiva maior, é uma alegoria da disputa pelo domínio (o “alfa” do texto). Nesse sentido, o fato de o personagem, no fim do conto, ocupar um cargo político, é ilustrativo.

    A disputa política, quando fora do controle ético e civilizatório, tende a ser fratricida. Terra arrasada (e o espaço ficcional é uma fazenda). Como não há luta desse tipo que não tenha vencedor, vence quem não morreu, normalmente quem fica de fora incitando a briga. No conto, a força vencedora é o demônio, que por várias gerações estimula a morte entre os homens da família e, pelo que inferi, deu origem à sina, fecundando uma mulher da família por meio de seu marido, conforme se vê pelos trechos ” Quantas meninas terei? Preciso de um herdeiro. Se Deus não o traz, que seja o Diabo! — palavras ditas ao acaso ou para o caos. A resposta…” / “E assim como os cheiros e as cores nutriam os desejos, sons ecoavam na mente masculina: ‘Tem um preço.’ — ‘O menino terá o meu nome'”.

    Se temos personagens e ambientação bem feitos, no aspecto formal houve deslizes, como rima sem função estética (“Não se pode amar ALGUÉM ser ter medo dele TAMBÉM”); oração em que parece faltar palavra (“Beliar aprendera a conviver com aquela criatura conspurcava e aturdia”); má escolha vocabular (“Não, não matarei meu filho nem [SEQUER] nascido! — repetia atordoado”); verbo no indicativo quando deveria estar no subjuntivo (“Eu não sou um obstáculo que você precisa [PRECISE] transpassar”).

  16. Fabio Baptista
    9 de outubro de 2017

    Esse foi o texto que mais se aproximou do blockbuster que tanto tenho esperado aqui no desafio. Tecnicamente perfeito (só um deslize em “ser ter medo”… e também teria usado o ano exato em vez de “Há meio século”), com a linguagem regionalista sem exageros, usada a favor da ambientação e da trama.

    Esses contos ambientados em fazendas, versando sobre antigos pactos, sempre geram boas histórias e aqui não foi diferente. A primeira aparição do sujeito misterioso que ajuda com o café é excelente, nós sabemos que há algo diabólico ali e depois as informações desencontradas (do pai afirmando que não havia contrado ninguém) apenas confirmam as suspeitas.

    Depois somos apresentados à maldição que persegue a família e apesar de tudo continuar interessante, a resolução do mistério tirou um pouco do encanto.

    Então, no desfecho, temos o confronto derradeiro entre o avô e o neto e “só pode haver um”. Nessa parte, infelizmente achei que deu uma desandada. A luta é arrastada e sinceramente acabei não entendo muito bem o que ocorreu depois. Se o autor puder aproveitar os comentários abertos para esclarecer, agradeço.

    O avô voltou a ser de carne e osso e assumiu tanto o posto de líder da fazenda quanto de senador, é isso? De qualquer forma, acabou ficando aquém do belo desenvolvimento construído até então.

    Abraço!

  17. Olisomar Pires
    9 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: médio.

    Narrativa/enredo: maldição demoníaca aos moldes do pacto com o diabo que atravessa a família cobrando seu preço.

    Escrita: Uma ou outra frase meio sem sentido (“Não se pode amar alguém ser ter medo dele”, por exemplo), no mais segue bem. Alguns termos utilizados na época da fazenda ficaram bem para a descrição.

    Construção: possui uma boa trama. Entretanto, os diálogos me pareceram extremamente confusos e quebraram o ritmo da leitura. Assim como os saltos no tempo, não são incompreensíveis, mas dificultam.

    Duas cenas se tornaram mais importantes nesse conjunto: a morte do velho no banheiro e a morte de um neto no penhasco.

  18. Angelo Rodrigues
    9 de outubro de 2017

    Caro Apóstata,

    gostei do seu conto. Bem escrito, frases curtas, de fácil compreensão linguística. Um bom clima de interior de fazenda de café. Alguns termos que não ajudam ao leitor, pois específicos demais, como “leiras”, não usuais, mas tudo bem.
    Notei alguns erros construtivos nas frases, mas tudo bem também, dado que pouco prejudicaram a compreensão. Cito apenas uma: “- Não, não matarei meu filho NEM nascido!”. Não consegui matar a charada. Talvez “meu filho não nascido!”(?)
    Outra coisa que me desconfortou foi a adoção do nome-herança: Beliar. Me pareceu muito óbvio quando se pode associar diretamente a Belial, tornando o nome uma espécie de spoiler imediato. “É ele, o Demo!”, pensei imediatamente.
    O final traz um senador da república e a história sai dos cafezais da Serra do Espinhaço (?) e vai parar em Brasília. Acho que foi um pecado essa adoção, pois sabemos que em Brasília está o Inferno e, um diabo a mais ou um diabo a menos, não faz grande diferença, embora tenha jogado o seu conto no mundo-clichê do mal. Talvez uma indicação de que O MAL estivesse se expandindo em uma direção maior, mas acho que não ajudou.
    A outra coisa, foi o demônio-senador Beliar fazendo psicoterapia. Hum… sei não. Acho que nem terapia em Brasília dá jeito…

    Bom o seu conto, salvo por algumas correções (se eu não estiver completamente equivocado). Obrigado por nos deixar conhecer seu trabalho.

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Informação

Publicado em 8 de outubro de 2017 por em Terror.