EntreContos

Literatura que desafia.

Se as paredes falassem (Tiago Arjolo)

─ Mas você não pode nem ir ver lá?

─ Não tem ninguém morando lá, eu já falei!

Davi tem que respirar fundo antes de respondê-lo. Não conseguiria gritar com o síndico. Claro que não. Além disso, respira fundo mais para preservar um tom digno de um homem do que realmente afrontá-lo. Por detrás do síndico, observa-lhe o porteiro do prédio, de braços cruzados e lábios apertados, vez ou outra murmurando algo. Era a mesma cara feia que fazia para Davi sempre que abria-lhe a porta para que entrasse, mas o jovem universitário não percebia. Não tem tino para essas coisas.

─ Olhe, eu sei que você tá dizendo que não tem ninguém morando lá ainda…

─ Eu saberia se tivesse. ─ e um gesto para enfatizar: ─ Eu sou o síndico!

─ É, é… mas olhe, não custa nada ir lá ver. Pode ser que não tenha ninguém morando, mesmo, mas eu juro que ouvi gente andando por lá… e o meu celular sumiu!

O síndico não se importou em omitir o deboche, na voz ou no sorriso:

─ E quer dizer que se você esquece seu celular na escola, alguém tem que ter ido no seu apartamento e roubado?

─ Não! Mas olhe: eu ouvi gente lá. Música! Eu ouvi gente ouvindo música, cara, e nem era música boa. E agora eu saí pra ir comprar umas coisas e voltei pra não encontrar o meu celular. E eu sei que voltei para casa com ele.

Davi acha melhor deixar sem dizer como a coisa realmente começou. Tinha notado que a plaquinha de “ALUGO” sumira da janela do apartamento vizinho e, pouco depois começara a escutar as passadas arrastadas vindas do outro lado da parede. Foi uma semana com isso, sem nunca sequer vê-lo. Fizera uma postagem sobre no facebook, que lhe rendeu 5 curtidas e 1 haha. Davi valorizava essas coisas e era o suficiente para lhe satisfazer.

Mas o verdadeiro problema desse novo vizinho foi quando ele começou a mover o tapete de “Bem-vindo” da sua porta para a dele. Na primeira vez não pensou que fosse nada e devolveu a peça aonde deveria estar. Tinha sido um presente da sua mãe. Quando o fato se repetiu, porém, não tardou: reposicionou o tapete com o pé e com as mãos foi logo digitando a nova publicação: “quando o vizinho mal chega no prédio e já vai roubando seu tapete de bem-vindo! – sentindo-se confuso”. 12 curtidas e 4 hahas, uma das curtidas de ninguém mais, ninguém menos do que Ana Rafaela, dona de seus olhares desde que entraram juntos para o primeiro período de Audiovisual. Até então, imaginava que ela nem sabia da sua existência.

O ápice do seu drama do tapete foi na quinta noite em que chegou em casa para encontrá-lo mudado de lugar. Escreveu um bilhete obsceno e o mandou por debaixo da porta do vizinho – tomando o cuidado de verificar se o mesmo não se encontrava em casa, é claro. Postara uma foto do bilhete, acrescida do comentário: “espero q ele entenda agora, né? Kkk”. 18 curtidas, 7 hahas. Ora, ora, que isso está rendendo. Um haha foi da Ana Rafaela. Rendendo mesmo! Até mandou uma mensagem para o inbox dela: “acho que o meu vizinho não vai desistir de roubar o meu tapete, né? Kkkkk”. Ela: “É kk”. Davi não tentou puxar assunto depois disso.

Aliás, um comentário da sua mãe na própria postagem do bilhete o fez apagá-la e nunca mais tocar no assunto. No entanto, o tapete não deixara de ser mudado e Davi não deixara de ouvir a música, os passos e cochichos do novo morador. Era a única coisa que sabia do seu vizinho: era um homem velho. Quando falava, sabe-se lá com quem, mesmo que Davi colasse a orelha na parede, não havia entendimento sobre o que era dito, quase como se fosse outra língua, palavras que pareciam sair de um delírio… e agora o seu celular. Naquela noite, chegara para ver o tapete mudado, mas ignorou, deixou as coisas em casa e saiu para comprar algum lanche. Retornara para não encontrar o celular e agora descobrir pelo porteiro que não tinha ninguém morando no apartamento. “Tô te dizendo, guri. Vão chegar moradores novos, mas só daqui a um mês! Não tem ninguém morando lá. Ou você ouviu errado, ou é coisa da sua cabeça doida!”

Foi assim que acabara conversando com o síndico. Inclusive, o homem fez uma decisão, o aborrecimento bem evidente entre as suas palavras.

─ Tá, tá… me deixa ir pegar a chave mestra que a gente vai lá.

Antes de ir pegar a chave, uma olhadela para o porteiro: acredita nessa merda? Davi nem percebe.

***

Sua mãe não foi nem um pouco simpática com a ideia de que ele fosse morar fora do estado. Você não sabe se cuidar não, tá achando o quê? Davi precisou chorar muito para que ela deixasse e acreditava que o que realmente a fez ceder foi ter passado em uma universidade prestigiada. Isso não a fez poupá-lo do olhar arrogante quando o visitou pela primeira e única vez. Acha que não houve um momento em sua visita que ela não o reprovou balançando a cabecinha redonda.

─ Não arruma nada, mas que bagunça, que porqueira!

Então a mulher resolveu lhe dar o tapete. Quando ganhara, tratava-se de uma bela peça bege de bordados verdes que escreviam: “Bem-vindo!”. Dois sapinhos cartunescos pareciam estarem abraçados embaixo das palavras receptivas, sorridentes como só sapos desenhados poderiam sorrir. O tapete adquirira um aspecto encardido desde então e, quando Davi e o síndico chegam ao andar em que mora, vê que o tapete havia sido recolocado na frente do seu apartamento. Estava na porta vizinha quando chegou e não havia o mudado para o lugar certo. Mas ali está. Davi para ao pé da escada, olhando para as duas portas dos únicos apartamentos do andar. O síndico está balançando os braços para cima.

─ Não tem sensor aqui?

Se tem, nunca havia funcionado. Davi gosta disso. Costumava brincar com os dedos, simulando o enquadramento de uma câmera, como se as duas portas no final do corredor pudessem encaminhá-lo a um destino tão obscuro quanto ao recinto mal iluminado que as antecedia. Ali, olhando para o próprio tapete sujo no escuro, tem a impressão de que algo verdadeiramente ruim o aguarda, em uma porta ou na outra. Não se dá conta de que o síndico o havia chamado.

─ Ei, moleque!

─ Oi, oi.

─ Você me tirou de casa tarde pra ver essa besteira.

─ Sim, sim, desculpe.

─ Qual porta?

─ A esquerda.

Com o mesmo balançar de cabeça reprovador que sua mãe sinalizara em sua visita, o síndico vai andando até a porta. Ele mostra a chave, apenas uma silhueta naquela parca luminescência. Depois, segura a maçaneta da porta e tenta abri-la, sem sucesso. Está trancada. Acena-lhe com a cabeça como quem diz: avisei. Do modo como conduz as coisas, parece apresentar uma sessão de mágicas para crianças de cinco anos. Mas Davi não se importa.

Quase não enxerga o homem, na verdade, o coração batendo tão forte no peito que o sente como se estivesse no fundo da garganta. Não consegue dizer uma palava, comunica-se por acenos. O síndico insere a chave na fechadura, é bem velha e ele tem que fazer alguma força para que ela gire. A porta se destranca com um som alto de ferro velho se chocando. Davi tinha parado de respirar e suas mãos estão brancas de tanto que as aperta uma com a outra. O síndico lhe dá um olhar debochado antes de empurrar a porta. Com leveza, ela vai se abrindo até dar vista ao apartamento.

Poderia ser o seu apartamento. Certamente, as paredes ostentam o mesmo grau de velhice, descascadas, praticamente quase extirpadas de tintura. Não há lâmpadas, apenas buracos escuros no teto dos quais saem fiações coloridas e retorcidas. A janela da sala está aberta, deixando a brisa gelada da noite os alcançar. Os arrepios fazem Davi dar um saltinho, mas não é pela brisa. É o fato de que o apartamento não tem mobília alguma, nenhum sinal de que alguém mora ali e, dado o abandono, também parece como um lugar em que ninguém sequer esteve. Mas Davi tinha escutado. Sabe que alguém tinha estado ali, e que este alguém vinha mudando o seu tapete de lugar. Nem se lembra do celular agora. Davi vai entrando, o síndico ri, seguindo o universitário. O homem testa ligar e desligar o interruptor, único efeito gerado sendo os cliques repetidos.

─ Não te disse?

Mas Davi não o escuta e continua a andar. O apartamento é igual ao seu, sabe onde fica o único quarto do lugar e, de algum modo, entende que tem que ir até lá. Os protestos do síndico não chegam aos seus ouvidos. A batida acelerada de seu coração é a única coisa da qual tem consciência, como se o certificasse de sua segurança. Chega no quarto para encontrá-lo quase tão vazio quanto o resto do apartamento. Talvez, se não soubesse, uma olhada rápida lhe causasse o julgamento de que realmente está vazio, mas ele sabe e, portanto, enxerga: na parede oposta à porta, meio oculto na penumbra ocasionada pela noite, está o bilhete que encaminhara por debaixo da porta, preso por um durex. Caminha até ele na mesma passada medrosa que o levara até ali. É mesmo o seu bilhete, com os mesmos xingamentos que escrevera e, no entanto, há uma adição, feita num traçado grosso e vermelho, logo abaixo do que foi primeiramente escrito. Lê-se:

 

Venha visitar!

 

Ouve os passos do síndico virem acompanhados de pragas meio ditas, embora ditas o suficiente para que Davi soubesse que estava sendo xingado. Amassa o bilhete dentro do bolso e vai ao encontro do síndico que, na mesma balbúrdia que viera, o conduz até o lado de fora do apartamento. No caminho, quase tropeçando nos próprios pés, Davi percebe que tem sim uma diferença entre o seu apartamento e o do vizinho: o piso é novinho, de textura lisa e tão limpo que quase se enxerga refletido nele. O síndico também percebe, pego de surpresa. Quando passam pela porta, nenhum dos dois vê o pingente colorido enrolado na maçaneta do lado de dentro.

No batente, o síndico se demora um pouco em olhar o piso. O rosto dele se ilumina com o entendimento de algo e só então ele fecha a porta. Enquanto luta com a fechadura, vê que Davi também tem a mesma confusão.

─ Esse apartamento pertence a um velho, na verdade. Ele não comprou pra ele, mas ninguém nunca veio morar… acho que ele ou morreu, ou viajou. Não sei.

***

Adentrando a madrugada, Davi descobre que o celular lhe faz mais falta do que se sente confortável em admitir. De minuto em minuto, a mão escorrega para o bolso à procura do aparelho, os olhos desejosos por alguma distração, o entorpecimento pelo feed de notícias do facebook rolando para cima. Sempre que embolsa a mão, acaba encontrando, amassado no fundo do bolso, o bilhete. Não precisa nem vê-lo para visualizar as letras vermelhas que o convidam para visitar o apartamento vizinho. Que não tem ninguém morando e estava trancado…

Lembrando-se das piadas que fizera do caso no facebook e twitter, Davi mal consegue acreditar que agora talvez estivesse correndo perigo de verdade. Ele sabe que alguém tem estado no apartamento vizinho. Mesmo que estivesse vazio, tinha escutado e agora tem o bilhete. E a quem eu vou mostrar? O síndico já não é muito meu fã, eu deixei ele ir e se mostrar o bilhete, vai rir de mim e dizer que eu que coloquei a parte em vermelho. Enche as mãos com os próprios cabelos, atônito, levado por imagens de um velho sorrateiro no apartamento vizinho, aguardando a sua saída, mudando o seu tapete de lugar… Davi nunca fizera um julgamento exato do motivo por detrás da mudança do tapete, sempre mais interessado no que o caso tiraria nas redes sociais, então nunca nem pensara sobre aquilo ser um convite. Venha visitar, bem-vindo! Davi estremece. Alguém estava jogando com ele.

Polícia? Sua mãe? Quem poderia chamar? O que mostraria a polícia? Olá, olha aqui esse apartamento vazio e mal assombrado? Teme que só ligar para a sua mãe com uma reclamação o encerrasse em um voo de volta para casa, destinado a mil sermões que poderiam ser simplificados em “eu avisei”. Davi se encolhe no canto do sofá velho que fica na salinha, medindo a sua falta de opção no escuro. Contempla as paredes antigas, as janelas sujas, o piso arranhado e encardido de poeira e fios de cabelo. Eu quase consegui me ver naquele piso. E então ele escuta a música vinda do apartamento vizinho.

Vem tão alta e abrupta que acaba se assustando e deslizando para cair de bunda no chão. A dor do traseiro mal é sentida com a surpresa trazida pela melodia dramática que é logo acompanhada pela voz de Roberto Carlos. Davi vai se levantando atrapalhado, errando as passadas para reaver equilíbrio. De pé, ainda não tem uma ideia exata do que fazer, embora saia andando para fora do apartamento. É uma fuga que nem se dá conta de estar fazendo, mas, na rapidez que anda, definitivamente uma fuga. A escuridão o aguarda no corredor externo ao apartamento, levemente invadida pela luz dourada que escapa da brecha da porta do apartamento vizinho. Por detrás da porta, pode-se ouvir passos débeis. Davi está a meio caminho da escada, mas não dá nenhum passo a mais. A mão vai ao fundo do bolso, topa o bilhete. Venha visitar.

Vira-se para a porta, a luz dourada iluminando parte do seu rosto, limitada pelas sombras que predominam no corredor. Do lado de dentro, a voz Roberto Carlos fala que: se chorou ou se sorriu, o importante é as emoções que viveu, mas Davi não se dá conta, encarando a porta escura contornada pelo ouro da lâmpada que ilumina o apartamento. Não se dá conta que caminha em direção à porta, também. Rememora as palavras da mãe, quando ela comentou a foto que postara do bilhete: muito homem ele pra escrever bilhete. De pé diante da porta, ele se lembra do ceticismo arrogante do síndico, como se só então percebesse. Com o punho erguido para bater na porta, Davi se lembra da resposta desinteressada de Ana Rafaela. Antes que possa bater, sente a luz diminuir em seu rosto e olha para baixo, vendo que uma sombra impede a luz de sair por debaixo da porta. Há alguém do outro lado, estando só a porta entre ele e Davi. Consegue ouvir a respiração dificultosa do outro lado. Rola os olhos espantados para o olho vivo, sabendo que está sendo observado. A mão, levantada e bem fechada na altura de sua cabeça, treme.

A maçaneta gira em um escândalo sonoro e metálico e, em um único salto, Davi alcança a porta do próprio apartamento, pronto para voltar ao seu esconderijo, o coração tão acelerado que mal consegue respirar. Por debaixo da música alta Davi discerne um som rouco e alongado, que logo compreende como uma risada. O seu celular começa a tocar. Sua mão vai ao bolso, encontrando a carta no lugar em que normalmente encontraria o celular. Não. O som vinha de dentro do apartamento vizinho.

─ Chega disso de joguinhos!

Enfim, a raiva encobre a hesitação. Em duas longas passadas e um empurrão, Davi adentra ao apartamento vizinho.

A luz se apaga bem quando ele entra, mas ele não se dá conta, seguindo o som do toque do seu celular, quase omisso pela voz dramática de Roberto Carlos. O aparelho está no chão, bem no meio da sala, vibrando enlouquecidamente com o toque. Davi entrou no apartamento com tanta força que a porta bateu na parede, começando uma lenta trajetória de retorno para se fechar novamente. Naquela velocidade, a porta não teria chegado a se fechar, mas, mesmo assim, ela bateu atrás de Davi, o estrondo inaudível sob a música. Enquanto Davi se aproxima do celular tal qual faria como se fosse uma bomba, Roberto Carlos se felicita: eu estou aqui vivendo este momento lindo!

Alguém ligava para o seu celular, mas a chamada acabou assim que o pegou. Tinha vindo de um número indeterminado e uma notificação mostra que Ana Rafaela respondeu a uma mensagem sua. É uma longa série de Ks. Maiúsculos. O temor da situação é brevemente ofuscado por uma ainda mais breve felicidade, pois Davi não tinha sequer estado com o celular para poder conversar com o celular. O seu reflexo meio turvo no assoalho o lembra de que não deveria estar ali e, como se não fosse óbvio, lembra-se de que poderia não estar sozinho. Quando levanta a cabeça, não vê mais ninguém. Davi está sozinho no meio do apartamento escuro. Isto não o impede de sair correndo em direção à porta.

É a primeira vez que percebe o pingente colorido amarrado na maçaneta, logo coberto pela sua mão afobada. Quando puxa a porta, algo resiste, puxando do lado de fora e, enxergando pelo olho vivo, vê o rosto de um velho, num sorriso largo, perverso. O velho se divertia. Davi sente algo vir pela mão direita, como um choque, e depois não sente mais nada.

***

Seu corpo está no chão. Não é algo que Davi sabe, é algo que vê. Pode ver o seu corpo deitado pela esquerda, pela direita e até mesmo de cima, como se uma câmera fixada presa a um drone o gravasse. No começo, é exatamente assim que se sente, como se pudesse ver o próprio corpo pela lente de milhares de câmeras, de todos os tamanhos, distribuídas por todos os cantos possíveis, gravando todos os ângulos que quisesse. Diverte-se com o conceito, mas logo percebe que tem que sair dali. Não sente o mesmo desespero de antes. Não sente o coração acelerar ou os pelos arrepiarem, apenas sabe que tem que sair dali. É uma noção.

No entanto, quando tenta se levantar, acaba vendo o espaço do banheiro, totalmente vazio. Ali, também pode assistir a todos os ângulos dos recinto, como se os seus olhos pudessem vagar por cada milímetro do lugar. Uma vez mais, não sente a angústia, mas a tem em mente. Eu morri? Não consegue nem se sentir nervoso, pois não sente nada, apenas sabe que quer sair de lá e, nesse querer, acaba no quarto. Tem uma escada encostada na parede, Davi está pairando em todo o recinto. Passa pelas paredes, pelo chão, pela porta, pelo batente e pela janela. Não consegue ver fora da janela. Virando para lá, dá-se com uma escuridão, como se não existisse mundo para além do apartamento. Quer sair dali. Teria saído correndo e gritando por ajuda, mas não tem meios nem de correr e nem de gritar. Querendo sair dali, Davi acaba na sala como em um teletransporte. Ali, o seu corpo está se levantando.

Parece atordoado, mas não é Davi que se levanta. Morto ou não, não está em seu corpo. Como é que isso é possível? Quer chamar por alguém, mas não consegue encontrar uma voz para sair de si. Esforça-se, concentra todos os seus pensamentos em falar, mas nem mesmo se cansa. Não tem boca para falar. Sua boca está ali, no corpo que agora vai se pondo de pé como quem acabara de ser nocauteado. Aquilo que se levanta olha para cima e sorri. Sem nem pensar, acaba o encarando de volta, como se pairasse acima dele. Naquele sorriso, Davi identifica a mesma perversidade que encontrara no rosto do velho, quando tentou abrir a porta. O seu corpo abre a porta atrás de si, revelando o mesmo paredão de breu que conseguia enxergar pela janela do quarto. O braço da coisa que se apossara do seu corpo atravessa aquela escuridão como se não fosse nada e de lá vem arrastando um corpo magricela em que logo reconhece o velho que vira pelo olho mágico. O homem parece estar morto. Davi escuta a própria voz, mas não é ele que fala.

─ Olhe, eu sei que isso é bem difícil de entender, mas, ao menos, não doeu! ─

O seu corpo dá de ombros. Davi pensa que se estivesse em qualquer lugar do apartamento, poderia ouvi-lo tão bem como o escuta agora, quase como se a voz fosse produto do seu próprio pensamento. Enxergando o seu corpo de cima, percebe que o reflexo meio anuviado que se esboça no piso não é a mesma pessoa que está de pé. Ele dá um chute no corpo idoso que jaz no chão

─ Eu pensei em te colocar ali, mas aí eu teria que te matar, você ia ficar todo confuso e bla, bla, bla. Então eu tive uma ideia bem, bem melhor.

Ele caminha até uma das paredes e Davi pode vê-lo bem à sua frente. Ele dá três toques na parede e Davi enxerga o próprio punho vir em sua direção, como se fosse bater na sua testa. Mas ele não sente nada, os nós dos dedos dele batem na parede e é isso.

─ Eu te coloquei aqui. No meu plano original, eu ficava aí no seu lugar, entende? Não me leve a mal, é que eu preciso ficar de olho na minha filha ─ ele para, com a impaciência de quem tem que se corrigir ─ Ela vai dizer que eu sou o padrasto e qualquer merda assim, mas criei, então é filha e tenho que tomar conta! ─ sua pele avermelha, a irritação é óbvia. Davi vê a si próprio, mas não se reconhece. Está com medo, mas não sente nada. Apenas sabe que a situação é horrível. A coisa joga os punhos para o alto ─ Porra! ─ então respira fundo, parece mais calmo ─ De qualquer modo, não vai ser tão ruim. Se você não estiver preparado, vai esquecer logo que está aí, não dói e nem nada, você só… esquece.

Davi está processando. Ouvira tudo, não teve a opção de não escutar. Pensara em mil coisas, mas a voz dele se sobressaíra. Davi não tinha morrido, não está em seu corpo, está nas paredes, no piso, no teto, em todo lugar daquele apartamento. Ele é o próprio apartamento. O berro do seu desespero não se verbaliza, o temor e o arrependimento não pesam em seu coração, pois este não existe. Davi não sente o completo terror de ser uma consciência perdida em azulejo e cimento, pois não tem como senti-lo. Mas sabe que aquele terror existe, sabe que não deveria estar ali. E, enquanto a figura que assume o seu corpo sobe em uma escada para remover a lâmpada, Davi se esforça para gritar. Teria chorado e implorado para que ele não fizesse aquilo, mas não tem como. Não consegue acreditar no que está acontecendo e nem na tranquilidade que vê a si próprio – agora descendo a escada – ostentar em um momento de tanta angústia. Mas aquele não sou eu… ele não pode sentir a minha angústia… e nem eu.

A voz de Roberto Carlos é interrompida quando a pequena caixa de som é desconectada e vê o seu corpo andar até a porta e parar bem no batente, a um passo do breu que separa o apartamento do mundo exterior, escada embaixo do braço. O corpo que pertencia a Davi se vira, alcança o celular que caíra no chão. Está novamente possesso daquele sorriso terrível, que nunca se imaginara capaz de esboçar. Levanta o celular para o teto, seu modo de se comunicar com Davi.

─ Vou fazer bom uso disto. Você não é o cara mais interessante que tem, mas em tudo se dá um jeito. ─ e olha para o breu, em direção ao chão ─ E vou deixar o tapete de bem-vindo aqui na porta… para que minha filha se sinta bem-vinda.

Em um passo, seu corpo adentra o breu, parecendo ser absorvido por ele. Davi teria berrado para que não fosse, para que ficasse e negociasse. Eu posso ver sua filha pra você, observo cada passo dela, te digo o que você quiser. Mas nunca nenhuma parede pôde manifestar tamanha eloquência.

***

Em algum momento, Davi se esqueceu de que era Davi. Ainda preservava alguma consciência sobre si próprio, acompanhada de um claro arrependimento. No entanto, não se lembrava do que se arrependia. No começo, tivera muitos porquês. Por que fui entrar no apartamento? Por que não fui morar com mais gente? Por que não ouvi minha mãe? Perguntas que faria chorando se tivesse como chorar. Antes do arrependimento, veio o terror, o pânico, mas nada que pudesse realmente sentir. Nada de coração saindo pela boca, pelos arrepiados, respiração atravancada… Não. Paredes não tem nada disso. Quando tentava fugir, acabava pulando de cômodo em cômodo. Quando tentava fingir que era um sonho e que acordaria, não acordava, pois nem sequer dormia. Paredes não dormem. E então ele se esquecia. E se lembrava que esqueceria, tal como aquela coisa que lhe roubara o corpo lhe dissera que aconteceria. E então o terror assumia de novo, ciclicamente até que perdesse as esperanças e, com isso, criasse aquele profundo arrependimento. Arrependimento de tantas coisas que logo esquecera e, com isso, esquecera a si mesmo. Uma consciência arrependida, cimentada em todas as paredes arruinadas daquele apartamento.

E um dia os homens entraram e, com eles, móveis, eletrodomésticos, coisas para ocuparem os inúmeros espaços vazios da casa. Pouco do que entrara era novo e, ao todo, os móveis eram igualmente poucos. Os homens foram embora e os substituem um casal, uma moça e um rapaz, os dois bens jovens. Davi os vê. Pode enxergá-los de onde quiser, embora nem se dê conta, já tão acostumado à sua limitada onipresença. Não sabe como entende que são jovens ou que se trata de um casal, conceitos que vem do longe de uma mente praticamente perdida. Os observa com uma atenção que havia perdido tinha muito tempo. De algum modo, enquanto vê a moça sentada no sofá, sabe que ela está triste. O companheiro dela também sabe.

─ O que foi, bebê?

Ela dá de ombros, ele se senta ao seu lado, toma-lhe a mão com suavidade. Ela se vira para ele.

─ Eu não queria ter vindo morar aqui… é estranho. Não quero nada dele.

Ele se aproxima dela. Davi pensa que são casados, é uma intuição que não compreende, mas existe.

─ Olhe. Eu sei que você tem um histórico terrível com o seu padrasto, mas ele sumiu, não foi? Não existe mais, não precisamos lidar com ele. Agora que casamos, temos que aproveitar coisas como esse apartamento, já que não temos dinheiro algum…

─ Você não entende! Quando eu era mais garota, tinha uns treze anos… ele quis me mostrar as coisas que fazia… você sabe que eu não sou supersticiosa, mas… não eram coisas comuns, sabe?

Ele não sabe e, antes que pudesse saber, ouve alguém tocar na porta, eles se entreolham, nenhum dos dois esperava visita e é o primeiro dia de mudados, as coisas ainda estando soltas pelo apartamento. Quando o marido vai abrir a porta, tudo o que Davi enxerga é aquele breu, mas de lá vem uma voz que reconhece.

─ Olá, vocês são os novos vizinhos?

Eles se cumprimentam, o marido explica que sim, o convida para entrar e, do breu, sai um rapaz. Olhando aquela figura, a consciência que uma vez foi Davi se acende em ira, um sentimento que ganhara poeira na desolação de seu ser. O casal trouxe um espelho para a parede da sala, onde nenhum dos dois percebe que o reflexo do rapaz é totalmente diferente do rapaz em si. No espelho há o marido conversando com a figura de um cadáver que persiste em viver, avançado em um grau de velhice que o distancia de qualquer semelhança humana. No entanto, tanto o casal como o visitante percebem que a parede com o espelho começou a tremer com tanta força que se continuasse aumentando, quebraria a peça. Quando eles se viram para o espelho, o visitante se põe de joelhos. Explica que teve que amarrar o tênis. O tremor cessa. O marido continua olhando para o espelho, perplexo.

─ Foi um terremoto?

─ Nunca teve um terremoto por aqui. ─

Quando o rapaz volta a ficar de pé, é com um passo para trás, longe do alcance do espelho. O piso ainda captura o seu reflexo distorcido, no entanto. Só Davi vê e, nesse momento, mesmo que não saiba, é algo que percebe enquanto Davi, pois age por através da raiva que só Davi poderia ter. A ira o humaniza.

─ Bom, foi muito bom conhecer vocês, se tiverem mais terremotos, a gente se fala.

O casal ri, o jovem vizinho se vira para abrir a porta, mas ela resiste, como se alguém a puxasse do lado de fora. Ele força um puxão, a porta se move um centímetro e volta com um estrondo. O marido se aproxima para ajudar, mas o chão treme com tanta violência que o desequilibra dois passos para trás e, intensificando, o derruba. A esposa grita, o rapaz se manteve de pé apoiado na parede, tentando não cair. Como aconteceria com gelo fino, uma rachadura traceja desde a parede oposta até a porta, bem embaixo do visitante, cortando o seu reflexo disforme ao meio. A porta se abre, enfim. O casal está atônito, mas o jovem vizinho sabe o que aconteceu. A coisa que possui o corpo de Davi olha para cima, para o teto, como se o encarasse.

E Davi ainda está ali. Por enquanto.

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20 comentários em “Se as paredes falassem (Tiago Arjolo)

  1. Lolita
    19 de outubro de 2017

    A história – Tornar-se uma consciência perdida em cimento. A ideia mais apavorante desse desafio.

    A escrita – Sim, amigo, a escrita está confusa. Inicialmente eu pensei que fosse estilo, a tentativa de emular um jovem falando. Depois percebi que, realmente, eram problemas. No entanto, a ideia é excelente e o texto possui uma força muito interessante. Gramática se aprende, essa luz que o teu conto traz não se consegue em qualquer esquina ou leitura de manual.

    A impressão – Um texto assustador, que merece uma revisão. Parabéns e boa sorte no desafio.

  2. werneck2017
    17 de outubro de 2017

    Olá,

    Um texto com uma boa ideia e que vai bem até certo ponto. Eu concordo com o colega que falou: se ele queria tomar conta da filha, ele conseguiria fazer isso muito melhor do plano espiritual do que do plano físico no corpo de um jovem que nem financeiramente independente aparenta ser. Além do que, dentro das paredes do apartamento renderia muitas cenas interessantes. A partir de quando o corpo de Davi é sequestrado, há uma urgência para o desfecho, alterando o ritmo de leitura.

    Quanto à estrutura, o texto é fluido no começo, seguindo numa leitura fluente, mas depois se torna confuso e, como sugestão, aconselho a reescritura, inclusive para rever certas construções frasais e erros de gramática.

    Boa sorte no desafio!

  3. Lucas Maziero
    16 de outubro de 2017

    O conto está mal escrito, e o estilo (maneira de expressar os pensamentos) está um tanto confuso. Esse descuido com o texto causa um dissabor, fica-se a pensar se foi escrito de qualquer jeito, ou se se trata de um descuido não intencional. Porém, do outro lado da moeda, temos a ideia, não que seja original, pois almas presas num recinto, corpo que é tomado por outra alma, já foram vistos em filmes, livros… Não senti grande emoção ao ler, MAS (é um grande mas) não desgostei da história.

    Entendi que o velho comprou o apartamento para a afilhada e que, após morrer, de alguma forma, manteve-se aprisionado no lugar ou por vontade própria ou por algum fato não explicado. E sabe-se lá como, já em alma, adquire um poder sobrenatural de aprisionar qualquer alma de sua escolha no mesmo apartamento (o que para mim é um ponto fraco). Mais valeria permanecer ali, uma vez que a afilhada herdou o apartamento e ali foi morar com o marido. Assim, o velho poderia observar melhor a filha, como ele mesmo disse. Ao contrário, tomou o corpo de um jovem, e, seja por maldade, seja por reação da própria troca, o jovem vizinho ficou aprisionado no apartamento. Consequentemente esse jovem poderia também roubar o corpo de outra pessoa, ou reaver o seu, e é o que se entende pelas palavras finais: E Davi ainda está ali. Por enquanto.

    Creio que a intenção foi criar uma situação angustiante e terrífica: alma separada do corpo e aprisionada no apartamento, enquanto outro possui o corpo; realmente é uma situação pavorosa, porém o desenvolvimento dessa ideia não me agradou, devido àquelas falhas de nexo (como a alma do velho tinha esse poder?; por que o velho não permaneceu no apartamento?).

    Outro detalhe: o fato de postar fotos nas redes sociais não teve peso na história, pois não refletiu em nada nos demais acontecimentos. E afinal, por que o velho, já no corpo do jovem, removeu uma lâmpada? Não entendi.

    Apesar de tudo, me deixei levar pela história.

    Parabéns!

  4. Luis Guilherme
    16 de outubro de 2017

    Boa tarde, amigo!! Ce ta bao??

    Como tenho dito, esse desafio me agrada particularmente, ja que adoro o genero. Por isso, tenho lido com bastante expectativa. Dito isto, vamos ao seu conto:

    Olha, seu conto tem dois momentos opostos, pra mim. Eu tava gostando MUITO ate a parte q ele acorda “flutuando” e sem saber oq aconteceu.

    Ate ali, o conto tava incrível, serio! Depois, nao gostei muito do rumo que tomou, achei que perdeu a força. É como se fossem duas historias diferentes pra mim. Uma pena, acho que se seguisse naquela pegada, seria um conto grandioso.

    Ainda assim, eh bom. Eh criativo e interessante.

    A escrita em alguns momentos eh un pouco confusa, especialmente no final, eh como se o autor tivesse cansado ou perdido o fôlego, nao sei.

    Enfim, acho que eh isso: o conto coneço muito bom, interessante, misterioso, com uma dose excelente de suspense, mas pra mim decai drasticamente no ponto que citei, perdendo a força e perdendo o suspense que era a alma do enredo.

    Bom conto! parabens e boa sorte!

    • Luis Guilherme
      16 de outubro de 2017

      Voltei pra ressaltar um ponto: a primeira parte (é, ainda to pensando nela), dentre as que coloquei, tá mto boa.. e queria sugerir algo: se vc pegasse e seguisse naquela pegada de suspense, sem entrar no sobrenatural, mais na questão da sensação angustiante de ser observado e provocado, acho que poderia ter otimos frutos.

      Veja bem: quem sou eu pra dizer oq vc deve fazer do seu texto? Oq to dizendo é só uma sugestão, e você já teria um leitor, caso deseje segui-la.

  5. Edinaldo Garcia
    16 de outubro de 2017

    Escrita: Para mim é um dos melhore enredos que li até agora no desafio. Só achei o final um pouco cansativo depois que o protagonista perde o corpo, mas entendo que o ritmo lento foi para dar carga dramática à situação, e você conseguiu. Oh, se conseguiu! Gostei bastante do início, do mistério, da ambientação, da sequencia de cenas construindo o terror aos poucos até o clímax. Você é realmente um excelente contador de estórias.

    Terror: Muito bem construído.

    Nível de interesse durante a leitura: Depois que ele perde o corpo eu senti que a leitura ficou cansativa, mas sei que esse problema é meu e não do seu enredo.

    Língua Portuguesa: Ortografia e uma parte da gramática. Percebo que muitos colegas escritores aqui não fazem diferença de um e outro e apontam erros ortográficos como sendo erros gramaticais, não que esteja errado, mas acho muito pesado apontar erros de digitação como erros de gramática. Pra mim você mandou mal nos dois. Conjugação verbal, concordância verbal e nominal, uso de pronomes, palavras repetidas em excesso causando cansaço à leitura, Eu sei que é muita coisa, mas a vida é isso mesmo, aprendendo aos poucos e sempre caminhando. Ora, o seu enredo é sensacional, não seria justo perdermos um grande escritor só porque ele não quer estudar língua e linguagem literária, afinal essa é sua ferramenta de trabalho como o corpo está para as modelos, o preparo físico para um atleta enfim…

    Veredito: Grande enredo, mas infelizmente a linguagem deixou a desejar. Imagine um filme incrivelmente bom gravado com câmeras de baixo custo.

  6. Fheluany Nogueira
    14 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – Suspense, tensão e uma trama bastante original. O tapete e o celular são usados como chamariz para que uma alma maléfica tomasse o corpo do rapaz e prendesse a dela na parede. Ótima e assustadora ideia.

    Escrita e revisão – muitos e variados problemas: uso dos tempos e modos verbais, dos pronomes, concordância, mas uma boa revisão dará conta de tudo.

    Terror e emoção – o impacto ficou meio comprometido com as repetições e o final cíclico (a história recomeçaria com o rapaz tentando tomar o corpo de outrem). Alguns trechos também estão confusos, dá para se perder o fio da meada entre corpos e almas. A resposta no bilhete foi um bom recurso de continuidade.

    Parabéns. Abraços.

  7. Ana Maria Monteiro
    12 de outubro de 2017

    Olá, Tiago. Bem, quanta pancada tem levado por conta da gramática e da escrita. Nem tenho coragem para falar mais disso. Por esta altura, você já percebeu que vai ter de rever isso. O seu conto tem um ponto de vista muito original e está muito bem narrado. Adequa-se perfeitamente ao tema do desafio e revela imaginação autoral e muita capacidade para desenvolver. Está tudo bem, a história funciona, tem um toque de ironia cínica sobre toda a nossa vida cibernáutica. Faltou um pouco mais de densidade no velho, isso sim. Imagine-se, daqui a muitos anos, a contar esta história aos seus netos no halloween: o que você vai acrescentar? mais carga sobre o velho, não é? ele precisa ser mais real. Você é um contador de histórias, que é precisamente o que eu penso que um escritor deve ser. Escrever muito bem não é suficiente, pode até resultar em coisas muitos aborrecidas de ler. Mas saber contar também não é suficiente, há que passar as palavras para o papel de maneira a que resultem bem na leitura. Esta parte treina-se, aprende-se e apreende-se, a primeira não. A primeira ou se tem ou não se tem e você tem.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  8. Antonio Stegues Batista
    12 de outubro de 2017

    ENREDO: Rapaz ouve barulhos no apartamento vizinho que está vazio e descobre que é ele mesmo, no futuro, em outra dimensão, não consegui ficar sabendo. A ideia é boa, mas o desenvolvimento da história é confusa.

    PERSONAGENS: fracos, com pouca descrição e conteúdo de personalidade.

    ESCRITA: O texto tem descrições muito longas e inúteis, parece que foram colocadas apenas para atingir o limite de palavras. A maioria das frases são ruins e tem problemas. Você escolheu mal a palavras para compô-las Existem dezenas de palavras para formar uma frase com o mesmo sentido e você escolheu as piores. Por exemplo; ” Ouve os passos do síndico virem acompanhados de pragas meio ditas. Não existe meio ditas, a não ser palavões, ou palavras pela metade, o que não faz sentido. ” Ouve os passos do síndico se aproximando e murmurando pragas…” É uma maneira de dizer a mesma coisa com mais clareza e lógica.

    TERROR: Devido ao excesso de descrições e confusão nas cenas, não deu para sentir. A história é boa, só precisa de uma boa lapidação. Boa sorte e não desanime. Paciência e trabalho (escrever) é o que eu recomendo. Boa sorte.

  9. Paula Giannini
    10 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    Escrevi um comentário imenso e, na hora de publicar, deu erro. Vamos ver se consigo retomar.

    Seu conto prova aquilo que dizem os grandes mestres de nosso ofício de contar histórias. Escrever correto se aprende, é só estudar, se dedicar, contratar um bom revisor, sei lá. Mas se aprende. Porém, escrever uma boa história, é para poucos. Isso é dom. E você é uma ótimo contador de histórias.

    Uma vez assisti, em uma viagem ao Ceará, um espetáculo de teatro chamado “A Casa”. Na peça, a casa era um personagem vivo e assistia a vida de seus habitantes. A casa via as crianças crescerem, virarem velhos, morrer, as brigas, os amores, as heranças, o abandono, enfim. Em contraponto o casarão sofria, acompanhando os rumos daquelas vidas.

    Seu conto me remeteu ao espetáculo, do qual gostei muito. Tanto é que lembro dele até hoje, mais de 10 anos depois.

    Em seu texto, o que assombra é igualmente a casa (o apartamento). É interessante notar que o que assombra o rapaz até se mostra como um velho mas, o verdadeiro foco é o espírito capaz de “possuir” aquelas paredes. Desse modo, o terrível velho (ou no caso, depois, o rapaz) se tornaria onipresente, vigiando a moça 24 horas por dia, de todos os ângulos e de qualquer lugar dentro de sua própria casa, no entanto ele opta por trocar de lugar e aprisionar o rapaz nas paredes. Assim, além de vigiar, ele poderá interagir com a moça. Puro terror.

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  10. Regina Ruth Rincon Caires
    10 de outubro de 2017

    Leitura complexa, colocações ambíguas geram uma confusão de ideias. Seria interessante fazer uma revisão criteriosa, bem detalhada, o texto ganharia mais fluência. O enredo é muito interessante, o texto merece ser aprimorado. Tem uma construção inteligente. A leitura é tensa, assustadora. Acho que é um conto que realmente trata de terror. Gostei muito da trama.
    Parabéns, Tiago Arjolo!!!!!!!!!!!!

  11. Rafael Soler
    10 de outubro de 2017

    Caro, escritor(a), gostei muito do seu conto! A trama me pareceu clichê no início, mas tomou rumos inesperados que me surpreenderam demais.Achei excelente o conceito do protagonista ficar preso ao apartamento e tudo o mais.

    Mas o material parece muito cru. Se puder reescrevê-lo, tomando cuidado com a gramática e melhorando um pouco a estrutura, tenho certeza que a obra ganhará muito valor.

    Excelente trama, mas a execução pode ser melhorada.

    😀

  12. Nelson Freiria
    10 de outubro de 2017

    Tenho que dizer, já tive um tapete igualzinho esse da foto, até a cor era a mesma. Mas ele é tão feio que vizinho algum ousou roubar.

    Essa coisa de prédio assombrado sempre me lembra algum filme japonês. Mas enfim, o conto é bem interessante, consegue provocar vários momentos de tensão. Achei legal a figura do velho e suas ações, mas se a intenção dele era tomar conta da filha, a impressão que tive era de que ele conseguiria fazer isso muito melhor do plano espiritual do que do plano físico no corpo de um jovem que nem financeiramente independente aparenta ser. Mas isso é só uma especulação, pois não fica exatamente claro de como funcionam os elementos sobrenaturais da trama.

    Quando Davi fica separado de seu corpo, o conto ganha novo fôlego, talvez aí desse para explorar um pouco mais algumas imagens de terror.

    O(A) autor(a) tem uma linguagem bem próxima da fala, ou seja, erros que representam nossa comunicação desleixada, mas que se faz entender. Só não sei se foi proposital. O ritmo do texto é bom, li tão rapidamente que fez parecer que o conto tinha menos de 2 mil palavras. Mas algumas coisas soaram repetitivas, outras poderiam ser ditas de outra maneira, o sindico poderia ser um pouco menos debochado… isso faria o texto ficar redondinho.

  13. Andre Brizola
    9 de outubro de 2017

    Salve, Tiago!

    Cara, se você me permite uma comparação meio estapafúrdia, vou comparar seu conto a um diamante não lapidado. Trata-se de algo com muito valor em seu estado bruto, mas que se for “tratado” vai virar algo único. Você já viu nos outros comentários que uma revisão faria bem ao texto. Mas, pra mim, o mais importante é que ele tem um potencial gigante. É um dos melhores enredos até o momento, tem uma ambiência artificial muito legal (que acaba tornando-se personagem, inclusive), e todos aqueles clichês bem vindos em uma história de terror (pois, afinal, é do que se trata o desafio). Mas, talvez ele sofra neste desafio pelo fato de estar nesse estado pré-lapidação.
    Não sei qual foi a sua intenção original, mas eu imaginava o desenrolar em três atos, sendo o primeiro a descoberta, o segundo o confronto/derrota, e o terceiro uma consolidação da situação (com Davi talvez tornando-se uma própria entidade maligna), ou um confronto final, onde a vingança seria o ápice. Do jeito que ficou eu acabei sentindo falta de um desfecho mais grandioso. Mas, reafirmo, o enredo é muito legal e a opção por esse final é compreensível.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  14. Paulo Luís
    9 de outubro de 2017

    É um conto peculiar, visto que um ser transforma-se em matéria, o que leva a certa confusão de ideias. Em alguns momentos, não se sabe se o apartamento é o terror, ou se o terror é que está dentro do Davi. E com a chegada do novo visitante a coisa passa por certa exacerbação de ideias para a conclusão do enredo, no meu entender mal elaborado. Algumas construções de frases ajudaram a prejudicar o texto. Precisando de uma boa revisão. A ideia do tema é muito boa, se melhor trabalhado tornar-se-á um grande conto.

  15. Eduardo Selga
    9 de outubro de 2017

    O uso de um espaço ficcional tipicamente urbano, o apartamento, para desenvolver um conto de terror, apresenta alguma originalidade, na medida em que sabemos o quanto é comum espaços mais clichês como cemitério, casas mal assombradas, floresta e espaços ocupados pela noite. O problema, acredito, é que o espaço ficcional no conto não foi agraciado com uma ambientação, de modo que sabemos que os espaços principais são dois apartamentos porque a narração nos diz, porém falta-lhes, por assim dizer, concretude.

    Não seria uma nódoa se o narrador claramente indicasse ao leitor que outros elementos da narrativa são o ponto central da narrativa, como personagem. No entanto, isso não ocorre e, como se trata de uma apartamento mal assombrado, a ambientação do espaço se torna fundamental.

    O protagonista tem alguma consistência, embora me pareça que sua reação diante da morte prematura tenha sido natural demais para um jovem. O velho, ao contrário, é excessivamente tênue em sua construção enquanto personagem, falta-lhe substância. Talvez tivesse sido mais produtivo reduzir o espaço do síndico e aproveitar o espaço aberto para melhorar o perfil do velho.

    Outro ponto delicado é a escolha temporal. Ao elaborar-se uma narrativa toda no presente é preciso ter em conta que os verbos nesse tempo, quando em quantidade, podem soar arrogantes na recepção textual. É como se não tivessem na verdade no tempo presente e sim no modo imperativo. Além disso, o presente, quando a narração não é feita pelo próprio personagem, não causa a mesma sensação de credibilidade de uma narrativa feita no pretérito, ainda que o narrador não seja o personagem. Aquilo que já aconteceu carrega consigo certa aura de confiabilidade exatamente porque já aconteceu. A ação que acontece (presente) pode soar, na recepção textual, como incompleta.

    O presente, contudo, pode ser muito útil na provocação do efeito de suspense. No conto, porém, esse efeito não se deu, na medida em que as cenas são frágeis do ponto de vista dramático.

    Há sérios problemas de escolha vocabular, fazendo com que algumas construções frasais fiquem enjambradas. Por exemplo, em “[…] E agora eu saí pra ir comprar umas coisas e voltei pra não encontrar o meu celular”, parece que o objetivo do personagem ao retornar é descobrir que seu aparelho telefônico sumiu, quando na verdade o retorno apenas constata o desaparecimento. Noutras, palavras, o segundo PRA foi uma má escolha.

    Outro exemplo é “[…] o homem fez uma decisão […]”: decisão não se FAZ e sim se TOMA.

    Há muitos outros casos assim.

  16. Fernando.
    8 de outubro de 2017

    Olá, Tiago Arjolo, que bela história você me apresenta. Desde o início do desafio procuro por um conto que verdadeiramente me gerasse tensão. Sinto que a sua história cumpriu este meu anseio. Parabéns. Você consegue criar um enredo realmente assustador e me conduziu para dentro dele e isto, Tiago, mesmo com os vários problemas que vi na sua forma de escrever. Sim, é preciso que você revise bastante o seu texto. Ele tem alguns problemas que, sanados, farão com que a sua história seja colocada dentre as mais brilhantes desse desafio de terror. Bem, quem está escrevendo isto é alguém que entende pouco desse assunto, mas creia-me, sua história é muito legal. Valerá bastante a pena investir mais nesses cuidados com ela. Parabéns.

  17. Fabio Baptista
    8 de outubro de 2017

    Olá, autor.

    Ao começar a ler o conto, pensei que viria uma bomba: falhas de revisão, narrativa no tempo presente (gerando as inevitáveis confusões de tempo verbal), emprego equivocado de pronomes, falhas de concordância, etc.

    Os erros permanecem durante todo o texto… comecei a listar, mas parei. O texto precisa ser totalmente reescrito, na minha opinião, de preferência usando os verbos no tempo passado – só esse elemento já daria outra cara para o conto. Caso o faça e tenha interesse numa revisão mais detalhada, me envie depois do desafio, por favor.

    No entanto, apesar da parte técnica comprometida, achei a premissa bem interessante e, veja só, acabou sendo um dos contos que mais conseguiu criar suspense até aqui. O mistério sobre “quem afinal está no apartamento ao lado?” é ótimo e o uso do tapete como armadilha foi bem criativo.

    Tudo ia bem até nosso protagonista (cujo nome se repete à exaustão, aliás) ter o corpo roubado e a alma emparedada. Depois tudo ficou bastante repetitivo, dando voltas e voltas para narrar algo simples. Também a dualidade Davi corpo e Davi alma acabou gerando certa confusão em alguns momentos. Destaco esse trecho já próximo do final: “Só Davi vê e, nesse momento, mesmo que não saiba, é algo que percebe enquanto Davi, pois age por através da raiva que só Davi poderia ter.”.

    Falando em final… aqui temos o caso do “aberto demais”, dando para o conto uma indesejada cara de prólogo.

    Abraço!

  18. Olisomar Pires
    8 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: alto

    Narrativa/enredo: espírito assume o corpo de outra pessoa para voltar à “vida”. A alma do corpo tomado foi jogada na construção do apartamento e vê a situação se complicar.

    Escrita: alguns errinhos de tempos verbais, mas nada que me travasse a leitura. O tom é contemporâneo e jovial.

    Construção: O início estava meio sem graça com o jovem perturbando todo mundo, um inicio despretensioso.

    Mas a partir da descoberta do bilhete com o “venha visitar” o terror começou e ficou muito bom.

    Talvez algumas descrições não tenham ficado tão cristalinas e possam ser refeitas, mas temos aqui um bom conto de terror.

  19. Angelo Rodrigues
    8 de outubro de 2017

    Caro Tiago,

    vejo no seu texto uma representação bastante característica do que rola no Wathsapp e no Facebook, e você não nega isso quando faz relatos acerca desses veículos.
    Ficou-me claro que eu precisaria ler o seu conto imaginando o que você quis dizer e não o que você disse efetivamente. Todo o texto me pareceu carecer dessa minha engenharia. Não é esse o objetivo desse desafio, acredito.
    Acredito também que o seu texto precise de uma profunda revisão de língua e linguagem, estruturação e profundidade temática.
    Em outro post falei que o contista havia abordado três terrores em seu relato quando falou de ratos, namoradas e mães. Volto aqui a falar disso quando li: “Polícia? Sua mãe? Quem ele chamaria?” Bárbaro quando você põe no mesmo patamar a mãe do David e a polícia. Imaginei a velha quebrando o pau no apartamento ao lado.
    Se posso recomendar alguma coisa, digo que reescreva e reescreva.

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Informação

Publicado em 7 de outubro de 2017 por em Terror.