EntreContos

Literatura que desafia.

“A Morte Pede Carona” (Rutger Hauer)

O relógio na parede tiquetaqueou um quarto de hora passado das oito. A buzina da caminhonete vermelha abriu o berreiro em frente ao portão da garagem. Beto pulou do sofá, como se tivesse sido pego em flagrante por cochilar em serviço. Apanhou a camisa abraçada na cadeira, calçou as botas West Coast, pegou a carteira e as chaves. Bateu a porta, girou a maçaneta. Fechada. Girou outra vez. De novo. Continuava fechada.

Nando batucava os dedos na buzina, no embalo da melodia sertaneja esganiçada nos alto-falantes do carro, ultrapassando os decibéis permitidos na legislação municipal, e também o bom senso.

− Oh meu, dá pra parar? Desliga essa droga – gritou Beto ao chavear o portão.

− Cara, te chamei no celular, esqueceu o horário? – respondeu Nando na mesma altura, antes de desligar o rádio.

− Merda, peguei no sono. Pegou o endereço do sítio? Abasteceu? – perguntou o irmão enquanto enfiava a camisa por dentro da calça.

− Tá tudo dominado, bora! Tô louco pra dar uns amassos na gostosa da Manu.

− Tomara que ela não vá.

− Despeitado, só porque tomou um toco da Soraia.

− Eu hein, nem tinha nada com aquela vaca. – Ajustou, na posição vertical, o encosto do banco arriado igual cadeira de dentista.

− Sei. Saiba que a vaca também vai.

− Prefiro encontrar o diabo a aquela doida. – Afivelou o cinto de segurança; girou o botão da ventilação no máximo, reclamou por causa da brisa de hálito quente enfiando-se entre os vidros baixados.

Nando dirigiu até a saída da cidade, autocondecorada como a Capital dos Javalis, onde um dia deixou e jurou nunca mais voltar, porém voltou; contornou a rotatória na qual havia um imenso painel de alumínio ostentando os dizeres: “Benvindo à Coroinhas” (assim mesmo, na grafia incorreta e craseado), e entrou na rodovia estadual, onde trafegariam até a estrada secundária que os levaria à estradinha de chão batido, habitada por propriedades rurais. O asfalto ainda não tinha esfriado do calor escaldante que castigou todos os seres inanimados e vivos, durante o dia.

− Liguei pra mãe, não atendeu. Ninguém atende celular naquela casa – protestou Nando.

− Hoje é dia do centro espírita. Puxa, e eu deixei o telefone em casa.

− Tá na hora dela arrumar alguém, né? Mas no centro espírita só vai namorar fantasma – soltou uma das suas gargalhadas esquisitas.

− Não sei qual é a graça. E antes só do que arrumar outro imprestável. – A lua cheia gratinada, emoldurada no para-brisa, iluminava a pista. O pensamento voou até a silhueta escura dentro da lua, feito as sombras do passado refletidas no espelho retrovisor.

− Na boa, só vai saber se não presta, se conhecer alguém. Acho que ela já aprendeu a se defender. – Apontou à placa de sinalização que indicava a distância à estrada vicinal.

− Não tô a fim de falar disso – resmungou Beto, de cara amarrada.

− Tá na hora de falar, já faz três anos.  

− Está de gozação, né? Quer discutir a relação? Parece a mãe. Vem cá hein, pegou o endereço certinho? Ligou o GPS?

− Cê já perguntou. Fica gel, daqui a pouco entramos na secundária, no Km75 pegamos a estradinha do Boqueirão, no GPS tá tudo belezinha − confirmou de relance no aparelho, preso por um suporte com ventosa no para-brisa, que nem chiclete grudado na vidraça −, mas deve ter algum posto de gasolina naquelas bandas, a gente “pergunta lá no posto Ipiranga”.

− Perguntar pra quê? Não “tá tudo dominado”? – debochou num sorriso polido, entre viradas de pescoço para acompanhar os veículos que trafegavam na direção contrária; contava de cabeça, os automóveis que cruzavam por eles.

Nando deu sinal à direita, saiu da estrada pelo acostamento e entrou na rodovia secundária pavimentada, ladeada por placas de sinalização, campinas, matagal, algumas casas velhas e botecos de beira de estrada. A vicinal esburacada e sinuosa pedia juízo na cachola. Sessenta. Oitenta e cinco. Noventa. Cento e cinco por hora.

− Alivia o pé, mano. Não viu a placa dos oitenta por hora?

− Deixa de ser cagão, conheço este chão que nem as curvas da Manuzinha.

Beto abriu o porta-luvas, abarrotado de CDs, um canivete, lanterna, camisinhas. Fechou o compartimento. Abriu de novo. Apertou a portinhola. Novamente. O irmão espichou o rabo do olho direito; o esquerdo manteve na estrada.

− O que foi?

− Preciso de um pente. – Os dedos garfaram o cabelo castanho arrepiado.

− Pra quê massacrar o porta-luvas? Quantas vezes lavou as mãos hoje?

− Não enche.

Ele não via a hora de chegar pra tomar umas geladas, a fim de acalmar o familiar azedume e a sede do calorão. Adiante, o breu da estrada; ao seu lado, no volante, um sujeito mala, filho da sua mãe, com conversas inconvenientes, e que fingia conhecer o caminho, e pra piorar, não tinha ar condicionado e nem pente naquela joça de carro − resmungou aos botões da camisa xadrez.

O porta-luvas chorou de dor na melodia de Gustavo Lima. Ele olhou o rádio desligado.

− É o meu celular, atende.

− Onde tá?

− No porta-luvas demolido.

Beto pegou o aparelho entre os preservativos jogados na bagunça do compartimento.

− Oi mãe. Sim, ele te ligou pra saber de mim. Tá bom. Estamos indo. Oi? Fala mais alto, cortou a ligação, alô? Oi, repete. Ah, não se preocupa. Tá bom, voltamos quando clarear o dia, tchau.

− “Pegou o casaquinho, tomou o remedinho?”. Ela nem perguntou por mim, né?

− Como assim? Ela ligou pra ti.

− Ligou porque eu liguei, ela queria falar era contigo, sabe que é o filhinho da mamãe.

− Hum, não sou só eu o despeitado.

− Despeito é pros fracos, é realidade mesmo.

− “Cara, tá na hora de falar sobre isso”. – Beto cutucou novamente, num sorriso triunfal de canto de boca.

− Coloca um CD, não quero mais ouvir a sua voz.

− Só tem lixo aí dentro.

− Lixo são aquelas suas músicas deprê: Cordiplay, Nerrvana, fala sério. Os caras morrem tudo de tiro na cabeça ou cheio de drogas.

− Deixa de ser preconceituoso.

− Não vai colocar? Então vou cantar uma das suas, agora aguenta.

Soltou o gogó na voz de pato: “Meus heróis morreram de overdose…, ideologia…”. Beto rendeu-se às palhaçadas, soltou os arreios e o sorriso franco.

Os faróis altos iluminaram a silhueta ziguezagueando na pista. Nando engoliu as sobras do refrão e espremeu os olhos para desembaçar a visão, reduziu a velocidade, segurou firme no volante, como se carregasse a caminhonete na ponta dos pés.

− O que é aquilo? – perguntou Beto, com o nariz adunco enfiado no vidro dianteiro.

O automóvel aproximou-se do vulto na estrada. Eles enxergaram um homem cambaleante e maltrapilho. Estavam a um palmo do sujeito, de braços estendidos em direção aos dois.

− É um velho bêbado…. – murmurou Beto.

Nando deu uma guinada no volante para desviar dele. Seguiu-o de olhos grudados no retrovisor, sentiu arrepios na espinha ao vê-lo parado no meio da rodovia olhando a caminhonete vermelha desaparecer na escuridão.

− O que esse doido faz aqui? Viu o rosto dele? Parecia um zumbi. – Pisou fundo no acelerador.

− Tá vendo muita Netflix, é só um velho bebum, deve ter saído daquela bodega que vimos há pouco.

− Não quis discutir a relação, não disse preferir ver o diabo à Soraia? O capeta te ouviu. – Relaxou a coluna, forçou uma gargalhada sinistra para acalmar a tensão.

− Velho trouxa, que saco! Acordar no susto, neste calorão, dá nisso. Agora ainda um bêbado pra me irritar, isto é perseguição.

− Vixi, azedou, não consegue esquecer hein? – Nando havia jurado nunca mais convidar o irmão mala para as festanças, mas como não ouvia nem a si próprio, deu de ombros.

− Esquecer? Depois de tudo o que ele fez pra mãe?

− Era nosso pai, e pai é pai.

− Aquilo não era pai, era um bêbado covarde, a mãe padeceu na sua mão. Teve o fim que mereceu, morreu afogado na cachaça – esbravejou na certeza de que deveria ter ficado em casa dormindo.

− Isso tá te deixando doente, tem de se libertar disso, meu irmãozinho.

− Pra ti é fácil falar, se mandou pra capital e deixou a bomba comigo, não viu o que a nossa mãezinha passou nos últimos anos de vida daquele ordinário.

− Cara, crescemos vendo as brigas, a bebedeira, o sofrimento da mãe. Eu queria estudar na cidade grande, a mãe fez a escolha dela, não podíamos resolver por ela, queria o quê? Que eu me afundasse mais, que nem você? – Soqueou o volante, doido de vontade de socar o carona. – E até parece que cê também não bebe, santinho.

– Eu sei me controlar.

– Sei. Eu vejo os seus controles.

– Vai se catar! Estudar na capital pra quê? Engenheirinho de merda. – A visão turvou de vontade de arrancar a jugular do motorista.

– É ambiental. O nome é engenheiro ambiental.

– Arrah, capataz de fazenda agora é engenheiro ambiental, me poupe! E te liga na estrada, mané, olha os buracos.

Nando enxergou pelo retrovisor o veículo de trás dar sinal para ultrapassá-lo na subida da encosta, reduziu a velocidade e buzinou para o Gol, recebeu o cumprimento de volta.

As acusações mútuas prosseguiram por mais alguns quilômetros.  Beto, com a mão grudada na alça do puta merda, jogava na lata do irmão o fato dele tê-lo deixado sozinho com a mãe, e que era canalha com a família, com as mulheres, igual o pai; Nando, preso ao volante,  vomitou dele não ter tido coragem de enfrentar o pai e nem de ter saído daquela cidade-buraco, pois era cagão igual a mãe. O palavreado jorrava em cascatas de deboches e insinuações de ambas as partes.

– Voltou só por causa do inventário.

– Voltei pra fazer a minha parte, cuidar de mamis. Hashtag tamo junto, mermão!

– Agora ela está na paz, não precisa mais de ti.

– É o advogado ou procurador dela?

– Não, sou só o filho, coisa que tu não foi.

– Vou te dizer um troço, se eu tivesse uma vidinha fodida, igual a sua, eu me matava. Trintão, morando com a mamãe, sem namorada, acomodado num concurso público. Só não se mata porque é muito orgulhoso.

– Vai se fuder! Criador de javalis, mora de favor numa fazenda, não sabe nem falar direito, e a única coisa que tem na vida é uma caminhonete do século passado. E para essa porra, me deixa aqui, que se dane a festa.

– Huhu! O maninho aprendeu a dizer palavrão. Realmente, como cê sempre disse, sou uma péssima influência.

– Me deixa aqui.

– Tá louco? Te deixar neste fim de mundo, a mãe me mata, e vai me tirar da partilha.

– Eu disse, para!

Nando reduziu a marcha e manobrou até o acostamento. Considerou não ser de todo ruim deixar o preferido de mamãe no deserto do asfalto. Beto abriu a porta, o mormaço de dezembro deixou o ar rarefeito. Avistou o negrume no entorno do matagal, as luzes piscando ao longe, como pirilampos, colocou os pés pra fora da picape, e então ouviu a voz agoniada gritar:

– Entra Beto, entra, agora!

O irmão se jogou sobre o banco do carona e o puxou pelo braço, para dentro do carro. Procurou explicação para o temor no rosto de Nando, de olhar perplexo no para-brisa; virou o pescoço à frente e enxergou o velho estaqueado no meio da estrada. Levantaram os vidros, trancaram a respiração e as portas.

– Como que ele passou por nós? – sussurrou Beto.

– Deve ter pegado carona no Gol.

O sujeito, agora de pernas firmes no chão, encarava, a poucos metros, a caminhonete estacionada. A tremedeira tomou conta dos dois, da ponta dos pés até o alto da cabeça. Beto abriu o porta-luvas, apanhou o celular, sem sinal. Num rompante, jogou a pilha de CDs no chão, pegou o canivete e a lanterna. Nando o segurou pelo braço, implorou para não descer do carro, não era um bom momento para começar a ser valente. Ele se desvencilhou e destravou a porta. O outro foi atrás, contrariado. Caminharam contando os passos. Pararam. Entreolharam-se. Beto jogou os holofotes da lanterna na estrada, sob os faróis acesos, e empunhou a navalha tal qual numa matança de porcos. As batidas descompassadas no peito eram a trilha sonora da marcha no asfalto. Avançaram nas trincheiras. Pararam. A criatura evaporou num piscar de olhos. Beto rodou a West Coast, lembrou-se da caminhonete aberta. Correu na direção do carro, o coração saia pela boca, segurou na maçaneta, a respiração entrecortada. Abriu a porta, pegou a chave na ignição, alumiou os bancos de trás. Vazios. Correu de volta na estrada, gritou o nome do irmão. Nando continuava petrificado no meio da rodovia, de olhar perdido nas marcas de sinalização da pista; à sua esquerda, uma placa vertical enferrujada estampava a identificação do Km71.

– Cadê o desgraçado?

– Não sei. Quem sabe só esteja pedindo carona.

– Isso não é jeito de pedir carona. Vou matar esse bêbado se ele aparecer de novo, vamos embora.

Embarcaram na picape vermelha, os pneus cantaram feito um cavalo relinchando. Discutiam a vontade de Beto de abortar a viagem, quando avistaram o posto de gasolina. Nando conferia com o frentista, com semblante de poucos amigos, a localização do sítio; o irmão sacou da carteira umas moedas e pegou duas Cocas na máquina de refrigerantes. Abriram a porta da caçamba e sentaram na beirada; a adrenalina vertia nos poros das axilas peludas de Nando, reveladas na camiseta regata. Os pensamentos sinistros reverberaram no estômago, junto com o refrigerante de cola. Ele expressou a aflição a Beto:

– E se ele voltar? Já pensou que pode estar nos seguindo?

– Pior que já.

– Se o cretino aparecer aqui, eu pego a bomba de gasolina e meto fogo nele. Vi num filme, os zumbis sempre morrem queimados.

– Não são os vampiros?

– Porra, agora fiquei na dúvida. Mano, me desculpa, eu que fui cretino de ter falado aquele monte de besteiras.  

– Eu também, me perdoa.

– Acho que sempre quis ser que nem você, todo ético, todo certinho, quem sabe a mãe gostasse mais de mim.

– Ela gosta de ti, e não é uma boa ideia ser igual a mim, custa caro sustentar o meu mundo de manias.

O silêncio embalava o cricrilar dos grilos no mato. Por instantes, descansaram da viagem turbulenta dando chutes nas britas do chão, brincando de acertar as latinhas de refrigerante na lixeira e tirando onda do semblante de serial killer do frentista, zoaram de que ele poderia estar ganhando um extra, disfarçado de zumbi na estrada.  

Beto levantou o olhar até o seu parceiro, mais moço do que ele, de rosto encarnado da lida no campo. Reconheceu as mesmas sobrancelhas grossas do pai, os olhos negros, a covinha traiçoeira no canto dos lábios carnudos. A genética repartiu os dois bem ao meio − um as fuças do pai; o outro, da mãe. O caçula se ressentia de nem ao menos herdar os olhos esverdeados dela. O primogênito escolheu não reivindicar nada ao pai − um ser onipresente em casa, quando estava presente, visto que passava as noites enchendo os cornos nas sinucas e puteiros da cidade.

– Nando, tu só me convida pra sair contigo por pena, né?

– Na boa, acho que sim.

– Tudo bem, eu não me importo. Ninguém se importa.

– Mano, cê é o cara! – Abraçou forte o ombro dele, do mesmo modo que um pai abraça envaidecido o filho. – Roberto e Fernando, que dupla dos infernos, hein?! Lembra quando a gente brincava de Batman e Robin?

– Lembro. Tu sempre era o Robin.

– Ahahaha, caçula só se fode.

– Estava com saudade da sua gargalhada de porta rangente.

– Então vamos nos divertir um pouco no sítio, exorcizar a viagem, só estou bolado de chegar à festa neste estado tenebroso, o desodorante venceu faz tempo.

– O meu também.

– Se o miserável aparecer, pego a galera e o cagamos a pau. Cê aproveita que tá cheio de coragem e pega umas mina, e vê se esnoba a Soraia. E eu vou passar o rodo geral, a começar pela Manuzinha. Tamos tão perto, o frentista mascarado disse que a entrada é logo depois do curvão.

– Tá bom, seu canalha, vamos, fiquei com pena de ti.

A melhor parte da viagem sucedeu na reta final da via secundária, antes do curvão. Fernando cantava a plenos pulmões o refrão da música esganiçada no CD: “mas aquele 1% é vagabundoooo”. Depois de anos, riram a mesma risada da época em que brincavam entre o chiqueiro e o galinheiro do quintal de terra preta. Roberto sentiu uma conexão plena com o irmão, há muito não sentida, mesmo sabendo que, dali a pouco, a magia seria quebrada pela metralhadora de bobagens que o caçula cuspiria, cheia de gírias da cidade grande.

Ele tinha razão. A plenitude não durou muito.

O nó nas tripas subiu em cólicas retorcidas, do abdômen até a boca salivada, as pupilas dilataram de desespero do sufocamento como mãos a esganar a sua garganta, as pernas não obedeciam a vontade de sair correndo, o suor escorria aos borbotões pelo corpo e o tum-tum no peito liberou o pedido de socorro num fiapo de voz na língua arrastada.

Nando jogou o carro para o acostamento, desligou o rádio, desceu do veículo em voo rasante, quase arrancou a porta do carona, acendeu a luz do painel, desengatou o cinto de segurança, segurou o irmão desfalecido entre os braços, gritou por ajuda − nos olhos vertiam lágrimas sobre a barba rala −, pressionou o peito dele em movimentos ritmados com as mãos sobrepostas, no ritmo frenético de um, dois, um, dois, implorando para ele não morrer.

Beto retornou aos poucos de um sono ruim. Nadou contra a correnteza para içar as pálpebras que teimavam em sucumbir. Abriu os olhos. Nando alcançou a garrafa d’água no console do painel, colocou o bico da garrafa sobre os seus lábios.

– Mano, temos que ir pro hospital, já! Você infartou bem na minha frente, isso não se faz, cara. – Assoou o nariz no dorso da mão entrelaçada com a do irmão.

Roberto aterrissou de volta na caminhonete, enxugou o rosto ensopado no braço gelado, ajeitou-se no banco, firmou os pés no tapete do carro para diminuir as náuseas e a tontura − soltou bufadas de alívio por sentir o fôlego ritmado.

– Não viaja, foi só o meu orgulho que fraquejou. Tive um ataque de pânico.

– Desde quando tem esse troço?

– Faz tempo, mas só dá quanto te vejo.

O amassamento no peito tirou Nando do posto confortável de filho desgarrado. Os pelinhos do nariz tremularam da respiração ofegante. Perguntou-se por onde andou por todos esses anos, sem ter chegado a lugar nenhum. Amarrou-se no cinto, apagou a luz do painel, girou a chave, deixou o automóvel em ponto morto, mergulhou as ideias na placa do Km75, encravada na beira da estrada. O gelo do momento não passou despercebido.

– Deixa de ser otário, tô brincando.

– Cê nunca brinca, Beto.

– Estou aprendendo contigo, e arranca logo esta carroça, precisamos sair daqui.

Nando deu a partida, engataram a conversa sobre a intenção de desistirem do propósito, apesar de estarem tão pertos do destino final. Não tinha mais clima. Ele convenceu o irmão de cumprirem a jornada até o sítio para esperar o dia amanhecer, a fim de voltarem pra casa em segurança.

Um caminhão apontou na subida da curva e jogou os faróis sobre a picape. Um clarão de luz branca emergiu no horizonte. O carro rodopiou na pista. Nando pisou no freio, girou o volante à esquerda, direita, esquerda, invadiu o acostamento, voltou à pista, e por fim, desceu a curva com a caminhonete alinhada na estrada.

− Nossa! Que maluco! Jogou o caminhão em cima da gente. Que noite bizarra.  Tá tudo bem, Beto?

Silêncio.

− Respira, toma uma água.

− Tô bem…

− Cara, amoleceu as minhas pernas. Sou braço, hein?! Segurei o boi pelo chifre. Tá tudo bem mesmo? Passou a tontura?

− Beto?

− Ah? Passou. Que horas são?

− Dez e cinco.

− A entrada pro Boqueirão não era depois da curva? Não vejo nenhuma entrada, só tem mato, acho que estamos perdidos, e sem celular.

− Não entendo, cadê a entrada? O GPS também não funciona, vou parar e perguntar.

− Perguntar onde, neste deserto?

Andaram mais alguns quilômetros, num silêncio sufocante. A paisagem ganhou novos contornos. A névoa densa baixou sobre a rodovia. A luz da lua cheia sumiu. Levantaram os vidros por causa do vento gélido repentino, soprado do norte.

− Não tô conhecendo a estrada, não tem nenhuma placa de sinalização, que porra, pra mim deu! Vamos embora.

− Não disse que sabia o caminho? Tomara que encontre o bêbado, e vê se agora passa por cima dele.

Nando manobrou para o acostamento e girou nas rodas, na direção contrária, de volta pra casa. Pisou na embreagem, engatou a primeira,  − os pneus relincharam novamente −, a luminosidade dos faróis abriu o caminho na penumbra da rodovia. Ouviram pancadas na lataria. Trocaram olhares cúmplices de pânico.

A criatura planava no asfalto, rente ao vidro da porta do motorista, como um surfista nas ondas negras da estrada. O sujeito cambaleante, de quilômetros atrás, transformou-se num espectro de homem. Nando berrou ao ver buracos negros nas cavidades dos olhos, nauseou quando os pedaços de dentes apodrecidos despontaram da boca escancarada. Acelerou. O automóvel não obedeceu ao comando, perdeu a potência do motor. O vulto, de vestes rasgadas e imundas, arranhou o vidro da janela com as unhas enegrecidas nas mãos escalpeladas. Nando sentiu o coração disparar numa cavalgada alucinante, o suor salpicou a testa franzida, rogou a algum poder superior para ajudá-los. Beto se possuiu de raiva, escancarou o porta-luvas, empunhou a navalha. Deixou a portinhola aberta.

− Vou matar esse desgraçado!

− Deixa de ser idiota, é um zumbi, eu te falei, eu te falei! Ele vai nos matar!

− Então acelera!

− Não consigo, esta bosta tá engasgada.

Os gritos de terror assombraram as corujas, morcegos e outras criaturas da noite. A picape se arrastava no asfalto. O zumbi desapareceu da janela, mergulhou no vácuo da escuridão e ressurgiu em cima da caçamba. Beto pulou para o banco de trás de canivete em punho, Nando gritou para ele não reagir. O ser disforme abraçou o vidro traseiro, como um polvo abraça a sua presa com os tentáculos. Beto enxergou, do lado de dentro, a coisa repugnante espumar pela boca uma gosma escura. Paralisou. A sua alma penetrou nas profundezas do abismo na fenda exposta da garganta, reconheceu o familiar cheiro fétido dos mortos impregnado na densidade do ar. Fraquejou as pernas de desamparo. Retomou o fôlego e a fúria. Os olhos não piscavam seguindo todos os movimentos da aberração em cima da caçamba, pronto para revidar a qualquer ataque; virou-se à frente e mandou o irmão histérico calar a boca, quando desvirou, a criatura havia desaparecido. Pulou de volta ao banco dianteiro, o punhal de prontidão na mão. O corpo atarracado, de ouvido colado no teto da camionete e com todos os demais sentidos em alerta, aguardava a próxima aparição do espectro.

− Aí meu deus! Liga pra polícia, liga! − Os olhos pretos de Nando foram tomados de assalto pelo branco de pavor da esclera.

Roberto conferiu a tela do celular, continuava sem sinal. Elevou as mãos à cabeça, a visão nublou da confusão mental, lutou para não perder a consciência, puxou a respiração do abdômen, soltou o ar, puxou novamente.

− Tá difícil dirigir, não sinto as pernas, estou com medo, mano, com muito medo. A gente tem que parar, os cabos de vela estão falhando, o carro não anda.

− Não para, não para! Vai ficar tudo bem, tudo bem, vai ficar tudo bem. – O lábio mordido sangrava de incertezas.

− O que houve com a estrada? Tá tudo diferente, não vejo mais malocas e não passa nenhum carro por nós.

O cenário a seguir tapou a boca do caçula. Vislumbrou a subida da curva, o curvão, no lado oposto, visto que empreendiam a viagem de retorno. A caminhonete subiu aos trancos, na potência máxima de 20 quilômetros por hora. Roberto e Fernando estavam de cabelo em pé e coração acelerado, de horror de que o carro morresse na estrada.

Vencida a batalha da subida, ganharam força na descida − a picape mergulhou em ponto morto alcançando velocidade no declive. Nando segurou a afobação no freio, por causa da fumaça negra e do fogaréu dos veículos em chamas à beira da estrada. O resultado da tragédia desfilava diante do para-brisa. De dentro do carro, os dois viram a carcaça de um automóvel engolido por um caminhão, ambos incendiados, e a cena aterrorizante de uma tocha humana correndo no asfalto, urrando gritos macabros de dor, até tropeçar na morte e tombar o corpo carbonizado no chão.

− Oh meu, que coisa horrível! É aquele caminhão, olha só o que aconteceu com o filho da mãe, nossa! E o carro virou churrasquinho, parece uma D-20. Credo! Olha ali no asfalto, um pedaço da porta vermelha….vermelha….D-20… meu deus, não, não! Que horas são?

– Nando, responde! – Sacudiu o irmão que estava de olhos vidrados na pista, ausente de si mesmo.

– Dez e… cin-co – gaguejou.

− Para aqui, para! Eu preciso descer, eu preciso vomitar….Nandooo!

A resposta ressoou na agonia de um sussurro atormentado:

− Eu não consigo parar…eu não estou dirigindo…

A caminhonete vermelha foi tragada pelo clarão de luz branca surgido no horizonte. Os passageiros assombrados bradavam pedidos de socorro, lamentos e orações. Desta vez não viram pelo retrovisor o “zumbi” prostrado de joelhos na estrada, ao pé do que sobrou da ossada de ferros retorcidos e corpos incinerados, balbuciando gemidos agudos, ressoados por toda a eternidade: “Meus filhos….”.

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18 comentários em ““A Morte Pede Carona” (Rutger Hauer)

  1. Edinaldo Garcia
    18 de outubro de 2017

    Escrita: Gostei muito da fluidez, de como a leitura segue interessante até o final. Os diálogos ora ajudam, ora me incomodaram um pouquinho, mas nada que tire a qualidade da obra (às vezes é frescura minha). Adoro contos que se passam em estradas em qualquer gênero (na verdade eu amo estradas, sou estradeiro por natureza). Contos de terror nessa ambientação tem um charme único. Gostei dos elementos sobrenaturais, do suspense, do drama familiar. Acabei de ler um grande enredo.

    Terror: Muito bem construído com o mistério em si. O final me lembrou um filme chamado Pânico no Deserto.

    Nível de interesse durante a leitura: Mais um texto que me faz emergir inteiramente na trama, e como você soube construir tudo. Encaixadinho e arrumadinho.

    Língua Portuguesa: Excelente. Prefiro textos como o seu àqueles exageradamente rebuscados nos quais muitas vezes o autor se perde em construções atravessadas e desconstruídas. Um bom contador de histórias sabe prender o leitor com simplicidade e sensibilidade, e você soube bem fazer isso.

    Só algumas frescurinhas minhas mesmo, nada que tire um décimo sequer de pontos.

    Teve o fim que mereceu, morreu afogado na cachaça – esse recurso que você usou aqui é meio preguiçoso, afinal o irmão sabia como o pai tinha morrido. Ficaria melhor se essa informação fosse dada pelo narrador.

    me poupe – é estranho esse termo ter saído da boca de um homem hétero.

    Entra Beto – aposto e vocativo são separados por vírgula.

    Correu de volta na estrada – para a estrada.

    Veredito: Muito bom.

  2. werneck2017
    18 de outubro de 2017

    Olá,

    Um conto muito bem escrito, criando e demonstrando aos poucos a personalidade dos irmãos, seu conflito interno com o pai e entre eles mesmos, ao mesmo tempo que prepara o leitor para o final tenebroso que está por vir. Contado com maestria, dando o ritmo certo entre as cenas de suspense e as de descanso, o autor soube conduzir a trama com o profissionalismo digno de um filme de suspense (mais que terror), o que não o invalida de forma alguma. O desfecho, em que os irmãos se descobrem mortos, sendo observados por um pai-zumbi, é a cereja do bolo. Parabéns.

  3. Luis Guilherme
    17 de outubro de 2017

    Boa tarde, amigo, tudo bem?

    Esse desafio me agrada particularmente, uma vez que amo o genero. Tava esperando ansioso por ele. Por isso, tenho lido os contos com bastante expectativa. Dito isto, vamos ao seu:

    A escrita eh fantastica. Tem um que natural de humor, eh meio ironica, nao sei, mas sem criar un conflito com o clima de suspense nem descambar pro terrir.

    Claramente voce eh um escritor experiente. Percebe-se claramente isso pela qualidade e fluencia dos dialogos e pela construçao dos personagens, que eh muito bem feita.

    Ja o enredo achei abaixo desses outros aspectos. Apesar de bem desenvolvido, achei que demorou demais pra chegar aos momentos de tensao e climax. Acho que ficou meio arrastado em algum momento.

    Ja o desfecho eh o contrário, ficou excelente! Demorei pra sacar q eram eles as vitimas do acidente, e quando saquei, fiquei agradavelmente surpreso. Terminei a leitura com a sensaçao de que o pai queria impedi-los de continuar a viagem, to certo?

    A gramatica e a estrutura me pareceram impecaveis, reforçando a sensaçao de se tratar de um escritor experiente.

    Enfim, um belo conto, conduzido com maestria, mas que em algum momento perdeu um pouco minha atençao, recuperando- a plenamente no desfecho. Achei tambem que faltou um pouco mais de terror em si, usando elementos mais de suspense e misterio. Isso nao eh uma critica, apenas um apontamento.

    Parabens e boa sorte!

  4. Rafael Soler
    17 de outubro de 2017

    Um conto muito bem escrito, onde se vê um cuidado com a estrutura devido aos acontecimentos implantados no início da história para serem resgatados em momentos posteriores. Gostei da relação dos irmãos, ora explosiva ora tranquila. Os diálogos entre os dois personagens ficaram muito críveis, ainda mais pelas diferenças entre os dois. o final foi excelente, retratando um medo que acredito passar na mente de muita gente: morrer e não perceber. E a ambientação se encaixou perfeitamente com a história.

    A única coisa que acho que poderia ser melhorada é a introdução de mais elementos de horror na história. Em certo momento, me pareceu mais um drama sobrenatural do que uma história de terror mesmo.

    No geral, um excelente texto.

    😀

  5. Marco Aurélio Saraiva
    16 de outubro de 2017

    ====TRAMA====

    MUITO boa. Muito bem bolada, com um desenvolvimento digno de mestre e um desfecho inesperado e magistral. No início, pelo título, achei que o conto seria uma homenagem ao filme homônimo, com direito a psicopata pedindo carona, mas logo perdi essa ideia. O sobrenatural no conto foi muto bem representado – indireto, etéreo e assustador.

    Foi uma excelente leitura!

    Você desenvolveu os dois irmãos muito bem. A história deles não só ajuda o leitor a se aprofundar nos personagens, como também dá um pano de fundo para o “vilão” da história, que é o próprio pai a assombrá-los. Tal qual Stephen King, você foi aumentando a tensão da história não só entre os dois irmãos, como também entre eles e o perigo iminente na estrada na forma do “zumbi”.

    O conto brilha pelo terror “indefinido”, que meche com o psicológico do leitor. Não há um monstro identificado; não há um mal óbvio. Há eventos estranhos e sobrenaturais, que podem ser uma série de coisas. O final confirma o viés sobrenatural, mas até lá tudo é possível.

    Parabéns!

    ====TÉCNICA====

    Muito boa. Envolvente, rápida mas não apressada.

    Notei alguns problemas na pontuação, mas estes não atrapalham muito. Em alguns momentos a leitura fica um pouco “confusa”, seja no diálogo entre os irmãos (que nem sempre fica fácil de identificar quem está falando o quê), seja nas descrições. Segue um exemplo:

    “Um caminhão apontou na subida da curva e jogou os faróis sobre a picape. Um clarão de luz branca emergiu no horizonte. O carro rodopiou na pista. Nando pisou no freio, girou o volante à esquerda, direita, esquerda, invadiu o acostamento, voltou à pista, e por fim, desceu a curva com a caminhonete alinhada na estrada.”

    Depois de reler a cena umas três vezes, consegui identificar, mais ou menos, o que aconteceu. O problema é que o que desponta no horizonte é um caminhão, e a picape é quem recebe a luz dos faróis… mas em seguida, o “carro” rodopia, e eu já não sei exatamente quem está rodopiando. Aliás, nem sei por quê a picape dos irmãos rodopiou. Nando fala, em seguida, que o caminhou “foi jogado” sobre eles.. mas isso não foi descrito na cena. Por fim, “…desceu a curva com a caminhonete alinhada na estrada” também me confundiu. Alinhada seria “atravessada”? “Desceu” no sentido de descer mesmo? A curva era uma descida também?

    Enfim, apenas um exemplo de uma das descrições confusas que encontrei.

    Mas não se preocupe: houveram sim alguns tropeções na narrativa como o citado acima, mas a qualidade do texto e a tensão criada por você superam tudo isto. Você escreve muito bem, sabe envolver o leitor e sabe usar bem as suas palavras.

    • Marco Aurélio Saraiva
      16 de outubro de 2017

      Ah, agora que notei que, afinal, existe sim uma homenagem ao filme, na forma do nome do autor, rs rs rs.

      Boa!

  6. Fheluany Nogueira
    15 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – Autor(a) fã do filme e do ator apresenta uma releitura interessante da morte na estrada. Narrativa fluente e ambiente bem construído. Cenas do acidente e da crise de pânico bastante aterrorizantes. Chamou atenção as referências contemporâneas.

    Terror e emoção – Em minha leitura, o pai tentava avisar os filhos do perigo. Talvez quisesse induzi-los para uma volta e evitar-se, assim, o acidente fatal. Introdução extensa demais quebrou, em parte, o impacto. Ficou mais para drama familiar do que terror.

    Escrita e revisão – Texto bem conduzido. Pequenos deslizes gramaticais não prejudicaram a leitura e interpretação.

    Bom trabalho. Abraços.

  7. Ana Maria Monteiro
    14 de outubro de 2017

    Olá, Rutger. O conto está perfeitamente adequado ao tema, no entanto e por isso mesmo, também se afasta dele ao focar-se quase todo o tempo no enredo entre os irmãos que, sendo normal e credível, relega o terror para segundo plano.Encontrei alguns pequenos desvios, por exemplo: “o diabo a aquela doida”, seria “o diabo àquela”; “o coração saia pela boca”, seria “saía” e mais dois ou três assim, mas nada que comprometesse a leitura ou o entendimento do texto.
    A ambientação está bem construída, penso que o terror funcionaria muito mais se fosse uma história visual, um filme. Na escrita, fica pouco focada no zombie e no terror e distraímo-nos um bocado com a conversa.
    Talvez dando mais espaço à figura do velho funcionasse melhor. Mas está bem e dentro do tema, nada a apontar, além do que foi dito.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  8. Antonio Stegues Batista
    13 de outubro de 2017

    ENREDO: Dois irmãos vão passar fim de semana no campo e durante a viagem, se envolvem em estranhos acontecimentos.Bom enredo.

    PERSONAGENS: Nota-se que os dois irmãos são completamente diferentes um do outro, o que é legal numa historia.

    ESCRITA: Regular. Com alguns errinhos nas frases, algumas palavras fora de lógica. A gíria ficou legal, mas até chegarem nas explicações que se referem ao pai, para dar conexão com o final, foi meio chato. Ficou algumas conversas chatas e muito longas. O final ficou muito bom, o “zumbi” na realidade era o pai deles e eles mortos já estavam, é o que eu imagino.

    TERROR: Fraco. A ideia é boa, só que a introdução no assunto foi muito longa e a parte essencial foi muito curta. Boa sorte.

  9. Paula Giannini
    11 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    Logo que li: “− É um velho bêbado…. – murmurou Beto.”, imaginei que o zumbi, fantasma, ou seja lá que entidade visitou os rapazes, era o pai. Ao contrário de muito, no entanto, não vejo isso como um defeito.

    Sempre gosto de citar as fontes de onde vêm minhas informações, então, lá vai. O roteirista David Mendes, com quem já compartilhei uma sala de roteiros por alguns meses no Paraná, dizia que o expectador, e, em nosso caso o leitor, adora se “sentir esperto”. Ele dizia que o bom escritor deve saber implantar em seu texto, algumas pistas que estimulem o leitor a seguí-lo. Dessa forma o “seguidor” das pistas, lê o trabalho, repetindo para si mesmo frases como: “Eu sabia!” ou “Quer ver que tal coisa vai acontecer?”. Tudo isso, no entanto, deve ser feito no limite certo do bom senso, sem que as tais pistas se tornem auto spoilers. Bem, você fez isso aqui com grande sucesso com o tal pai zumbi.

    Outro ponto interessante deste conto é o modo como o autor introduz os diálogos. Mesmo em um conto de terror, mesmo em um clima pesado como é o de uma estrada deserta, com direito à briga de família, caminhonete velha e até uma terrível cena de acidente, o autor mantém a personalidade de seus personagens, com piadas em um diálogo totalmente coerente com o de dois jovens irmãos. O modo com que isso é feito, não faz com que o conto penda para a comédia, ao contrário. Percebe-se que aquele diálogo, com aquelas piadinhas, faz parte do “universo” criado pelo autor. Muito bem executado.

    Também acho interessante notar o desfecho, com os irmãos assistindo ao próprio acidente na estrada. Cena forte, bem descrita. Digna de um filme do estilo. Puro terror.

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  10. Regina Ruth Rincon Caires
    11 de outubro de 2017

    Narrativa ambientada na noite, envolvendo estrada, velocidade, discussão. Interessante o desentendimento entre os irmãos, as “dores” foram ditas. As verdades que sentiam, as feridas foram expostas, sentimentos profundos, pensamentos que marcaram vidas. E houve tempo para um apaziguamento. Achei coerente a citação do som de Gustavo Lima, da música sertaneja universitária. É a realidade da moçada que vive hoje no sertão. Talvez, se fosse narrada a história dos avós, dos pais, seriam citados Tonico e Tinoco, Zico e Zeca, Alvarenga e Ranchinho, Tião Carreiro e Pardinho… Agora, a colocação de frases “atuais”, de outras tribos, aí interfere na escrita, dá um “pique” na leitura. Destoou… Conto bem construído, traz terror. Um ótimo conto.

  11. Nelson Freiria
    11 de outubro de 2017

    Fiquei em dúvida se o terror começava quando o narrador cita o Gustavo Lima ou velho no asfalto.

    Apesar de bem explicada, a situação “mal resolvida” entre os irmãos não me convenceu. Senti como se fosse uma briga onde um diz ‘bobo’ e o outro responde ‘bobo é você’. Faltou agressividade nas palavras, ou talvez o clima bem humorado aliviou demais a tensão entre eles. Daí vem a reconciliação… achei isso mto chato, queria que eles continuassem brigados.

    A escrita é ótima, não tenho do que reclamar. Só não entendi o pq o(a) autor(a) escolheu fazer referência a uma obra do King, já que dá um alerta sobre o que esperar

    O final ficou com aquela cara de “Lost”, mas acho que dá para superar isso levando em conta a habilidade de escrita apresentada.

  12. Paulo Luís
    10 de outubro de 2017

    O conto atende perfeitamente as exigências do desafio terror, mas a escrita está longe de qualquer teor literário. Pô, discutir relação de irmãos com mãe, logo na hora do conto, meu!? Frases da moda: “posto ipiranga” – “tá dominado”. È um pouco demais, não é não? Chega passar da conta. Sentenças ruim de engolir numa obra literária.

  13. Andre Brizola
    10 de outubro de 2017

    Salve, Rutger!

    Estradas estão entre as ambientações mais legais para um conto de terror. Podem ser desérticas, podem ser perigosas. Podem ser movimentadas e podem ser até claustrofóbicas se avançarem através de um túnel. Não é a toa que vemos a estrada como cenário de diversos contos, filmes, etc. E um filme em particular, Olhos Famintos, traz essa mesma estrutura de dois irmãos em viagem, discutindo suas relações familiares, trazendo à tona sentimentos represados, quando são “atravessados” por uma situação incomum, inesperada. E digo isso pois a semelhança com o filme já me preparou para o terror que viria a seguir.
    Entretanto, percebi uma contextualização da situação entre os dois irmãos muito mais ampla e profunda do que seria necessário. E isso acabou tomando não só espaço, mas também importância dentro do texto, deixando o terror para (quase) um segundo plano. No final das contas acabei um pouco frustrado por ter tido tão pouco contato com a criatura/fantasma/espírito/zumbi, pois esperava um pouco mais dele.
    O final é digno de nota. Achei muito bem construído e condizente com o rumo (!) que o conto estava tomando. E o detalhe do horário foi um golpe certeiro para aquele momento!
    O texto está praticamente perfeito. Só fico incomodado com algo errado quando a coisa é muito dissonante, e não foi o caso aqui.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  14. Fernando.
    10 de outubro de 2017

    Olá, meu querido Rutger. Você resgata a eterna disputa entre os filhos pelo amor maternal. Os diálogos desafiadores entre os irmãos, apesar de não se constituírem terror, estão bem interessantes, creio mesmo – nesse meu jeito de quem pouco, ou quase nada entende de histórias de terror, terem se constituído no ponto mais alto da sua narrativa. Então, ponto para você ter trazido para pano de fundo da história esses ciúmes e questões fraternas pouco resolvidas. O terror, a partir do zumbi que surge em frente na estrada e que depois vim a saber tratar-se do pai bêbado e que cuidou pouco da mãe, me pareceu um tanto forçado. Você se redime, no meu modo de ver, com o final do conto. Este está bem mais interessante com os dois irmãos contemplando a própria morte. Meu abraço.

  15. Fabio Baptista
    9 de outubro de 2017

    Um conto de terror se passando na estrada, temática ainda pouco utilizada no desafio. Torci um pouco o nariz para o título, nome exato do filme famoso. Faltou um pouco de criatividade nessa parte.

    A escrita é segura e muito boa na parte gramatical. Só fiquei em dúvida nesse trecho:

    – Nando dirigiu até a saída da cidade, (…), onde um dia deixou e jurou nunca mais voltar, porém voltou
    >>> acho que seria mais correto “que um dia deixou”

    Os diálogos constituem boa parte do conto e não me agradaram totalmente. Algumas tiradas são muito boas, engraçadas e verossímeis. Mas senti que o(a) autor(a) ficou no meio do caminho entre simulação da fala e a representação literária. Um exemplo: “Aquilo não era pai, era um bêbado covarde, a mãe padeceu na sua mão”… não imagino alguém falando dessa forma. Talvez: “Aquilo não era pai, era um bêbado covarde, a mãe sofreu na sua mão dele”… ou ainda trocar o “covarde” por “filho da puta”. Enfim… há várias outras situações em que senti esse nem lá, nem cá e o resultado acabou ficando meio teatral.

    Dessa interação entre os irmãos seria gerada a empatia e da empatia, o temor pelo que aconteceria com eles no final, onde a ação realmente acontece. Infelizmente, uma coisa foi puxando a outra e eu acabei não me apegando aos dois (aliás, faltou um pouco dar mais personalidade para diferenciá-los) e não temi pelo destino deles.

    Ganha pontos pela fluidez narrativa e ótima ambientação, mas não me cativou.

    Abraço!

  16. Angelo Rodrigues
    9 de outubro de 2017

    Caro Rutger Hauer,

    Uma pequena digressão acerca do pseudônimo:
    Rutger Hauer é um ator holandês, de olhos azuis, alto e bonitão. Fez grande sucesso como o principal androide em Blade Runner com Harrison Ford. Fez ainda Feitiço de Áquila e, depois ou antes, não me lembro, A Morte Pede Carona e Fúria Cega (e outros também). Um tremendo canastrão, particularmente em Fúria Cega – um horror que beirava o cômico -, mas fez história.
    É de Rutger Hauer uma das frases mais bacanas de Blade Runner, completamente improvisada no set de filmagens. Aqui vai ela: “Eu vi coisas que vocês homens nunca acreditariam. Naves de guerra em chamas na constelação de Orion. Vi raios-C resplandecentes no escuro perto do Portal de Tannhaüser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”
    Sempre gostei de Rutger Hauer, particularmente pelo jeito canastrão dele.

    Voltando ao texto. Confesso que ri um bocado com seu conto, Rutger. Tem as passagens mais hilárias de todos os contos que li até aqui no desafio.
    Sério, talvez no desafio comédia seria imbatível.
    Se houve algum horror foi conhecer os diálogos absolutamente idiotas entre os dois irmãos disfuncionais (Calma! Idiotas eram os irmãos que dialogavam). Fantástico!
    Tem passagens magistrais:
    – …a lua gratinada…”
    ” …Fica gel, daqui a…”
    ” O lábio mordido sangrava de incertezas.”
    “… ossada de ferros retorcidos…”
    “…empunhar a navalha tal qual numa matança de porcos…”
    ” …vertia nos poros das axilas peludas de Nando, reveladas na camiseta regata.”
    ” … Vai se fuder! Criador de javalis…” (olha o javali, gente!)

    Achei legal a transmutação física dos objetos: o canivete que se transforma em navalha que se transforma em punhal. Fantástico também.

    Legal, Rutger, boa sorte com o conto e obrigado por nos deixar conhecê-lo.

  17. Olisomar Pires
    9 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: médio.

    Narrativa/enredo: irmãos encontram a morte, não a “morte”- personagem, eles morrem, pronto. E inconscientes do fato se perturbam.

    Escrita: boa, não notei erros que travassem a leitura.

    Construção: acho que o conto está todo na parte final quando vêem o zumbi e tudo se desenvolve. Antes, a técnica de se criar empatia com os irmãos não funcionou comigo. Pareceu-me que foi mais pra alcançar o limite mínimo, embora os diálogos tenham sido bem conduzidos, mas fiquei imaginando “e se fosse um filme?”, seria uma hora de conversa jogada fora para a coisa pegar no tranco na última hora.

    Algo meio estranho é o zumbi do pai preocupado com os filhos.

    Mas é isso.

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Informação

Publicado em 8 de outubro de 2017 por em Terror.