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Detox Literário.

Anna – Niccolò Ammaniti – Resenha (Gustavo Araujo)

Uma das maiores dificuldades de qualquer escritor atual é parecer criativo, inovar, ou tanto quanto possível tomar clichês e subvertê-los. É corrente a ideia de que “todas as histórias já foram contadas”, de modo que todo e qualquer autor se vê diante desse paradoxo: se “tudo já foi escrito”, para que, exatamente, escrever?

Com “Anna”, Niccolò Ammaniti não parece muito preocupado com isso. Nesse, que é seu livro mais recente, o autor italiano toma emprestado um dos cenários mais manjados da literatura para criar uma história que aparentemente não tem nada de nova: num mundo pós-apocalíptico, dois irmãos lutam para sobreviver.

A decisão de Ammaniti de escrever sobre isso é arriscada devido à concorrência. Cormac Mc Carthy, com seu fantástico e perturbador “A Estrada” tornou-se referência no assunto, vencendo um Pulitzer com a história de pai e filho que… bem, você já sabe… lutam para sobreviver num mundo pós-apocalíptico.

A novidade em “Anna” é que a população mundial foi destruída por um vírus mortal – tudo bem, essa parte não é exatamente novidade -, mas que por algum motivo poupou as crianças até que atingissem a puberdade. Anna, a protagonista, tem cerca de doze anos e seu irmão, Astor, nove. Sabendo que carrega uma bomba-relógio dentro de si, a menina vive seus dias para preparar o irmão para um mundo em que ela mesma terá perecido.

A história se passa num momento pouco depois de a população adulta ter perecido, quando ainda não é tão complicado encontrar água ou comida, embora o medo da fome esteja sempre à espreita. Alguns animais voltaram ao estado selvagem e, o mais curioso, algumas das crianças sobreviventes acabaram se reunindo em grupos para continuarem existindo, nem que para isso tivessem que sacrificar grupos rivais, fazer escravos, agir com crueldade imotivada ou buscar messias inexistentes.

Contudo, há espaço para que amizade floresça, para que o amor e o sacrifício apareçam, apesar (ou talvez por causa) do pouco tempo de vida que cada um tem. É preciso viver, ou sobreviver, e, na medida do possível, não se deixar dominar pela esperança de cura.

Neste livro, Ammaniti deixa de lado as histórias paralelas que se interconectam, como em “I’ll Steal You Away” ou em “Como Deus Manda”. Na verdade, “Anna” se assemelha a “Não Tenho Medo“, com sua narrativa pungente, direta, simples e despida de floreios.  Aliás, é preciso que se diga que nesta nova obra Ammaniti recupera sua melhor qualidade como escritor, que é a habilidade de envolver o leitor, de torná-lo cúmplice da trama, algo que deixara a desejar em “Io e Te” (ainda que este tenha sido transformado em filme por Bernardo Bertolucci) e em “A Festa do Século“.

“Anna”, deve-se admitir, tem um início até certo ponto lento, mas da metade para o final a história ganha força, tornando impossível o ato de largar o livro. Os últimos capítulos, aliás, são daqueles que fazem o nível de ansiedade atingir a estratosfera; simplesmente não dá para deixar para depois. Afinal, qual a distância entre o desespero e a (falsa) esperança?

Apesar do mote da história não primar pela originalidade, Ammaniti tem o mérito de transformá-lo em algo muito interessante e, o que é mais notável, criar personagens fortes, profundas como só uma criança pode ser, cheias de dúvidas, inseguras, curiosas, autoritárias e ao mesmo tempo inocentes, enfim, pequenos seres humanos que representam um microcosmo de nossos próprios defeitos e qualidades, características que se exacerbam frente às situações dramáticas e extremas que experimentam.

Em suma, é uma história que poderia ser real e por isso é tão interessante, tão incômoda, tão verdadeira.

“Sobre o que você está pensando?”

“Cães. E o fato de eles nunca viverem mais do que catorze anos”. Ele se manteve em silêncio por alguns segundos. “Como nós.”

Anna empurrou a perna de Pietro com seu pé. “Sim, é verdade…”

“Em catorze anos eles fazem tudo. Eles nascem, crescem e morrem”. Ela o ouviu fungar. “No fim, o que é importante não é o quanto sua vida dura, mas como você a vive. Se você a vive bem – com intensidade – uma vida curta pode ser tão boa quanto uma vida longa. Você não acha?”

Vocês não acham?

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5 comentários em “Anna – Niccolò Ammaniti – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Roselaine Hahn
    4 de outubro de 2017

    Puxa, resenha cativante, preciso conhecer o Sr. Nicollò. Com um acento atravessado desses no nome, o sujeito deve ser muito interessante mesmo.

  2. Fabio Baptista
    17 de setembro de 2017

    Bela resenha!

    Você sugeriria esse livro para quem quer conhecer o Ammaniti?

  3. Bia Machado
    17 de setembro de 2017

    Acho. E acho também que não devia ter lido essa resenha. Já quero. Ainda mais com todo esse cenário aí que descreveu. #alocadasleiturasmaisatrasadas =,(

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Publicado às 17 de setembro de 2017 por em Resenhas e marcado , , .