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“A Festa do Século” – Resenha (Gustavo Araujo)

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O autor italiano Niccolò Ammaniti é considerado por muitos como o maior expoente literário de sua geração. Suas obras são permeadas por sentidos diversos que se desenrolam paralelamente, como cenários distintos de uma mesma história. Fatos são observados e contados sob o ponto de vista de diferentes personagens, em terceira pessoa, com um narrador cúmplice dos anseios, dos sofrimentos e das esperanças, um estilo bem delineado em “Como Deus Manda”, livro que valeu a Ammaniti o Prêmio Strega, o mais importante da Itália.

“A Festa do Século” segue essa premissa. No entanto, o autor foi além. A ideia era passar a limpo o reflexo da sociedade italiana, com seus pequenos pecados, suas idiossincrasias, seus defeitos mais mundanos. O resultado é uma história permeada por uma ironia constante, por um sarcasmo irrefreável, por críticas ácidas aos valores mais prezados por aqueles lados.

É isso que torna “A Festa do Século” interessante ao leitor brasileiro. Apesar de Ammaniti referir-se à Itália, em certos momentos é como se estivesse descrevendo o Brasil, ou qualquer outro país onde a imagem de qualquer pessoa tem muito mais valor do que seu conteúdo.

O enredo do livro se divide em dois. De um lado temos um grupo de trabalhadores assalariados que se unem para formar um grupo satanista. Do outro, somos apresentados a Fabrizio Ciba, um famoso escritor que busca a própria reafirmação. O grupo santanista, chamado “As Bestas de Abbadon” é liderado por Saverio Moneta e pretende realizar uma façanha inigualável: sacrificar a popstar Larita em uma festa gigantesca que acontecerá em Roma.

Em um local chamado Villa Ada, o milionário Sasà Chiati, seu proprietário, decidiu reunir a nata dos VIPs da Itália para comemorar a alegria de viver no melhor estilo Silvio Berlusconi. Apresentadores de TV, jogadores de futebol, políticos, ex-misses, artistas e magnatas se juntam para passar o dia entre safaris, jantares suntuosos e espetáculos de música. Naturalmente, Fabrizio Ciba também é convidado e, contra todos os prognósticos, acaba se apaixonando pela cantora Larita.

Ammaniti é mestre em conduzir o leitor nessas linhas convergentes. Por improvável que pareça, permite entender os motivos da busca das Bestas de Abbadon, demonstrando as fraquezas, os defeitos e as muitas trapalhadas de seus integrantes, o que rende ao leitor bons momentos de riso. Quanto a Ciba, torna o leitor cúmplice de seus anseios. É impossível não se identificar com as fraquezas e (por vezes) a falta de escrúpulos do escritor, especialmente por conta das tiradas muito inspiradas. Essa humanidade – em que ninguém é totalmente bom ou mau – é o que faz os personagens realmente interessantes, uma característica bastante peculiar do autor.

Pois bem, no momento em que tudo leva a crer que os destinos de Ciba, de Larita e das Bestas de Abbadon irão se encontrar, Ammaniti subverte a história sem dó nem piedade. É quando a festa realmente começa. Elementos fantásticos e impossíveis ganham vida, produzindo um nó na narrativa, levando o leitor a um turbilhão em alta velocidade. Não dá para parar de ler.

Contudo, embora Ammaniti tenha obtido êxito em suas críticas, por meio de uma histórica louca, à Fellini, não creio que o efeito, para o leitor seja dos mais relevantes. Não é novidade a inversão de valores que caracteriza a maioria dos países do ocidente. Falar disso, ainda que de maneira criativa e altamente irônica, não chega a ser uma novidade e, para ser franco, a sensação que tive ao chegar ao fim do livro foi de um vazio incômodo.

Até o surgimento dos elementos fantasiosos, a narrativa segue o rumo de tensão que se vê em “Como Deus Manda”. Mas a partir daí, parece que a real intenção do autor – de criticar sem dó os valores da classe média – se sobrepõe de maneira sufocante a todo o enredo que até então era construído. O resultado é que o fantástico abafa tudo, mudando completamente o rumo dos personagens. Tudo acaba de modo abrupto, corrido, como se o autor nos dissesse que nada do que fora antes relatado – em termos de história – tivesse importância. Fica a mensagem panfletária de que somos fruto de uma cultura de massa rasa e insossa.

Talvez alguns aplaudam esse “dedo na cara”, mas como entretenimento, pelo menos para mim, “A Festa do Século” passa muito longe das demais obras de Ammaniti.

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7 comentários em ““A Festa do Século” – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Isa Kaminski
    17 de março de 2015

    Li um livro dele, em italiano: “Ti prendo e ti porto via”. É um autor interessante, diferente de todos porque visa criar um desconforto nos padrões do leitor. A sensação é que nos espia através das páginas. Mas gosto mais de Giorgio Faletti.

    • Gustavo Araujo
      17 de março de 2015

      Oi, Isa, obrigado pelo comentário! Também li “Ti prendo e ti porto via” – se bem que em inglês (“I’ll Steal you Away”). Gostei bastante das desventuras do menino Pietro Moroni (era esse mesmo o nome dele?) e principalmente do Graziano Biglia.

      É como você disse: Ammaniti tem o dom de nos deixar desconfortáveis. Creio que ele atingiu o ápice nesse aspecto em “Como Deus Manda”, que é um livro bem superior a este “A Festa do Século” e mesmo a “Ti prendo e ti porto via”. Se bem que, por motivos pessoais, continuo achando “Eu Não tenho Medo” o melhor de todos 🙂

      Agradeço também a sua indicação. Não conheço Giorgio Faletti, para ser honesto. Vou procurar saber mais sobre ele.

      Obrigado mais uma vez!

  2. Jussara Castro Araujo
    1 de fevereiro de 2014

    Apesar de ser considerado o maior expoente literário da sua geração, a “Festa do Século” detalhadamente expressa por Niccolò Ammaniti, não despertou o desejo nem a curiosidade de conhecer suas críticas e valores narrados na história, sobretudo porque deixa uma mensagem panfletária de que somos fruto de uma cultura de massa rasa e insossa. Bem melhor a terceira opção “Não tenho Medo”. Acho que este livro já olhou pra mim quando estive à frente da estante, hehehe!!! bjus

  3. Pedro Luna
    1 de fevereiro de 2014

    Eu li ”Como Deus Manda” no fim do ano passado. Achei bacana.. Certamente lerei algo mais do autor.

  4. Bia Machado
    31 de janeiro de 2014

    Não li nada desse cara ainda, então já sei que não é por esse que devo começar… Vou atrás desse outro que você citou, rs. Ótima resenha!

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Publicado às 29 de janeiro de 2014 por em Resenhas e marcado , , .