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Detox Literário.

“Não Tenho Medo” – Resenha (Gustavo Araujo)

NAO_TENHO_MEDOEm Acqua Traverse faz um calor infernal. Mesmo na atmosfera sufocante desse lugarejo perdido  norte da Itália, onde pessoas anseiam por uma vida melhor, Michele Amitrano, 9 anos, encontra tempo para andar de bicicleta.

Claro, e explorar os campos de trigo com seus amigos Salvatore, Antonio, Remo e Barbara, além de sua irmã, Maria.

Quando resolve aceitar um desafio ao entrar em uma casa abandonada, Michele descobre um segredo incrível demais para repartir com os outros. O problema é que isso acabará, inevitavelmente, fazendo com que ele perceba a exata fronteira que separa adultos de crianças, o limite da monstruosidade.

Tendo como pano de fundo a Itália dos anos 70, “Eu não tenho medo” é uma história curta mas pungente. Atinge o leitor de modo certeiro, tornando impossível largar o livro. Suas duzentas e poucas páginas brilhantemente escritas contêm os elementos essenciais para tornar a leitura obsessiva.

Pelos olhos de um menino de nove anos, extrai-se o valor da verdadeira amizade e a dor da decepção. Como não se comover com o sacrifício alheio? Como encarar o fato de que às vezes aqueles em quem mais confiamos são os primeiros a nos desapontar? A verdadeira face de quem nos cerca nunca é o que parece. Por trás de um sorriso há sempre intenções que desconhecemos. E essa descoberta pode ser muito dolorosa.

Tal realidade, despida de eufemismos, percebida pelo pequeno Michele à medida que o livro avança, termina por arrancá-lo do universo ingênuo que o envolve, fazendo-nos cúmplices de sua angústia, de seu esforço e de sua esperança de que tudo termine bem.

O maior mérito do autor Niccolò Ammaniti é levantar questões perturbadoras, diante da ética típica de uma criança, fazendo-nos perceber as raízes de nossa própria moralidade. É impossível não indagar a si próprio “o que eu faria no lugar do pequeno Michele?”

E o final do livro? Talvez seja um dos melhores que já tenham sido criados. Evitando estragar a surpresa, dá para dizer que Ammaniti é mestre em criar suspenses e situações que vão se tornando cada vez mais urgentes. É exatamente o que ocorre no fim de “Não tenho medo”. Página a página o leitor sente o fôlego roubado, como se as letras e linhas impressas o agarrassem pelo pescoço. E tudo termina de repente, mas de modo perfeito.

Um livro sensacional.

A propósito, o livro deu origem a um filme com o mesmo nome. Não perca tempo com ele. Aqui cabe a regra geral de que filmes são sempre inferiores nesse tipo de comparação. Neste caso chega até a ser covardia.

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2 comentários em ““Não Tenho Medo” – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Bia Machado
    31 de janeiro de 2014

    Não tinha visto essa resenha! Muito bom, quero ler esse livro! =)

    • Gustavo Araujo
      31 de janeiro de 2014

      Pois é… eu a escrevi há algum tempo, rs. Sim, não deixe de ler. Sabe aquela coisa do “que livro vc levaria para uma ilha deserta”? Então… Esse seria um forte candidato. É um dos meus “all times favorite”. Bom demais!

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Publicado às 11 de junho de 2013 por em Resenhas e marcado , , .