EntreContos

Literatura que desafia.

Zé Cagão (Johnny Hemorroida)

Diziam que José Hernandes Gregório recebeu a infame alcunha de Zé Cagão logo após ter o cupom sorteado, pela terceira vez em três anos, numa promoção anual de uma grande loja de eletrodomésticos. Naquela época, ele iniciava sua fase adulta, havia acabado de terminar a faculdade e estava entrando no mercado de trabalho. Os amigos daquele tempo, que sabiam do inusitado epíteto, ligavam-no à sorte que as vezes sorria para o Zé. No entanto, a verdadeira estória é bem outra, nada tinha a ver com sorte e não cheirava muito bem.

O apelido surgiu bem antes da boa ventura se anunciar na vida de nosso suposto sortudo. Tudo começou quando o jovem Zé, bem jovenzinho mesmo, oito anos de idade, fazia uma viagem de carro, numa Marajó cinza oitenta e dois, zero quilômetro, com toda a família, de São Paulo a Salvador.

Zé Cagão, ainda José Hernandes, era um menino rechonchudo que não dispensava nenhum tipo de guloseima. Em toda e qualquer parada que faziam na estrada ele se empanturrava de comida. Transitava de salgadinhos a frutas sem nenhum constrangimento. Gomos e mais gomos de jaca, coxinhas, seriguelas, pasteis, pitombas, bolinhos de carne, mangas, cocadas, refrigerantes, ovos coloridos, bolachas, eram traçados com satisfação indisfarçável… não fazia cara feia para nada e ainda conservava o apetite para o café da manhã, almoço e jantar. O moleque era uma fera. Seus pais achavam bonito toda aquela comilança e tinham orgulho do filho corado e bochechudo, que transbordava “saúde” pelas dobrinhas da barriga.

No terceiro dia de viagem, perto das dez da manhã, Zé sentiu uma fisgada aguda seguida do som de trombetas infernais vindas do seu mais íntimo interior. Era aquela indisposição intestinal que faz descer suores frios pelas têmporas e eriçar todos os pelos do corpo e que tem a fama de ser mais veloz que a luz. Naquele instante, diante de tal rebuliço nas entranhas, Zezinho descobriu que seu mal-estar se dava por conta da temida e mundialmente conhecida; caganeira.

Por sorte estavam chegando na primeira parada do dia, um posto de gasolina, já em terras baianas, num povoado litorâneo chamado Cumuruxatiba. Zé Hernandes desceu do carro feito um torpedo, vestido com sua camisa do “Bahêa”, com o número nove de Dadá Maravilha nas costas, calção curto de pano azul com listras brancas nas laterais, apertadinho nas coxas grossas. E nos pés, de artilheiro mirim do colégio, seu indefectível Kichute. Aproveitou um dos pequenos lapsos indolores, que ocorriam entre os espasmos intestinais, para correr sem atraso para o sanitário mais próximo. Pouco antes de encontrar a porta do banheiro, que ficava atrás do estabelecimento, foi acometido por mais uma pontada nas tripas que fez com que os músculos da bunda avantajada se contraíssem, diminuindo seu volume, vedando completamente as pregas do seu esfíncter traseiro e travando sua respiração. Continuou seu caminho aos pulinhos, quase sem respirar, num caminhado cheio de ginga, numa espécie de capoeira miudinha, até finalmente adentrar no recinto tão aguardado.

Lá estando, suas narinas e olhos foram invadidos pelo odor apocalíptico das trevas e pela visão de mil bestas-feras. O reservado estava infestado de baratas e havia excrementos espalhados por todos os cantos do lugar, fios de cabelos e grãos dos mais variados tipos, formando uma sopa de merda cabeluda nos azulejos escurecidos do piso. Mal se via a louça sanitária, coberta por uma crosta marrom-esverdeada-brilhante-granulosa que lhe lembrou sobremaneira o caruru que recheava os acarajés que ele havia devorado na noite passada pouco antes de dormir. De súbito, não segurando a náusea proporcionada pelo ambiente, retesou o estômago, e esse ímpeto fez com ele soltasse lanços malcheirosos tanto por cima quanto por baixo, presenteando o cubículo com mais porcarias apodrecidas.

Depois de alguns minutos de choro, flatos, jatos e cólicas, Zé pós a cabecinha para fora do banheiro e gritou pelos pais, que já estavam preocupados com sua ausência na lanchonete. Sua mãe foi salvá-lo da encrenca em que se metera, trazendo um balde d’água, toalha, sabonete e roupas limpas. Banhou-o do lado de fora da pestilenta casinha, para desespero de Zé, que escondia, com as mãos espalmadas, seu peruzinho careca dos transeuntes do lugar. O fardamento do seu time do coração foi salvo, entretanto, a cueca, ficou por lá, boiando sobre o lamaçal de bosta

Meia hora mais tarde, quando Zé tentava esquecer os momentos humilhantes que vivera e a família atravessava mais uma cidade baiana, um cheiro azedo contaminou todo o carro. O pai de José o olhou pelo retrovisor, a mãe girou o pescoço na direção dele. Suas duas irmãs, Maria Hernandes e Mercedes Hernandes, gêmeas, um ano mais novas do que ele, sentadas uma de cada lado do irmão, também o fitavam com censura, enquanto tapavam seus narizinhos com os dedos. Como se houvessem ensaiado, eles perguntaram uníssono:

— Tá cagado de novo, Zé?

Zé respondeu, cabisbaixo, com um “Tô” melancólico e desanimado, tão silencioso quanto o peido melado que acabara de soltar, no mesmo tempo em que foi surpreendido pelo tranco de um quebra-molas atropelado por seu pai, que o fez contrair a barriga, devido ao susto, e esguichar um pouco mais da tinta amarelada fedida.  Foi o ápice do vexame. As irmãzinhas gritavam frenéticas a todo instante: “Zé Cagão, Zé Cagão, Zé Cagão… “.

Durante o resto da viagem tiveram que parar urgentemente umas cinco ou seis vezes. E o pequeno e fanático torcedor do Esporte Clube Bahia apenas bebeu água de coco no decorrer da viagem até o seu destino final na casa dos avós. Zé foi dormir naquele maldito dia, já em Salvador, no bairro da Ribeira, de cu assado.

Pela manhã, ao levantar mais animado e com muita fome, o menino foi recebido por seus primos que lhe apontavam o dedo e diziam:

— Ó paí, ó. O Zé Cagão acordou.

Inevitavelmente, após sua primeira visita a Boa Terra, berço de toda sua família, José Hernandes Gregório ficou oficialmente conhecido, entre familiares e amigos mais próximos, como o Zé Cagão. No entanto, o gordinho tirou de letra o apelido de mau-gosto. Ele nunca fora uma pessoa enfezada, até porque, livrava-se de suas fezes de duas a três vezes por dia.

Anos mais tarde, devido as suas indisposições intestinais persistirem com uma frequência assustadora, descobriu-se, através de exames específicos, que o intestino dele sofria com irritações alimentares e também era muito susceptível às emoções. Tinha diarreia quando estava triste, quando estava alegre, quando estava ansioso… ele cagava, literalmente, para todos os sentimentos. Suas expectativas, tristezas e contentamentos sempre tinham o mesmo fim; escorriam derretidas e fedorentas descarga abaixo. Enquanto fumantes inveterados guardavam cigarros por todos os cantos e cômodos possíveis, para que nunca lhes faltassem o vício, nosso amigo não podia ficar sem papel higiênico. Tinha-os no porta-luvas e no porta-malas do carro, na gaveta do birô do laboratório em que trabalhava como parasitologista, e, claro, não saia de casa sem verificar o rolo de papel amassado que ficava dentro do bolso de sua calça.

Conhecia todos os tipos de privadas e banheiros da cidade e de muitos cantos do mundo. Tornara-se um especialista em acolchoados para sanitários. Derrubar o barro, para ele, era vida e cultura. Leu a trilogia do Senhor dos Anéis durante nove meses de sentadas no trono. Sem falar no grande prazer que lhe proporcionava as horas em que se esvaziava.

— Como é bom cagar! — Ele não cansava de dizer durante as “barrigadas” diárias. Para ele, não havia nada mais prazeroso do que cagar escutando Pink Floyd.

Não obstante a esse peculiar problema, Zé teve uma vida normal e feliz. Casou-se com uma bonita colega de trabalho e tiveram uma filhinha linda, que lhe deu um netinho saudável e esperto que herdara seu nome.

No batizado do pequerrucho, há poucos dias, vestido apenas com uma batinha branca e sem fraldas, no momento em que o reverendo lavava sua cabecinha, Netinho fez uma careta medonha, contorceu-se de forma hilária e mandou um belo de um jato de merda na batina do padre. Um grande constrangimento se fez na igreja diante da cena escatológica inesperada. No entanto, José Hernandes Gregório, nosso amigo Zé Cagão, regozijou-se de prazer com a situação. Pegou o menino no colo e disse emocionado e cúmplice:

— Ah, como se parece comigo, este cagãozinho! — Falou, entregou o neto para a filha e correu para o banheiro.

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1.