EntreContos

Literatura que desafia.

#OndeEstaDora (Doralice)

Sempre acreditei que era uma mulher preparada pra tudo, não literalmente, claro. Mas tinha tanta fé nisso, que de fato nunca me vi em situações que não poderia lidar: até aquele momento.

Vestida de noiva, observei o semblante de choque no rosto de cada um. Pessoas desconhecidas faziam perguntas que eu não sabia responder e, falavam coisas que não queria ouvir – todos ávidos por registrar com detalhes o pior dia da minha vida.

Não lembro como, mas quando dei por mim não estava mais lá. Vaguei pelas ruas, ciente dos olhares curiosos. O céu cinzento e sem estrelas me fez questionar como acreditei que aquele seria um belo dia.

Observei um carro preto estacionando do outro lado da rua, um homem desceu apressado e seguiu em direção a farmácia. Atravessei e entrei no carro, agradecida pela pouca luz e o frio do ar condicionado.

Ele não demorou a retornar, falava ao telefone irritado, deu a partida e acelerou. Algum tempo depois desligou o celular e começou a murmurar palavras ininteligíveis.

  – Noite difícil? – perguntei.  

O som dos freios foi ensurdecedor, com a guinada meu corpo precipitou-se, por muito pouco não bati no para-brisa.

  – Mas, que… o que diabos está fazendo no meu carro?

  – Você quase nos matou – gritei.

Ele me encarou como se uma cabeça extra estivesse nascendo no meu pescoço. Seu olhar desceu até meu vestido, ficou ainda mais perplexo.

  – Me desculpe, não queria assustá-lo, apenas continue dirigindo, sim?

  – Você está louca? Isso não é um táxi!

  – Eu sei, é um uber.

  – Só pode ser uma brincadeira… tem uma câmera escondida aqui?

Diante de minha confusão, explicou:

  – Por Deus, isso não é um uber…é meu carro, não sou motorista.

Demorei para registrar aquela informação, não sabia o que dizer. O homem pediu que eu saísse, mas recusei, não tinha dinheiro e a última coisa que queria era voltar. Ele escutou meu desabafo pacientemente, porém, para minha decepção minutos depois estávamos em frente a um hotel.

  – Saia!

Analisei as possibilidades e definitivamente não iria sair, não em um vestido de noiva.

  – Vai mesmo me fazer tirá-la à força?  

  – Por favor, eu não vou incomodar, pode me deixar em qualquer lugar, mas longe daqui!

  – Desça.

  – Eu pago!

  – Jesus… – disse ele. Colocou a cabeça para dentro do carro e me agarrou.

Segurei na outra porta enquanto ele tentava me puxar, ficamos naquela situação bizarra até que alguém nos interrompeu.

  – Ei, vocês!

Paramos em uma posição estranha, ele por cima de mim no banco de trás. Uma garota com celular gravava toda a cena.

  – Esse cara tá te estuprando, moça?

O rosto do homem ficou branco.

  – Sai de cima dela seu tarado, estou gravando tudo!

Pânico.

  – Não, não…está tudo bem! – tentei explicar, desvencilhando-me dele.

  – Moça, parece bem claro pra mim, ele te sequestrou?

  – Não, é tudo um mal entendido!

Recuperando-se do transe, ele apontou para a garota enfurecido.

  – Apague isto ou lhe processo por difamação!

  – Está apontando o dedo pra mim? Vocês estão vendo? Claramente uma metáfora agressiva de suas intenções!   

Não sei como surgiram, mas de repente estávamos cercados por várias pessoas, e uma calorosa discussão começou.  

  – Ei, ela não é a bela? – perguntou uma senhora. – Você está no youtube, moça. O noivo dela fugiu. – contou.

A informação não me chocou, sabia que agora eu era motivo de chacota em todo lugar. O motorista claramente queria arrancar minha cabeça fora, puxei ele pelo braço e fiz com que entrasse no carro. Pedi uma última vez que ela apagasse o vídeo, mas era certo que não faria.

Ficamos em silêncio durante todo o trajeto, seu celular tocava insistentemente, ele apenas gritava para a pessoa da linha que já estava a caminho.

A culpa me incomodava.

  – Meu nome é Doralice, mas pode me chamar de Dora – falei – Até prefiro, sinto-me meio antiquada com este nome.

Passei a última hora tagarelando, mas nada parecia funcionar – ele era irredutível.

  – Posso ajudá-lo em algo? você está muito tenso.

  – Não é um bom dia para mim, Doralice. Quer que eu comece a dizer o porquê?

Sorri animada, tudo o que eu queria era ouvir uma história pior que a minha.

  – Foi uma retórica.

  – Ah…

  – Fábio – disse – Me chamo, Fábio.  

Sorri, ele combinava com o nome.

  – Onde eu posso deixá-la, Doralice? Realmente preciso ir embora.

Não respondi.

  – Vou chamar um táxi…ou melhor, um uber para você – disse olhando-me sugestivamente. Não queria que ele chamasse ninguém, mas não era justo atormentá-lo ainda mais com meus problemas.

  – Precisa fazer uma ligação? – perguntou.

  – Meus pais devem estar desesperados à minha procura, mas tem algo que preciso checar com urgência.

Ele ofereceu o celular. Com as mãos trêmulas digitei aquele nome tão familiar, se as notícias eram verdadeiras ele já estava fora do país. Fora informado sobre a prisão preventiva naquela manhã, podia ter me avisado – era o que minha mente gritava, mas não o fez para ganhar tempo. Outras notícias citavam meu nome “Bela, recatada e do lar abandonada no altar”. Alguns comentários diziam que eu era cúmplice.

As lágrimas foram descendo sem que eu pudesse evitar. Entreguei o celular e virei meu rosto para que Fábio não visse minha fraqueza. Ele soltou um assobio enquanto lia as notícias.

  – Você está tendo mesmo um dia de merda, Doralice.

  – Dora…

  – Prefiro Doralice. Você parecia familiar, mas não prestei atenção aos detalhes.  Lamento que esteja passando por isso…mas, era só questão de tempo você sabe, né?

Eu não fazia ideia, expliquei a ele tudo o que eu sabia, ou melhor, o que pensava saber. Foi um alívio constatar que ele não me julgava, porém ficou em conflito – não sabia o que fazer comigo.

Minutos depois tomou uma decisão.

  – Não vamos esperar o Uber? – perguntei confusa.

  – Não, realmente preciso ir, notei que quanto mais tento me livrar de você, mas me afundo em confusão. Vou hospedá-la por esta noite na casa da minha mãe. Só por esta noite, ok?

Estacionamos em frente a uma elegante mansão. Um homem correu até nós, aliviado por ver Fábio, que o cumprimentou cordialmente. Quando desci pensei que ele cairia duro ali mesmo.

  – Ah, essa é Doralice – Fábio nos apresentou. – Ela vai passar a noite aqui, arrume um quarto, por favor.

  – Mas, senhor… – ele arfou, olhando-me de cima a baixo. Eu devia ser mesmo uma visão vestida daquele jeito.

Lhe ofereci meu melhor sorriso, mas ele não retribuiu. Tropecei no caminho e Fábio segurou minha mão, não soltou enquanto me guiava para dentro. O hall encontrava-se a meia luz. Fábio ficou intrigado com aquilo, do nada alguém passou a tocar um violino.

Para completar, uma voz feminina se fez notar.

Paramos.

“Seja ousada, foi a primeira coisa que você me disse quando nos conhecemos. Já faz dois anos de companheirismo, eu te amo, você me ama. Se a ousadia me definiu a anos atrás, ela fará o mesmo agora. Vamos dar esse novo passo juntos?”

  – Puta merda… – ouvi ele sussurrar.

As luzes aos poucos foram aumentando a tonalidade revelando a nós, e todos os outros presentes.

 

No final do suntuoso tapete, vi uma bela mulher num elegante vestido branco, com o que parecia ser uma caixinha de joias nas mãos. Ao redor, pelo menos vinte pessoas assistiam a cena estarrecidas. Fábio encontrava-se completamente estático, desgrenhado e desalinhado. Para completar havia eu, segurando sua mão, vestida de noiva no que supus ser sua festa de noivado…surpresa.

O violino cessou.

Não havia limites para o estrago que eu poderia causar, antes de terminar aquele dia.

No silêncio sufocante, a gargalhada de uma criança foi ouvida.

Sentada em um elegante sofá branco, encarei os olhos sábios da menina, eram idênticos aos do pai. Angélica fazia todo o tipo de perguntas, e deslumbrava-se com os detalhes do meu vestido.

  – Você é mais bonita, que minha boneca mais bonita! – disse empolgada.

  – Obrigada – falei sem graça.

  – Estou tão animada! Pensei que nada poderia salvar meu pai dessa.

A namorada, ou noiva de Fábio estava em algum quarto da casa, aos prantos. Era possível ouvir o som de objetos sendo quebrados. Antes de ir atrás dela, ele pediu que eu não fosse embora, até tentei, mas Angélica não deixou.

Demorou quase uma hora para eles descerem. Apesar da maquiagem refeita, a mulher ainda tinha o rosto inchado. Fábio parecia miserável ao seu lado. Desculpou-se pelo atraso, e por todas as circunstâncias adversas que tornaram aquela noite um fracasso. Não deu muitos detalhes do que ficou resolvido entre os dois, mas tentando ser bem humorado convidou a todos para desfrutar do jantar.

E lá estava eu, passando um pãozinho para a noiva que me fuzilava com os olhos. Um homem – que descobri ser irmão de Fábio, ria sozinho a todo momento – o chute da mulher ao seu lado não parecia resolver o problema.

  – Então, Dora… parece que teve uma noite e tanto hoje. Não se fala em outra coisa. – disse ele.

  – A Hashtag  #OndeEstáDora está em primeiro lugar no Twitter – informou Angélica  – O senhor também aparece papai, mas não de uma forma boa. O que é tarado?  

Pensei seriamente em me jogar pela janela.

  – E aí, onde está o dinheiro? Quem sabe pode dividir com a gente.

  – Você parece menos idiota calado, Eduardo – disse Fábio.

  – Eu não tenho nada a ver com isso – me defendi. – Amanhã tudo será esclarecido.

  – Você é uma moça jovem e bonita, ia se casar com um homem mais velho e podre de rico, me desculpe, mas…

Engoli a seco.

  – Tio, o senhor é um babaca! – disse Angélica.

Fábio levantou da mesa e acenou para que eu o acompanhasse. No quarto, me entregou um celular para que eu ligasse para os meus pais, depois saiu dando-me privacidade. Falar com eles foi mais tranquilizador do que imaginei. Os sinais de exaustão foram tomando conta do meu corpo, cedi ao sono.

Abri os olhos e Fábio me observava, vestia roupas informais, o cabelo molhado – um sorriso gentil nos lábios.

  – Eles chegaram –disse.

Levantei rápido.

  – Quando tempo dormi?

  – O bastante.

  – Por que não me acordou? – perguntei olhando-me no espelho, aliviada por não parecer tão horrível quanto me sentia. O vestido que uma vez fora perfeito tinha manchas na barra e um rasgo na saia.

  – Vista isso – ele me entregou uma muda de roupa.

  – Preciso de ajuda com os botões – falei quando ele já cruzava a porta – São pelo menos uns trinta.

Ele coçou a cabeça desconfortável, e se aproximou.

Enquanto ele lutava com meus botões, conversamos sobre minha situação. Notei com gratidão que tomava cuidado para me tranquilizar, como se tivesse passado a noite estudando meu caso e soubesse exatamente o que fazer. Não seria fácil, mas eu tinha a verdade ao meu lado.

  – Essa coisa não sai – reclamou.

  – Pode rasgar.

  – Não seja boba.

  – Fábio? Pode rasgar, eu nunca mais quero ver esse vestido na minha vida. – olhei para ele através do espelho.

  – Ok.

Apoiei minhas mãos na penteadeira e com força ele puxou, botões de pérolas espalharam-se pelo chão, com mais um puxão senti o vestido escorregando por meu corpo, deixando-me apenas de roupas intimas.

  – Que merda, Fábio! Devo supor que agora será a lua de mel? – sibilou a namorada na porta do quarto, Angélica estava junto.

Puxei o vestido de volta e Fábio como sempre fazia desde que o conheci – ficou congelado.

  – Papai, o senhor é mesmo tarado! – gargalhou Angélica.

Não sei até que ponto o destino estava agindo, mas depois de passado o fatídico incidente no quarto, nos reunimos e descobri que não apenas Fábio era advogado, como meu pai sem nem mesmo conhecê-lo já tinha feito uma proposta a sua firma para cuidar do meu caso. Seu sócio já tinha aceitado.  

  – Você aceita se afundar mais um pouco nas minhas confusões? – brinquei. Ele me olhou longamente, havia um brilho diferente em seus olhos.

  – Sim – foi sua resposta.

Até então, não tinha percebido como eu estava esperando por um sim. Sorri pra ele, que retribuiu. Alguém pigarreou e percebemos que estávamos sendo observados por vários pares de olhos. Me recompus sem entender por que meu coração tinha acelerado de repente. Olhei pra ele de novo e vi em seus olhos a mesma pergunta.

– Droga.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1.