EntreContos

Literatura que desafia.

Um gato chamado Alice (Monty Java)

Meu nome é Astéri. Significa Estrela, em grego. A minha linhagem vem do tempo dos faraós do Egito. Sou de sangue real, destinado a feitos grandiosos e a liderar o meu povo para novos tempos de glória. Má sorte ter nascido gato amarelo.

Minha primeira recordação é dos grandes olhos de mamãe e da forma como me olhava quando eu fazia asneira. Nessa altura, só fazia asneiras e mamava. Tinha mais irmãos, todos a lutar pela maior asneira e a melhor teta. Mamãe se desdobrava em cuidados. A vida não podia ser melhor. Pensava que este paraíso felino iria durar para sempre, mas durou apenas algumas semanas (não sei precisar porque a matemática nunca foi o forte dos gatos – nem da maioria dos humanos, pelo que sei agora).

De um momento para o outro, todos meus irmãos sumiram – o que até não era ruim, porque significava que ficava com mamãe só para mim. Mas estava longe de imaginar que mamãe também sumiria e eu iria para uma casa diferente. A princípio, as saudades de mamãe ficaram a remoer, mas depois a perspetiva de ter uma casa só para mim fez-me esquecer tudo. Depressa cheguei à conclusão de que a casa não seria só para mim: felizmente tinha humanos para me alimentar e mudar a areia.

Os meus quatro humanos são duas fêmeas e dois machos. Dois adultos e duas crianças. São todos insuportáveis, querendo sempre mexer comigo. E, ainda por cima, cheiram pior do que a minha caixa de areia em dia de diarreia. Ainda não perceberam quem manda. Eu sou Ásteri, tenho sangue real, e eles são os meus reles súbditos.

Só não percebi por que faziam eles coleção dos meus cocôs. Todos os dias mudavam a areia e tiravam os meus pequenos tesouros que tanto trabalho me dava a esconder. Procurei por toda a casa, mas nunca descobri onde os escondiam. Isso me deixa zangado. Tentei bater nos meus criados, mas tudo o que consegui foi arranhar com os meus pequenos dentes e garras. Decidi esperar: um dia seria grande o suficiente para fazer estragos – nesse dia colocaria na linha os meus súbditos. Até lá, e para mostrar o meu desagrado com a sua actuação, subo aos móveis e atiro as coisas para o chão. Eles falam alto, parecem irritados. Eu ignoro-os, vou para o meu canto da casa e começo o meu desporto favorito que é a limpeza das minhas bolas. Há semanas que não param de crescer, sou um gato muito macho, mas eles continuam a chamar-me de Alice. Pelo que percebo, é uma questão de hábito. Uma vez Alice, sempre Alice. Dizem que eu já não respondo a outro nome. Mal eles sabem que eu não respondo a qualquer tipo de chamado de seres tão inferiores. E agora, com a vossa licença, mas as minhas bolas precisam de atenção.

Quando nada nos meus súbditos humanos me podia espantar, eis que eles colocam uma árvore na sala de jantar, só para minha diversão. A árvore está cheia de fios coloridos e enfeites. Tudo o que um gato precisa para ser feliz… Aquela árvore era MINHA! Para reforçar a sua posse, para que nenhum outro gato ousasse sequer pensar em a usar, a marquei com urina. Já tinha feito a mesma coisa pela casa toda, o que tinha impressionado especialmente a minha humana fêmea adulta.

(Se ao menos ela fosse mais gata nos poderíamos divertir, mas uma humana? Baaah!!…. Um gato tem de saber manter a distância e a dignidade.)

Agora que tinha marcado a árvore, subi nela e comecei a fazer o arranjo da decoração à minha maneira, facto que a volta a impressionar.

No dia seguinte, ainda impressionada e a falar alto, leva-me a esse local horrivel que é o consultório do veterinário. Me lembro da primeira vez que fui lá. De início parecia uma sala como qualquer outra. Depois um humano estranho, vestido com uma bata verde, pega em mim e me espeta um termómetro onde o sol nunca brilhará. Eu virei fera. Tentei matá-lo, mas novamente as minhas pequenas garras e dentes pouco fizeram. Aquela era uma sala de tortura e sempre que regressei lá tentava escapar, mas os meus súbditos não deixavam – seria, talvez, a vingança pelas vezes que eu próprio os tinha castigado? Ali me espetavam agulhas e me obrigavam a tomar produtos com gosto terrível que me fazia vomitar. Chorava e berrava por mamãe, mas não adiantava de nada.

Estava à espera de semelhante tratamento, mas desta vez foi diferente e fui covardemente obrigado a adormecer. Quando regressei a casa, fui para o meu canto e tentei lamber as bolas, como era meu hábito para aliviar o estresse, mas já não as encontrei. Tinham me roubado elas! Fiquei furioso. Tentei me vingar nos meus súbditos, afiei as garras, as apontei para os seus frágeis pescoços, mas eles me deram o meu patê favorito e eu esqueci tudo.

***

Os humanos são estranhos. Andam em duas patas, parecem árvores. Quando era mais pequeno, gostava de subir por eles acima, cravando as unhas nas suas pernas para reforçar o facto de serem meus súbditos. São grandes, o que é bom para me proteger dessa raça de seres estúpidos que são os cães. As duas patas de cima não servem para andar. É com elas que me dão de comer, trocam a água e a areia da minha caixa. Por vezes, quando quero, me dão colo e me abraçam. Também não têm garras. Têm dedos que servem para me fazer massagens, e tenho de reconhecer que os humanos são bastante bons nisso. Por vezes os usam para fazer massagens a máquinas. Fico furioso: os dedos são pertença minha, servem APENAS para me massajar. Como vingança, me deito em cima das máquinas que eles estavam a massajar, o que deixa os humanos furiosos – tentariam de certo lamber as suas próprias bolas para esquecer a fúria, mas não têm a minha elasticidade, pelo que não conseguem fazer.

***

Desde que me roubaram as bolas que tenho notado que estou mole, passando muito tempo a dormir. O meu local favorito é a cama da humana mais nova, que passa o tempo a olhar para máquinas com coisas nos ouvidos. A cama é alta, macia e cheira sempre bem. Assim que sinto que a porta do quarto se abre (e que petulância a dela de deixar uma porta fechada nesta casa que é só minha…), corro o mais que posso para saltar para a cama e enrolar-me todo até conseguir dormir. Mesmo estando mais gordo, consigo ser rápido, mas sinto que perdi alguma da minha agilidade. Um dia que o corredor estava mais escuro, ouvi uma porta. Assumi que era a porta da humana mais nova, desatei a correr, já imaginando o conforto da cama, sem olhar para o que estava à frente… Para quê, se eu já conhecia o caminho? Passaria como era hábito pela porta, à velocidade máxima que a minha presente forma física permitia, saltaria para a cama e estaria no sétimo céu felino. Mas nesse dia as coisas não correram como eu pretendia e marrei com a cabeça em cheio na porta ainda fechada.

Poc!

Senti a pancada e ouvi sinos na minha cabeça durante quinze dias. Foram dias de cuidados reforçados e um patê. Só por isso valeria a pena voltar a repetir a façanha, mas ganhei uma loucura ainda maior: foi nessa altura que fiquei com a certeza de que podia voar.

Todos os gatos podem saltar e sabem cair até uma certa altura. Eu me convenci de que conseguia voar como os pássaros. Vou explicar: passava grande parte do tempo sozinho na minha casa. Os meus humanos deveriam regressar às suas próprias casas durante o dia, me deixando ser o rei e senhor da minha casa, com livre acesso à varanda. Passava longos períodos sentado no peitoril da varanda, observando tudo o que se passava lá em baixo. Via humanos de todas as cores e feitios, alguns passeando cães (para meu desgosto, descobri que mesmo estes estúpidos mamíferos merecem ter súbditos). Via outros gatos, como eu. Andavam livres e eu ficava a pensar se não valia a pena experimentar essa mesma liberdade. Afinal, poderia sempre voltar para casa.

Bastava voar.

Só precisava vencer o medo, mas desde que batera com a cabeça perdera o medo da altura.

Bastava voar.

Decidi que seria naquele instante. Um pequeno passo para o gato, um grande passo para a felinidade. Primeiro tinha de dar impulso, abrir bem as patas, esticar-me todo e rezar ao supremo deus dos gatos. Correu tudo bem excepto a reza – o voo se transformou numa queda descontrolada e bati em cheio no chão. Tentei me levantar, mas não consegui. A dor na pata era insuportável. Quando dei por mim estava a ser transportado pelo meu humano para o veterinário. Sim, eu sabia bem o caminho, mesmo tolhido pelas dores. Me colocaram numa mesa, onde o humano de bata verde me observou. Eu já o conhecia. Levantei a única pata da frente que podia mexer, mostrei-lhe as garras com firmeza e ameacei-o com um miado furioso: “Conserta minha pata ou te mato!”.

Ele pareceu perceber, enquanto pegava num aparelho que ele tinha usado antes para me fazer adormecer. Me lembrei então de outra coisa.

“E me devolve a porra das bolas, cara… você já brincou o suficiente com elas…”, miei, momentos antes de adormecer.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3, Comédia Finalistas.