EntreContos

Literatura que desafia.

Segundo Escalão (Garota Esquilo)

Todo super-herói tem uma história de origem. Com o jovem pedreiro Luigi Focaccia não fora, então, assim tão diferente.

Naquele mês de agosto Roma fritava os pedestres como não costumava fazer desde os tempos de Nero; as pedras negras de seu calçamento logrando convencer a todos que aquecimento global não era, afinal, só conversa de professores de História comunistas maconheiros veganos sexualmente versáteis.

Por volta das duas da tarde, o baixinho Luigi deixara o edifício em construção onde trabalhava e desceu pela Via di S. Vincenzo até a esquina com a Piazza di Trevi, do famoso chafariz. Seu estômago rugia e cobiçava com fome assassina aos outros órgãos vizinhos, que se encolhiam, temerosos.

Cem quilômetros acima da Cidade Eterna, alheio a isso tudo, um pedregulho espacial com verdadeiro antepasto de minerais extragalácticos resolvera que era boa ideia se quebrar em mil pedaços fosforescentes ao penetrar nossa atmosfera.

Faminto, o italianinho cruzou aquele mar de gente suarenta e xingou em segredo os turistas que jogavam moedas na Fontana, que por pouco não caíam no colo de Oceanus ao tirar selfies, que montariam seus cavalos-marinhos se os Carabinieri se distraíssem e que enchiam os bolsos dos ambulantes africanos, vendedores de legítimos suvenires Made in China.

A cinco esquinas e muitos palavrões sussurrados dali, completamente desconhecida dos estrangeiros que pagavam até vinte Euros por um calzone tradizionale de cheddar, a Osteria La Tavola Calda della Nonna era só uma portinhola coberta por dezenas de cartazes esfarelados pelas intempéries, porta essa que dava acesso a um pátio interno onde dez mesinhas de metal assavam sob ombrelones pouco eficientes. Menu do dia: Risotto al nero di seppia ou Lasagne alla Bolognese. Uma taça de tinto, uma bruschetta de entrada e um espresso completavam o honestíssimo preço fixo: doze Euros.

Em Nova Iorque, uma aranha fora atingida naquele momento por um microfragmento do meteorito e, não exatamente contente da vida, desceu de sua teia e picou o pênis de um adolescente que estava na cama – aham – exatamente no ápice de sua homenagem à coelhinha do mês. Sim, a outra versão “oficial” desta história é uma variação politicamente correta e pudica do que realmente ocorreu. O fluido das teias é na verdade, bem, é isso mesmo o que você pensou…

(Porra, Peter!)

Luigi considerou por menos de um segundo o risoto lamacento de tinta de sépia, com tentáculos aflorando aqui e acolá e cheirando à cais, e pediu a lasanha, sem pestanejar. Esqueça, contudo, o que você pensa que sabe sobre o prato: a pasta era artesanal, o molho cozera sobre o lume brando por eras, os tomates, cenouras e manjericão eram da horta dos fundos, o queijo era pura poesia láctea e a carne, de bovinos que cresceram escutando Rita Pavone e Peppino di Capri. A porção servida, mamma mia, borbulhante como as lavas do Vesúvio, seria suficiente para alimentar Pinóquio, Geppetto, Fada Azul, os meninos-burricos da Terra dos Brinquedos e todo o restante do elenco, não incluindo a baleia, é claro.

A vida é injusta, ora, disso todos sabemos. Enquanto  Peter “Punheteiro” Parker viraria o famoso amigão da vizinhança, ainda que à custa de muitas espinhas e mãos peludas e calejadas, o pobre Luigi não teria tanta sorte…

Um pedacinho do meteorito perfurou o telhado da Osteria, ricocheteou num imenso pote de alcachofras em conserva e caiu como chuva de pó esmeralda sobre a lasanha que acabara de sair do forno à lenha. O rapaz italiano até reclamaria em outras condições; não pedira, afinal, massa verde, porém seu estômago já encurralara o fígado e estava prestes a esfolá-lo. O aroma da lasanha estava fantástico e o prato fumegante tinha bordas ligeiramente tostadas, estaladiças, feito ele adorava.

***

Convenção “B” de Super-Heróis – Bar do Hotel O Econômico ¾.

— E foi assim que virei o Homem-Lasanha… – ele esvaziou o copo de Fernet com refrigerante e pediu outro. — Ao menos consigo escolher o molho que esguicho pelos dedos: quatro queijos, matriciana, bolonhesa. Posso cegar um inimigo com queijo derretido também.

— Não é um poder cinco estrelas, mas não é lá tão mau, ó pá – comentou o Alfacinha-Deus-ex, um senhor gordinho e meio calvo. — Veja só, pá, tava eu na casa de banho da minha santa morada, a ler O Senhor dos Anéis, sentadinho na sanita, justo no capítulo do resgate do Gandalf pelas águias gigantes, quando fui atingido na cabeça por esse meteorito do piorio. Desde então, ganhei o poder de invocar um Deus ex machina, mas só quando estou, digamos, a pintar a loiça, percebes? É ridículo, pá, eu sei. Ainda mais porque eu tenho intestino preguiçoso.

— Somos ridículos, o segundo escalão do segundo escalão de heróis.

— Ao menos não somos a pobrezinha da Maria-Café, se te serve de consolo – o lisboeta bebericou bagaceira a partir de um copinho.

— Quem?!

— A brasileira novata. Maria Filomena dos Santos, não a conheces? Estava na seção de aniversariantes da revista Astros em Ascensão. No Brasil a rapariga tem outra alcunha de heroína: é a Mulher-Piolho-de-Cobra. Foi picada por um bichinho assim, que roera antes um cristal extraterrestre radioativo. Ela consegue enrolar-se feito um rocambole e fingir-se de morta, ou pode atacar os inimigos com um odor desagradável. É muito piada. É bem patético, na verdade.

— E com um nome destes, poverina… Não há marketing que resolva. Tenta cantar: “Mulher-Piolho-de-Cobra, Mulher-Piolho-de-Cobra, aí vem a Mulher-Piolho-de-Cobra…”.

— Eh-hei, ela é a Mulher-Piolho-de-Cobra! – eles cantaram juntos.

Ambos caíram na gargalhada. A porta do bar guinchou repentinamente.

— Qual dos dois imbecis disse meu santo nome em vão? – alguém rugiu.

A mulher, que vestia uma armadura negra multisegmentada e um capacete redondo com anteninhas, era alta e corpulenta. Ostentava uma cascata de cabelos negros e selvagens e tinha belos olhos compostos.

— Ai! Estamos feito ao bife! – disse o Alfacinha-Deus-ex.

— Corra pro toalete e convoque as Grandes Águias aqui no bar! Agora! – Luigi provocou.

— Ora, mas vá mamar na quinta pata do cavalo! Cega-a, tu, com parmesão derretido!

Contudo, ao invés de distribuir socos e pontapés, a Mulher-Piolho-de-Cobra sentou-se ao lado dos dois, junto ao balcão do bar, e pediu ao garçom:

— Três caipirinhas duplas, com muito gelo!

Os dois homens entreolharam-se, quase alegres, mas a alegria evanesceu depressa quando notaram que ela não tinha intenção alguma de compartilhar sua bebida, logo que a bela começou a sorver dos três copos com um canudinho em cada.

— A Convenção “B” de super-heróis deste ano foi cancelada por falta de quórum – ela lamentou, em meio a um suspiro. — A HicCup surtou e foi internada ontem… El Niño-de-Color está daltônico. LGBT-Power resolveu seguir carreira como carnavalesco no Rio de Janeiro, disse que seus poderes eram démodé como a coleção passada de outono-inverno. Ora, se aqueles de nós, os que têm poderes razoavelmente úteis, estão desistindo, o que fazemos aqui? Cara, eu daria tudo pra causar soluços nos meus oponentes, ou transformar o ambiente duma batalha numa discoteca dos anos oitenta ao som das divas imortais.

— Isso fora aquelas armas-secretas bacanas: o glitter empoderador e o arco-íris da representatividade – Homem-Lasanha lembrou.

Num rompante de generosidade então, Alfacinha-Deus-ex, que com o auxílio de laxantes conseguira salvar suas economias antes da liquidação do Banco Espírito Santo ao materializar todo o Bloco de Esquerda dentro da sede da empresa, sacou uma nota de quinhentos Euros do bolso e convidou: — Ora, então somos, sim, os fracassados! Mas não fracassados quaisquer! Somos os mais fixes, os mais brutais, os maiores embaraços do mundo! E de sempre! E bebamos a isso!

Houve alguma hesitação tímida, mas o bartender apressou-se em encher os copos ao reconhecer a legendária cédula violácea sobre o balcão. Os três ergueram os braços num brinde e sorriram maniacamente. E a noite correu fácil, lubrificada por risadas histéricas, algumas lágrimas e álcool, muito álcool.

***

Tudo então começou confuso como numa liquidação das Lojas Americanas numa segunda-feira chuvosa. O hotel estava em ruínas, uma tevê em chamas matraqueava ao fundo: “… repito: Hyperman está morto, The Flush também, WunderschöneFrau está morta! O robô gigante alienígena, O AntiTudo, parece ser capaz de gerar e usar exatamente o ponto fraco de cada super-herói e agora está destruindo toda a cidade, sem que ninguém possa impedi-lo. Deus! O que será de… Nãããããooooooooooo!”.

Mulher-Piolho-de-Cobra despertou sob os escombros escutando as notícias, cogitando que talvez fosse aquela a pior ressaca de sua vida. Fora a enxaqueca, estava bem, pois havia se enrolado instintivamente quando o prédio colapsou. Buscou pelos novos amigos e encontrou Alfacinha-Deus-ex somente empoeirado, agarrado à garrafa de Ginjinha de Óbidos. Homem-Lasanha, contudo, gemia desacordado sob um pilar desmoronado e sangrava molho bechamel. Através do teto desaparecido, ela avistou o maldito robô, lançando raios rubros em meio à escuridão e nuvens de fumo.

Sua esperança foi restaurada quando o céu cintilou multicolorido e a lua transformou-se num globo de espelhinhos enquanto Roberta Kelly enumerava os signos do zodíaco a todo volume. Sob chuva de espuma, LGBT-Power cruzou os céus com uma capa plissada platinada de 24 metros e lançou uma bomba de mil drag queens militantes nas fuças do AntiTudo. O autômato quase perdeu o equilíbrio – RuPaul havia lhe cravado um salto-agulha no joelho –, porém logo a máquina recuperou-se e disparou uma rajada de puro ruído branco sobre o super-herói, que descobriu-se então calvo, barrigudo, com camisa polo laranja – a cafonérrima estampa de jogador de polo tomando metade da vestimenta –, bermudão e chinelos com meias beges furadas. E, claro, heterossexual! Seu grito de horror – com voz estranhamente grave – se fez ouvir quando o valente defensor das minorias despencou do topo dum prédio.

— Ajuda o Luigi – a Mulher-Piolho-de-Cobra pediu ao português, ainda chocada pela morte do seu ídolo. — Veja se estanca esse vazamento de molho, pois não posso ficar escondida aqui enquanto esse monstro destrói o planeta.

— Mas, mas a rapariga é por acaso parva? É? Essa coisa matou o Hyperman! Tu não durarás mais que alguns segundos contra ele. É suicídio, pá!

A corajosa mulher apenas sorriu.

— E quem te disse que quando entro numa briga eu espero ganhar? Eu sou a Maria-Café, meu filho;  referência-mor de todos os poderes inúteis! Mas é o que tenho, é o que sou… Cuide-se! (Eu nem sei seu nome…) – ela beijou-lhe a testa. — Você é… Como vocês dizem mesmo? Cinco estrelas!

Maria enrolou-se numa espiral dura como aço e saiu quicando pelos escombros até as ruas. Quando aproximou-se do robô, esguichou ácidos e outras substâncias corrosivas fétidas. Sobreviveu a três tentativas de esmagamento usando sua carapaça resistente, mas não à quarta. O AntiTudo nem se deu ao trabalho de usar seu raio.

— É Carlos Diogo d’Oliveira Portugal… – o lusitano sussurrou, enquanto apoiava a cabeça do amigo na perna. — Ela nem gritou, Luigi, ela nem gritou…

— Ai! Cazzo! – o italiano despertou sem nada entender. — O quê? Olha lá! Um robô gigante vindo em nossa direção!

— Está tudo perdido. Está tudo perdido.

No entanto, o AntiTudo parou, como se hesitasse, e resolveu disparar sua arma de raios antes de esmagar a dupla. Alfacinha encheu-se então de coragem e se colocou à frente do amigo; absorveu o impacto total da rajada.

— Ai! – Alfacinha gritou. — O quê? O que ele fez? Meus intestinos… Máquina cobarde! Sinto que comi um quilo de cimento! Ai! Tu percebes? O AntiTudo quer bloquear meu poder! Mas, por quê?

— Porque um Deus ex machina poderia ser qualquer coisa, como que sacada da cartola dum mágico?

— Ah, é?

O rosto do português brilhou como os olhos de um miúdo diante duma fornada quentinha de pastéis de nata da avó. Alguma testemunha diria depois que o hino do Benfica tocava ao fundo.

— Diga-me lá, ó Lasanha, tu sabias que eu tenho uma intolerância à lactose do caraças? Da última vez que comi Queijo Serra da Estrela fiquei na sanita até formarem-me calos no cu!

O Homem-Lasanha olhou incrédulo para o amigo e gargalhou.

— E existe maior Deus ex que você me contar isso, justo agora? Abre a boca: lá vai uma torrente de pecorino ralado!

Alfacinha imaginou então um exército de AntiAntiTudos, transportados ao passado, justo quando o robô chegara à Terra. E tudo, então, magicamente mudou.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2, Comédia Finalistas.