EntreContos

Literatura que desafia.

Não quero assim (Anastácio Sissano)

“Não é assim que eu quero”, Karolaine proferia sua frase predileta, energicamente, como se fosse uma criança de quatro anos. Desta vez era porque não queria comer churrasco, mesmo tendo me obrigado a levá-la à “Churrascaria Almôndega Francesa”, que tinha acabado de ser inaugurada, no quarto andar do antigo edifício da Prefeitura. Ela queria ir para a churrascaria e comer outra coisa, talvez sushi de baleia ou uma pizza de jiló. Mas um cartaz muito bem desenhado explicitava, logo na porta de entrada: “Especializados em Churrasco à Moda Francesa. Prato do Dia: Filé ao Molho Parmesão”.

Aqui é preciso dizer que todas as mulheres inexplicáveis, voluntariosas, complicadas, indecifráveis, impenetráveis e ilógicas que já conheci, Karolaine ultrapassa tranquilamente, com uma mão no volante e a outra dando tchauzinho. Karolaine é tão doida que me culpa pelas loucuras que ela mesma diz, como se fosse eu quem controlasse sua língua. Assim, as discussões giram inteiramente em torno do que ela mesma fala. Karolaine é a única mulher que eu conheço auto-suficiente em brigas, como daquela vez que começou a gritar, para quem quisesse ouvir, que eu tinha “tomado gosto” com sua irmã, unicamente por eu ter recolhido a bolsa que Camila havia inadvertidamente derrubado. Eu não gostei, mas também não disse nada. Como não aceitei a provocação, ela iniciou um longo diálogo com ela mesma para provar que eu devia ter gostado de ela ter dito isso. “Quer dizer que é certo você dar em cima de Camila?” “Claro, você acha isso lindo”, ela mesma se respondia. Ao fim e ao cabo, Karolaine estaria bem melhor ao lado de um masoquista, que adorasse sofrer, e lhe agradecesse por cada insulto. Arre.

Deixa estar por enquanto, estávamos na churrascaria e o maître, que usava um esquisito gorro francês, esperava o pedido, muito empertigado: “Madame, commandez, commandez, s’il vous plaît” . Depois de eu e ele muito insistirmos, adulando-a, ela cedeu, não, é claro, em concordar com o que sugeríamos, mas em escolher alguma coisa que estivesse no cardápio, o que, vindo de Karolaine, já era motivo para comemoração. Pelo menos daquela vez, ela não fez a gente se levantar e ir para outro lugar. Com um gesto de enfado, Karolaine acabou pedindo o “plat du jour”,  churrasco de filé ao molho de queijo, que ela tinha descartado logo na entrada.

Apesar de o restaurante ser francês, a música era tipicamente brasileira: um grupo de pagode tocava, apropriadamente, no ritmo que transforma qualquer momento em um feriado.  Sorvi um gole da cerveja geladíssima que o garçom, com um gesto de prestidigitador, tinha despejado em meu copo, enquanto prestava atenção aos animados versos do samba “Deus Me livre”, que considero uma das melhores produções do grupo “Raça Negra”: “Te amo mas não quero nem te ouvir e nem te olhar…”. Chamei a atenção de Karolaine para a beleza e leveza da letra, aqui conseguidas através de uma mistura de originalidade e verossimilhança. “Não gosto de pagode”, ela respondeu. “Não sei por que você insiste em me trazer nesses lugares.” Senti ondas de mágoa aflorando, e a custo as reprimi, antes que se transformassem em rancor.

Mas o pior estava por vir. Entre tantas coisas em que ela podia pensar, como pássaros, conchinhas ou avelãs francesas, sua cabeça seguiu a mesma direção malfazeja de sempre: sem nenhum motivo, a minha doce Karolaine cismou com uma moça de olhos cor de caramelo, sentada com uma amiga, de cabelos longos, brilhantes e também muito bonita, em frente a nossa mesa. Karolaine sempre teve ciúmes de mim, não porque ela goste ou se importe comigo, mas como quem não quer que ninguém vista um de seus vestidos, embora sequer pense em vesti-lo algum dia, e tem ciúmes desse vestido simplesmente porque é seu, para sujá-lo ou rasgá-lo como bem entender.

Eu notei os olhares de Karolaine, e ao captar a gestação de mais um desastre, tentei apaziguá-la, sugerindo: “Amor, vamos mudar para aquela mesa, mais afastada da sacada? Olhar para baixo, de tão alto, não incomoda você?” “Aqui está bom.” ela respondeu, com um olhar sinistro, tipo espere-para-ver-o-que-está-por-vir.

A outra, claro, não ia ficar indiferente aos olhares azedos de Karolaine, e entendeu de retribuir. Em pouco tempo havia uma guerra de olhos entre Karolaine, a moça, e sua amiga, e aquilo já estava me ofuscando. O filé não vinha nunca, terminando de me exasperar, parecia que era de propósito. Mais de uma vez chamei o maître, quase desesperado. “Attendez, attendez, monseieur, s’il vous plaît”, era só o que ele dizia, como se eu não estivesse aguardando há séculos.

Finalmente, aconteceu o que eu temia. Karolaine, bem a seu estilo, explodiu com a garota: “Que é que você tanto olha, para mim e para o Anastácio?”. A outra deu o troco de imediato: “Para você, tentando descobrir de que pé de melancia caiu, e seu namorado feio e velho, para não dizer mentira, não tinha visto até agora.” “Ele pode ser feio e velho, mas nem um desses vocês arrumam, e por isso dão em cima do namorado da gente, e gorda é você, sua cambucrete.” Reparem que a conversa das duas em nada me lisonjeava, e eu já tinha desistido de passar um feriado ameno e agradável. Só queria evitar o pior, ou seja, que o escândalo, que já me deixava sufocado de humilhação, desse em algo pior.

Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ou mesmo fazer algum gesto, as três já tinham se levantado e trocavam insultos, aproximando-se. Logo, passaram a empurrar-se no meio das mesas, até que uma delas, não lembro qual, caiu no colo de um distinto senhor, de seus sessenta anos. Após um momento de hesitação, a cadeira em que ele estava sentado não resistiu ao peso dos dois, quebrando-se, e então eles rolaram pelo chão, produzindo um grito indignado por parte da esposa do cavalheiro. Mal a que tinha caído se levantou, investiu sobre as outras, toda torta, as três caíram e rodopiaram emboladas para fora do salão, rumo à sacada. Quando se levantaram passaram a trocar pontapés e cabeçadas mal-intencionadas, perigosamente próximas do parapeito, que eu notei que era bastante baixo. Atordoado, eu levantei-me na direção delas, quando então Karolaine resvalou, violentamente, e enquanto as duas que ficaram gritavam ela caiu para uma queda de quatro andares.

Eu estava branco de pavor e corri para a sacada. Debrucei-me, correndo o risco de cair também e olhei para baixo.

Vocês nunca vão acreditar, mas aquela vasilha única tinha ficado presa, pelo pé, na corda de um mastro de bandeira, que não era usado há anos.

O maître, que a tudo tinha assistido, movimentando-se ao redor delas com as mãos na cabeça e gemendo “mon dieu, mon dieu”, também olhou por sobre o parapeito imediatamente. Ao ver Karolaine pendurada, exclamou “Sacre bleu!” e acenou histericamente, convocando mais garçons, que vieram correndo.

Agora tentávamos puxar Karolaine de alguma forma.  “Attention, messieurs, attention, pour l’amour du ciel, pour l’amour du ciel!”, o maître comandava a operação. Todo o cuidado era pouco, qualquer escorregão e pooof, ela se espatifava lá em baixo. As inimigas de Karolaine, gritavam, choravam, tremiam-se todas. Eu sempre achara que Karolaine, gordinha daquele jeito, era sexy, e nunca a tinha estimulado a fazer uma dieta. Agora me arrependia; entre outros temores, havia o de que a corda não aguentasse e rebentasse, de repente.

Lentamente, mortos de medo, estávamos conseguindo içar Karolaine, que berrava o tempo todo: “Não quero assim! Não quero morrer desse jeito!”. Finalmente ela se aproximou a ponto de eu e um dos garçons conseguirmos puxá-la por uma perna, e outros dois garçons pela outra. Quando passou para dentro, Karolaine não conseguia ficar em pé, e se pendurou em mim, me apertando com tanta força, chorando e se sacudindo com tanta fúria que quase íamos lá, de novo, dessa vez os dois. Mas eu fui afastando-nos do perigo, consolando-a, acalmando e ela me beijando como nunca tinha feito, e finalmente sentei-me em um sofá com aquela doida no colo, que não queria me soltar de jeito nenhum, enquanto os clientes da churrascaria batiam palmas, emocionados, e o maître lançava seu gorro para o alto, exclamando: “Vive la france! Vive La femmina!”. As duas meninas briguentas se aproximaram, chorando; “Desculpa, foi sem querer…” e as três se abraçavam agora. Afinal, podiam ter caído era as três.

Depois de tudo isso, Karolaine passou três dias cordata, sem me encher o saco, e então tudo voltou a ser do mesmo jeito. Nada muda essa mulher; Karolaine continua me atribuindo todos os defeitos de seus namorados anteriores, além dos meus próprios e os dela também. Há dois dias terminamos mais uma vez, ela só me deixou ir embora depois de rogar as sete pragas de Jericó, eu ia terminar sozinho, infeliz, sem apoio de ninguém, o que prova que Karolaine não sabe a diferença entre o que se deve e o que não se deve dizer para alguém que gosta tanto dela. Jesus, Maria e o Espírito Santo sabem o que estou passando, mas como dizem os “Raça Negra” na música, “Deus me livre, tenho medo de voltar.”

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 3.