EntreContos

Literatura que desafia.

Tutoriar (Gui)

Edgard observou a grama no quintal do vizinho.

O verde era igual, mas o entorno bem diferente. Começando pelo dono da residência – o vizinho, uma jazida de testosterona, abdômen definido desde o maternal, barba estilo lenhador; Edgard, 42 com carinha de 58, barba rala, tanquinho soterrado em camadas de tecido adiposo. Porém, isso não o incomodava – já havia se conformado (por pura falta de opção) que a vida faz Brad Pitts e Danny DeVitos, e ele, por algum mistério insondável que só lhe seria revelado às vésperas do Juízo Final, havia caído no grupo dos caras cotados para interpretar o Pinguim e não o Batman.

Do lado de lá, alegria, gargalhadas, diversão, bebida, mulheres com corpos de garota tutti-frutti do Miele (essa era a referência de Edgard para mulher “formosa”, gravada em mente e tendões do antebraço na ebulição de hormônios da puberdade) pulando na piscina com biquínis deliciosamente indecentes e executando, com sincronia olímpica, complexos passos de “descer até o chão” embalados por pérolas do cancioneiro popular contemporâneo. Do lado de cá, silêncio de almoço de equipe com a presença do chefe. Edgard também estava rodeado de mulheres, isso é bem verdade – a filha mais nova, enfurnada dentro de casa, e a esposa e a sogra, enraizadas nas espreguiçadeiras do quintal, exibindo bronzeados barriga-de-lagartixa enquanto liam livros e revistas antigas, interativas e eloquentes como homens na antessala do proctologista. Havia ainda a filha mais velha, mas essa, com a graça do bom Deus, tinha arrumado marido e não dava mais despesa.

Edgard olhava para a festa lá do outro lado da rua e olhava para a desolação ao seu redor. Olhava os shorts das meninas e as pernas de palmito assustado da esposa, os sorrisos lá e a sogra aqui, os bíceps e tríceps do vizinho e o seu próprio pánceps. E, enquanto lá, em potentes autofalantes o poeta cantava que estava no fluxo e avistou a novinha no grau, aqui Edgard teve uma epifania, uma revelação sobre o que faltava para trazer à sua família ao menos um quinhão daquela felicidade. Ignorando todos os outros fatores para aquela alegria toda (juventude, álcool, mesada dos pais capitalistas-opressores, Tinder, pílula do dia seguinte…), em seu íntimo Edgard concluíra: “A piscina! É a porra da piscina!”. Empolgado, tomou fôlego para anunciar a descoberta, mas a sogra, até então calada feito menino fanho em escola nova, resolveu falar bem na hora:

— O que ‘tão dizendo que a novinha quer nessa música, ‘Dilene? – perguntou para a filha.

— Pau… – Edilene respondeu com naturalidade.

— O quê? – Dona Iolanda até perdeu a página da cruzadinha.

— Pau, mãe – Edilene confirmou. Depois, para não restar dúvida, continuou: – Piroca, rola, pinto, chapeleta, jiromba, Bráulio, Malaquias, pica, pingola, cara…

— Tá, tá… já tinha entendido lá na “piroca”! – Dona Iolanda interrompeu a lista de sinônimos pra Houaiss nenhum botar defeito. – Mas, meu Deus do céu, que pouca vergonha, né, ‘Dilene?

— Pois é… desde que esses paulistas compraram a casa aí da frente, todo final de semana é isso: música alta, palavrão e baixaria até as tantas. Um horror.

Crendeuspadre, essa cidade aqui já foi muito boa, mas, desse jeito, daqui a pouco vira um Rio de Janeiro, Deus o livre – disse Dona Iolanda, fazendo sinal da cruz. – Sabe o que tá faltando aqui, ‘Dilene? Tá faltando homem pra botar ordem. Juntar uma turminha e ir lá tomar satisfação. Daí eu queria ver. Mas a homarada daqui é tudo bunda-mole…

— Isso é verdade – concordou Edilene.

Edgard, peito transbordando de júbilo por presenciar tal conversa, finalmente conseguiu dizer:

— Vou construir uma piscina.

Esposa e sogra se entreolharam, ameaçando dar risada. Edilene deu de ombros e tornou a enfiar a cara no livro (“Sabrina – Perigoso Desejo”). Dona Iolanda, encarando o genro como se ele ainda fosse o garoto espinhento se borrando no portão da sua casa quando foi pedir Edilene em namoro, mostrou-se preocupada com a logística da empreitada:

— E você lá sabe fazer piscina, ‘Dêgar? – perguntou, no mesmo tom irritantemente direto e certeiro com que perguntara “tá usando camisinha com a minha filha, Dêgar? Se engravidar, vai ter que casar…”, tantos anos atrás.

— C-Claro que sei, D-Dona Iolanda! – Edgard suou frio, gaguejou e mentiu, assim como fizera na outra ocasião.

Entrou em casa, certo de que a construção da piscina seria sua prioridade e iria até o fim. Se voltasse a escutar “o Dêgar não termina nada que começa, larga tudo pela metade”, como escutara quando se dispôs a fazer a churrasqueira e o viveiro de passarinhos, acabaria ocorrendo uma tragédia naquela casa. Aproximou-se de Renata, imersa em seu universo de fones de ouvido e aplicativos.

— Tá fazendo o que aí, filha? Por que não vai lá fora um pouco?

— Tô ouvindo o jogo, pai. Lá fora o rádio não pega e o celular não funciona, você sabe muito bem.

— Jogo? Uai, mas o Cruzeiro só joga ama…

— GOOOOOLLL!!! GOOOL DO GALÃO DA MASSA!!!

— Galão da Massa? – Edgard arregalou os olhos, descobrindo que, sim, o destino ainda lhe reservava alguns desgostos. – Desde quando tá torcendo pro Atlético?

— Ah, pai, desde… semana passada – respondeu Renata, omitindo “quando eu comecei a ficar com o Rafa, que é associado da Galoucura”.

Edgard já não tinha energia nem para esboçar decepção. A vida é assim mesmo, conformara-se – num dia, ela cabe na palma da sua mão e te considera um herói… no outro, a filha da puta está torcendo pro Atlético. Pegou o notebook e digitou “como construir uma piscina?”. O primeiro link direcionava para um vídeo no canal “Tutoriais Tiro e Queda”, onde um rapazote sorria entusiasmado: “Oi, pessoarrr! Eu o Gui e no tutoriar tiro e queda de hoje, ensiná ocêis a construirrr uma piscina! Côs meu tutoriar, ocê nunca se dá mar!”. A princípio, Edgard assistiu mais por curiosidade do que por achar que dali sairia algo útil. Mas o rapaz parecia entender do riscado e, analisando os demais vídeos do canal, Edgard percebeu-se diante de um Rodrigo Hilbert com sotaque do Chico Bento, sem mídia e sem Fernanda Lima (e, vá lá, sem aquela carinha fofa de viking Nutella), mas igualmente apto a realizar e explicar passo a passo uma miríade de tarefas imprescindíveis à vida humana: planilhas Excel, desgrudar dedos (ou outros membros) colados com Super-bonder, foguete de Coca-cola com Mentos, marreco recheado e até… “puta merda, que trem é esse de beijo grego?”.

Esse último Edgard não assistiu, desconfiado de que ali havia conteúdo impróprio para ver com a filha por perto. Mas o tutorial da piscina ele viu completo e, no final, sentiu-se apto a construir um parque aquático. Pá e picareta em mãos, iniciou os trabalhos naquela mesma tarde. Cavou até os braços começarem a arder. Cavou até o suor encharcar a camisa, até escurecer, até ter impressão de ter atravessado a crosta terrestre. Quando parou, havia um Everest de terra a seu lado, mas, no buraco, não cabia nem uma piscininha de plástico. “Puta merda… isso vai demorar”, resignou-se.

Demorou mesmo. E, para surpresa da esposa e da sogra, Edgard perseverou. “Não sei onde o Dêgar vai enfiar tanta terra”; “fica o dia cavando, depois à noite tá cansado e não quer nada com nada…”; “pra quê piscina? Logo chega o frio, quem vai entrar em água gelada? Deus que me perdoe”; “Gooolll do Atléticoooo!!! E as Marias tão per-den-dôoo…”. Foram algumas das frases motivacionais que ouviu nos finais de semana de árdua labuta em prol do conforto e lazer da família. “Liga da Justiça toda dominada, agora só tem uma saída: foge, foge, Mulher Maravilha, foge, foge com o Superman…”, foi uma das trilhas sonoras, quase sempre acompanhadas pelas dúvidas da Dona Iolanda sobre trechos particularmente inspirados das letras.

Porém, a despeito das adversidades, Edgard continuou, inabalável feito paladino em busca do Santo Graal (ele gostava de criar essas imagens mentais para si próprio). E cavou e cavou, até que…

— Que barulho foi esse, Dêgar?

— Bati em alguma coisa de ferro, Dona Iolanda. Olha só que trem mais esquisito…

— Paaaai, agora o wi-fi parou de funcionar de vez, e o rádio não tá pegando nem lá no fun… eita, o que é isso?

— Do que vocês estão falando? – Edilene abandonou a espreguiçadeira e a leitura da vez (“Sabrina – Da Magia à Sedução”). – Nossa, que negócio estranho…

Crendeuspadre! Tem alguma coisa brilhando lá dentro, tá vendo, Dêgar? Isso aí sabe o que deve ser, Dilene? Coisa daquele ET de Varginha. Sabe o Seu Walter da rua aqui detrás? Então, ele falou que esse bicho passou aqui nessa cidade quando tava fugindo, viu? Deus que me perdoe…

— Ai, vó… nada a ver! Esse Seu Walter é o maior Forrest Gump, não dá pra levar a sério tudo que ele fala, não.

— Isso deve valer uma nota, hein, Dilene?

— Nossa, é mesmo! – concordou Edilene, cifrões brilhando nos olhos. – Será que a gente chama o Fantástico? Ou tenta vender no Mercado Livre?

— Melhor chamar o João Kléber, mãe. Na terceira vez que ele falar: “Para, para, para!!! O que será que tem nessa caixa?”, já tá valendo o dobro.

Enquanto a mulherada falava sem parar, ganância e cobiça ganhando volume a cada palavra, Edgard tentava formular uma hipótese, que não envolvesse alienígenas ou experiências ao estilo “Show de Truman”, para justificar a presença do objeto enterrado ali em seu quintal, sabia Deus desde quando. Não conseguiu pensar em nada, mas teve para si que estava diante de uma daquelas maldições de filme de terror ou, mais provável, de algo que poderia transformar a ele e sua família em mutantes (mais do tipo novela da Record do que X-Men).

— Nada disso, meninas – engrossou a voz, assumindo o papel de macho alpha da casa. – Isso pode ser muito perigoso. É difícil, mas, numa situação dessas, temos que fazer a coisa certa!

— E qual é a coisa certa, pai?

— Deixa comigo, Renata. Agora, vai lá pra dentro, porque quando você me der uma neta, daqui uns vinte anos, quero que ela nasça com uma cabeça só. Aliás, vai todo mundo lá pra dentro, vai…

— Você sabe o que tá fazendo, Dêgar?

— Claro que sei, Dona Iolanda – respondeu, sem gaguejar dessa vez.

Correu até a Lan House.

“Oi, pessoarrr! Eu o Gui e no tutoriar tiro e queda de hoje, ensiná ocêis a mexê com materiar radiativo! Côs meu tutoriar, ocê nunca se dá mar!”.

 

Dois meses depois…

— Até que ficou boa mesmo essa piscina, hein, Dêgar? Mas podia ser água aquecida, né? No inverno não vai dar pra entrar aqui, Deus me livre…

— GOOOLLL!!! ZÊEEEROOOO!!!

— Uai, voltou a torcer pro Cruzeiro desde quando, filha?

— Ah, pai… desde semana passada – respondeu Renata, omitindo “quando eu terminei com o Rafa pra ficar com o Léo, que é da Máfia Azul”.

— E o que você fez com aquele treco, Dêgar?

— Falei que ia dar um jeito e dei um jeito, Dona Iolanda. Não se preocupa mais com isso.

— Os vizinhos não encheram mais o saco com aquelas músicas horrorosas, né, benzoco? Ouvi eles reclamando que tem alguma coisa dando interferência lá – Edilene comentou, sem tirar os olhos da leitura atual (“Sabrina – Armadilhas da Paixão”).

— É mesmo? Nem tinha reparado… – Edgard disfarçou, deixando escapar um sorriso de herói anônimo no canto da boca.

Em três semanas, Edgard teria um princípio de infarto ao receber a conta d’água, mas ali, naquele instante, tudo estava certo, ele era um leão forte e sábio destinado a conduzir e proteger o bando (tocou até “Hakuna Matata” em sua imaginação).

Só faltava uma última coisa.

Naquela noite, esperou Edilene finalizar a leitura e desligar o abajur. Esperou que ela pegasse no sono e virasse de bruços. Então, esgueirou-se por baixo dos lençóis e subiu pelas pernas da esposa, sentindo-se desbravador prestes a explorar um recôndito onde (assim ele queria acreditar) nenhum homem jamais estivera.

— Que foi, Edgard? – Edilene murmurou, mais dormindo que acordada. – Tá querendo o que aí, hein, EdgAAAAAAAAAAARRR – entoou em falsete, agora totalmente desperta. – Huuummm… benzoooco, não sei onde você aprendeu isso, mas… continua que tá bom demais da coooonta!

Os tutoriais eram mesmo tiro e queda.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1, Comédia Finalistas.