EntreContos

Literatura que desafia.

Rutilene Regina e seus desatramores (Violeta Alencar)

Rutilene Regina e sua energúmena vida, ali, atochada naquela mesma esquina, havia 6 anos. Moça que ainda trazia nas feições cansadas de quem escolheu (mas diz que não teve opção, claro) ganhar a vida alugando o corpo e vendendo a esquálida alma pelas ruas do subúrbio, a preço de banana.

É, de banana Rutilene sabia tudo. É que ela cresceu trabalhando com o pai, numa feira livre (livre, por quê? cumpriu pena, pagou fiança? ela pensava, se achando engraçada) ali pelos bequinhos do bairro que acompanhava a linha férrea. Ou o contrário, tanto faz.

Lugarzinho mais horroroso para existir, terrível para visitar, o “ó’ para residir.

Fazer o que, foi lá que Rutilene Regina nasceu, aprendeu a lei da selva, a lei da salva, a lei do raio que o parta ao cubo.

Vivia num quarto e sala numa comunidade (ex favela, ok?) com o pai e mais 3 irmãos. A mãe abandonou o lar após uma sessão de porrada com Sandoval, o companheiro pau pra toda obra e cacete também com quem desde bem novinha aprendeu a dividir a comida, e somar os problemas.

Vida de suburbano sub-pobre não é um mar de rosas. Não sabe o que é sub-pobre? É mais ou menos o mesmo que ferradinho, ferradaço e mal pago.

O fato é que a mãe, Cremildes, saiu um dia alegando ir ao postinho ver se ligava as “trombas’ e não voltou nunca mais.

O pai de Rutilene Regina, o Sandoval, feirante, continuou a vida, pensando no futuro daquelas pobres e indefesas crianças abandonadas pela mãe.

No fundo deu graças a Deus, já fazia tempo que não queria olhar os cornos da mulher e mais: menos uma boca pra alimentar. E pensava: “ Cremildes devia de ter uma lombriga insaciável, porque ô mulher desgracenta de faminta e magra que nem um bambu de dieta. Vai tarde!”- suspirava, o recalque sangrando unicórnios fluorescentes pela testa enrugada.

E o tempo passou, Rutilene ali, na labuta, acompanhando o pai e as bananas…via tanta banana que chegava a ter pesadelos com bananas assassinas no seu encalço.

Largou os estudos, o pai dizia que moça bonita que nem ela podia arranjar bom casamento, que era mais garantido e tal e coisa.

Rutilene confiou. Até aí, tudo certo, só que Rutilex não obstante suas inúmeras zero qualidades, no caso – não era bonita, aliás ela era o cão chupando manga, tampouco inteligente, e ninguém ali nas redondezas poderia sequer proporcionar um bom ajuntamento, muito menos um ótimo casamento.

E a cacetérrima vida na feira, todas as terças e domingos, e as frutas, as freguesas cretinas reclamando do preço de tudo. O tédio e o sonho de ser qualquer troço que não fosse ela mesma levaram Rutilene Regina a investir nas ideias que algumas amiguinhas do muquiço onde se divertia todo sábado, o bar Ou Dá ou Desce, colocaram na sua fraca cabecinha.

Rutilene pintou as unhas de vermelho 77, o “Glitter Super Candy Girl Power”, oxigenou os cabelos, comprou umas lentes de contato coloridas em 72 prestações, fez carinha de quem tá gostando demais na frente do espelho manchado de casa – e foi.

No bar (bar? hohoho) o sistema era à la carte. E o melhor, os frequentadores não eram chatos, nem exigentes. Era só dar, que dava tudo certo!

Rutilene chegou chegando. Esbanjando simpatia e sotaque, era a rainha do Ou Dá ou Desce.

Chegava a atender quinze homens suados e nojentos por noite (sempre se prevenindo, molecada). De vez em quando um casal, uma mulherzinha…começou a juntar uma graninha, pretendia, é claro, sair daquela vida.

Foi aí que seu coraçãozinho multifacetado e sonhador, causador de tanta diarréia mental, daquelas incontidas,  colocou tudo a perder: Rutilene Regina foi apresentada a Valdomiro Raimundo, um sujeito grande e com cara de psicopata que ia na casa das primas todos os dias e pagava, e pagava bem.

Foi amor à primeira pica,  ops, primeira vista. Depois de 3 noites diretaço no quarto imundo do estabelecimento, Val (como gostava de ser chamado), teve a brilhante ideia: ia tirar Rutilene dessa vidinha de sofrimento, servindo de pasto, servindo suas pobres carnes desnutridas aos homens de muita má vontade.

E lá foram os dois pombinhos coabitar na casinha de Val, lugar humilde, mas honesto.

O que Rutilene não podia jamais imaginar é que Valdomiro – o Safado, era casado há mais de 20 anos.

E lá estava Ruti, ex-mulher da vida recém desempregada, morando na casa de seu cliente e “protetor”, juntamente com Paloma – Palomita – a esposa.

Paloma era cabeleireira, manicure, esteticista, manobrista, revendia Avon e Hinode, e além de tudo isso, era travesti.

Sim, sim, sim…agora o trio casal estava formado: Rutilene, Valdomiro e Paloma.

Foram até felizes, por um tempo. Sim, durante três longos dias foram felizes. Ensinaram, aprenderam, esqueceram que já sabiam e maníacos, gritavam aos ventos: “- Não devemos nada a ninguém, seus fofoqueiros, ninguém paga as nossas contas!”. A velha história babaca de sempre. Pense: onde já se viu, é lógico que ninguém vai pagar as contas dos outros. Né? Dãã!

Acontece que Val, homem mal e inescrupuloso, resolveu, tentado pelo demo (seu diabinho malvado!) ganhar uma graninha extra, colocando Rutilene e Paloma pra trabalhar na esquina, bem ao lado da Igreja mais tradicional do bairro. Provação para os religiosos.

Ele era o empresário, dizia, e negociava o programa com os clientes ali mesmo, na rua.

Qualquer uma era 15,00, levando as duas dava pra fechar o pacote por 30,00 (oi?). E assim foram levando. Literalmente.

Rutilene e Paloma acabaram se tornando grandes amigas. Assim, sem querer, Ruti notou que Paloma tinha uma coisa bem grande. Interessante, até. “- Pena que não usa, vida injusta essa…” – suspirava, pelos cantos.

Um dia Valdomiro chegou em casa, encontrou as duas conversando, rindo, Paloma estava ensinando Rutilene a fazer unhas de acrigel, o must do momento, e segurava suas mãos.

Val coçou a testa devagar, sem perceber.

E o tempo foi passando, as meninas cansando daquilo, de dia no salão, à noite na esquina, vidinha mais ou menos, Rutilene se achou filosofando que isso não era certo, que há anos não via o pai – até porque ele morrera há seis anos – enfim, tudo ficou muito claro na cabecinha noiada de Rutilene: ela e Paloma precisavam acabar com aquilo, acabar com a farsa, assumir que estavam apaixonadas, apaixonados, sei lá! – e acabar com Valdomiro, o explorador.

Haviam descoberto que ele estava saindo com uma coroa da Zona Sul, cheia das jóias e dos perfumes caros. Até viagem pros States ele fez. E elas ali, sofrendo caladas, usadas e perdidamente apaixonadas um (a) pelo(a) outro(a).

Rutilene largou a esquina e caminhou a passos largos para a casinha onde o trio morava.

Entrou, viu Paloma se preparando pro trabalho, deu-lhe um belo tapa pelo meio da cara e já foi arrancando as roupas, enquanto revelava seu sentimento. E seus planos.

Amaram-se como loucos até de manhã. Paloma era descomunal. Uauuu!! Como conseguia manter “aquilo tudo” escondido? Rutilene nem queria saber. Vida nova!

Esperaram Valdomiro chegar em casa. Ruti no seu vestido mais bonito, Paloma, agora Maxwell Orlando, de calça e camiseta.

“- Mas que pouurra é essa?!” – foi logo gritando Val, ainda com o cheiro do perfume francês da amante grã fina, enquanto olhava num canto da sala as malas ( na verdade sacolas plásticas de supermercado), arrumadas ao lado da porta.

E o surreal da coisa, as duas, os dois, o seu ganha pão e amorzinho grátis de cada dia ali, de mãos dadas, dizendo que se amavam? Nããããoooooo!!

Valdomiro não aguentou, teve uma crise de pelancas que subiu pela coluna, atingiu os nervos, correu até a cozinha e escolheu o melhor facão, decidido a defender a honra.

Debaixo do seu teto? Corno? Perder a mulher pra Paloma? Puta que los parió, não, não, nãooooooooooo!!

E foi aquele quiprocó na residência do trio, Ruti gritando, Max tentando bater do jeito que, a bem da verdade, não sabia, as unhas de acrigel que esquecera de tirar atrapalhando, um furdunço dozinfernu.

Valdomiro enlouquecido, com a faca, e a música sensual tocando no rádio e invadindo a cena, que parecia coreograda: “Des-pa-ci-to…”.

Foi quando Val tropeçou e não se sabe como, num os casos mais bizarros de todos os tempos, em todos os universos, o facão passou decepando-lhe aquilo que ele considera seu maior patrimônio. Seu pau. É, tadinho.

E nos seus ouvidos tumultuados ouvia: “Tchau pau-zi-to…

Valdomiro caiu urrando de dor segurando os bagos enquanto ao seu lado seu ex-pau se contorcia, como um rabo de lagartixa.

Rutilene só exprimiu um “Oh!” – e desmaiou. Paloma Max, Max Paloma lembrou dos velhos tempos e sentiu uma pontinha de inveja, que rechaçou imediatamente: ” – Sai, capeta! Sou muito macho!”.

E então vieram a ambulância, os vizinhos, os jornais e os curiosos para ver o “moço” que perdera o pênis durante uma briga “familiar”.

Ficou um tempo no hospital, mas deu PT. Perda total. A madame da Zona Sul mandou flores e um pau elétrico, dizendo que poderiam se divertir, ainda.

Valdomiro achou um deboche e deu o tal acessório pra uma senhorinha de uns 80 anos que estava lá, visitando o marido, militar aposentado de seus 85 anos.

Notou que os olhinhos dela brilharam. E o mundo dele brilhou! Sentiu que podia, sim, ser uma pessoa melhor.

Quando teve alta do hospital procurou Rutilene Regina e Maxwell, agora casados e donos de um salão de beleza.

Pediu abrigo. E os dois, Ruti e Max, aceitaram. Com uma condição. O Valdopinto (povo ruim, ó o apelido que puseram no homem) devolveria com juros e correção monetária o que tirou deles durante aqueles longos seis anos.

E, toda noite, lá ia Valdeth Valdopinto, ganhar a vida. Não era triste, não. Sublimou.

Sua melhor cliente era a madame da Zona Sul, com um novo brinquedinho, que brilhava no escuro. Conformou-se e até curte!

Rutilene Regina e Maxwell tiveram seis filhos, têm uma rede de salões de beleza, passam sempre as férias em Muriqui e vivem felizes – para sempre, juram.

Ah, o Max ainda usa as unhas de acrigel. Acha “bonitinho” e que combina com a personalidade dele.

“E quem irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”

Eu, não!

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1.