EntreContos

Literatura que desafia.

Roubada com a mulata (Blackbridge)

Algumas histórias são realmente terríveis de se viver, e só se tornam cômicas depois que já passamos por elas e estamos confortáveis na mesa do bar fazendo os amigos rirem, não é mesmo?

Estava eu de pé no ingrato Trem da Central as sete da manhã, quando vi aquele projeto de deusa ébano sentada no banco bem à minha frente. O fato dela conseguir estar sentada no trem àquela hora já a fazia especial de algum modo. Além dos lábios carnudos e os cabelos cheios de negra vaidosa, algo mais me atraiu. A presença dela atravessava quatro ou cinco suburbanos e prendia minha atenção, tomando todo o meu bom senso.

Fiquei tão inebriado que, quando dei por mim, a mulher já me encarava, curiosa. Certamente, notara meu olhar, que no mais educado dos termos, era faminto. Desviei os olhos rapidamente, como um adolescente pego olhando os seios da professora, mas em poucos minutos, já trocávamos olhares cúmplices, como velhos adúlteros.

Foi quando o trem anunciou que estava próximo de uma estação, num típico, mas inesperado solavanco. Por milagre divino, ou obra do cão, o sonolento homem que estava ao lado dela, se levantou num susto e abriu caminho pela turba de trabalhadores, rumo à saída. Num salto felino, me meti na frente da senhora que se adiantava para sentar e roubei seu lugar ao lado de minha fascinação, apesar da mulher praguejar contra a minha falta de educação.

Após o papo mole introdutório, tática velha, mas sempre eficaz de todo carioca, obtive sem custo o nome da moça. Aos poucos, eu quebrava a falsa timidez que ela, experiente, encenava.

O tempo passou tão rápido que quando nos demos conta, já havíamos chegado à estação final. Descemos juntos do trem e caminhamos lentamente pela plataforma, atrapalhando a multidão apressada e atrasada (como nós também deveríamos estar). Os sorrisos dela se encontravam com os meus e a conversa fluía fácil.

Por fim, chegamos a uma inevitável bifurcação em nossos caminhos. Pedi seu telefone e ela, sacando uma caneta da bolsa, sem licença, pegou minha mão, e no melhor estilo adolescente, anotou seu número.

Enquanto meu interior implodia de emoção e meu ego chegava a níveis nunca antes experimentados, ela se aproveitou de minha momentânea distração e roubou um beijo de meus lábios entreabertos. Quedei-me surpreso, e quando comecei a me dedicar, a filha da mãe descolou os lábios dos meus, me deixando na mão, ou na boca. Ela sorriu, acariciou meu rosto com uma das mãos, cujo toque arrepiou-me como um mistral, e se foi, sumindo na turba do dia a dia.

Respeitada a máxima de dois dias de espera, lhe mandei uma mensagem e a resposta veio alguns minutos depois; melosa e receptiva.  Liguei para ela e, após alguma conversa, marcamos de nos encontrar.

Quando cheguei ao bar onde marcamos, ela já estava na mesa e me acenou. Tivemos um encontro agradável e divertido e, quando os assuntos já escasseavam, arrisquei:

“ – Está ficando meio tarde né… se você quiser ir pra outro lugar…” – ciente que ela pescaria a maldade.  

Ela respondeu como só uma mulher carioca e experiente em lidar com gajos, como eu, faria:

“ – Você está na sua condição? ”

Ante a minha afirmação positiva em termos monetários, prosseguimos para o motel mais próximo.

Não vou me imiscuir nos acontecimentos íntimos sucedidos no referido té-téu, mas ocorreu que a barregã (fato que iria descobrir futura e desagradavelmente), saiu do estabelecimento apaixonada por minha pessoa. Você pode me chamar de convencido, mas também estaria se estivesse no meu lugar.

Conhecendo-a melhor, descobri que era mãe de dois garotos e vivia da pensão do ex-marido, somada a pequenos bicos de manicure. Morava sozinha com os filhos num local que depois, jurei a mim mesmo jamais voltar a pôr os pés.

Na última vez em que nos encontramos, a dama me disse que deveríamos passar a nos ver na casa dela. Ficaríamos mais à vontade e sem limite de tempo, o que de pronto concordei, visto que para um plebeu como eu, era hercúlea tarefa de bancar idas semanais a motéis.

Ocorreu que, na famigerada data, chovia cântaros no Rio de Janeiro. Daquelas chuvas que te faz amaldiçoar o fato de ter saído de casa de manhã. E apesar de querer muito voltar para casa, contra qualquer orientação de bom senso, fui encontrá-la.

Após agradáveis duas horas de viagem, sob um dilúvio bíblico e, encerrado junto com mais sessenta pessoas num ônibus, finalmente chego ao ponto marcado.

Aguardei minha dulcinéia por algo em torno de meia hora, e quando a ideia de tomar o próximo ônibus de volta começou a me parecer atraente, ela surgiu dirigindo uma lambreta, tão encharcada como se estivesse dirigido por dez quilômetros na chuva.  Instantes depois, eu perceberia que a comparação era lamentavelmente próxima da verdade. O temporal incomodava, mas tornava-se preocupação secundária ante o verdadeiro imbróglio que me esperava.

A bordo da moto guiada pela mulata, assustado, eu via uma verdadeira floresta de tijolos e lama me cercando. As construções não acabadas passavam rapidamente pelos meus olhos enquanto singrávamos o chão de barro, que a essa altura já se tornava pantanoso.  O som alto da lambreta parecia despertar pessoas suspeitas, e olhos nos espreitavam pelas janelas entreabertas. A visão de um valão pútrido não melhorou minha impressão do lugar enquanto passávamos pela ponte por cima dele. Em seguida, um cavalo passou correndo ao nosso lado, provavelmente, fugido de alguma charrete (vi algumas largadas, ou estacionadas, pelo caminho), mas dada minha aflição, eu facilmente teria confundido com uma mula-sem-cabeça, a não ser pelo fato daquele equino ter cabeça.

Depois de mais alguns minutos que me pareceram vitais para empreender minha última chance de fuga, a moto finalmente parou aos pés de uma colina. Descemos do veículo e nos dirigimos para um muro chapiscado, com um vão onde deveria haver um portão. Ela encostou a moto na parte de dentro da propriedade e corremos juntos para a casa, que ficava há uns seis metros do muro.

O interior era humilde, mas muito organizado, e eu gostaria de ter ficado mais impressionado com o tamanho da televisão do que com os dois gaiatos que estavam sentados no sofá e agora me fitavam, imóveis.

A mãe os beijou e, não sei se já era minha mente falando mais alto, mas tive a impressão de que nem mesmo sob o abraço materno os dois deixaram de me encarar com olhares um tanto desaprovadores, como quem diz: “- Quem é você? O que está fazendo aqui? Não gostamos de você. ”

Cumprimentei os dois infantes da melhor forma que pude, enquanto minha amante sumiu num dos quartos, mas logo retornou, com uma camisa e uma bermuda. Agradeci do fundo da alma pelas roupas secas, sem sequer questionar o porquê dela ter roupas masculinas na casa.

Sentei-me no sofá, gloriosamente seco e já esquecendo as agruras do caminho até ali, enquanto ela foi preparar o jantar. Foi quando me vi cara a cara com os dois garotos. Eles me assistiam, tão sérios quanto uma criança raramente poderia estar. Eu resolvi sustentar o olhar contra eles, afinal eram crianças!

Nisso, um comentário vindo do guri mais velho me desmantelou:

“ – Essa camisa é do meu pai! ”

Fiquei branco instantaneamente, e minha temperatura corporal deve ter despencado uns cinco graus. Em termos educados, meu esfíncter se contraiu como poucas vezes antes.

O garoto acabou de falar, me encarou mais uns instantes, e voltou sua atenção para o desenho animado na TV, junto ao irmão mais novo. Eu fiquei processando a informação até me colocar de pé num salto e ir até a cozinha conversar com a mãe dos pirralhos. Contei-lhe o ocorrido e ela explicou-me que o pai dos garotos não morava com eles há mais de ano e que não o via desde que ele estivera internado, vítima de um tiro.

Minha mente girou. Esperei ela fechar a boca e fui ao banheiro. Precisava elaborar um plano de fuga imediatamente. O quebra-cabeças era óbvio para mim; por isso haviam roupas masculinas na casa. Com certeza o homem se tratava daquele tipo de ex-marido que acha que ainda está num relacionamento com a mulher. Ele vai na casa dela com a desculpa de ver os filhos, mas quer opinar na casa e agir como se ainda fossem casados. E, apesar de no Rio de Janeiro alguém levar um tiro ser mais que corriqueiro, o fato dele estar internado por este motivo só me levava a uma conclusão: se tratava de algum bandido das redondezas, que foi alvejado em algum dos não raros confrontos com a polícia. EU PRECISAVA SAIR DALI! Mas como? Chovia o diabo lá fora e mesmo que eu empreendesse uma fuga, estaria só, a noite naquele sítio totalmente hostil e desconhecido, podendo ser emboscado por um grupo de elfos, atacado por uma matilha de lobisomens, ou pior, cair nas mãos dos traficantes locais.

Sem um plano formado, sai do banheiro e sentei sozinho na sala. Onde estariam os malditos moleques? A mãe surgiu de um quarto que tinha uma cortina de miçangas servindo como porta, e me chamou à mesa para jantarmos, informando que já colocara os filhos para dormir e que a noite enfim seria nossa.

Transamos e dormimos no chão da sala, onde ela havia providenciado uma cama de colchões, mas o que posso me lembrar da noite, é que provavelmente foi a pior performance sexual que já tive, afinal, transar com medo de não acordar no dia seguinte, é premissa capaz de abalar até o desempenho de Rocco Sifreddi.

Apesar de tudo isso, o sexo foi cansativo, minha concubina não reclamou de meu desempenho pífio e dormi como uma pedra.

Na manhã seguinte, não findo o sofrimento, fui despertado com um jorro de adrenalina fluindo pelas minhas veias. Alguém esmurrava a porta da sala violentamente, como se quisesse arrombá-la: O MARIDO!

Em um átimo, eu já estava de pé e pronto para sobreviver, quando vi minha anfitriã sair do banheiro, com uma toalha enrolada no corpo. Ela me beijou e explicou que na porta provavelmente era uma amiga que levava seus filhos para a escola todos os dias.

Enquanto meu coração desacelerava, ela abriu a porta da sala e eu voei para baixo do edredom esticado no chão.

A amiga entrou. Alta, magra, rosto fino e olhar de desprezo. As sobrancelhas grossas e as maçãs do rosto lhe conferiam uma aparência desdenhosa. Ela passou por mim ignorando-me totalmente, ao que agradeci, pois estava com um verdadeiro cagaço dela puxar as cobertas e me ver ali, vergonhosamente nu.

As duas desapareceram no quarto das crianças e pouco depois, retornaram com os garotos em uniformes escolares. Os dois me fitaram com aquele olhar que dizia: “ – Eu sei que você transou com minha mãe, seu miserável!”, mas podia ser também um olhar que nada dizia, admito que estava tendo alguns devaneios graças aos sucessivos sustos e aflições.

Tendo deixado os filhos com a amiga, minha correspondente sexual deixou a toalha cair bem ali onde estava, exibindo-me seu corpo nu, junto a um sorriso malevolente. Por mais que aquele convite parecesse irresistível a mim e a qualquer um, minha sanidade mental e, talvez também a física, não aguentariam mais desventuras.

Rapidamente inventei uma desculpa para sair dali o mais rápido possível e, apesar dos protestos da moça, vesti-me tão ligeiro quanto pude, dispensando até o banho.

Decepcionada, ela me levou até o ponto final de um ônibus e o tomei. Ainda passei uns 15 minutos de agonia enquanto a condução fazia um tour pelas favelas locais, até que finalmente, ela tomou a rodovia, quando eu, agradecido, finalmente relaxei no assento.

Até hoje não sei bem como me meti naquilo, mas o fato é que fiquei tão aturdido com a situação, que imediatamente cortei os laços com a moça e desapareci do radar dela, grato por estar vivo e com todos os meus órgãos em seus respectivos lugares para continuar contando esta anedota nos churrascos de amigos.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2.