EntreContos

Literatura que desafia.

Quase 50 tons de vermelho (Christiano Red)

Rodrigo pegou o copo americano com cerveja de milho e bebeu um gole demorado. Fez uma careta, pois àquela altura o líquido estava tão quente que daria até para preparar miojo. Limpou um pouco que escorreu pelo queixo e pingou na camiseta polo amarela desbotada ou branca amarelada — nunca soube direito. Ajeitou os óculos grossos, coçou uma verruga que tinha no queixo e olhou para mim com aquela expressão de quem ainda estava processando tudo o que eu havia dito e não tinha a mínima noção de como responder. Por fim, contorceu o rosto numa expressão de dúvida e perguntou:

— Você o quê!?

— CARALHO! — xinguei alto. Alguns frequentadores do bar olharam para mim, me deixando vermelho como calcinha de adolescente descuidada. Sim, sou muito tímido. Tem gente que tem medo de escuro, de aranha, de cobra ou de palhaço. Já eu, tenho pavor patológico de chamar atenção de estranhos ou de passar vergonha. O problema é que, quanto mais a gente tenta evitar, mais atrai essas coisas. Encolhi-me na cadeira quase conseguindo o objetivo de me fundir com ela. Ouvi um “Camarão” vindo de alguma mesa distante e fiquei na dúvida se estavam me sacaneando ou pedindo comida. Depois de longos minutos, quando os olhares me esqueceram, falei bem baixinho: — Eu abri meu coração contigo, cara! Você não ouviu nada que eu disse?

— Ouvi, porra. Entendi que tu tá querendo pegar a Carlinha… — ele falou mais alto que eu gostaria.

— Shhhh… — interrompi, olhando ao redor. — O cara lá do balcão não precisa saber.

— A parte da Carlinha eu entendi — ele continuou, num tom só um pouco mais baixo —, mas qual o problema?

Respirei fundo. Enchi meu copo com o restinho da cerveja da garrafa e bebi com calma. Rodrigo é meu irmão gêmeo. Nascemos da mesma barriga, mas de óvulos diferentes. Somos como Schwarzenegger e Danny DeVito: isso se o eterno Exterminador fosse um loiro magrelo e o ex-Pinguim um bicho-pau de óculos. Ele é tão desligado que se esquece de coisas básicas como, por exemplo, o problema que atormenta profunda e diariamente a vida do seu irmão gêmeo.

— Sou tímido, lembra? — frisei, chateado. — E ela trabalha comigo. Não sei como chegar…

— Renan — ele disse, segurando no meu braço, me olhando daquele jeito de Paulo Coelho hippie que me incomodava tanto —, tu é boa pinta pra cacete. Fala pra ela que se amarra nela. Se ela gostar, vocês ficam. Se não, parte pra outra, brother.

— Cara, não é simples assim… — Fixei meu olhar no fundo do copo, como se procurasse alguma solução ali na espuma da cerveja, tal qual aquele povo que lê a sorte na borra de café. Foi tão inútil quanto. — Eu não consigo.

— Se eu fosse boa pinta que nem você ia pegar todas as mulheres que quisesse. — Ele sempre falava isso. Eu não me achava bonito, mas reconheço que o cabelo loiro e os olhos verdes me seriam úteis se eu não fosse um completo inútil na arte da conquista.

— Preciso da sua ajuda — reconheci, envergonhado.

— Você quer que eu fale pra ela que tu tá a fim de dar uns pegas nela?

— Claro que não! Ela é menina pra namorar, cara. Não quero só dar uns pegas.

— Então, no que posso ajudar?

— Ainda tem o telefone da irmã dela?

— Tenho, claro. Gostosa pra caralho! — Meu irmão só pensa em sacanagem. A vantagem dele é que, como posso dizer?, ele não liga para os padrões de beleza estabelecidos pela tal sociedade opressora. Maria, a irmã da Carlinha, é uma menina muito simpática e bonita, mas tem um sério problema hormonal que a faz pesar quase duzentos quilos.

— Então — continuei —, manda um zap pra ela. Dá uma sondada.

— Entendi — ele disse, pegando o celular.

— Não agora. Tá tarde. Faz no sapatinho, sem muito alarde.

— Pode deixar. Mando amanhã cedo. — Ele estendeu a mão chamando o garçom e manteve estendida por bastante tempo. Depois, começou a sacudir o braço violentamente de um lado ao outro, como um cantor de axé que cheirou um helicóptero de pó de uma só vez. Eu estava ficando apreensivo. Olha logo, amigo, por favor. Mas ele não olhou.  Rodrigo, então, colocou dois dedos na boca e soltou um assobio muito agudo, que deve ter incomodado até o mais concentrado monge tibetano, e alto o suficiente para ser ouvido lá no Tibet. Por fim, quando todos os seres do universo prestavam atenção nele, berrou, sacudindo a garrafa vazia: — MAIS UMA! — Ainda acrescentou no mesmo tom de tenor desafinado: — BEM GELADA! — E eu, vermelho como os números da minha conta bancária no final do mês, treinei mais um pouco a técnica de me fundir à cadeira.

***

No dia seguinte, encontrei Carlinha no café do trabalho logo cedo. Ela falou um “Oieee” tão lindo e animado que fiquei pensando se Rodrigo já tinha feito a parte dele.

— Como vão as coisas? — ela me perguntou, jogando o cabelo de lado com aquele sorriso que me colocava no chão. Não era nenhum mulherão, daqueles de parar o trânsito, mas era tão meiga e bonitinha do seu jeito simples que eu não conseguia deixar de pensar nela.

— Va-va-vão bem… — amaldiçoei-me por gaguejar tanto. Tomei um gole do café e percebi que tremia. — E v-você?

— Tô ótima! — ela mantinha aquele ar de alegria que a gente só costuma ver em comercial de margarina antigo. — Minha irmã me ligou hoje cedo e me deu uma excelente notícia. — Ai, cacete! O que será que meu irmão falou? Parecia que o ar condicionado havia resolvido gelar o lugar a temperaturas siberianas, pois naquele momento eu estava me tremendo mais que um epiléptico com overdose de êxtase.

— Ah, é?… Q-qual notícia?

— Você não sabe? — ela se aproximou de mim, ficando a menos de um palmo de distância. Socorro, o que eu faço? Ela encostou a boca no meu ouvido e começou a sussurrar algo: — A Maria e o… Ai!

Ela não conseguiu terminar. Eu estava tão nervoso e tremendo tanto que acabei derrubando café quente na blusa dela. Fiquei vermelho igual nota de aluno do fundão e me desculpando sem saber o que fazer. Ela disse que tudo bem, tudo bem, e correu em direção ao banheiro. Com cara de idiota, voltei para minha mesa.

***

Depois do trabalho, cheguei em casa e não encontrei o Rodrigo. Dividia um apartamento alugado com ele, pois nossos pais viviam no interior e não morariam na cidade grande nem se fossem obrigados. Não era fácil conviver com um cara com a personalidade oposta à minha, mas era meu irmão e a gente até se dava bem.

Peguei o celular, mandei uma mensagem perguntando se ele havia conversado com a Maria e fui tomar banho, pois ele demorou a ler. Quando saí, vi que meu celular piscava: Rodrigo tinha respondido! Estava muito ansioso para saber a resposta. Peguei o aparelho, desbloqueei e li: “Tamo chegando aí 🦐”.

No mesmo instante que terminei de ler, a porta abriu e de trás dela surgiram Rodrigo e Maria. Eu estava no meio da sala. Pelado. Ela deu um gritinho enquanto eu, vermelho como alguma coisa que não consegui lembrar naquela hora, tentava esconder minhas partes íntimas. De trás da menina gordinha, Carlinha apareceu espiando, tapando a boca com a mão, numa expressão que podia ser espanto e divertimento ao mesmo tempo.

Num impulso de total desespero, corri em direção ao banheiro. Mas acho que já ficou bem claro até aqui que não sou uma das pessoas mais sortudas do mundo, né? O chão estava molhado e eu descalço. Acabei escorregando e caindo de bunda. Cada um dos espectadores soltou uma interjeição diferente (“Ai”, “Ouch”, “Ui”). Tentei levantar, mas me estabaquei novamente. Dessa vez bati a nuca e vi estrelas.

Desesperado, meio tonto e ainda mais vermelho, engatinhei igual um babuíno bêbado. Mas não um babuíno qualquer: eu era como um daqueles machos alfas de traseiro bem sanguíneo e absurdamente saliente. Quando cheguei no sanitário, rezei para os caras do MIB aparecerem de repente por ali e, como quem não quer nada, os fazer esquecer do que tinham visto. Mas não apareceram, então tranquei a porta. Meu desejo era ficar trancado ali para sempre…

***

Algum tempo depois, não sei dizer se foram minutos ou horas, Rodrigo bateu na porta.

— Comprei Vodka e Red Bull — disse ele. — Sai daí, cacete! Elas já foram embora. Bora encher a cara…

Eu saí e ele me esperava com um copo na mão. Bebemos muito naquela noite. Nada como álcool para nos fazer esquecer das nossas maiores desgraças, né? Quando a garrafa acabou, fomos no mercado comprar outra. Como havia fechado e não tínhamos vontade nenhuma de parar de beber, acabamos num bar.

Estávamos conversando sobre coisas totalmente aleatórias e sem sentido, quando Maria chegou dizendo um “Oi, meninos” todo meloso. Ela se sentou ao lado de Rodrigo e lhe tascou um beijo daqueles de desentupir pia. Ficaram se beijando por longos minutos e eu, sem graça, segurando vela. O negócio estava tão desavergonhado, que já chamava atenção do pessoal em volta.

— Vocês estão namorando? — perguntei num momento que eles lembraram que precisavam respirar.

— Dando uns pegas — ela respondeu, acariciando o rosto dele. — Né, meu lindo?

— É sim, minha gostosa — e voltaram a se beijar, ou dar uns pegas, ou sei lá o nome que eles davam para aquilo.

Levantei e caminhei até o banheiro, cambaleando como se uma multidão de fantasmas estivesse me empurrando só de sacanagem com minha cara. Lembro-me de ter visto duas cabines e mijei numa delas. Estava lavando as mãos quando a pessoa da casinha ao lado deu descarga e saiu ajeitando a saia. Sim, saia. Era uma menina. Era a Carlinha…

— Renan, o que você tá fazendo no banheiro das meninas?

— Desculpa… er… foi sem querer… er… tem certeza que esse aqui é das meninas?

— Claro que tenho.

— Foi sem querer — repeti. Provavelmente era efeito do álcool ou eu já tinha desencanado dela depois da cena deplorável de mais cedo. O que importa é que não estava gaguejando como um imbecil.

— Ainda bem que não me viu pelada, né?  — ela disse, sorrindo. Quando vi aquele sorriso, meu coração bateu forte de novo. Adivinha qual a cor que fiquei?

— Pelo menos estaríamos quites… — consegui dizer, sem graça. Ela também corou. Só então lembrei que ainda estávamos no banheiro das meninas. — Bora beber com a gente? — convidei.

— Claro! — ela segurou na minha mão e saímos de mãos dadas. Meu coração batia forte, mas àquela altura parecia que não era mais eu que controlava meu corpo.

Do lado de fora, estranhei que a plaquinha pendurada na entrada do banheiro era de um homem de cartola. E a porta ao lado não possuía qualquer sinalização. Levantei a placa e, por trás, tinha outra com uma mulher de vestido. Olhei em direção à mesa onde bebíamos e nem Rodrigo nem Maria estavam lá. Carlinha sorria e também desconfiava do que havia acontecido. Ela aproximou a boca no meu ouvido e disse:

— Preciso te contar uma coisa.

— O quê?

— Sabe… eu adoro vermelho… — ela brincou e sorriu lindamente.

Observei com carinho aquele sorriso por um pequeno instante de tempo que pareceu uma eternidade. Sempre lia isso por aí, mas foi a primeira vez que essa metáfora fez sentido para mim. Acariciei o rosto dela e a beijei.

Quer dizer, não foi exatamente um beijo. Assim que começamos, uma algazarra de gritos, palmas e assobios eclodiu pelo o bar. Todos estavam olhando para a gente. Do meio da multidão, surgiu meu irmão gêmeo e a namorada dele.

— Até que enfim, hein — gritou ele e assobiou bem alto. “Camarão”, “Camarão”, “Camarão” todos começaram a cantar. Podia ser só impressão, mas dessa vez acho que não falavam de comida. Eu queria mesmo era ter uma foto para constatar, pois acredito que realmente estava na mesma coloração do famigerado crustáceo.

Puxei Carlinha de volta para o banheiro feminino com placa de masculino. Trancamos a porta e nos beijamos como se não existisse um mundo lá fora. A vontade era ficar ali para sempre…

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1, Comédia Finalistas.