EntreContos

Literatura que desafia.

O encontro dos sogros (Alberto Flores)

A ideia era apresentar os pais de João Carlos aos de Luciana, afinal os meninos iriam ficar noivos e os velhos não se conheciam. Por isso marcaram esse jantar em um restaurante de Ipanema. Muito embora os pais de Lú não fossem dos mais simpáticos, a noite estaria salva certamente pela alegria de Seu Orlando. Orlando era a comédia em forma de gente. Mesmo sem querer, monopolizava qualquer encontro com seus comentários bem humorados e suas anedotas de papagaio.

– Controle-se hoje, Orlando. O dia é especial – observou Magda, sua esposa, assim que saíram de casa.

A menina foi com eles…

– Deixa, tia… Deixa o tio Orlando falar o que bem quiser. Meus pais precisam desse bom humor…

– Vou me controlar hoje, hein Lú?- respondeu Orlando piscando os olhos para a futura nora.

E todos riram já antevendo a noite.

Quando chegaram ao restaurante, Dr. Moraes Rego e D. Cecília, os pais de Luciana, já ocupavam a mesa. Cumprimentaram-lhes e se sentaram do lado oposto.

Só que Orlando exagerou… Já tinham terminado o couvert e ele não havia dito uma só palavra desde que chegou. Quem mais falou foi Magda e Dr. Moraes, o pai de Lú. Nem mesmo quando o garçom perguntou o que ele iria beber, Orlando abriu a boca… Simplesmente apontou para um copo de vinho na mesa.

Constrangido, Moraes tentou quebrar o gelo.

– Luciana me disse que você é médico, Orlando…

E Orlando afirmou com a cabeça.

Todos se entreolharam. O que estava acontecendo com Orlando, afinal?

E Lú tentou fazer uma introdução…

– Pai, se prepara… Quando o tio Orlando começa a contar piadas não para mais.

– É mesmo? Então eu vou começar – disparou Moraes tentando ser agradável.

Mas o pai da menina era péssimo em piadas.  Por várias vezes pediu o auxilio de Cecília ao seu lado, que disse não se lembrar de nada.

Quando terminou, todos riram por educação. Somente Orlando ficou sério, mexendo na taça de vinho.

– Orlando, você está bem? – cochichou-lhe Magda.

Orlando balançou afirmativamente a cabeça e continuou bebendo.

– O senhor é advogado, Dr. Moraes? – perguntou Magda para compensar a antipatia do marido.

  – Sim, tenho um escritório no Centro. Atuamos em diversas áreas do Direito… Onde é seu consultório, Orlando?

Orlando apontou para o tampo da mesa…

E João Carlos emendou…

– Aqui, em Ipanema, Dr. Moraes.

Ficaram em silêncio por um minuto, um olhando para a cara do outro. Os olhinhos de Luciana marejaram e João pensou em chamar o pai para acompanhá-lo ao banheiro.

– Bem, vamos fazer os pedidos? – disse Cecília, mãe de Luciana, com a fala bem mansa.

– Sim, vamos… – respondeu Orlando, quebrando o gelo.

Todos gostaram de ouvir a voz do pai de João. E Orlando complementou…

– Tem muita gente aqui querendo fazer pedidos como se tivessem respeitado os compromissos passados!

Ninguém entendeu nada…

– Orlando, por favor… – replicou Cecília.

E todos olharam para Cecília.

– Engraçado estarmos aqui em Ipanema, não, Cecília? – emendou Orlando, encarando a mãe de Lú.

– Orlando, o que é isso?? – perguntou Magda espantada.

Cecília riu com desprezo.

– Sim, isso mesmo… Ria, Cecília – continuou Orlando com a voz nervosa. – É só o que você pode fazer…

– Deixe de ser ridículo, Orlando – interrompeu Cecília.

– Sim, sou ridículo… Sou ridículo por ter acreditado em você.

– Papai!!!

– Mãe!! Vocês se conhecem????- perguntou Luciana.

– Você me conhece, Cecília? Vai, responda a ela!

– Orlando, você estava muito mal naquela época…

– Mal? Eu? Eu estava ótimo, Cecília…

– Estava nada, Orlando…

– Pare com isso, Cecília! – disse Moraes com autoridade. – Do que estão falando afinal?

– Você não aguentava mais o seu pai, Cecília, por isso pensou em se matar…

– O que é isso, mãe????!!!

– Você é muito pobre de espírito, Orlando. Você devia ter percebido que eu precisava de apoio depois de perder a virgindade… E não de alguém que quisesse morrer comigo.

– Orlando???!!!!! – espantou-se Magda.

– Você nunca ouviu a expressão “morrer por paixão?” Eu estava entregue a você, Cecília. Por isso quis morrer com você…

– Éramos dois adolescentes, Orlando. Vivíamos num mundo de tabus…

– Mas eu acreditei em você!!

– Mas por que não morreram então? – perguntou Moraes com ar moderado, tentando ser o árbitro.

– Porque ela não foi ao meu encontro no Arpoador…

– No Arpoador? – questionou Magda.

– Sim, íamos nos jogar das pedras do Arpoador… De mãos dadas e os pulsos cortados – respondeu Cecília.

– Mas a senhora chegou a combinar, D. Cecília? – questionou João.

– Sim, filho – antecipou-se, Orlando. – Combinou tudo direitinho… Dia, hora… Seria ao cair do sol e com a faca de churrasco do pai… Lembro-me bem!

– Dr. Aquiles sempre teve facas lindas…

– E o senhor foi, tio Orlando?  – interessou-se Luciana.

– Claro que sim, Lú. Alguém aqui já me viu faltar a um compromisso?

– Isso é verdade.  – completou Magda.

– Gente, eu não quis me matar, só isso!!!

– Então não combinasse nada, Cecília – interveio o marido – Compromisso é compromisso… Se você combinou tinha que ter ido. Agora estou compreendo a revolta do Orlando…

– Mãe, isso não se faz… Não tem como aprovar o seu comportamento – observou Luciana.

Imediatamente abaixaram a cabeça…

– Bem gente, eu não sei o que dizer… – continuou Cecília constrangida.

E todos a encararam.

– Bem, Orlando, eu fiquei com medo, confesso. Sim, eu fraquejei. Tínhamos 13 anos… Nunca mais nos vimos, pensei até que você tivesse se jogado sozinho. (Magda fez um sinal da cruz) Confesso que tremi há pouco quando te vi vivo, entrando no restaurante… Sei o quanto você queria morrer comigo…

Orlando abriu um pequeno sorriso de deboche. Percebendo isso, Moraes tomou a iniciativa.

– Cecília, meu amor. Acho que você está devendo um pedido de desculpas ao Orlando.

Todos olharam para Cecília novamente. A senhora abaixou a cabeça e não teve alternativa. Levantou-se, rodou a mesa e levantou Orlando pelos braços. Este, muito amuado, virou-se para ela e aceitou o abraço. Todos bateram palmas e as mulheres ficaram com lágrimas nos olhos.

– Desculpe-me, Orlando, por não ter ido me matar com você – pediu Cecília, baixinho.

– Tudo bem, Cecília… Somos hoje dois adultos, temos outras vidas… Vamos passar uma borracha nisso.

E fizeram os pedidos. E rolou muito vinho, muitas piadas de papagaio e muitas observações bem humoradas que só Orlando sabia fazer. A noite foi longa… No final, com todos vermelhos e sem ar de tanto rir, combinaram uma praia para o dia seguinte.

– Ótima ideia – exclamou Orlando. E onde pode ser?

– Por mim, pode ser no Arpoador – emendou Cecília.

                            …

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1.