EntreContos

Literatura que desafia.

Às moscas (Elias Varejeira)

A cafeteria de dona Hermínia sempre foi um dos estabelecimentos mais inóspitos do reservado município gaúcho de Não-Me-Toque. O finado marido dera-lhe – antes de falecer, como pode-se supor – a ideia de nomear seu empreendimento como “Café Teria”. Da mesma forma que o trocadilho, o sucesso da anfitriã ficou no futuro do pretérito.

Em todo caso, dizer que ninguém visitava dona Hermínia seria falta de consideração com seus poucos, mas contumazes, clientes. Entre eles, o bom padre Ambrósio, fiel à broa com café pela manhã e a Deus sobre todas as coisas.

***

Do lado de fora, uma senhora fazia vista grossa ao comportamento inapropriado de seu Poodle. O cachorrinho deixara um presente aos distraídos bem na porta da cafeteria, fétido e inevitável. Sentado a uma mesa de canto, padre Ambrósio tomava seu sistemático cafezinho preto e fingia ler o jornal dominical enquanto aguardava a atenção da anfitriã.

– Vai uma broa hoje, padre?

A broa chegou, com seu aroma cativante de quitute, e padre Ambrósio a mordiscou. Sentia a gula apoderar-se de sua vontade, mas Deus haveria de perdoá-lo. Assim, intercalando broa, café e jornal, o padre ia cumprindo um de seus rituais matutinos não tão ilustres. Demorou alguns minutos até perceber que era observado por centenas de olhinhos do outro lado da mesa.

“Bom dia, padre. Com sua licença, meu nome é Venceslau, gostaria de ter um dedinho de prosa com o senhor. Acho que não é muito comum uma mosca que se preocupe com o Inefável. Não sou como as outras, eu gostaria muito de visitar o Paraíso. Bem, de certo modo, até entendo minhas companheiras – nossa expectativa de vida é tão curta comparada à dos humanos. Quem pode culpá-las por não pensarem na vida após morte? Mal temos tempo de perceber que estamos vivas.”

Enquanto a mosca destrinchava seu monólogo, padre Ambrósio dobrava discretamente o jornal, sem desviar a atenção do inseto.

“Talvez, Deus tenha me feito assim com algum propósito. Sei que o senhor vai dizer que todas as criaturas são iguais perante Ele, e que todas têm algum propósito. Mas padre, não consigo deixar de me questionar: por que eu? Entre todas as centenas de milhares de moscas que nascem a cada dia, por que justamente eu teria que carregar o fardo da consciência? E mais: por que todo esse conhecimento inato, se provavelmente não conseguirei mantê-lo até a próxima semana? Não me parece justo.”

Naturalmente, a percepção do tempo é diferente entre humanos e insetos. Somente por esse particular fenômeno, a pequenina em questão pôde levar tão longe seu falatório. Do contrário, teria sido interrompida antes de terminar a primeira frase.

“Padre, sei que o senhor é um homem ocupado, não quero também ficar tomando seu tempo. É a primeira vez que me sinto à vontade para abrir meu coração a um humano, sem medo de ser enxotada logo em seguida. O senhor, como servo de Deus, não me enxotaria, não é? Claro que não. Enfim, o que me traz à sua presença é justamente minha preocupação com o Divino. Como disse, sei que não tenho muito mais tempo de vida, nunca tive. Também sei que tudo é incerto quando passamos para o outro lado, mas o senhor acha que uma mosca sem o sacramento do batismo tem direito ao Céu? Eu gostaria de…”

Neste momento, em um gesto infinitamente deplorável ao olhar da mosca, padre Ambrósio fez cantar o jornal matutino. No final das contas, era um homem santo, mas não um santo propriamente dito. Além de tudo, não havia captado mísera palavra do que Venceslau dissera naqueles cinco segundos entre a percepção de sua presença, a dobra do jornal e o derradeiro ataque.

Notou o padre, com certo alívio, que o inseto não chegou a estampar seu jornal após o atentado, nem mesmo no obituário. Errara o alvo, mas eximira-se de um assassinato em pleno desjejum.

– Dona Hermínia, podes me trazer mais um café?

Cabe dizer aqui que a madame do Poodle já havia sumido das proximidades, embora o resquício de sua displicência ainda repousasse na entrada da cafeteria. O montinho de cocô acabou servindo de aeroporto para um pouso forçado após a fuga. A mosca sentia-se traída, desamparada, furiosa como nunca antes.

“Padre de uma figa. O que custava me responder? Tanta teologia e nenhuma educação. Vai me pagar por essa, ah se vai!”

E refletiu pelo que pareceu uma eternidade, elaborando os planos mais sórdidos que sua existência minúscula poderia conceber. Alguns estratagemas envolviam investidas kamikazes contra a garganta do padre. Outros, menos empolgados, pressupunham infectar a água benta da igreja, tirando a credibilidade da instituição. De repente, percebeu que a melhor entre todas as possibilidades estava bem ao alcance de suas patas.

***

– Às vezes, mesmo eu perco um pouco da fé, Dona Hermínia.

– Não deverias sair dizendo esse tipo de coisa por aí. Que pensarão teus fiéis?

– Na melhor das hipóteses, que sou humano. É que leio este periódico dia após dia, há anos. Mudam as manchetes, os classificados, mas sempre há alguém roubando alguém, matando outrem; uns vendendo sofás, outros abdicando da alma.

– É, o mundo anda muito estranho.

– Eu mesmo quase cometi um crime imperdoável minutos atrás. Quase tirei uma vida!

– Meu Deus, padre?! De quem?!

– Do inseto que pousou aqui na minha mesa.

– Mas o senhor me mata do coração. Não digas bobagens.

– Pois é sério. O que a senhora pensaria se o Pai, de repente, lhe batesse com um ônibus? Não por mérito, ou necessidade. Apenas porque ele pode.

– Abusastes do vinho na vigília, ou perdestes de vez a compostura, padre? Ora, termine logo essa broa e pare de me encher a cabeça com essa conversa sem sentido.

Padre Ambrósio levou à boca o último pedaço de broa. Percebeu que gostava da figura da anfitriã. Certa honestidade como a dela fazia falta ao mundo.

A mosca voltara aos arredores, com aterrisagens aqui e ali, entremeadas pelo esfregar maquiavélico de suas patinhas. Estamparia um sorriso de orelha a orelha, se tivesse dentes… ou orelhas. Felizmente, não os tinha, isso faria dela o animal mais estranho na face da Terra.

“Isso mesmo, danado, coma tudo.”

O padre não tentou mais expulsá-la, ou tirar sua vida. Via-se tão apequenado quanto ela. Talvez tivesse finalmente contemplado a face de Deus com nitidez; talvez a tivesse esquecido por completo. Fato é que se sentia mais como uma mosca do que como um cordeiro.

O religioso pagou sua conta, retirou-se cabisbaixo e, por assim estar, notou as fezes do Poodle na saída. Desviou do montinho, sem saber que acabara de ingerir uma ínfima parte dele. Sim, Venceslau cumpriu sua vingança ao limpar as patinhas de cocô na broa do sacerdote. Sob o olhar multifocal daquele pequeníssimo ser, uma penitência mais do que merecida.

“Perdoe-me, padre, porque pequei.”

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1, Comédia Finalistas.